Todos os artigos de Valupi

Correias e anjos

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Menezes é nulo. E mesmo que se reúnam todos os alquimistas do Mundo, que se gastem hectolitros de Pedra Filosofal, nunca daquele facies sairá alguma ideia que valha mais do que as faeces demagógicas que se lhe cheiram à distância. Mas teve a sorte de ser títere de um figurão impoluto e fascinante, Ângelo Correia. Este não é um dos famigerados barões do PSD, antes será marquês retirado na província; e agora retornado à cidade com apetites de príncipe.

Tivesse nascido noutra geografia, noutra era, Ângelo seria um candidato natural ao papado. Tudo nele emana cultura palaciana, refinamentos da corte, retórica de salões diplomáticos, tiques de intrigas conventuais. É um engenheiro, um alto-funcionário do mercado das influências, eminência-parda dos negócios entre privados e Estado. É, por isso, um belíssimo exemplar do paradigma sócio-político que alimenta a actividade dos maiores grupos empresariais portugueses ou com interesses em Portugal. Contudo, outra dimensão nele se sobrepõe e se destaca, para nosso prazer: o seu prazer em fazer política a la século XX. Não que pudesse ser diferente — pois não pode, nem sequer fingir-se —, mas essa é conversa para outra ocasião.

Os congressos do PSD sempre foram únicos nisso de ninguém estar a perder tempo com a ideologia. Não se perder tempo a simular que estão em causa ideais e idealismos, sequer ideias, favorece espectacularmente o espectáculo. Após a fuga de Cavaco, os congressos foram estrado para lições de técnica política. Eram dérbis, com final feliz garantido para todas as equipas participantes. Neles, a presença de Ângelo Correia fazia-se sentir apenas nos bastidores, como peso-pesado na reserva, aristocrata falido. Por isso, à época, o actual Mister de Menezes não entrava nas corridas, não era apetitoso. 2007 marca o seu regresso às lides. Não são 13, são 25 anos de espera. Vem em grande forma; só que, lá está, na sua.

Devo ao amigo z a chamada de atenção para a entrevista no Expresso. Basta o trecho aqui disponível para se poder contemplar uma escola e um microcosmo, um estilo que faz este homem: a expressão obcecadamente contida, a sofisticadíssima ambiguidade, os recados a torto e a direito mas com mira telescópica, a iconoclastia soberba, a ironia de bispo e, acima de tudo, supremo encanto da merenda para deixar rubro o leitor que ainda saiba ler, o atestado de imbecilidade passado ao seu apaniguado. Repare-se:

O que é que Menezes precisa de limar?

Ele vai ter que pronunciar-se menos vezes sobre tudo. Vai ter que meditar profundamente e só emitir opinião quando tiver certezas.

Esta maldade é privilégio de anjos em queda, mas ainda presos por correias.

Epifania lexical

Desde o ano 2000, ao fim da tarde, que ando vexado com o termo clique e respectivas variações verbais, clica, clicar. Tenho-lhe ódio, quando aplicado ao comando do computador. E só agora descobri o substituto perfeito, depois de já me ter batido (e com sucesso) pelo substituto imperfeito, a palavra entra, e o entrar — a que se junta também uma elegante solução adverbial, o aqui. Acontece que a nobreza de entrar não cobre todas as situações. E isso derrotava-me, levando a ter de escrever os nojentos clica e clicar. Pois ontem, dia lindo de Verão como este Agosto não conheceu, desceu sobre mim a inspiração só ao alcance dos eleitos, e descobri o vocábulo que irá substituir o barbarismo: tocar.

Toca aqui, toca ali, toca para isto e para aquilo. Toque, e toc toc. Sim, é também uma palavra onomatopaica. É curta. É forte. É nossa. É digna.

A Revolução dos Cravinhos

Quando João Cravinho foi para o BERD, alguns cínicos de serviço viram nessa decisão a prova de que havia silenciamento, compra de carácter, desonra. Os cínicos têm este problema: imaginações raquíticas. Que sentido faria, logo após o extraordinário feito de ter colocado o tema da corrupção nas prioridades legislativas, e sendo um dos raros senadores da República, estar a virar a casaca? Só concebível, a suposta ignomínia, para quem se projecta nos projécteis que dispara contra a virtude alheia.

