Sinistra

A Esquerda partidária reclama defender os direitos, interesses e ambições dos trabalhadores. Os trabalhadores por conta de outrem (estes, potencialmente ainda mais disponíveis para acolher o discurso que os nomeia) são mais de 75% do total que trabalha, em Portugal. Se a realidade fosse euclidiana, a distância mais curta entre os partidos de Esquerda e os interesses dos trabalhadores seria o voto. Só que a realidade é a 4 dimensões (pelo menos), tem curvas e a velocidade não é a mesma para todos os corpos. Os partidos de Esquerda permanecem minoritários, alguns sem qualquer representação parlamentar. A par deste desconchavo, ninguém pode contestar o primado do Direito, as liberdades de associação e expressão políticas, as novas tecnologias de comunicação; que, na parte e em conjunto, tornam absurda a reclamação de “a mensagem não estar a chegar”. A mensagem chega, mas não convence. Porquê?

A Esquerda partidária – não a Esquerda intelectual, universo maior e camaleónico – vive no século XIX. E tem uma atitude romântica, anticientífica. Por isso, não consegue explicar ao trabalhador o que quer dizer “luta de classes”, enquanto continua a fazer de Marx o seu Mafoma. Mas é no discurso anti-autoridade, anti-capitalismo e anti-América que a Esquerda revela a sua acabada distopia. A sociedade para quem a televisão generalista e vácua chega e sobra, que não lê livros nem jornais, mas baba-se perante revistas cheias de retratos dos ufanos ricalhaços, reúne-se e festeja já só por causa do futebol, realiza-se no ter uma casa e um carro mais caros, para depois continuar a multiplicar os hipnóticos sinais exteriores de fartança, que prefere fechar-se em casa a participar na cidadania e que aceita com conivência a corrupção do vizinho, não speaka marxês.

Se querem falar com esta gente, traduzam.

42 thoughts on “Sinistra”

  1. distopia – (substantivo feminino) – lugar imaginário onde tudo é negativo;

    (Do ing. dystopia, «id.») – Diciopédia 2004 – Porto Editora

    Este homem passa a vida a mandar-me consultar o dicionário! Imagino que os outros leitores não precisem.

    O “ludos” leva ao “logos”, não é o que você diz, Valupi?

  2. Confesso que tive que deitar mão ao Houaiss para perceber o que o Valupi escreveu. Já agora para facilitar o trabalho a outros tão ignorantes quanto eu deixo os significados que procurei:

    – euclidiano – 1 – concernente ou próprio de Euclides, famoso geómetra grego que viveu no sec. III A.C. em Alexandria; 2 – relativo a ou próprio de Euclides da Cunha (1866-1909) escritor brasileiro;

    – Mafoma pode ser Maomé (Louvado), como também pode ser uma escultura grosseira e de grandes proporções representando o ser humano;

    – distopia é a localização anómala de um órgão;

    Se alguém me puder traduzir o Valupi, agradeço. É que nem com o Houaiss lá cheguei…

    PS: Já agora, sinistra é referência à esquerda (em italiano) ou é mesmo de sinistro= a pessoa que usa a mão esquerda, canhoto; 2 que pressagia acontecimentos infaustos, agourento, funesto; 3 que é pernicioso, mau; 4 que se deve temer, assustador, temível; 5 que causa o mal, pernecioso, perigoso; 6 trágico, calamitoso; etc., etc., etc.?

  3. Imaginem só se fosse eu a escrever que “Os partidos de Esquerda permanecem minoritários”, quando o PS tem maioria absoluta. O mínimo que o Valupi me chamava era de sectária, pois que é suposto o PS ser de esquerda.

    Mas se o próprio Valudi confessa que “ainda não se descobriu sistema económico melhor” do que o capitalismo, e o PS gere e até aprofunda a economia desse sistema, entrou o Valudi numa de esquizofrenia ou o PS só é de esquerda quando convém ao Valupi?

