Da série “A década perdida”

[...] não deixa de ser desconcertante verificar como o ódio e a cegueira política impediram o mais elementar esforço racional de previsão e de planeamento. Agora que o aeroporto da Portela está esgotado e constitui um travão à economia portuguesa, a pergunta constrangedora é como foi possível uma sociedade desenvolvida ter chegado aqui, a este inevitável momento, sem nada ter feito para o antecipar ou, pior ainda, esforçando-se por negar que algum dia chegaria.

Na verdade, isto aconteceu com a cumplicidade de muita gente – gente da política, gente do jornalismo, gente da engenharia, gente da sociedade civil. Uns faltaram conscientemente à verdade, outros calaram-se, outros iludiram-se. Mas todos colaboraram para a tragédia. Durante anos e anos, a decisão de construir um novo aeroporto, baseada em previsões realistas e no que era o óbvio interesse nacional, foi alvo de injustas e demagógicas acusações de despesismo, de esbanjamento de recursos e de megalomania. Eis o resultado: pagaremos durante anos o preço de nada ter feito e viveremos vários anos com um aeroporto internacional congestionado. Não sei quanto tempo durará, mas, para quem tanto fala de encargos para as gerações futuras, aí está um caso de estudo - a pesada herança de nada fazer, o erro de nem sequer ter tentado. Oh, sim, isso tem um preço.

Talvez seja educativo fazer uma comparação. Há muitas semelhanças entre o projeto do novo Aeroporto e o projeto do Alqueva. Ambos foram atacados como projetos megalómanos. Ambos foram atacados como projetos de desperdício de dinheiros públicos. Ambos foram atacados como projetos de vantagens ilusórias: nada daquilo que estava prometido se realizaria. Como se viu no Alqueva, não podiam estar mais enganados – o projeto revolucionou a agricultura portuguesa, permitiu a construção de novas fontes de energia limpa, criou uma importante reserva nacional de água e desenvolveu uma nova área turística de grande potencial. A diferença entre o Alqueva e o Aeroporto é que, no primeiro caso, venceram as vozes do progresso; no segundo, as da resignação. Quem quiser fazer alguma coisa nova tem sempre que apelar à ambição, à vontade e à imaginação humana. Aos outros basta apelar ao medo e à incerteza.

[...]

A solução Montijo é apresentada como mais rápida de executar que a anterior solução de Alcochete. Tal afirmação não é verdadeira. Recordemos que a solução Alcochete tem o projeto aprovado desde 2010. Repito, desde 2010. Esse projeto está feito, tem avaliação ambiental estratégica aprovada, tem estudo de impacte ambiental realizado e tem também a respetiva avaliação ambiental aprovada com o parecer positivo das câmaras que a lei considera necessário à operacionalidade do empreendimento (a avaliação ambiental é válida até 2020). Isto é, a solução Alcochete tinha e tem todas as exigências ambientais cumpridas há muitos anos, enquanto a solução Montijo ou não as cumpriu (como a avaliação ambiental estratégica) ou não dispõe dos pareceres camarários positivos necessários à sua construção. Esta é a diferença. Se a questão fosse andar depressa, a solução Alcochete estava e está muitos anos à frente das outras.

[...]

Seja como for, arrisco que a tudo isto acresce uma outra explicação: escolher Alcochete significaria dar razão ao Governo Sócrates, e isso não pode acontecer.


José Sócrates – 24 de fevereiro de 2020

19 thoughts on “Da série “A década perdida””

  1. pois claro, alcochete não podia ser porque era o vislumbre megalómano de Sócrates mesmo tendo sido pensado e estudado ao milímetro – não apenas para satisfazer as necessidades de tráfego e todas as consequências positivas que resultariam – para uma futura expansão, o futuro , por não existir, é sempre em expansão daquilo que genialmente percebemos no presente: chamo-lhe funil invertido.

    anda,
    retrocesso de gravatinha e ovos debaixo dos braços,
    dá o projecto a torcer
    e agarra no progresso do Sócrates
    mete-o a mexer
    perde o tesão de mijo
    orgulho de besta
    e mete alcochete a rir
    engavetando o montijo
    verdades frescas na mesa

  2. já há quem queira voltar ao projecto da ota e ainda não se lembraram de referendar o local.
    eu voto no planalto da torre na serra da estrela por questões de economia de combustíveis, sempre se poupam 1993 m de altitude em cada descolagem.

  3. professor pardal, ai o carago, tenha tento nas asas porque ainda há pastores na rocha que pinta a estrela.

  4. ó pá , tivesse dedicado as previsões e planeamento a acautelar a crise do sub prime e não estávamos aqui com graves problemas de saúde e outros. é preciso ter lata , um fabricante de bancarrotas a falar de previsão e planeamento.

  5. yo, é preciso não ter memória para não ir buscar o mérito de Sócrates a governar no meio da maior crise financeira que se tornou em crise económica – mérito por querer adiar a ingerência da troika que, sabia ele, ele o visionário, agudizaria ainda mais a chance de default. houve, portanto, previsão e planeamento. !viva! o Sócrates

  6. nesse caso, no caso da yo, será mais penca. que penca com sulfato de peúga do quintal da amiga. !ai! que riso

  7. era bastante fácil jp , basta conjugar uma série de variáveis bem visíveis : empréstimos a mato , subida das taxas de juros , deslocalização de empresas , perda de empregos ,BUUUMMMM. só não viu quem não quis ver.
    tal e qual como agora : bancos despacharam todos os imóveis em carteira com as baixas taxas de juro( depósitos dão 0 , as pessoas compram casas) ; agora sobem as taxas para ganharem mais massa , vão apertando até poderem , mais daqui a uns tempos BUUUUMMM.
    mas ainda não perceberam o mecanismo? daaaaa.