Cravinho é único. É o único político que assumiu o combate à corrupção. Isto é mais do que notável, entra na classe dos milagres. Pois temos de reconhecer o grau de improbabilidade de alguém no PS, um partido conivente com a corrupção ao longo dos 30 anos de democracia, arriscar afrontar colegas de militância, de bancada, de mesa. Santos da casa são surpresas desagradáveis, e é isso que se comprova sem surpresa.

No CDS e no PSD não há ninguém — mas ninguém de ninguém! — que tenha revelado estar, sequer, preocupado com a corrupção. É estupendo. Estranhamente no caso do CDS, por geografia ideológica. Mas talvez ainda mais assombroso seja constatar a repetida falência, a miséria, da relação do PCP e BE com o fenómeno. No caso dos partidos à esquerda, a perfídia será, presumivelmente, maior, posto que seria obrigação mínima serem coerentes com as doutrinas de que são putativos representantes.

Cravinho diz o que todos sabem: que o Estado é usado para o proveito de alguns, não para o bem comum. Quem o manipula vem dos partidos, está nos tribunais, passeia-se pelo Parlamento, tem lugar nos Governos, compra as polícias. E fá-lo com a conivência de todos, pois para todos a corrupção é sistema, jogo, cultura, tácita lei. Este anúncio deixa o País indiferente. Porque o cidadão também ambiciona uma malga de corrupção. O cidadão é apenas mais um abutre, no fim da lista, invejando o festim dos que estão à sua frente.

Os que aplaudiram a manha egocêntrica e narcísica de Santana, estrela do sistema e galáxia de irrelevâncias, deviam ser proibidos de falar de Cravinho. Mesmo que fosse para o elogiar. Ou especialmente se for para o elogiar. Por uma questão de salubridade ética.

Cineterapia

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Caché_Michael Haneke

Começar é o mais difícil. Começar bem. É difícil começar bem um livro, uma sinfonia, um filme. Já Hesíodo o dizia, em grego. Mas não o dizia em relação aos filmes, sinfonias, livros. Por razões que ficam por explicar. Dizia-o, em grego, em relação a tudo. Tudo. Qualquer coisa. Então, uma coisa qualquer. Como um livro. Uma sinfonia. Um filme. Logo, este filme. Um filme que tem um dos melhores começos de sempre. Porque nos castiga. Castiga a nossa passividade, a nossa boçalidade. E isto que digo, em português, é o que diria Hesíodo; não necessariamente em grego, mas desde que visse o que eu vi.

Por bizarria dos deuses, este filme tem um dos melhores finais de sempre. E acabar é que é difícil. Muito mais difícil do que começar. Acabar bem, note-se. Não acabar por acabar, só porque se chegou ao fim. Chegar ao fim não é acabar, é apenas não poder continuar. Já o acabar que acaba pode acontecer muito antes do fim. Pode acontecer logo no começo. Pelo menos, a fazer fé em Homero, que o disse das mais diversas maneiras (e já contei duas).

Que não espante a conclusão: este filme só começa depois de ter acabado.

A doideira

Temos um seleccionador nacional de futebol que tentou esmurrar a cara de um jogador de uma selecção adversária, ainda no relvado. Nessa mesma noite, depois de se acalmar e poder pensar, foi a uma conferência de imprensa negar a realidade. No dia seguinte, foi a uma televisão negar a responsabilidade. Dias depois, conhecida a sanção da FIFA, anunciou que ia tentar negar a moralidade. Com o conluio do presidente da Federação Portuguesa de Futebol, e com o silêncio da tutela.

