Todos os artigos de Valupi

O palimpsesto da crise da licenciatura

O que me preocupa na crise da licenciatura do Primeiro-Ministro é o estado do PSD. Coitadinhos. É mais grave um vazio de poder no maior partido da oposição do que todas as tropelias do Governo, juntas. Porque quem está a tomar conta disto não escapa ao holofote, a qualquer altura pode levar nas orelhas. E no PSD, que está a acontecer? Quem é o treinador de reserva? O que irá ser daquilo, quem lhe irá pegar? O melodramático e vácuo Menezes? O sebastiânico e ignoto António Borges? O “não me fodam” e “vão para o caralho” Rui Rio? O professor e aluno traquina Marcelo? O delirante e em delírio Santana? Uma gaja?

Aposto numa gaja. Gira. E tesuda, para endireitar o País. Caso a Ségolène perca, proponho que se lhe faça uma proposta de transferência para o nosso campeonato.

Coisas que não se encontram no YouTube

Wiener Aktionismus foi um movimento artístico de uma radicalidade a que importa voltar, nestes tempos de modorra cultural em que nos afundámos. Talvez agora se possam pensar as questões levantadas há 40 anos por este grupo de atípicos austríacos, o qual nos prestou valioso favor ao registar em película as suas performances. Talvez se descubra que nada saberemos do corpo enquanto continuarmos a olhar para ele com vergonha. Talvez se consiga, pela primeira vez, falar de sexo sem medo da sexualidade.

Outras razões legítimas para ousar uma experiência que não se apagará com facilidade, são:

– A vaga sensação de que o domingo está a ser uma chatice.
– Usufruir de inovador recurso visual para apreender um dos significados do adjectivo escatológico.
– A aferição irrefutável, se é que ainda faltava alguma, do grau transgressor de Andy Warhol: foi apenas um betinho.

Entrai, por vossa conta, risco e proveito.

Ideia da Prosa_Giorgio Agamben

Metro de Lisboa, 9 da manhã, terça-feira. Pela quantidade de jornais (à borla) a serem lidos, parece que estamos na Finlândia. Jornais e livros. Eu também vou de livro. É o Ideia da Prosa, de Giorgio Agamben [Cotovia]. Outros não lêem, mas ouvem sons que trouxeram de casa. Têm auriculares, espalham zumbidos. Um destes insectos coloca-se mesmo ao lado do livro que estou a ler, o Ideia da Prosa, de Giorgio Agamben. Está tão alto o ribombar naquela cabeça que consegue abafar a chiadeira dos carris. Pasmoso. Olho para o espécimen com censura muda, só para ficar preocupado com a sua saúde. Se fico incomodado com os sons que derrama para fora, como estarão os seus tímpanos, na linha da frente daquela carga sonora? Isto no caso de ainda haver tímpanos, feito que não me pareceu fisicamente possível e que acabei por aceitar como resposta. Tento voltar ao Ideia da Prosa, de Giorgio Agamben, mas sem conseguir. Do lado esquerdo do livro está outro auriculado. E há mais dois nas imediações deste. A pluralidade revela-se maligna, como sabem os teólogos. Porque começa a tocar um telemóvel. Um telemóvel que não se conforma perante a indiferença humana, continuando a pedir atenção com galhardia. Avalio a situação: está definitivamente comprometida a leitura do Ideia da Prosa, de Giorgio Agamben. O telemóvel é potente, esforça-se, mas não vence a barreira musical que protege o destinatário. Quem? Qual daqueles rostos imóveis, solenes, com olhares que exibem concentrada introspecção, terá encontrado a vacina contra a angústia do seu próprio telemóvel? Impossível saber. Pelo que fechei o Ideia da Prosa, de Giorgio Agamben. Capitulei perante os vagalhões sonoros, os ruídos das máquinas e as máquinas de ruídos, juntos maquinando contra a minha leitura. E depois desceu sobre mim uma harmonia. Talvez o dessintonizado fosse eu. Talvez estivesse a ler alto demais, mesmo que em silêncio no meu silêncio. Talvez os outros se tenham sentido grosseiramente sobressaltados por causa da voz de fundo do Ideia da Prosa, de Giorgio Agamben, levando-os a procurar refúgio na surdez. Sim, quem quer escutar o Ser deve fazê-lo em segredo. Desculpem-me.

