Pagar o galo a Asclépio

O tema do Holocausto Nazi é aquele que, desde o início da WWW, mais flame wars provoca. Ao ponto de ser seguro abandonar qualquer discussão onde ele apareça, pois o que virá a seguir é o cardápio da irracionalidade. O tema do terrorismo sob bandeira islâmica vai por igual caminho. Unindo os dois temas, uma mesma fulguração: a lógica da ausência de sentido. Para designar essa experiência paradoxal, em que assistimos à organização metódica do caos, temos um palavrão com muito pouco gasto: derrelicção. Mas a derrelicção é tramada, não dá para um gajo se sentar e fumar um cigarro, fazer uma mijinha. Por isso, o costume é a malta voltar para trás e ir abancar noutro lado qualquer ou nem sequer lá entrar.

Quando alguém (seguramente de boa-fé, bem intencionado, “boa pessoa”; isso nem se discute, dando-se já como provado) se permite falar do Holocausto Nazi com a facilidade com que fala de pilinhas e bananas, apresentando uma contabilidade macabra como critério de valor e substância de argumentos, eu reconheço-me incapaz de retorquir. Porque fico triste, e depois dá-me para o silêncio. É que o nazismo continua a desafiar-me, e cada uma das suas vítimas a tentar falar comigo. Imagino-me lá, nessa época, em qualquer um dos lados da barricada, mas especialmente represento-me como cidadão alemão. Que teria feito? Teria sido cúmplice activo? Cúmplice passivo? Cobarde? Mártir? Herói? E acabo sempre com a suspeita de que teria sido mais um esmagado pela máquina nazi, provavelmente um cobarde. A mesma agonia trágica para o nosso período salazarista: teria tido a coragem daqueles que lutaram pela liberdade em Portugal ou teria sido um filho-da-puta qualquer?…


Quando alguém (indubitavelmente de boa-fé, bem intencionado, “boa pessoa”; isso nem se discute, dando-se já como provado) está a discutir um problema actual que só por analogia escabrosa permite ir buscar o Holocausto Nazi, é eticamente necessário que seja para acrescentar dignidade e inteligência à questão. Se não for, provoca o reverso. É que o nazismo continua a desafiar-me, e cada uma das suas vítimas a tentar falar comigo. Eu sei (e se eu sei, todos o podem saber) que nos campos de concentração nazis se testemunhou da Humanidade, cumprindo o sacrifício máximo que – para lá do entendimento – não consiste em dar a vida por alguém, mas resgatar a alma do seu carrasco. E essa fina película de humanidade, de tão fina, chega a ser invisível para os cínicos de todos os tempos e lugares. Os cínicos preferem os números, de preferência muito e muito grandes. Eles pensam que entre 6 milhões de mortos e 1 morto há uma diferença de quantidade que é em si uma qualidade. Pressente-se (ou imagina-se) até um fascínio aritmético, uma fruição estética involuntária da grandeza do crime. Não valeria a pena falar do nazismo se os mortos ficassem, digamos… ora, deixa lá ver… enfim, abaixo do milhão. Não teria o mesmo pathos. E eu, logo aqui ao lado, encontro uma manifestação da essência do nazismo naquele que é assassinado por causa de um adultério, de uma partilha ou de uma discussão no trânsito. A velha que é arrastada pelo chão para lhe roubarem a carteira e morre ou fica inválida, tal como a bebé de meses que é violada e seviciada, ambas são sujeitas à mesma força cósmica: aquela que rompe pelas porosidades da fina película de humanidade, vinda da animalidade. Aquela que não sabe o meu nome.

Quando alguém (absolutamente de boa-fé, bem intencionado, “boa pessoa”; isso nem se discute, dando-se já como provado) utiliza o recurso de invocar o Holocausto Nazi para se sonhar émulo do Vasco Pulido Valente, assim se projectando a calcorrear os palácios da elite cultural e mediática com discussões tu-cá-tu-lá by blog, podemos ter a certeza que essa gente acabou por transformar este particular crime num tropo. É que o nazismo continua a desafiar-me, e cada uma das suas vítimas a tentar falar comigo.