Temos um político acabado, desgraçado, gozado, que morre de inveja de um treinador de futebol. Esse político é chamado à televisão para dizer umas banalidades que ninguém — ninguém — tinha qualquer interesse em conhecer, muito menos em perder tempo a ouvir. Aconteceu-lhe a supina sorte de o invejado treinador ter aterrado em Portugal à hora da sua declaração. Logicamente, o canal dedicado às notícias dá a notícia que a audiência estava interessada em ver: as imagens e as palavras do treinador, fossem quais fossem, umas e outras. O canal era de notícias, e só de notícias. O canal tem como missão aquilo que fez: dar directos da actualidade, do que constitua a actualidade, sem discriminar, sem tomar partido, sem se substituir à actualidade. O canal gastou 1 minuto com o treinador e voltou ao político. O político tinha um percurso onde se misturava a política e o futebol de forma indiscernível e indescritível. O político devia a maior parte da sua popularidade e poder aos favores que o futebol lhe fizera e que ele retribuíra por cima e por debaixo da mesa. O político era também a ostensiva manifestação da venialidade e da vanidade. Acossado pela própria decadência, sem esperança de conseguir voltar à ribalta, farejou um brilharete: fazer de puta ofendida. Acertou em cheio no País. No dia seguinte, o dia mais imbecil da História de Portugal, era unânime o louvor àquilo que a hipocrisia de uns, a inanidade de outros e a cobardia de todos chamou de coragem. Porque Santana se tinha virado contra a televisão, esses malandros que insistiam em transmitir exactamente aquilo que as audiências queriam ver. O mestre da popularidade dava um golpe de populismo magistral. Criava um estudo de caso em manipulação, um automático clássico destinado a ser citado e investigado pelos anos afora em academias e institutos onde se estude a demagogia. O povo aplaudiu, ejaculou com a opção de Santana: em vez de ter continuado a falar do PSD, e de ter apenas puxado as orelhas aos seus amiguinhos televisivos mas continuando a rebolar-se no charco da sua irrelevância opinativa, resolveu acabar com aquela chatice e ofereceu uma peixeirada à audiência. Isso sim, é o que faz falta para animar a malta. Política não, muito obrigado. E prontos — com uma palhaçada, e mais uma vez à conta do futebol, Santana voltava ao circo da política. Entretanto, o povo, agora (e sempre, e para sempre) adepto de Santana, irá continuar a perseguir o Mourinho, e os milhões do Mourinho, e a soberba do Mourinho, para onde quer que ele vá. E ai do canal de televisão que não lhes der o Mourinho a peidar-se numa esquina de Setúbal, pois não irá recolher a sua numérica presença para mostrar aos anunciantes. Santana, por causa do Mourinho, é agora um Mourinho na pele de Santana: pode voltar a treinar várias equipas. Pode voltar para o parlamento, para a televisão, para o futebol, para o tal País que o aclama e se delira a seguir em frente, com palas nos olhos, à nora.

Temos um partido da oposição cujos militantes acham que Menezes é melhor que Mendes. Acontece que eles têm razão. Com Menezes, o PSD acaba mais depressa. É melhor para todos.

Qual? O tal

Desaparecer um jornal é mais triste (mas muito melhor) do que desaparecer uma floresta. Mesmo que seja um jornal que não valia o dinheiro do papel em que era impresso. E isto diz quem sabe, que o leio desde o primeiro número (mas nunca o comprei), sem falhar uma semana (era uma chachada, uma cápsula dos anos 80).

O próximo a acabar é o tal. Mas qual?

Detective Mário Costa

Antes da entrada obsessiva nas colecções Vampiro e Argonauta, devo a Enid Blyton e a Vladimir Volkoff o despertar do gosto pelo disfarce, pela espionagem e pelas estouvadas aventuras sem-bem-nem-mal-antes-pelo-contrário. Blyton quase me fez chorar com a possibilidade de Os Cinco serem apenas criaturas de ficção. Volkoff deu à minha imaginação um cheirinho do que viriam a ser as leituras de Graham Green; através do agente Langelot, um betinho. Aos livros se ajuntou a experiência do xamã, a fruição das energias mágicas que aparecem do lado de cá da máscara. Estava na iniciação da puberdade, sabia que a realidade era um local a carecer de urgente investigação.

