Cristo é muito superior a Maomé

São factos objectivos e indiscutíveis. Cristo é Deus, enquanto Maomé não passa de um profeta; não jogam sequer na mesma divisão. Para encontrar um rival de Cristo temos de chamar Alá. Cristo contra Alá termina sempre em empate, é duplamente monótono. Ao nível de Maomé estão Moisés e João Baptista; este último com um estatuto mais ambíguo. Toda esta gente tem parentes em comum, daí as quezílias nas partilhas. Mas quem vê superioridades e respectivas inferioridades? Só crentes e enciclopedistas. Ao lado, discretos, há também aqueles para quem Cristo e Maomé são apenas dois personagens numa estória de fricção. E este grupo tem a lucidez de atribuir igual importância a qualquer personagem, como bons amantes de literatura.


O que a crise dos bonecos teve de surpreendente diz respeito aos ocidentais. As manifestações da turbamulta para CNN ver, manipuladas e/ou espontâneas, despertam na alma ocidental um pasmo libertador. É que o 11 de Setembro calou-nos e apavorou-nos. A magnitude e simbolismo do atentado ultrapassaram as nossas categorias de racionalização. E as ameaças que se sucederam, numa lógica de “quanto pior, melhor”, mantiveram o trauma. Do lado do Islão, assistiu-se a uma absoluta passividade, à mistura com irrupções de incontida satisfação em certos nichos. Raras são as vozes muçulmanas a denunciar os crimes contra a humanidade quando o alvo é ocidental, crimes que acontecem sempre que morre ou se fere um inocente. Porque também aqueles que se indignam com a loucura travestida de martírio estão sufocados pelo terror. É um terror que serve as castas do poder, configura uma nova modalidade de “guerra fria”, onde os povos são privados de educação e liberdade.

Ora, não fui eu quem deu a ordem para a invasão do Iraque. E, caso me tivessem perguntado, teria aconselhado a não o fazerem. Tal como não sou eu que guio os bombardeamentos nos palcos da guerra. Eu sou apenas um gajo que paga impostos e vota sempre que pode. Mas acontece-me admirar o modo de vida ocidental, até porque encontro nele o espaço para fazer a sua crítica e a sua denúncia. Perante o ridículo da desproporção entre uma sátira mediática num país que a permite legalmente e uma violência material que viola soberanias, algo de racional nasce da bestialidade assim tão bem desenhada.

Finalmente, chegou a vontade de tentar falar com essa gente. Propor um encontro à volta de umas cervejas e taças de chá (é opcional) e perguntar “Ó pazinhos, mas o que é que se passa nessas cabeças?… Vamos lá resolver isto”. Porque nós, ocidentais malandros, temos um treino apuradíssimo na arte da discussão. Foi também com esse recurso que nos conseguimos ver livres de vontades de poder malignas vindas do cu da História, como o foram as monarquias, as aristocracias, as religiões. Muito a custo, longa e duramente, com o sangue de milhões, chegámos a uma sociedade democrática, republicana e laica onde os Direitos do Homem são um território de consensos idealistas. Hoje, cada um de nós faz o que lhe dá na real gana, vivemos na cultura do individualismo e vemos as monarquias e religiões (mesmo os partidos…) como objectos de folclore ou consumismo. De tal modo isto é assim que até estávamos a ficar preocupados com tamanha lassidão, tão flagrante ausência de crenças agregadoras. Pois bem, a loucura dos irmãos e imãs muçulmanos que se deixam ir na retórica suicida dos psicopatas tem o efeito de nos despertar do torpor. Sim, nós somos ocidentais, muito obrigado. E queremos continuar a ser; desculpem lá, ’tá?…

Gostava de perguntar aos muçulmanos que se sentem ofendidos com os bonecos se também se sentem ofendidos com a morte de inocentes ocidentais, vítimas indiscriminadas, velhos e crianças de ambos os sexos. No caso de responderem afirmativamente, gostava de saber o que fazem eles para evitar essa carnificina regular. Gostava de perguntar aos muçulmanos que detectam blasfémias em exercícios de humor anódino o que acham do facto de milhões de ocidentais terem já protestado nas ruas contra a invasão do Iraque e quejandos, que vota em políticos que não defendem essas políticas, que envia dinheiro, remédios e mantimentos para esses povos em sofrimento e que se oferecem para ir até ao terreno da guerra, arriscando as suas vidas em nome das deles. É que essas pessoas também trabalham em prédios altos, entram em comboios, andam de metro.