  4. Valupi:

    Imagine o seguinte texto:

    “Dextra

    A Direita partidária reclama defender os direitos, interesses e ambições das pessoas. As pessoas que têm direitos, interesses e ambições (e, portanto, potencialmente disponíveis para acolher o discurso que as nomeia) são exactamente 100% do total das que vivem em Portugal. Se a realidade fosse euclidiana, a distância mais curta entre os partidos de Direita e os interesses das pessoas seria o voto. Só que a realidade é a 4 dimensões (pelo menos), tem curvas e a velocidade não é a mesma para todos os corpos. Os partidos de Direita permanecem minoritários, alguns sem qualquer representação parlamentar. […] tornam absurda a reclamação de “a mensagem não estar a chegar”. A mensagem chega, mas não convence. Porquê? […]”

    E por aí adiante. Uma vacuidade, não acha? (Poupo-lhe o trabalho: vacuidade é “estado de vazio” e “inanidade”, mas também “ausência de ideias”.)

    Mas se reconduzirmos o texto à versão original, a sua, logo parecerá acutilante e inteligente.

    Portanto, já sabe: sempre que sentir uma total ausência de ideias, critique a Esquerda (com alguns termos pouco usuais, q.b.).

  5. «A realidade é a 4 dimensões (pelo menos), tem curvas e a velocidade não é a mesma para todos os corpos.»

    Certo, Valupi, mas isto não tem nada a ver com o «não euclideano». Nada disto implica «não-euclideano».

    Percebo a tua ideia e estou de acordo, mas o Marx pode ser apresentado de uma forma actualizada.

  6. Margarida, és louca.

    SM, o texto que escreveste é teu. Não me importo que o meu tenha sido a inspiração, mas eu nunca assinaria o teu – precisamente pelo diagnóstico que apresentaste.

    Filipe, tens aqui um curioso da Física prontinho para aprender contigo, moi. Então, conta lá: não é na geometria euclidiana que a distância mais curta entre dois pontos é uma recta?; não decorre daí que num espaço afectado pela gravidade, logo curvo, esse pressuposto deixa de ter validade?

  7. Epá olha para uma estrada portuguesa. É cheia de curvas e os carros vão mesmo assim a ultrapassar-se, principalmente em cima das mesmas (portanto seguem com velocidades diferentes)…

    Uma coisa é o “espaço curvo” e a outra é a existência de curvas (tens sempre “curvas”). Isto não é só uma questão de linguagem: parece-me que também é conceptual.

    Já agora também gostava que respondesses ao comentário das 5:55 da Margarida. Neste caso sim, pode ser só uma questão de linguagem.

  8. Filipe, estás a desviar-te da recta (da sua noção, isto é), parece-me.

    Por vir de ti, vou aceder ao pedido e responder a um comentário delirante (pois, que raio é isso de “ou o PS só é de esquerda quando convém ao Valupi”?!… onde e quando é que eu falei do PS?…). E para dizer o seguinte: o PS não é de Esquerda (tal como o PSD não é de Direita). É um partido que ocupa o Centro político e sociológico. Daí, a sua maioria.

  9. o Valupi já respondeu à Margarida, assim à tesourada:
    “Margarida, és louca”
    embora muita gente possa não concordar, ou sequer acreditar.
    o Valupi deve ser barbeiro e gosta de cortar as franjas, é o que é

  10. A postura de anti-autoridade da esquerda só porque sim é precisamente o que mais me desgosta nessa mesma esquerda. É que surge quase sempre como se escondesse um problema edipiano com a figura paterna. Também é verdade que a bajulação da autoridade em si de muita da direita revela iguais problemas de auto-determinação. Talvez uma melhor aderência ao velho princípio da realidade nos permitisse colocar o discurso político em linha com o tempo do mundo.

  11. Pá, não sabes que a Classe Trabalhadora se dissolveu no oceano dos “Cidadãos”?

    Luta de Classes? Qu’é qu’é isso, modalidade concorrente com o “wrestling” americano? Não leste no pasquim que foi decretada a morte das ideologias?

    Podes dormir descansado que a malta da esquerda está a carpir as suas culpas e a cumprir as regras. De quatro em quatro lá estão pra contribuir para a “Cidadania”. De quatro.

    Classe Operária? Puseram-na ao lado do T-Rex no Museu da História Natural. Mas se fosse a ti não me fiava, só um deles tem os ossos à mostra.

  12. Os valupis desconhecem que em aldeias de Viseu, para defender a escola primária da aldeia contra o encerramento, há populações inteiras que se uniram à volta do comunista da terra que impulsionou um abaixo assinado; que noutra vila da Guarda veio a população em peso à rua defender o posto médico. Que em muitas fábricas votam sempre na lista dos comunistas para defenderem os seus interesses.