Décadas depois, e em várias ocasiões, admiti vir a trabalhar como detective privado. Quanto mais não fosse, gostaria de me ter candidatado, descobrir os perfis e currículos apreciados, aqueles melhor indicados, os recursos mínimos para a função. Ficar a saber se é actividade mais bem paga do que a de pedreiro ou bancário. Antecipei-me a devassar tranquilamente a vida do meu concidadão, e a ser pago por isso. Fantasiei-me mascarado, duplo, triplo, dominando textos, contextos, pretextos e subtextos. E também hipertextos, pois, o que me leva para o meu (nosso) primo Mário Costa, detective privado.

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Scolarizado

Sei que não consigo exprimir fluentemente o entusiasmo com que fui atingido pelo soco de Scolari. Estava num restaurante e apeteceu-me lançar as mãos para os céus a reclamar vitória, ao arrepio do silêncio atónito dos restantes comensais. É um acto-fronteira, marcando distintas eras. Rompeu-se o manto que esconde o caldo imprevisível, uma bolha de singularidade cósmica explodiu no cérebro do Felipão.

Há um mundo pré-soco, onde Scolari era apenas mais um representante da banalidade, sem possuir mensagem digna de registo. Quando muito, de notável para o meu interesse, a possibilidade de ele ter um acordo secreto com os fabricantes de bandeiras, ganhando à comissão. O resto eram as matemáticas do caos. No mundo pós-soco, espantosamente, o mais hierático dos responsáveis desportivos pode preferir abdicar de uma carreira de prestígio, de contratos milionários e, até, da própria dignidade. Tudo penduricalhos menores quando comparados com o valor da poesia para a busca de sentido e ordenação da realidade.

Como as imagens mostram, imediatamente antes da agressão a carranca do pugilista ficou crispada, furiosa. Depois, soltou-se a mão impulsionada por braço sem hesitação no intento de esmagar a voz outra. Mesmo após o movimento, quando o afastavam, a linguagem corporal continuava bélica, pronta para destruir o inimigo. Estávamos perante uma estreia: o representante máximo de uma selecção nacional de futebol, no cumprimento das suas funções contratuais, abdicava da racionalidade em favor da animalidade. Mas isto ainda seria manco de alcance filosófico não fossem as declarações do próprio na conferência de imprensa. Um acto de contrição, um qualquer laivo de responsabilidade, uma mísera ou manhosa aceitação de culpa, deitaria por terra o imponente monumento em construção. Felizmente, Scolari não falhou nessa sua hora. Veio dizer que nada se tinha passado de anormal, nada lhe parecia merecer reparo, nada tinha feito de mal. O que todos viram e viam e veriam era mentira.

Essa assunção de inocência é dos mais belos momentos públicos de que me recordo, pois só um poeta a poderia ter levado a cabo. Só um poeta tem a força suficiente para enfrentar uma plateia hostil, munida dos seus obsoletos e alienantes factos incontestáveis, e defender um ideal que transcende a vulgar dimensão material, aquela que se oferece a plebeias máquinas de guardar imagens. Fazer a invocação desses campos relvados, Elísios ou outros, apelando a uma renovação do olhar para que nos libertemos dos regulamentos, da legalidade, da moral, da ética e do respeito próprio, eis o gesto artístico por excelência.

Zidane já o tinha tentado, mas não foi capaz de levar o acto ao seu pináculo revolucionário, não teve força para afirmar que uma cabeçada faz parte da praxis desportiva profissional e paga pelos impostos da turbamulta. Mas alguém, finalmente, venceu a hipocrisia de uma maioria instalada na honra e na coragem. Alguém, um scolarizado qualquer.

Um gangue de jornalistas

O Público brinda-nos com uma extensão vocabular que primeiro se entranha, e depois se estranha: gangue. Porquê? Que aconteceu a quadrilha, a bando, a súcia, a corja, a grupo, a malta? Para onde foram os gatunos, os patifes, os malandros, os biltres e os vadios de Portugal? Malta que assaltava carrinhas de valores vai ser julgada em Gaia — não será mil vezes preferível à opção espúria do original? Este, que de original tem o mau gosto, veio da LUSA.

