Não deveria o PS – por causa da Marta Temido, de Alcochete e, principal e fundamentalmente, em nome dos “portugueses de bem” – aprovar a moção de censura do Chega, irmos para eleições e fazermos como comunidade o que fosse possível para termos Montenegro como primeiro-ministro e o Ventura com as pastas da Justiça, Administração Interna, Segurança Social e Agricultura (pelo menos)?
Todos os artigos de Valupi
Aceitam-se interpretações (psicanálise opcional)
10 razões para não comprar o Público
O Público está com uma campanha onde apresenta 10 razões para se assinar o pasquim. Segue um contraditório:
1 – A imprensa é vital para a democracia
Antítese: “Pode ser, só que ninguém consegue perceber qual seja a importância do actual Público para a democracia.”
2 – O jornalismo do PÚBLICO é independente
Antítese: “O Público é dependente da Sonae e persegue politicamente a agenda do accionista.”
3 – O PÚBLICO estimula a diversidade e o confronto de opiniões
Antítese: “Atão não? Ui.”
4 – A diversidade de temas é a nossa marca
Antítese: “Minha nossa senhora do Caravaggio.”
5 – Somos um jornal verdadeiramente nacional
Antítese: “Patriotismo azeiteiro.”
6 – O PÚBLICO tem posições claras em questões fundamentais
Antítese: “Pois tem. Por exemplo, o actual director assinou editoriais onde garantiu que Vítor Constâncio foi protagonista do crime do século. Outros plumitivos do pasquim afiançam sistematicamente que há um certo partido que é um antro de criminosos. Isso, realmente, parece claro e fundamental.”
7 – O PÚBLICO cultiva a transparência
Antítese: “Parabéns à prima.”
8 – O PÚBLICO promove a literacia mediática
Antítese: “O dono e o director do Público mostram não estar a acompanhar essa promoção.”
9 – O PÚBLICO inova
Antítese: “Para quando a real inovação de recusarem ser mais um braço da indústria da calúnia?”
10 – Na assinatura do PÚBLICO não há só notícias
Antítese: “Pois, essa é uma parte, e luminosa exposição, do problema.”
Lapidar
Começa a semana com isto
Revolution through evolution
Relationships are best between people of similar desirability, study finds
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Sports, Not Screens: The Key to Happier, Healthier Children
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Women in Science Receive Less Credit for Their Contributions
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Why simply standing on one leg can tell you whether your life is in the balance
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Artificial photosynthesis can produce food without sunshine
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Us versus them: Harming the ‘outgroup’ is linked to elevated activity in the brain’s reward circuitry
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Study Suggests People Hurt Other People to Signal their own Goodness
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Dominguice
Se a realidade tivesse um sentido último ou primeiro, esse sentido anularia a nossa liberdade. E, sem liberdade, o conhecimento do sentido único da realidade faria de nós seres tragicamente absurdos. Se a realidade não tivesse sentido algum, então a consciência, os sentidos, a matéria, a energia não teriam existência. As coisas existem porque são matemática ontológica, é esse o seu sentido mais tangível.
Ignorar qual seja o sentido da realidade é a nossa mais imarcescível fonte de sentido.
Jornalismo jornalismo
O puto também é corrupto, deliberou o Sr. Araújo
- Não é verdade que José Sócrates só responda quando lhe perguntam com bons modos. Porque nós até examinámos aqui, neste programa... o filho não lhe perguntou com bons modos, antes pelo contrário: "Ó pai, fogo, quando é que vamos para aquela casa, pai, fogo?!". E o Sócrates respondeu, coitado, estava ali com paciência a responder ao filho, a dizer, "Pá, fogo, eu sei que estas merdas não se podem falar ao telemóvel, pai, mas fogo. Quando é que vamos para aquela casa?". E ele respondeu, o certo é que ele respondeu ao puto. O puto era o Sócrates do Sócrates, ele abusava dele como o Sócrates do Santos Silva.
É o nosso maior humorista vivo, pelo menos para a geração pós-O Tal Canal. Uma vedeta que está no pináculo da simpatia popular (aliás, da “empatia” – ou seja, está no coração dos portugueses). No programa televisivo onde fui buscar a citação, galhofa animado com o assessor para a Cultura do actual Presidente da República e com um ex-presidente da comissão das comemorações do 10 de Junho escolhido por esse mesmo Presidente. Malta do melhor, amicíssimos, alto nível intelectual e político neste areópago implacável com os “corruptos”.