    Ontem à noite na TV até vi no Ontário, no Canadá, velhas açorianas na manifestação contra as expulsões dos emigrantes ilegais. E também vi na BBC, a maior manifestação de sempre em São Francisco, protagonizada por latinos contra a lei que nos USA quer criminalizar a imigração ilegal. E vi ontem na CNN, também a maior manifestação de sempre em Los Angeles, no Arizona e noutras cidades americanas. Tentei mesmo agora pela imprensa on-line saber o nome das cidades onde este fim-de-semana houve manifestações nos USA, but of course, nada apurei. Não é notícia.

    Como também em França não é notícias as dezenas de universidades paradas e as dezenas de cidades (sessenta e tal) onde há duas ou três semanas dezenas de milhares protestam contra a lei do primeiro emprego. Mostram muito os distúrbios que uma centena ou duas praticam, mas ocultam a real dimensão dos que lutam.

    Isto é, há lutas, há muitas lutas sempre que querem retirar direitos às pessoas ou aos trabalhadores. Mas os nossos medias ocidentais escondem-nas, calam-nas. E como não as vemos é como se não houvessem. Mas há. E o valupi quer-nos convencer que não há. Mas há.

    Como há classes e luta de classes, como bem lembrou o Causas.

  13. E como sempre atacam em alcateia e com base na mentira e na deturpação do discurso. Qualquer texto não importa o conteúdo, é motivo para descarregar a lenga lenga de lavagem ao cerebro, como se o povo fosse cego e estúpido. Continuem assim bravos comunistas alucinados, cavem a propria sepultura.

  14. Se o Pedro Stat pudesse esclarecer onde quer chegar (para além das atardoadas anti-comunistas genéricas e ocas do costume), agradecia…

  15. E toda a luta contra os governos não comunistas existente na Terra é realizada por comunistas. O que se aprende com estes gajos é porreiro.

  16. Valupi o teu problema é que ainda não viste a luz, a verdadeira luz. Estás cego pelo Bush e pelo capitalismo ocidental. A luz está no comunismo tu é que ainda não percebeste. E o mundo vai acabar amanhã se não te converteres ao comunismo na defesa das classes trabalhadoras e so on que não tenho mais fita para o resto da cassete.

  17. Não vale a pena já conheço o seu discurso de cor e salteado é sempre o mesmo. quando mudar umas virgulas pode ser que lhe responda.

  18. Pois não vale a pena, nunca vale a pena Pedro Stat. Bastam-lhe umas generalidades. Pois se você até acredita no fim da hintória e na superioridade da civilização ocidental…

  19. Mas você sai alguma vez das generalidades? Olhe bem para o que escreve em quase todos os posts. Não responde nem critica o que foi escrito, fala sempre do mesmo puxa sempre a conversa para o mesmo. Trate de se enxergar e ver a triste figura que faz. Está fazer show para os amiguinhos todo o tempo, parece que está num palco. Se não tem capacidade para mais e só sabe repetir a mesma historia então nao chateie os outros.

  20. Não, a civilização superior não é a ocidental, é a comunista. Está à vista de todos nós. Tenha juízo.

  21. Acaba de traduzir o que escrevi sobre si. A isso chama-se projecção. Consulte um especialista para traumas psicológicos, experimente acreditar que há vida para lá do partido.

  22. E eis como o Valupi dá por si a fazer companhia ao Boaventura Sousa Santos e mais à tribo toda ridicularizada pelo Sokal…

  23. Eu cá gosto muito do capitalismo, é fixe. Há os tipos muita espertos como eu, que se safam e progridem no mundo dos negócios porque sabem em que partido se inscrever, no PS ou no PSD, que não são de direita nem de esquerda, mas do que está a dar, porque o capital tem olhinho, isto o que é preciso é estar próximo dos partidos do poder para fazer crescer a minha conta bancária.
    Quero lá saber da m… do povo, se lhes falta a saúde, o desembrego cresce, a escola uma desgraça, a economia de pantanas… eu nem preciso disso, tenho dinheiro e sou inteligente e até sou muito bonito, tenho pena de isto não permitir incluir imagens, se não mostrava-lhes como sou belo.

  24. Luis Rainha:

    Podes discordar da análise de Valupi, mas seria conveniente que admitisses que a seguinte passagem é acertada:
    “A sociedade realiza-se no ter uma casa e um carro mais caros, para depois continuar a multiplicar os hipnóticos sinais exteriores de fartança”

    Repara eu não faço a advocacia do materialismo selvagem , e estou certo que também não é esse o objectivo do Valupi, mas se calhar vai sendo tempo da esquerda admitir que o desejo de bem estar material é uma condicionante do posicionamento político dos eleitores, ou não?