E assim temos como um gangue de jornalistas se juntou para roubar a Língua. Com esta diferença face aos malandros de Gaia: sabem-se impunes.

Biliões

Acabo de ouvir António Guterres a denunciar a economia mundial por mandar para o desemprego biliões de pessoas. Foi na RTP Memória, datado de 1996, mas não perdeu nenhuma das biliões de razões para ser considerada uma questão actual.

abrir o livro

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O hóquei em patins português morreu no início década de 90, mas do seu funeral só nos chegou notícia em Junho último. Foi enterrado na Suíça, por suíços e franceses. O 6º lugar, a pior classificação de sempre em 70 anos de campeonatos do Mundo, passou por entre as notícias. O povo adepto que se poderia alvoraçar com a desdita também já passou, jazendo na amnésia. Quem tem menos de 40 anos não pode saber o que foi o hóquei em patins português em Portugal. Porque não pode saber o que era viver nos anos 70 e 60 e 50 neste país rural, analfabruto, cobarde e infantil. Um país literalmente desesperado, sem orgulho, que tinha no hóquei a possibilidade de viver a fantasia de se imaginar cosmopolita. Puro delírio. Nem nos Jogos Olímpicos o hóquei em patins podia entrar, quanto mais na atenção do Mundo. A nós se juntavam outros nostálgicos de tordesilhas, impérios e rios de prata, espanhóis, italianos e argentinos. Opulentos miseráveis. O hóquei, desporto para aristocratas, joga-se de bengala. Garbosos, elegantes, altivos, os jogadores sabem-se alados. Em cima dos patins o céu está mais perto, a terra é lisa e desliza.

Por leonina sorte, apanhei a última geração de amor popular, a equipa dos 5 magníficos: Ramalhete, Rendeiro, Sobrinho, Chana e Livramento. Como a televisão da época ainda não era omnívora e insaciável, brilhavam as vozes dos locutores da rádio. Desses relatos ficou-me uma lição atinente ao poder das metáforas. Em 1977, o Sporting foi campeão europeu. Alguém, cujo nome não fixei, relatava os jogos tendo no seu reportório a expressão: abrir o livro. Dizer-nos que o Sporting estava a abrir o livro correspondia a celebrar os momentos em que a equipa alcançava um nível exibicional que o encantava, o equivalente à entrada da música para premiar o espectáculo do toureiro. Embora a sua voz fosse moldada pela grave solenidade de quem comunica com a audiência, o timbre era de bem contido encómio, de festa sentada.

Os movimentos sincronizados dos atletas, o juízo e gosto linguístico do comentarista, a imaginação púbere do ouvinte, uniam-se estes diferentes planos da realidade para transformar a expressão abrir o livro na minha iniciação ao poder divino das metáforas. Eu tomava conhecimento da existência de um livro onde estavam as jogadas perfeitas, aquelas que não tinham oposição possível nem possível melhoria. Eram absolutas, por isso estavam gravadas num livro. A equipa, por eleição misteriosa, conseguia abrir esse livro de vez em quando. E, enquanto o livro estava aberto, era até bom que a leitura não fosse perturbada pela marcação de um golo. Isso poderia levar à alteração súbita da coreografia mágica em acção, embora fosse esse evento a promessa de redenção, apocalipse e transcendência inclusa no livro agora aberto. O sublime estava no que antecedia a glória, o gozo de uma jogada eterna era preferível ao êxtase de um golo efémero. Mais valia não chegar ao fim, continuar a passar a bola, fintar os adversários, folhear o livro.

Era uma lição relativa à condição paradoxal do humano, o único animal que lê. O único animal que vai de patins.