O hífen da questão

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Não escapou aos atentos a suprema ambiguidade desta acção de marketing do Gato Fedorento. A primeira reacção foi de surpresa agradável — em muitos casos esfuziante —, fosse pelo inusitado da intervenção, fosse pela empatia moral assim actualizada. E neste primeiro nível terá ficado a quase totalidade da população. O Gato Fedorento é a mais recente coqueluche nacional, das raras que há, e nem sequer a polarização da questão do aborto os afectou. Estado de graça, pois, que permite brincadeiras displicentes e arroubos de juventude.

Ainda a poeira não tinha baixado e já se podia vislumbrar a face melindrosa do cartaz. O problema não estava no facto de se explorar uma temática política para vender uma imagem comercial; porque, meus amigos, o Gato Fedorento é uma entidade que visa o lucro, não uma representação política ou a intervenção social em nome de um ideal humanitário. O problema formulava-se ao contrário: sob a bandeira da argumentação política contra uma organização no extremo do espectro — usando o estatuto e discurso humorísticos como inovação propagandista —, a acção resultava na anulação do gesto político intencionado. Tão nula foi a consequência que até os nulos do PNR a aproveitaram em seu favor.

Sob vários pontos de vista, é fácil adivinhar registos de irresponsabilidade e cobardia na lógica que permitiu o acontecimento. Irresponsabilidade, porque não se ponderou o efeito de notoriedade conferido à mensagem opositora. E cobardia, porque não faltam causas políticas, sociais e culturais a merecer o contributo cívico de qualquer cidadão, sendo que nesse rol não entram cartazes de grupos de extrema-direita ou ditos nacionalistas. Esse fenómeno, em Portugal, é circense, não tem expressão. Porquê ir bater em mortos, em trinca-espinhas?

Aquém e além do berbicacho moral, não pude deixar de reparar que se grafou “bem vindos” sem hífen. Um pequeno sinal de um grande erro.

O verso mais erótico em toda a língua portuguesa

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Está numa letra atribuída a Silva Tavares, para música de Alves Coelho, e que foi um sucesso pela boca e corpo de Lina Demoel (ou será Lina de Moel?) algures no século passado. Chama-se Dia da Espiga:

Dia da Espiga

Ói! Óai!
Esta vida é uma cantiga
Este dia de alegria
Vale um ano de aflição

Ói! Óai!
Porque é o dia da Espiga
É o arauto do dia
Em que o trigo há-de dar pão

Maria! São teus olhos azeitonas
Cachopa! São teus lábios qual cerejas
E os teus seios cachos de uvas que abandonas
À vindima desta boca que os deseja

Jorra o vinho dos pinchéis
Para os lábios das moçoilas
Mais vermelhas que papoilas
Das larachas dos Manéis

E há merendas pelos prados
Gargalhadas pelo ar
E à beirinha dos valados
Ouve a gente murmurar.

O texto tem mais quadras, mas não se encontram publicadas na Internet. Para o que aqui me importa, agora, está encontrado o verso mais erótico — porque mais lírico, mais inventivo, mais gracioso — de toda a literatura portuguesa, erudita ou popular:

E os teus seios cachos de uvas que abandonas
À vindima desta boca que os deseja

Que sorte minha tão desvairada eu ser da língua portuguesa.

Os heliastas

Ao ver Marques Mendes reclamar uma “investigação independente”, após as televisivas explicações de Sócrates, tive pena da figura. Ali estava eu dentro de uma daquelas situações viscosas em que sentimos vergonha por causa do desamparo alheio. Empatia obscena que nos expõe a nós próprios. Dói-nos sabermo-nos carne tão crua, iluminada pelo reflexo da miséria do outro. Marques Mendes prestou-se a mais um acto na sua tragédia de homem ridículo, apenas porque não consegue fugir da armadilha em que se transformou o seu destino político.