  25. A minha galinha é mais gorda do que a da vizinha, ai como eu sou feliz e me sinto realizado! e como a minha barriguinha está luzidiam é um gosto olhar para ela. Sou tão belo, tão inteligente e não me comprometo.

  26. Mas o Luís Oliveira ainda não percebeu que a “esquerda” não existe e o que existe são partidos: uns dizem-se de esquerda mas praticam (ou apoiam) medidas de direita e há um que de facto pratica o que prega? E este último, que é o meu, o que quer é que todos tenham oportunidades iguais e coisas importantes como empregos com direitos, oportunidades de educação, saúde, cultura, desporto, segurança social, etc.?

    E o que fizerem com o seu dinheiro tem a ver com os seus interesses, é assunto da sua escolha pessoal. Há quem queira casas maiores (eu prefiro-as mais pequenas, dão menos trabalho a limpar), há quem prefira carros novos (eu prefiro transportes públicos mais frequentes, principalmente à noite) há quem prefira férias cá, há quem invista em roupas…não temos nada que ver com isto. Eu se tivesse massas preferia investir numa casa com quintal, como não tenho, prefiro sonhar. Mas Luís Oliveira todos temos direito aos nossos sonhos.

  27. Margarida:

    Se reparares bem, o meu comentário tinha destinatário certo. O comentário que eu fiz ao Luis Rainha, não o faria a ti.

    Repara bem, isso que tu me dizes, vindo da tua boca é perfeitamente coerente, nada a apontar. Repara que no teu comentário não falaste nessa Meca da esquerda caviar: a FNAC. Caso o tivesses feito lá teria eu que te acusar de incoerência.

    Peço-te que compreendas que eu não posso dizer o que tu dizes aí em cima, sem me sentir um tanto ao quanto hipócrita. Mas isso sou eu, que tenho muito azar no amor e alguma sorte ao jogo.

    Quanto aos teus sonhos acredita que no fundo são os mesmos que os meus: que ao fim do mês houvessem menos portugueses a deitar contas ao ordenado.

  28. É isso mesmo Luís, e também mais futuro para a malta mais nova, mais segurança nos vínculos laborais, principalmente. Porque eles precisam dela.

  29. Margarida:

    Repara bem, nos objectivos estamos todos de acordo, até o reacionário do Valupi (presumo eu).

    A discórdia, a haver alguma, é na questão do caminho para lá chegar.

    As clivagens ideológicas não estão ao nível dos objectivos: todos concordamos que o objectivo é o desenvolvimento.

  30. Ó xatoo explica lá isso, é que se pode dar o caso de eu concordar contigo, mas primeiro preciso mesmo de perceber onde é que tu queres chegar.

  31. ” A sociedade para quem a televisão generalista e vácua chega e sobra, que não lê livros nem jornais, mas baba-se perante revistas cheias de retratos dos ufanos ricalhaços, reúne-se e festeja já só por causa do futebol, realiza-se no ter uma casa e um carro mais caros, para depois continuar a multiplicar os hipnóticos sinais exteriores de fartança, que prefere fechar-se em casa a participar na cidadania e que aceita com conivência a corrupção do vizinho, não speaka marxês.

    Se querem falar com esta gente, traduzam.”

    Eu acrescentaria: se querem falar com esta gente comecem pelo respeito e não a tratem como se fosse uma cambada de idiotas. Mas para isso claro, era necessário não ser de esquerda…….

  32. Margarida,

    A Teoria do Bom Selvagem não é o suporte, ou parte substancial do suporte, ideológico da esquerda ? Convenhamos que também o é da direita conservadora mas por motivos diferentes (embora com objectivos semelhantes)

  33. Texto engraçado. Gostei daquela do “euclideana”. Mas atenção que 4-dimensões não implica espaço-curvo, como chamou a atenção o F. Moura. Espaço de Minkowski é bem plano. ;)

    Inté.

  34. Random, concederás que não é isso que está em causa no que escrevi. Acontece é que o espaço de Einstein já não é euclidiano, e isso basta-me para fazer uma analogia. O espaço curva por causa da gravidade, etc. e tal.

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