E quem são os “corruptos” para estas aquilinas inteligências? Pois, são aqueles que eles quiserem que sejam, o sucesso na indústria da calúnia permite essa omnisciência. Por exemplo, Sócrates é “corrupto” para o Sr. Araújo, independentemente do que os tribunais venham a decidir a respeito. Daí gozar tanto com ele, pois é isso que os “corruptos” merecem, zombaria e achincalhos em nome da moral e do povo que vê televisão e compra revistas hebdomadárias. Mas o filho de Sócrates referido pelo Sr. Araújo também é “corrupto”, parem as rotativas. Caso não fosse, como explicar que igualmente esteja a levar, e repetidamente, com o tratamento devido aos “corruptos”? Dito de outra forma, para o bom povo que se identifica com o Sr. Araújo entender à primeira: se o tal filho de Sócrates alvo da caricatura pelo nosso maior humorista vivo não fosse “corrupto”, essa pessoa nunca teria aparecido numa escuta em conversa com o seu pai. É isto, e isto é simples de perceber, né?
A lógica do Sr. Araújo abre-lhe uma Gruta de Ali Babá de material para os seus programas, crónicas e rábulas. Uma gruta já com a portada escancarada, como sabe quem bebe do esgoto a céu aberto, mas que talvez mereça a oferta de um gabinete no Ministério Público para o Sr. Araújo se dedicar à exploração do fabuloso espólio relativo a Sócrates: todas as escutas, todos os SMS, todos os emails, todas as selfies, toda a roupa interior suspeita, tudo e mais alguma coisa apanhada na grande devassa que começou em 2004 e que inté justificou prender o homem só para continuar a investigá-lo. Ora, é fazer as contas: se o filho de Sócrates é “corrupto”, quão mais “corruptos” não serão todos aqueles com idade para ter juízo que continuavam ao seu lado no Governo, no PS, e que aceitavam ter relações de convívio com ele, de amizade, de intimidade? Estamos a falar de paletes de “corruptos”, algo que será vergonhoso não ser posto à disposição do Sr. Araújo para ele lhes dar o devido correctivo e, claro, provocar hilariantes gargalhadas na audiência com as suas geniais e rendosas facécias.
E porquê ficar-se pelo Sócrates? Se o Sr. Araújo – a respeito de um cidadão que continua inocente até prova em contrário devidamente julgada e transitada e sobre um apartamento que um certo juiz considerou não ser objecto de qualquer interesse judicial – se entusiasma desta maneira fogosa que até dispara sobre o “puto”, o que é que ele não fará com verdadeiros criminosos que cometem verdadeiros crimes e cujos registos de escutas, vídeos, fotografias e o mais que houver está já devidamente etiquetado e pronto a servir ao nosso maior humorista vivo? Homicídios, assaltos, raptos, fraudes, violência doméstica, abuso sexual de menores, racismo, tráfico humano e escravatura, sei lá mais o quê, eis uma mixórdia de temáticas que dá para anos, décadas, onde os portugueses empáticos irão mijar-se a rir graças ao talento do Sr. Araújo.
Aposto os 10 euros que tenho no bolso como os seus dois colegas de programa irão com gosto a Belém sacar o apoio do fã Marcelo para essa crucial iniciativa contra a “corrupção” e o crime em geral.
Mais um Araújo a querer substituir garantias e recursos pelo cordame
"Temos de acabar com o mito de que a justiça é lenta", argumentou o presidente do CSM que criticou as "alusões feitas por altos responsáveis" à lentidão da justiça - numa aparente alfinetada ao Presidente Marcelo Rebelo de Sousa. "Não consigo compreender como é que se tem esse discurso".
O magistrado admite que nos casos de criminalidade financeira "a justiça pode ser mais lenta", mas isso "não é culpa dos tribunais ou dos juízes". É de quem? "Do excesso de garantias e de possibilidade de recursos. Há recursos por tudo e por nada".
Da série “A década perdida”
[...] não deixa de ser desconcertante verificar como o ódio e a cegueira política impediram o mais elementar esforço racional de previsão e de planeamento. Agora que o aeroporto da Portela está esgotado e constitui um travão à economia portuguesa, a pergunta constrangedora é como foi possível uma sociedade desenvolvida ter chegado aqui, a este inevitável momento, sem nada ter feito para o antecipar ou, pior ainda, esforçando-se por negar que algum dia chegaria.