Mas não só ele. Toda a oposição, onde se incluem os publicistas, chafurda na irresponsabilidade, na imbecilidade. Pergunto: alguém conhece proposta qualquer, que possa citar de cor e em que acredite, relativa às dimensões da política governativa, que seja alternativa às do Governo, e que tenha a autoria dos que exploram o caso da licenciatura de Sócrates? Por que razão não consigo eu encontrar, em mim, uma única ideia oriunda do PSD que me convença da vantagem em ter Marques Mendes como 1º Ministro? Por que razão quase não se encontra na opinião política uma reflexão política, antes se perpetuando esse coro como um viveiro de arrivistas?

Está na altura de julgarmos os heliastas.

300_Zack Snyder

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A coisa cabe toda dentro desta americana palavra: comics. Sendo adaptação de banda desenhada (sub-especialidade: graphic novel), é tão denso quanto uma folha de papel. Talvez nem seja um filme. Seguramente, não se trata de cinema.

Dentro do chico-espertismo que molda a indústria do entretenimento, a equipa que produziu e realizou o 300 foi roubar descaradamente às fórmulas vencedoras na bilheteira. Pegou na fotografia de Gladiator, nas cenas de Braveheart, nos diálogos de Xena, e acrescentou a antropologia do hip-hop. Resultado: um produto adequado aos indivíduos cujos cérebros correspondam aos 12 anos de idade biológica. Esta característica neuronal, esclareça-se, pode encontrar-se em pacientes com 65 anos já gastos, ou mais.

A querela relativa aos espartanos versus persas, e à História da história, é totalmente irrelevante. Perder tempo a discutir o assunto é sintoma de grave falha cognitiva. Tais como irrelevantes serão as supostas alusões ao racismo, aos muçulmanos, ao Oriente, ao Irão, aos homossexuais, ao eugenismo, ao culto da violência, à estética gore, e sei lá que mais. Esses espasmos são pavlovianas manifestações do marketing que está na génese deste artigo de consumo. A questão que importa ao cinéfilo é bem outra: a que género pertence?

É que esta coisa não pode entrar no género Histórico, visto estar-se a marimbar para a dita. Não pode ser de Guerra, pois não se vê nenhuma guerra, apenas uns maduros a decepar tipos que avançam para eles dentro de umas vestimentas carnavalescas. E não pode ser de Acção, porque não tem o menor estremecimento emocional, é um acabado aborrecimento do princípio ao fim. Então?

Então, é uma comédia. Uma das mais hilariantes que me lembro de ver. O facto de ser involuntária, só lhe aumenta a graça.

E esta, hein?…

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No dia 23 do mês passado, Pacheco Pereira revelou ser um apaixonado por jogos de computador. Nenhum dos seus abruptos leitores comentou a nova, ou, se o chegou a fazer, não mereceu ser publicado em relação. E eu estranho, porque o facto é notável. Primeiro, porque Pacheco Pereira será um dos publicistas mais atarefados, desmultiplicando-se pelas regulares prestações mediáticas (jornal, revista e TV), mais as da investigação, mais as das leituras correntes, mais a manutenção do melhor blogue português, mais o resto, o tanto. Depois, porque de um usual vituperador do futebol, o qual recusa com desdém, não se esperam adesões a divertimentos (aparentemente) ainda mais alienantes. Por fim, porque seria fácil usar a informação para piadas imbecis e argumentos ad hominem.

Donde, a conclusão que retiro é a seguinte: mal estão os que ainda não jogam.

O Povo Certo

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Recebi gordas lágrimas neste sábado, 17 de Março. Foram oferta do Fernando Mendes, na comemoração da milionésima emissão d’O Preço Certo. No final duma rapsódia de edições anteriores, homenagem que antecedeu o epílogo do concurso, a qual foi embrulhada no enjoativo Tudo o que eu te dou do enjoativo Abrunhosa, os que enchiam o Coliseu do Porto prolongaram a salada de imagens com uma juliana de vozes. Continuaram a capella, e a câmara foi para cima do rosto do Fernando. Aquele rosto que, mesmo quando descontraído, parece sempre contorcido, atingiu uma nova capacidade plástica e enfiou-se todo por debaixo das pálpebras, tentando conter a solidão derretida. Nesses longos segundos em que ficou perdido e esmagado pela apoteótica alegria do povo, eu imaginei uma Nação a fazer as pazes com a sua gente.