Não há blasfémia alguma neste caso dos bonecos. A questão não é hermenêutica, é geográfica. Na Dinamarca existe o direito de retratar o profeta Maomé. Fim da história. Ninguém foi pedir conselho aos dinamarqueses sobre os mandamentos nascidos do Corão, nem os povos que os seguem estão minimamente interessados em conhecer a opinião dos dinamarqueses sobre o assunto. Afirmar uma blasfémia em relação a uma nação em que a categoria não tem legitimidade sequer cultural é um acto fascista que tem como implícito a ideia de não poderem existir sociedades laicas. Ao limite, ver uma blasfémia nos bonecos é só um passo anterior a se dizer que se vê uma blasfémia no pensamento.

Sim. Sim, sim. Oh, sim! Eu, pelo menos, quero ser superior ao fascismo. Mesmo que a minha civilização me dê tantas alegrias como me dá tristezas.

39 thoughts on “Cristo é muito superior a Maomé”

  1. E se em Lisboa houvesse o direito de publicar uma foto tua como famoso pedófilo, só por exemplo? Estavas tão sereno a esta hora?

  2. Grande revolução teológica: Cristo é Deus e empata com Alá.Há alguns anos, por menos que isto e ias para a fogueira.

  3. Olha que “blasfémia”, tendo origem em “blaptein” e “pheme”, implica ofensa ao bom-nome; não terá por lei esse carácter “teoclasta” que lhe atribuis automaticamente. E mesmo uma definição que ali caia, como a de Suarez, descreve-a como qualquer palavra de censura ou maldição pronunciada contra Deus. Não me parece que seja necessário viver em alegre teocracia para aceitar a existência de blasfémias. Isso, no limite, levar-me-ia a poder ignorar com acinte a dignidade das crenças, afectos e ideais dos que me rodeiam, pois deles não comungo. Caminho perigoso…

  4. Valupi,

    “Dois” personagens ou duas personagens, tanto faz, nesta idade de mariquice libertadora…

    Ademais, há por aí por gente que diz que o Leonardo, outro libertado da área retro-mediana, deixou a mensagem pintada de que o Batista era, de facto, a Madalena, ou o verdadeiro Cristo. Que confusão biblica, meu Deus!

    Enfim, tinhas que vir passar a última demão nesta pintura das confusões.

    Eu como não sou geógrafo, vou mais pela operação psicológica desenhada para manter as raivas das bailarinas contra o terror criado pelo departamento terrorista dos enormes macacos do Império. Vai aproveitando o teu refresco. Nunca se sabe as temperaturas que nos andam a preparar para os amanhãs.

  5. Muito bom, este post. O essencial do que está em causa nesta “crise dos cartoons” e que importa reter está aqui:

    “A questão não é hermenêutica, é geográfica. Na Dinamarca existe o direito de retratar o profeta Maomé. Fim da história. Ninguém foi pedir conselho aos dinamarqueses sobre os mandamentos nascidos do Corão, nem os povos que os seguem estão minimamente interessados em conhecer a opinião dos dinamarqueses sobre o assunto. Afirmar uma blasfémia em relação a uma nação em que a categoria não tem legitimidade sequer cultural é um acto fascista que tem como implícito a ideia de não poderem existir sociedades laicas.”

    Simples e muito bem enunciado. Assim alguma esquerda estranhamente complexada com um multiculturalismo exacerbado o compreendesse…

  6. Minha boa Senhora Dona Ermelinda,
    agora é que eu li bem o seu comentário! A resposta à minha anterior questão vem logo ao princípio, quando diz
    «”Dois” personagens ou duas personagens, tanto faz, nesta idade de mariquice libertadora…»

    Portanto, por essa ordem de ideias «geógrafo» ou «geógrafa» tanto faz, nesta idade dos «libertado da área retro-mediana». É assim?