Na verdade, isto aconteceu com a cumplicidade de muita gente – gente da política, gente do jornalismo, gente da engenharia, gente da sociedade civil. Uns faltaram conscientemente à verdade, outros calaram-se, outros iludiram-se. Mas todos colaboraram para a tragédia. Durante anos e anos, a decisão de construir um novo aeroporto, baseada em previsões realistas e no que era o óbvio interesse nacional, foi alvo de injustas e demagógicas acusações de despesismo, de esbanjamento de recursos e de megalomania. Eis o resultado: pagaremos durante anos o preço de nada ter feito e viveremos vários anos com um aeroporto internacional congestionado. Não sei quanto tempo durará, mas, para quem tanto fala de encargos para as gerações futuras, aí está um caso de estudo - a pesada herança de nada fazer, o erro de nem sequer ter tentado. Oh, sim, isso tem um preço.
Talvez seja educativo fazer uma comparação. Há muitas semelhanças entre o projeto do novo Aeroporto e o projeto do Alqueva. Ambos foram atacados como projetos megalómanos. Ambos foram atacados como projetos de desperdício de dinheiros públicos. Ambos foram atacados como projetos de vantagens ilusórias: nada daquilo que estava prometido se realizaria. Como se viu no Alqueva, não podiam estar mais enganados – o projeto revolucionou a agricultura portuguesa, permitiu a construção de novas fontes de energia limpa, criou uma importante reserva nacional de água e desenvolveu uma nova área turística de grande potencial. A diferença entre o Alqueva e o Aeroporto é que, no primeiro caso, venceram as vozes do progresso; no segundo, as da resignação. Quem quiser fazer alguma coisa nova tem sempre que apelar à ambição, à vontade e à imaginação humana. Aos outros basta apelar ao medo e à incerteza.
[...]
A solução Montijo é apresentada como mais rápida de executar que a anterior solução de Alcochete. Tal afirmação não é verdadeira. Recordemos que a solução Alcochete tem o projeto aprovado desde 2010. Repito, desde 2010. Esse projeto está feito, tem avaliação ambiental estratégica aprovada, tem estudo de impacte ambiental realizado e tem também a respetiva avaliação ambiental aprovada com o parecer positivo das câmaras que a lei considera necessário à operacionalidade do empreendimento (a avaliação ambiental é válida até 2020). Isto é, a solução Alcochete tinha e tem todas as exigências ambientais cumpridas há muitos anos, enquanto a solução Montijo ou não as cumpriu (como a avaliação ambiental estratégica) ou não dispõe dos pareceres camarários positivos necessários à sua construção. Esta é a diferença. Se a questão fosse andar depressa, a solução Alcochete estava e está muitos anos à frente das outras.
[...]
Seja como for, arrisco que a tudo isto acresce uma outra explicação: escolher Alcochete significaria dar razão ao Governo Sócrates, e isso não pode acontecer.
Lapalissadas
Se a proliferação de “notícias falsas” pode ser considerado o maior desafio dos jornalistas, a circulação de “jornalistas falsos” é a principal razão para não se contribuir com um cêntimo para os seus rendimentos.
Começa a semana com isto
Revolution through evolution
Adults sleep better together than they do alone
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Pre-school play with friends lowers risk of mental health problems later
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Stress accelerates immune aging, study finds
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Vitamin D Deficiency Leads to Dementia
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Lager beer, whether it contains alcohol or not, could help men’s gut microbes
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Military cannot rely on AI for strategy or judgment, study suggests
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Why people don’t view the world the same way others do
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Dominguice
Se o futuro não existe, por ainda não ter existência, não devíamos fazer planos para ele. Porque, não existindo, não serve de nada ter qualquer plano a respeito do que desconhecemos como será ou não será. Carece de aplicação possível um plano para o futuro visto não haver à nossa disposição o tal objecto chamado futuro inerente ao tal plano para o fantasiado futuro.
Devemos antes fazer planos para o passado. O passado fica, está, é. Nós somos esse passado que não passa por não ter mais para onde ir. Ficou para ali à espera que façamos alguma coisa por ele. E não pára de nos chamar, de pedir atenção. Sempre a atazanar-nos com cenas que já passaram. Precisamos de arranjar um plano para que o passado se consiga entreter sozinho, para que finalmente possa ir à sua vida descansado. Em troca ele oferece-nos um presente surpreendente.