Cineterapia

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SICILIA!_Danièle Huillet & Jean-Marie Straub

Agosto de 2007, meados, é a melhor altura para ir à Sicilia!. Chegar de barco, viajar de comboio, visitar a mãe e andar a pé. A paisagem é toda a branco e preto, cinzenta, mas cheia de Sol. Até as sombras são imitações da luz. E cada pessoa fala com a confiança de quem se sabe escutada até ao silêncio diafragmático, aquele entre cada cigarra. Aquele, por onde passa a alma ou o comboio. Fala-se sereno, tão calmo, mesmo no brado, que ainda se dispõe de tempo para cantar. Cantam-se as palavras ditas. Canta-se a palavra pensada. Cantar é a única forma de transmitir a verdade, o ritmo da vida, a verdade.

Este é um dos mais amorosos filmes na História da arte, garanto-o eu que não sei o que digo. Os realizadores amam o texto, amam a luz, amam o cenário, amam os actores, amam o cinema e amam-se a si próprios, feliz casal, também como espectadores. Tenho vergonha de enaltecer este ou aquele aspecto, adivinhando-me desastrado e inconveniente, bruto na carícia da filigrana. Prefiro retirar-me para o Oeste, lembrando aos papalvos que Cassavetes se filiava em Capra e Huillet&Straub em Ford. Porque isto, do cinema no cinema, é mesmo como aparece.

Esses lupanares chamados fnac, em conluio com esses chulos chamados ATALANTA FILMES, reuniram as suas pérfidas intenções para nos proporcionar momentos do mais exaltado gozo, no segredo dos nossos pardieiros estéticos, e apenas em troca de vil papel-moeda ou moeda-cartonada. É fartar, por Baco!

Iberismo soviético

Ligando com o saboroso diálogo abaixo, de Daniel de Sá, e ao arrepio da silly people que não leva a sério a ameaça iberista, colhe recordar um dito de Fernando Lopes Graça, contando 75 anos (muito boa idade para ter juízo; ou falta dele, é conforme), em 1982 (já com História mais do que suficiente no bucho para merecer um valente puxão de orelhas):

Porque a separação de Portugal de Espanha foi um erro histórico, sem querer com isso dizer que deixássemos de ser portugueses. A própria Galiza não se considera espanhola; a Andaluzia e a Catalunha também não. Há o problema grave dos bascos… Penso que deveria haver uma federação, tal como a federação dos povos soviéticos, cada um com a sua personalidade, mas com um projecto social, político e económico comum. Continuo a defender essa ideia, sem a absorção de qualquer parte por outra.

Como se vê, Saramago pertence a esta funesta linhagem dos que viveram em negação da liberdade. Malhas que o Império tece.

euGoogle

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A popularidade do Google nasceu da relevância dos resultados, da simplicidade de utilização e de um ambiente visual minimalista. Por comparação com as páginas dos motores de busca da época (2000, o ano da vitória no boca-a-boca), pesquisar na caixa do Google era uma experiência de respeito absoluto pelo utilizador. Só a nossa pesquisa e os nossos resultados interessavam, não nos mandavam palha para cima dos cornos.

Hoje, Google é uma marca fornecedora dos mais variados e originais serviços. Um deles está nos antípodas da experiência inicial, embora mantenha o mesmo princípio: respeito absoluto pelo utilizador. Refiro-me ao iGoogle, o serviço de gadgets para personalização da página Google. A imagem supra mostra menos de metade dos meus. Eis um potencial problema: não conseguir parar com os acrescentos. Mas as vantagens são óbvias e demasiado importantes para abdicarmos do serviço.

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A piscina da Soledade — recensão acrítica

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Foto enviada por anónimo perfeitamente identificado como tal, a propósito de 27ª Convenção dos Pseudónimos, Heterónimos e Homónimos de Portugal, reunião que teve lugar numa piscina de paradeiro incerto, algures no Algarve.