    Enfim, tinha eu, que dizem que sou físico, que vir aqui passar a última demão nesta pintura das confusões, não é?

    Despeço-me respeitosamente.

  7. O facto objectivo e indiscutível para os muçulmanos, é que Jesus é apenas mais um profeta. Desculpai, Valupi, o mau jeito, entre o do desmancha-prazeres e o do desmancha-motes, assassino de parábolas, assim fenece mais uma alegria que a vossa civilização vos dava.

    Pois, pois, relativismos, eu sei, não é o vosso caso, pois claro, é só para esses gajos que são capazes de pensar em duas coisas ao mesmo tempo e, ainda por cima, tentam perceber o que passa entre elas…

    Mas, por quem sois, continuai, que bem vos cai a pregação e essa geografia da blasfémia é um portento, e viva a liberdade e a expressão, a ex-pressão (que em livre acepção também os peidos são), ainda havemos de vos ver, com outras aves que migram e mudam e modam, a semear a pandemia da estupidez. Sim, sim e sim. Oxalá, oxalá e oxalá. Amen, amen e amen.

  8. Valupi: Não foi você que deu a ordem para a invasão do Iraque. Nem será você a dar a ordem do iminente bombardeamento nuclear do Irão que se anuncia como coisa natural e corrente nos nossos media livres e plurais. E como não vão pedir o seu conselho, você estará imaculado, sem culpa. Afinal você nem vota para isso.
    Você convenceu-me, somos os maiores. Temos que fazer qualquer coisa, organizarmo-nos, política de bases…
    Espere, já sei! Em vez de os bombardearmos, porque é que não fazemos um boicote?
    É isso! Um boicote aos produtos árabes. Olhe, até já tenho o slogan para os cartazes:

    SOMOS TODOS DINAMARQUESES!
    NEM MAIS UMA GOTA DE PETRÒLEO MAOMETANO NOS NOSSOS CARROS.

  9. Pedro Almeida, elogio excessivo, que aceito como um faminto.

    Anónimo, se houvesse esse direito, eu ficaria muito inquieto.

    Nuno, a tua obsessão com fogueiras está deixar-me inquieto. Aqui entre nós que ninguém nos lê: és pirómano? Quanto à tua questão, na parte meramente conceptual da coisa, estás a brincar, certo?… Mas se não estás, qualquer catecismo te esclarece o afrontamento. E deixa-me partilhar uma perplexidade contigo: se perante um texto que defende um tese retintamente laica tu expeles um comentário que manda conteúdo e autor para a fogueira, como seria se eu estivesse a defender o direito à crença religiosa?… Guilhotina, seguido de fuzilamento e braseiro?

    João P. Carvalho, já te responderam, mas eu confirmo: no cristianismo, et pour cause, o Cristo é Deus (Deus feito Homem, blá, blá, blá).

    Luís, bizarro raciocínio o teu, para mais vindo de quem vem. Então a blasfémia é uma palavra de censura contra Deus ou “maldição” e nós temos alguma coisa a ver com o assunto?! Queres dizer que os ateus estão feitos ao bife? Vejamos, Deus tem um bom-nome a ser defendido juridicamente? Já agora, qual é a entidade que representa Deus na Terra? E, por favor, explica-me o seguinte: eu não tenho o direito a poder ignorar com acinte a dignidade de crenças, afectos e ideais dos que me rodeiam?! Desculpa lá, mas algo de profundamente abstruso está a fazer-te cair de caras no sofisma.