A minha civilização ensinou-me a ver no próximo o meu irmão. Ensinou-me que o sábado é feito para o Homem, não o Homem para o sábado. A minha civilização reconhece a todos o direito à vida e à dignidade, à segurança e à liberdade. É por causa da minha civilização que posso descobrir o que me une ao diferente. E respeitá-lo, querê-lo, na sua diferença. Até ao ponto de defender a sua diferença.

A minha civilização é, de facto, a civilização superior. Tão superior a todas as outras que bem se pode dizer estar entre o céu e a terra. Convidando-me a subir.

18 thoughts on “Pagar o galo a Asclépio”

  1. “Ensinou-me que o sábado é feito para o Homem, não o Homem para o sábado. A minha civilização reconhece a todos o direito à vida e à dignidade, à segurança e à liberdade. É por causa da minha civilização que posso descobrir o que me une ao diferente.” -> acho que chamam a isso “valores universais”. Vá-se lá saber porquê …

  2. Essa civilização é qual? A de todos ou só de alguns, os superiores. Se for de todos impossibilita a superioridade, se de alguns, quem serão os outros?
    A civilização é tua com ou sem exclusividade? Posso entrar nela e ser diferente de ti?
    Também gosto muito da minha merda, mas não a acho superior!

  3. Quem acertou foste tu (e não só no último parágrafo).
    A propósito do teu texto, sabes que na Alemanha é proibido falar com ligeireza sobre o nazismo, para não banalizar a memória? (por exemplo dizer “estas medidas do governo são nazis” ou coisa do género). Tanto quanto sei, a lei impede a utilização destas “analogias escabrosas” por forma a que no futuro, não seja natural falar-se de certas coisas como quem fala de bananas.

  4. Júlio, é a civilização do humanismo. Superior no sentido em que busca colocar-se acima das injustiças.

    Fernando, como ouvi a um professor de dionisíaca alma, “o caminho é igual para todos, mas eu prefiro fazê-lo a derrapar nas curvas…”.

    Tuga, é isso. Não deixar que a evocação apague a memória.

  5. Quem começar a ler este texto até imagina que o holocausto para o Valupi é como Maomé para os muçulmanos: ninguém tem o direito de o respresentar.

    No entanto, há uma exepção de monta. A do próprio Valupi. “o nazismo continua a desafiar-me, e cada uma das suas vítimas a tentar falar comigo”, diz ele, antes de um florilégio de dilemas morais.

    Mas o Valupi é mais do que um polícia sinaleiro que nos diz quando, de que modo e com que estilo se pode falar do holocausto. É também um telepata que intui as motivações de cada um: enquanto ele continua a ser interpelado pelas vítimas do nazismo, há outro que “utiliza o recurso de invocar o Holocausto Nazi para se sonhar émulo do Vasco Pulido Valente”.

    Entretanto, nestas intermitências do holocausto, a civilização onde ele se deu (como muitos outros horrores que listei num post aí abaixo e muitos outros que ficaram por listar) emerge superior, “entre o céu e a terra”.

    Valupi: este texto, além da sua argumentação assaz tortuosa, é capcioso pela forma como supõe a preferência retórica por números grandes de mortos a alguém que repete estar de “boa-fé”, desonesto precisamente pelo juízo de intenções (a pessoa a quem se refere “utiliza o recurso do holocausto… assim se projectando a calcorrear os palácios da elite cultural”) e, acima de tudo, muitíssimo cobarde por não nomear o seu interlocutor mas não resistir a identificá-lo através de dados concretos. Uma bela colecção de vícios para quem abomina o cinismo e se apresenta como detentor de dilemas morais e uma superioridade civilizacional tão perfeita…

    Nada disto, no entanto, teria importância se o texto levasse a uma conclusão importante e bem defendida. Lamentavelmente, isto que escreveu não tem ponta de congruência interna ou consistência por onde se pegue.

  6. Rui Tavares, serás tu o mesmo que me ignorou na caixa de comentários do post “Uma excelente ideia”, mas que não te inibiste de me envolver numa resposta ao Fernando Venâncio?

    Rui Tavares, achas que alguém que leia o Aspirina B, onde eu escrevo e para onde eu escrevo, precisa do teu nome chapado no que escrevi para saber de quem falo e porque falo como falo?

    Rui Tavares, se não aprecias o juízo de intenções, por que raio o praticas?