  8. yo, sabe que a tomo, salvo seja, como sábia. “Fabricante de bancarrotas”…? Explique lá isso. Não a incomoda referir-se assim ao mais avançado e esclarecido primeiro-ministro que Portugal teve? Lá está… Em Portugal, amiudadas vezes, as pessoas mais sábias revelam-se umas…. Não quero ofendê-la. A minha senhora é que não pode consigo.

  9. ó pá , Fernando , anedotas a esta hora? vocês são mesmo doidos , nem depois da casa roubada põem trancas.

  10. meta a yo trancas nessa língua badalhoca de calúnia. vá comer batatas do quintal da sua amiga a ver se lhe dá sono e aterra. !ai! que riso

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    Arnaldo Matos
    @ArnaldodeMatos
    Alcochete era a solução do governo Sócrates, quando dele fazia parte António Costa. Nestes quatro anos, perdemos tempo a adiar a solução Alcochete e a substituí-la por um projecto menor que não serve o País.
    2:23 PM · 11 de jan de 2019·Twitter Web Client

  12. pois não , a melhor solução é monte real. a meio do país , que , como devem saber , não é só lisboa. ainda por cima agora que há estrangeirada reformada espalhada por todo o país , e carradas de turismos rurais e bla bla bla , monte real , perto de coimbra é o ideal.

    ( mas sim , entre os outros tb prefiro alcochete , andei por lá muita vez , o chefe do campo de tiro era pai de um amigo meu )

  13. Parece-me racional a argumentação de Sócrates e que a melhor solução seria Alcochete, mas o que aqui me traz agora é outra coisa. Sugiro vivamente a cobertura da guerra na Ucrânia no programa “Cá Por Casa com Herman José”, que teve início pouco antes das 23:00 de hoje, na RTP-1.

  14. «Seja como for, arrisco que a tudo isto acresce uma outra explicação: escolher Alcochete significaria dar razão ao Governo Sócrates, e isso não pode acontecer.»

    Depois dos três retrógrados narcisos políticos comunados no anti-patriotismo, Cavaco Silva, Passos Coelho e Durão Barroso armadilharem Sócrates com o chumbo do Pec IV ficou inevitável, para esta troika portuguesa, criar uma narrativa ferrenha de culpa individual ao estilo bode expiatório para, precisamente, ocultar a sua diabólica acção reaccionária de que quanto pior para Portugal melhor para nós.
    Com a propaganda comunicacional em moto-contínuo e o encolher-se medroso do PS acabarm por ter sucesso nessa nefasta empresa de impingir tão ilógica como irreal narrativa.
    Sem oposição política que contrariasse tão imbecil discurso de culpa a coisa acabou por ir para tribunal às mãos de uma ministra, uma chefa do MP e um juiz mais troikistas que a Troika que, imagine-se a sua noção de lei e estado de direito, prenderam o suspeito para investigar e até hoje, passados quase dez anos, ainda não conseguiram uma prova provada que permitisse um julgamento em tribunal.
    O pagode dos media sensacionalistas, net e fake news foram levados e alienados que nem crianças e, até hoje, embora muito mais cautelosamente, continuam na falsa narrativa para não se contradizeram e serem acusados de analfabetos políticos.
    Era tudo megalómano, faraónico, mastodontices, manias e grandezas socráticas despesistas, etc.
    Sócrates refere o Alqueva como comparação da idiótica visão de futuro dos portugueses. Contudo, já antes houvera o caso de Sines; este até vinha do tempo do “Estado Novo” mas, pensem bem, logo após o 25A, sem saberem o que fazer com o “elefante branco” como lhe chamavam, ouve alguém próximo do poder na altura que propôs dinamitar e arrasar aquele parque industrial porque seria sempre um despesismo incontrolável, jamais rentável com retorno.
    Claro, quem só olha pelo retrovisor e esquece de olhar para a frente, acabará por ter um acidente e ficar ali paralizado, imobilizado à espera de socorro ou do caixão.
    Para tal tipo de gente a incógnita do futuro, que dá que pensar custosa e seriamente, é trabalho e esforço demasiado pesado, ao contrário daquela gente que sabe ler a linha contínua do futuro através do progresso histórico, técnico e científico e que, segundo seu cálculo e confiança em suas capacidades, sabe que as hipóteses de sucesso são muitas.
    Ainda havemos de ouvir os da nefasta troika portuguesa reclamar culpado de não haver novo aeroporto nem TGV para a Europa o dito Sócrates, acusado de fazer propaganda ou coisa do género.
    Ora, propaganda faz sempre e só, quem nunca é capaz de promover por si próprio uma acção inédita e apenas vive para dizer mal dos homens de visão e acção que fazem avançar o mundo.

  15. Alcochete? Alcochete porquê? Então um terreno onde o nível freático torna as construções muito mais caras e uma localização que força a parcela maior de utilizadores a pagar uma portagem cara, é melhor que a Ota?!

  16. Outra, avernavios, não Ota. Alcochete é uma solução melhor do que a outra, do que qualquer outra. !ai! que riso

  17. na cena da previsão da crise que vem aí ,igual á de 200e tal , esqueci-me de apontar que a subida dos custos energéticos para mais do triplo substitui lindamente a deslocalização de empresas na perda de empregos : muita empresa vai fechar quando puder abrir falência , até lá têm de aguentar-

    avisem o costa para preparar um plano de contingência ou ai ter a honra da 4ª bancarrota.

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