    O que eu tenho a fazer é, tão-somente, cumprir com o código legislativo do Estado onde estiver, seja como cidadão, seja como turista. Assim, desde que não impeça ou danifique a crença alheia, posso usufruir de todo o desprezo e acinte que me apetecer. E, no caso dos cartoons, a crença não está a ser ofendida pois não se põe em causa o direito a exibi-la ou realizá-la. Aliás, nem sequer Deus ou o Corão são alvo de algum ataque. Apenas se faz uma intervenção contextualizada num registo laico, para efeitos de crítica política e sociológica. Por essa lógica, a “Vida de Brian”, dos Monty Phyton, seria uma blasfémia; o “Evangelho Segundo Jesus Cristo”, do Saramago, seria uma blasfémia; as fotografias do Júlio Roriz seriam uma blasfémia, assim como milhares e milhares de outras obras que são interpretações e exercícios criativos sobre temas religiosos. Sim, os poderes sempre se incomodaram com o humor, razão pela qual o humor sempre foi, de alguma forma, libertino e libertário.

    A noção de blasfémia só tem significado operativo, pragmático, em quadro axiológico religioso; não se aplica em Direito laico, como é óbvio. O que se defende legalmente é o acesso à experiência religiosa e ao culto, seja sob que forma for, mas desde que não colida com a Constituição. Supostas ofensas intelectuais são matéria de opinião e, como tal, fazem parte do palco social onde cada um é livre de pensar o que bem lhe apetecer e discorrer conforme. Se não fosse assim, estaria a admitir-se a manipulação do Estado por um qualquer clero e seu Deus de temperamento demasiado humano.

    Pasmo ao ler-te, pois pensava que esta era uma saborosa bandeira da Esquerda. Mas longe vão os tempos em que se perseguiam os traficantes de ópio, está visto… A não ser que estejas é a querer dizer que a liberdade é um caminho perigoso; no que concordaremos a 300%.

    Ermelinda e Tadeu, sois sempre oportunos e atentos. Quanto ao feminino/masculino de “personagem” tendes razão. Reparai que faço uso duplo do género, facto que atribuo a um dilema que se vem instalando e que me parece frutuoso. Para efeitos de vernáculo, a tradição portuguesa recomenda o feminino.

    Tenente, só é pena não ser um xeque-mate.

    Outro anónimo, não assinei. Não acredito na eficácia. Mas simpatizo com a iniciativa; é dela, e de outros sinais, que falo acima.

    Olá Filipe. A Ermelinda e o Tio são uma mesma personagem. Corrijo, são um só personagem, que conheces bem e aprecias muito de outros carnavais.

    Sm, ensandeceste. Mas com graça, o que é sempre de realçar e agradecer.

    Map, estás muito melhor informado do que eu, admito. Aliás, estás bem informado demais para os meus frágeis neurónios. Poupa-me.

  10. “A Ermelinda e o Tio são uma mesma personagem. Corrijo, são um só personagem, que conheces bem e aprecias muito de outros carnavais.”

    É esse o problema dele … é que ele muda de ponto de vista com tal mestria e rapidez que quando cria dois personagens com nicks diferentes um gajo nem é capaz de distinguir …

  11. Filipe Moura,

    Havia um “como tu” subentendido a seguir ao “geográfo”, mas como tu não trouxeste a lamparina de aumentar, não viste.

    Alem disso, mesmo gramaticalmente, todos nos, independentemente das cuecas que vestimos, podemos dizer que não somos tudo o que nos apetecer. De geógrafos a carapaus de corrida e panelas de pressão. A menos, claro, que o Fernando Venâncio discorde disso, e ai já dou o braço a torcer.

    Luis Oliveira,

    Duas personagens, chiça que és b..teimoso. E obrigado pela “mestria”, mas dispenso.

    Dona Ermelinda

  12. Ermelinda, querida:

    Os gramáticos recomendam (e uma recomendação deles é – ou quer ser – uma ordem) que se diga A personagem. Mas, pessoalmente (e isto será sempre para os gramáticos uma reles sugestão), não me choca O personagem. Se era disto que falavas. Já estou por tudo.

    Mas aconchega as costas: sou, no geral, muito menos tolerante. Aqui, está visto, desvaneei com o teu apelo à minha autoridade.

  13. Na prática, Alá ganha porque Cristo faz parte de uma tríada e Alá é uno. Logo, Cristo será uma terça parte de uma divindade.

    Mas isso depende da forma como vemos as figuras: de acordo com a Bíblia, Maomé nem conta prá equação. Se virmos de acordo com o Corão, Cristo e Maomé são ambos profetas…

    E não esqueçamos da blasfémias relacionadas com as vacas sagradas! Não haverá para aí algum hindu com tendências pirómanas?