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Les Anges exterminateurs_Jean-Claude Brisseau

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Este é um daqueles filmes que importa ver pelas piores razões. Aparentemente, trata-se de uma celebração do desejo feminino enquanto concreto intangível. Para tal, exibe-se a mulher a masturbar-se e ainda, num paroxismo do onanismo como anulação da alteridade, a mulher a ter relações sexuais com outra mulher ou mulheres. Para o homem ficam os papéis do inquisidor, primeiro, do contemplativo, depois, e da vítima, por fim. O homem é um ser, afinal, menor, residual, à mercê do Eterno Feminino ou acidente da sua demanda, culpado da hubris que já tinha castigado Psique. E deixa-se ver na sua miséria, de homem vazio.

Num segundo nível, este filme é autobiográfico, logo catártico. Contas acertadas com o destino. O artista sempre a transformar o seu mundo em arte. A arte como hiper-realismo jurídico.

Num terceiro nível, este filme é cartesiano. Todas as personagens são extensões da voz do protagonista, sendo este o alter-ego do argumentista, o próprio realizador. Trata-se de uma res cogitans que subsume todas as falas na mesmidade da mensagem monolítica. Ao lado, paralelo, a res extensa do suposto objecto temático. Mas é mentira, não há contacto entre paralelas, e os cartesianos têm horror ao salto para o outro lado. Não se filma o desejo feminino, antes a sua paródia. Estamos, apenas, perante um pretexto para mostrar corpos desejáveis, e desejáveis por serem jovens. É, pungente de tão patética e de tão pretensiosa, a visão de um velho homem que nunca amou seres femininos. Por isso, nada tem a dizer sobre eles.

Num quarto nível, este filme é uma merda. Mas é um filme, e por isso deve ser visto.

Borralho do Referendo — “impor uma moral”

Dos variados sofismas que construíram a lógica do SIM, um deles ganhou especial popularidade. Por ser de simples entendimento, e de entendimento dos simples. Consistia na tese de que a criminalização do aborto era de origem moral (o que está certíssimo), logo deveria ser vista como uma imposição ilegítima (o que é de doidos). Os do NÃO, malvados, estariam a querer impor aos outros a sua moral, eis a denúncia que encheu peitos, papéis e ecrãs. E, se atravessássemos as meninges desses arautos, veríamos seres absolutamente convictos de estarem a descobrir a pólvora — indiferentes aos archotes que agitavam frenéticos.

Para lá do aborto como questão moral, temos aqui a moral como problema cultural e cívico. O argumento que detecta uma moral malsã, por confronto com o suposto direito à amoralidade, requer um sofisticado processo de reflexão. Implica que se recolham primeiro as definições propedêuticas da Filosofia e do Direito, sem as quais tudo o que se diga a respeito será apenas um psitacismo, uma verborreia — uma tanga no país da mesma.

Ora, se é um facto que Portugal é o pedaço mais estúpido da Europa — onde acima de 75% dos habitantes não foram além do Ensino Básico, e os licenciados não chegam a 10% da população; sendo que a cereja no cimo do esterco é a taxa de abandono escolar, a mais alta da União Europeia (a 25!) —, como esperar que desta mole de cabeças duras viesse uma decisão inteligente em questão que até confunde doutores e sábios das mais requintadas, e requentadas, academias? Não veio, mas a grei não tem culpa. Os culpados são alguns dos 10% que burilaram um argumento primário — ópio feito de cravos.

