
Menezes é nulo. E mesmo que se reúnam todos os alquimistas do Mundo, que se gastem hectolitros de Pedra Filosofal, nunca daquele facies sairá alguma ideia que valha mais do que as faeces demagógicas que se lhe cheiram à distância. Mas teve a sorte de ser títere de um figurão impoluto e fascinante, Ângelo Correia. Este não é um dos famigerados barões do PSD, antes será marquês retirado na província; e agora retornado à cidade com apetites de príncipe.
Tivesse nascido noutra geografia, noutra era, Ângelo seria um candidato natural ao papado. Tudo nele emana cultura palaciana, refinamentos da corte, retórica de salões diplomáticos, tiques de intrigas conventuais. É um engenheiro, um alto-funcionário do mercado das influências, eminência-parda dos negócios entre privados e Estado. É, por isso, um belíssimo exemplar do paradigma sócio-político que alimenta a actividade dos maiores grupos empresariais portugueses ou com interesses em Portugal. Contudo, outra dimensão nele se sobrepõe e se destaca, para nosso prazer: o seu prazer em fazer política a la século XX. Não que pudesse ser diferente — pois não pode, nem sequer fingir-se —, mas essa é conversa para outra ocasião.
Os congressos do PSD sempre foram únicos nisso de ninguém estar a perder tempo com a ideologia. Não se perder tempo a simular que estão em causa ideais e idealismos, sequer ideias, favorece espectacularmente o espectáculo. Após a fuga de Cavaco, os congressos foram estrado para lições de técnica política. Eram dérbis, com final feliz garantido para todas as equipas participantes. Neles, a presença de Ângelo Correia fazia-se sentir apenas nos bastidores, como peso-pesado na reserva, aristocrata falido. Por isso, à época, o actual Mister de Menezes não entrava nas corridas, não era apetitoso. 2007 marca o seu regresso às lides. Não são 13, são 25 anos de espera. Vem em grande forma; só que, lá está, na sua.
Devo ao amigo z a chamada de atenção para a entrevista no Expresso. Basta o trecho aqui disponível para se poder contemplar uma escola e um microcosmo, um estilo que faz este homem: a expressão obcecadamente contida, a sofisticadíssima ambiguidade, os recados a torto e a direito mas com mira telescópica, a iconoclastia soberba, a ironia de bispo e, acima de tudo, supremo encanto da merenda para deixar rubro o leitor que ainda saiba ler, o atestado de imbecilidade passado ao seu apaniguado. Repare-se:
O que é que Menezes precisa de limar?
Ele vai ter que pronunciar-se menos vezes sobre tudo. Vai ter que meditar profundamente e só emitir opinião quando tiver certezas.
Esta maldade é privilégio de anjos em queda, mas ainda presos por correias.