  14. Valupi,

    Esse teu ponto de vista legalista é muito frágil. Tornas imorais actos como a captura de Eichmann pelos israelitas, castigos a criminosos de guerra cobertos pelas leis locais, as queixas contra Pinochet, quase todo o trabalho do TPI. Bastaria a um genocida vencedor ter operado dentro de leis que provavelmente até teria desenhado para o veres como intocável e inatacável.
    Não Valupi: desde há muito que não nos basta o respeito aos “códigos legislativos” particulares para atingirmos a impunidade e a liberdade absolutas. Os julgamentos de Nuremberga foram prova disso.

    Mas vamos por partes. O que escrevi, antes de tudo o mais, é que “blasfémia” é, etimologicamente, um atentado ao bom-nome. De Deus ou de outrem. E a definição desse substantivo continua a fazer sentido, embora eu não acredite na vítima da ofensa.
    Claro que Saramago blasfemou, O Júlio blasfemou e até eu já tive muito gozo em publicar um livro integralmente blasfemo. Mas fi-lo consciente de que estava a ofender muita gente (só que a propósito de um capítulo da fé comum que eu considero eivado de charlatanismo, mas isto já é outra missa). Deus não existe? E deixa assim de existir o acto de proferir ofensas que o tenham por alvo? Não é por eu não acreditar no labor da astrologia que ela cessa de ser. Esta é a verdadeira questão, não o quadro legal da coisa, fora do Direito Canónico.

    Tu tens o direito a ignorar o que quiseres; não to neguei. E teria eu aqui e agora o “direito” de ofender os teus pais? Eles também não fazem parte do meu mundo íntimo, logo… serão um alvo legitimo para a minha liberdade? Não, não teria esse direito, pelo menos legalmente: sempre houve, embora não demos muito por isso, baias em redor da nossa liberdade de expressão.
    Se hoje me arrependo vagamente do cartaz que fiz para a San Miguel, é apenas porque vejo agora que, para muita gente, deparar a todo o momento com aquela imagem na rua podia bem saber a um contínuo cair de chapadas sobre os seus rostos. E tenho o dever moral de evitar ofensas gratuitas aos meus semelhantes (sim, imagina que o pessoal ateu e de esquerda também sente as picadas incómodas desse Grilo Falante, a moral).
    No entanto, o que aqui está em causa ultrapassa em muito a mera obediência à lei do território onde se age. Ou julgas tu que basta a uma boa cristã (por exemplo) passar a fronteira com Espanha para poder abortar à vontade, sem ultrapassar fronteiras morais que para ela são sérias? Por outro lado, esse teu conceito de territorialismo não me parece conforme à nossa lei; mas quanto a isso que me elucidem os juristas que por aqui passem.
    E nem moralmente faz muito sentido. Imagina que levo a minha mulher adúltera a passear ao Irão. Aí, convenço um mullah qualquer a passar uma sentença válida e merecida (face ao quadro do “código legislativo” local); a lapidação subsequente seria coisa moralmente aceitável para mim? E para ti, tudo o que respeite esses “códigos” passa a ser prática sã e aceitável? A Sharia, aplicada com rigor, não te repugna?
    E o que será isso, ao certo, de “danificar a crença alheia”? No caso de alguns dos cartoons em discussão (pelo menos naquele com o Maomé de bomba no turbante) houve um ataque propositado a uma figura que milhões consideram como santo profeta. Se havia direito a fazê-lo? Claro que sim! É defensável, do ponto de vista moral e editorial, a publicação dessas imagens, como provocação deliberada a uma comunidade que já se sabe volátil de humores? Isso já me parece discutível.

    Confirmo-te com gosto que a liberdade é um caminho perigoso. A merecer, de quando em vez, passos cautelosos. Como devia ter acontecido agora.