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Zen it, criativo

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A ideia de aplicar os princípios do budismo Zen a uma agência de publicidade poderá parecer redundante, tendo em conta o número de criativos que já se consideram iluminados. Acresce ser a iluminação do criativo uma simulação perfeita do verdadeiro satori, estado em que se rompe com o pensamento lógico. Este é um fenómeno para o qual muito contribuem os briefings que recebe, repletos de absurdos, paradoxos e enigmas insolúveis — o que faz deles genuínos koans. Inevitavelmente, tal como na prática do zazen, um criativo tem de passar a maior parte do seu tempo sentado e a meditar sobre o vazio. Com sorte, com muita sorte, terá a ajuda de um mestre sempre atento à sua evolução, numa mistura de doçura e severidade; que no Japão dá pelo nome de Roshi ou Sensei, e que no mundo dos reclames é conhecido por Director Criativo. Até o espaço físico da agência em tudo simula um templo, com as suas zonas para o departamento de contacto e departamento criativo a demarcarem a separação entre o profano e o sagrado. Nem faltam os altares contendo as santas relíquias, estatuetas olhadas com devoção e de onde emana uma aura de pacificação cármica: os cobiçados prémios. De facto, o dia-a-dia numa agência está cheio de rituais e cerimónias, só compreensíveis para iniciados; como as compungidas conversas sobre a porcaria que as outras agências estão a pôr no ar ou a procissão de rostos em júbilo celestial aquando da aparição dos clientes.

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Ironia e maiêutica socrática

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Sócrates não tem rivais. Nem na política, nem na opinião publicada. Não há uma única alma que consiga sequer ser credível na crítica ao Primeiro-ministro, quanto mais relevante. É a primeira vez que esta situação ocorre em Portugal. E é uma sorte estar a acontecer.

Os cães ladram e José Sócrates passa, a correr. Isto resume o principal da sua estratégia de comunicação. O episódio de maior notoriedade na aplicação desta filosofia do douto silêncio foi durante a crise da falta de quórum na Assembleia, em Abril do ano passado. De Sócrates, triplamente responsável perante os eleitores e a Nação, nem um vagido foi escutado. Falaram, pouquíssimo, os lugar-tenentes, nem sequer os coronéis deram a cara. E tudo passou, e rapidamente. Uma das maiores vergonhas na política portuguesa pós-25, sintoma de outros vícios debilitantes e letais para a democracia e a Justiça, foi anestesiada e varrida para debaixo do tapete. Em Portugal, a culpa morre solteira, e virgem.

Mas ele faz bem. Aliás, ele faz bem e o povo gosta; que ele faça, mesmo sem saber o quê. A oposição nada faz, e ainda consegue fazer mal esse nada. Do CDS ao BE, o que se exibe é um paradigma onde ser Oposição consiste em tentar, sempre e por todos os meios, prejudicar a actividade do Governo. Para os envolvidos, o processo é viciante, alienante. Quem aponta falhas imagina-se justiceiro, missionário da Verdade e do Bem comum. Contudo, como as falhas apontadas são invariavelmente demasiado técnicas ou insuficientemente legítimas, o resultado é o de suscitarem respostas suficientes da parte dos responsáveis governativos ou não captarem o interesse público. Porque insistirá a Oposição no seu suicídio?

Quanto aos jornalistas e publicistas, não se safam melhor. As críticas à pose e ao modo de Sócrates são a prova da falência da análise, agarrando-se ao despiciendo, ignorando o essencial. E o essencial é isso de Sócrates ser um chefe político que se decidiu a ser gestor do País. Há muito que a ideologia foi enterrada, só os zombies é que o ignoram, e, por isso, nenhum romantismo o move. Conhece a falibilidade e miséria moral dos seus pares de profissão, está vacinado contra o cinismo paralisante das elites portuguesas, e tem a coragem de ousar decidir a seu favor, a favor do futuro. Ou seja, é o primeiro político do século XXI, o século em que a própria política foi metida na gaveta.

Já temos um Sócrates, esperemos pelo Platão, sem o qual a coisa não fica composta, e o qual irá educar Aristóteles. Mas não o procuremos na Oposição; nem no PS, agora que mandaram o Cravinho dar a grande curva. Esses, todos, só têm cicuta para despejar na Cidade.