Cineterapia

The Angry Silence_Guy Green
[em exibição numa Netflix perto de si]
A tradição do realismo social na cinematografia britânica pode ser um refrigério para quem desespere com o panorama da ficção fílmica e televisiva actual. Em The Angry Silence, junta-se a relevância política e psicológica das temáticas tratadas com a arte de contar uma história. Mas que história é essa?
Nesta obra polémica no Reino Unido aquando do seu lançamento, 62 anos passados, há uma narrativa de superfície que opõe os interesses sectários de agentes sindicalistas aos interesses capitalistas do patronato. Ninguém se salva nos dois lados, mundos antagónicos em constante queda para a exploração mútua. Adentro deste cenário desenrola-se outra narrativa, profunda e envolvente, onde se dramatiza o direito à diferença, à individualidade – isto é, onde o herói representa o fundamento principal da democracia liberal, o supremo inimigo de todas as tiranias: a liberdade.
Por mim, ligando-o à experiência própria, escolho ver este filme como um portentoso e intemporal manifesto contra o assédio moral. A “banalidade do mal”, a passividade colectiva que permite as violências quotidianas de alguns, não foi um fenómeno que se esgotou na Alemanha nazi. É algo que está presente urbi et orbi, em todos os tempos e potencialmente com todos os rostos pois está inscrito no tribalismo, na antropologia.
A cobardia é aconchegante e cautelosa, odeia quem vence o medo.
Against empatas
«Quando eu ponderar uma vida no crime, a primeira coisa que eu vou fazer é construir um altar todo em talha dourada em honra de Ivo Rosa lá em casa e rezar-lhe uma oração todas as noites.»
Existe uma campanha contra Ivo Rosa, a qual une a direita política e mediática num coro de perseguição obsessiva como nunca se viu igual a respeito de um juiz em Portugal – só comparável à perseguição a Sócrates. Tal deve-se à Operação Marquês, tendo começado logo que Carlos Alexandre ficou em risco de perder o controlo absoluto sobre o seu desfecho. É uma campanha que não aflige os partidos da esquerda pura e verdadeira, nem o PS, nem o ministério da Justiça, nem o sindicato dos juízes, nem o Presidente da República, nem a minha vizinha do 4º andar. Trata-se de uma campanha alegre, portanto, e que continua porque todo o dano que se lhe conseguir fazer promete trazer ganhos para o dano maior que se deseja venha a atingir Sócrates (logo, a também atingir o PS, embora o PS de Costa conviva muito bem com essa armadilha onde os direitolas estão enfiados a ver a caravana do poder a passar).
O Sr. Araújo e coleguinhas televisivos pagos pelo Balsemão são três dos mais influentes carrascos de Ivo Rosa na comunicação social “de referência”. Fazem-no a coberto do registo “humorista”, para que o cinismo e a sonsaria atinjam o grau máximo de veneno no espaço público. Na citação acima, este “comediante” recorre ao sensacionalismo para broncos e trata literalmente Ivo Rosa como cúmplice de criminosos. Só rir, né? O Estado de direito e as legítimas diferenças na interpretação e aplicação da Lei que se fodam, viva o culto dos justiceiros que despacham a bandidagem com cordame e autos-de-fé.
Um estudo da Marktest analisou 60 e tal figuras públicas e descobriu que Ricardo Araújo Pereira é a personalidade com quem os portugueses sentem mais empatia. Ocasião para recomendar a leitura do Against Empathy, onde a tese é precisamente a de que a empatia pode boicotar, e mesmo anular, a deontologia e a ética – ou seja, a empatia pode servir para as maiores canalhices. É o caso com esta pulharia paga a peso de ouro, as vedetas da indústria da calúnia.
Vamos lá a saber
Quais são as declarações mais importantes, no plano cívico, de Sócrates nesta entrevista?
O Império contra-ataca ⟶ assevera Putin, o Enorme
Pinto Monteiro, testemunho
NOTA
O silenciamento do fim da vida de Pinto Monteiro no editorialismo dito de referência e nos espaços de comentário político é vexante. Calaram-se por medo de o continuarem a caluniar na hora da sua morte, uns, e por medo de honrarem a sua memória no momento da despedida, outros. Expõe a miséria moral que é parte essencial da comunidade que somos. Revela como a Justiça tem sido usada como arma de arremesso golpista, feita antro de abusos, devassa e crimes sem punição, sequer investigação.