    É só para saber.

  7. «minha civilização reconhece a todos o direito à vida e à dignidade, à segurança e à liberdade.»

    Qual é exactamente a tua civilização? Fiquei cheio de vontade de a conhecer. Deve ser um Paraíso. A sério! Mas, pensando melhor, é melhor não dizeres. O pessoal, o da minha civilização, não descansaria enquanto não chegasse lá, sugasse o que houvesse para sugar, e deixasse isso aí de pantanas. Abraços aos teus, que são felizes.

  8. Tenho a certeza que me vais explicar a génese da minha civilização, quiçá o seu destino, quando revelares às massas como a Esquerda nasceu da compaixão de Cristo. Sê breve, tá?

  9. Valupi,
    Parece-me ver em ti uma ligeira irritação…
    Posso escrever 10 páginas deste candente problema de “como a Esquerda nasceu da compaixão de Cristo.”?

  10. Camarada Nuno, estás a oferecer-te para escrever as 10 páginas ou a ironizar com a candência? É que, em qualquer dos casos, deves falar com o Daniel; visto ter sido ele, numa caixa de comentários lá para baixo, quem anunciou que ia apresentar a tese.

    Claro, se te juntares ao exercício, é iluminação a dobrar para os leitores.

  11. Caro Valupi:

    Que reconhecia bem a conjuntura periclitante das suas escritas “by blog” não resta dúvida.

    E, para espanto de algumas luminárias invejosas (o que não passa, no fundo, de um saudável reconhecimento dos benefícios da concorrência), lá vai levando a água ao seu moinho, nos interstícios de alguns capciosismos, turtuosidades e florilégios.

    Atentarei ao possível evento de as suas candências cometerem o sortilégio de ofuscar (apesar da boa-fé, dê-se já como provado) outras bem mais prementes, tais como a hortofloricultura de interiores, ou a noite de núpcias da lena.

    Abraço

  12. Caro Cirilo

    Muito obrigado pelas suas sibilinas palavras. Também eu ficarei atento aos sortilégios vários que regem a actual circunstância, olhos postos na lição heraclitiana que convida a esperar o inesperado.

    Abraço

  13. O Daniel Oliveira tem toda a razão. Não é pelo facto de a civilização ocidental ter inventado o relativismo, de que ele se faz arauto, que deve ser considerada superior ao mundo moral e politicamente policiado do Islão. Grande erro, esse, sem dúvida. Era o que faltava, considerarmos superior a civilização ocidental só porque inventou os conceito de liberdade, de igualdade jurídica e de laicismo; só porque descobriu que a mulher tem os mesmos direitos que o homem, que os pais não têm direito de matar as filhas adúlteras, que os Pasolinis têm o direito de ofender os católicos e os católicos de ofender os Pasolinis, etc, etc.
    Francamente, considerar tal civilização superior a uma outra em que vigora a censura e onde a corrupção constitui mais a norma do que excepção, é um verdadeiro escândalo!
    Tão escandaloso como considerar a prosa de Faulkner superior à de Pepetela, ou a pintura de Cezanne melhor do que a de Silva Pinto, ou o cozido à portuguesa mais saboroso e equilibrado do que um hambúrger MacDonald.
    É tudo uma questão de gosto, não há valores absolutos, e só por arrogância e espírito neo-colonial é que os ocidentais podem defender a superioridade da sua cultura.
    Eu, por uma questão de gosto, nunca viveria num país onde só houvesse um jornal, um canal de televisão, uma opinião, e onde a polícia dos costumes mostrasse vivo interesse em saber como e com quem desempenho eu as minhas performances sexuais, e onde as livrarias só vendessem missais e obras de divulgação piedosa, e onde todos as exposiçoes fossem de arte sacra, e onde a minha mulher não me pudesse acompanhar ao café ou ao mais requintado bordel para casais em crise, etc., etc., etc.
    Mas com isto, claro, estou apenas a exprimir a minha preferência pessoal, trata-se apenas de uma questão de gosto. Compreendo perfeitamente, e aceito, que o Daniel Oliveira prefira o contrário, e nada me espantaria (pois suponho-o um homem coerente) saber que ele está já de malas feitas para o Médio Oriente.

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