Já com o cognome de Swimmer’s Digest, dado por quem o sabe dar, o novíssimo blogue de Soledade Martinho Costa, minha prima, está fadado para os mergulhos de cabeça. Ou não tivesse a autora, efusiva e repetidamente, reclamado a posse de uma piscina grande, relvada, com árvores, com flores. É precisamente nessa piscina que costuma alinhavar linhas. Porquê? Porque não gosta de escrever directamente no computador. Assim, opta pela piscina, logicamente. Se tem vontade de escrever, vai até à piscina. Isto é lógico, repito. Ademais, é a sua imperial piscina um local muito calmo e aprazível, ambiente ideal para escrever indirectamente no computador. Dúvidas ou duvidas? Continuemos, então.

SARRABAL é o distinto vocábulo elegido no baptismo. Nome bonito para um blogue, informa-nos a autora. E aqui convém ilustrar os ignaros, os néscios, os decadentes, lembrando que são poucas as pessoas do Mundo que sabem serem poucas as pessoas no Mundo a dominar o significado destas 8 letras. Empáfia, dirão alguns, confrontados de supetão com estética de antanho. Por mim, apenas quero deixar um louvor a tão sofisticada e classissante tradução de blog. Mas mais: anoto o acerto lexical. Aos leitores da terceira entrada, de título AGOSTO, é servido um poema de fino e aromático recorte bucólico, logo seguido daquilo que, na falta de rigorosa definição, terá de ser chamado de sarrabulho. Isto é não só familiaridade e coerência fonética, é também estilo, donaire.

Das plurais e dilacerantes questões que o sarrabulho do Sarrabal picha nas laterais deste Agosto, ressalta uma CARTA ABERTA dirigida ao meu primo, a qual me convoca e interpela. É um texto notável, herdeiro singular do espírito bulhento de Maria Amália Vaz de Carvalho, e que ainda alcança o feito de estar pejadinho de verdades, do princípio ao fim. Todavia, desairosamente passo por cima do seu valor artístico e sociológico para me concentrar numa confissão que, se o Jorge Carvalheira autorizar, rotularei de pungente. É que a autora esclarece aparecerem algumas palavras no texto que nunca antes tinham sido usadas por si; e esta nota só ganha a sua verdadeira dimensão, o seu profundo sentido, o seu altíssimo valor, se contemplarmos essa longa, abarrotada de sucessos, carreira literária de todos sobejamente conhecida e por todos desvairadamente admirada. No parágrafo em causa, irrompem a negrito, sobre o lívido fundo da página electrónica, os vocábulos fumegam e cagalhão. Esta destrinça gráfica admite a tese de serem esses os termos virginais. E vem daí a minha perplexidade, a qual vou expressar sob a forma de repto: ó Soledade, quanto a fumegam, estamos de acordo: é agregado de caracteres que nenhum autor, se for sério, deverá sequer simular escrever no teclado de um telemóvel sem bateria — mas, Soledade, porque raio esperaste até agora para revelar o cagalhão da tua escrita?!…

Concurso

Depois da Ministra da Educação ter ido ao Parlamento prestar contas do Caso Charrua, onde despachou sem pestanejar a freguesia, e do arquivamento do Caso Sócrates pela Procuradoria, a oposição está num agudo estado de privação. Falta-lhe pretextos, meros contextos, para conseguir botar discurso, para continuar a brincar aos políticos e mandriões. O desespero já não se consegue esconder.

Aqui fica a sugestão: um concurso televisivo para se encontrar a estratégia de oposição mais imbecil. O júri seria constituído pelos actuais dirigentes da oposição com assento parlamentar. Bastaria que avaliassem as propostas com os mesmos critérios com que tomam decisões nas sedes partidárias. Seria o mais justo e objectivo júri alguma vez reunido.

Em ordem a

Em ordem a esclarecer a legitimidade do uso da expressão em ordem a, volto a um assunto que recebeu de jlm um reparo e, depois, uma tomada de posição exemplarmente inteligente. A questão até oferece o picante da polémica erudita. Ora, dá-se a fortuna de privarmos com o Fernando Venâncio, entre outros eventuais companheiros de viagem com autoridade e gosto para expressarem o seu gosto com autoridade. Mal seria não colhermos tão abundante saber.