  15. Cristo tal como Maomé são Profetas para o Islão. Só que o segundo é O Profeta e Cristo é UM profeta. Estão na mesma divisão, como Moisés, o profeta de Jeová. Claro que o cristianismo andou às voltas durante séculos com a divindade de Cristo e acabou por assentar em que, sim senhor, Cristo é Deus. Mas é fundamentalmente o messageiro, o messias, o profeta.

    ” É que o 11 de Setembro calou-nos e apavorou-nos. A magnitude e simbolismo do atentado ultrapassaram as nossas categorias de racionalização”: exageros e histerias buxistas. Confundem um arranhão (2800 mortos) com os verdadeiros massacres que lhe deram origem (mais de cem mil mortos ns Guerra do Golfo de 91, 500.000 no subsequente embargo, etc.). Os americanos precisam de uma verdadeira catástrofe at home para saberem o que é a guerra… Consideram que salvaram a Europa com 100.000 baixas em 44/45, esquecemdo-se de que os europeus deram aí o litro e durante muito mais tempo (30 milhões de mortos de 39 a 45). Se o 9/11 foi uma viragem da história “que ultrapassa as nossas categorias de racionalização”, então o que foram Dresden e Hiroxima, Tóquio, Bagdad e a auto-estrada da morte ? Tenham juízo. Se continuan assim ainda vão ter razões a sério para se queixarem… o 9/11 foi apenas uma (limitada) e legítima retaliação militar (de guerra assimétrica) pelos massacres no Iraque e a Palestina. É que quem vai à guerra dá e leva… E é claro que todo o mundo muçulmano gostou. Só achou é pouco…

    “Gostava de perguntar aos muçulmanos que se sentem ofendidos com os bonecos se também se sentem ofendidos com a morte de inocentes ocidentais, vítimas indiscriminadas, velhos e crianças de ambos os sexos. No caso de responderem afirmativamente, gostava de saber o que fazem eles para evitar essa carnificina regular”
    Não, eles não se sentem ofendidos com essas mortes, porque são uma mera retaliação legítima de MUITO MAIS mortes civis causadas no Médio Oriente pelos busho-sionistas, os criminosos desencadeadores da guerra unilateral. Só lhes sabem a pouco… A primeira necessidade de um povo massacrado é vingar os seus mortos com o sangue do agressor…E se não têm aviões, fazem do corpo um avião…

    Que fazer para o evitar ? É simples, não ocupar, retirar de todos os territórios islâmicos. Todos o dizem, até Bin Laden… Enquanto tal não acontecer, a guerra continua. Incluindo no território do inimigo, porque isso não é proibido pelas leis da guerra. E isso é guerra (assimátrica), não é terrorismo. Guerra desencadeada ilegalmente pelos cruzados nazi-sionistas, assinale-se. A resistência à ocupação essa é sempre legítima.

    “A questão não é hermenêutica, é geográfica. Na Dinamarca existe o direito de retratar o profeta Maomé. ”
    Errado. Na Dinamarca, como em todos os países, existe no Código Penal o crime de blasfémia. Logo, os cartoonistas são cxriminosos. O problema é que a jurisprudência é aí permissiva demais, excepto quando o judaísmo é atingido. O que é inconstitucional e viola a igualdade perante a lei. É um escândalo que na Europa negar o hiolocausto seja crime e insultar Cristo não seja punido na pratica! Isso choca imensamente os muçulmanos. Por isso, o Pres. iraniano disse que os europeus elevaram o holocausto a mito quase divino e colocaram-no no lugar de Deus. Por isso, o Irão retalia não caricaturando Cristo (já que os europeus são indiferentes a isso) mas o holocausto (o verdadeiro deus ou tabu dos europeus). E as leis não se fazem apenas para proteger interesses nacionais, mas também a paz mundial (que é também do interesse da Dinamarca, presume-se). Logo, o facto de residir na Dinamarca não me dá o direito de insultar Maomé, porque isso pode ter repercussões na própria Dinamarca, como agora se vê. Estamos num mundo globalizado… Em França os tribunais vão julgar o Charlie Hebdo… vamos ver se aplicam o mesmo critério das blasfémias anti-judaicas…

  16. “Sm, ensandeceste.” (Valupi)
    “Estas afirmações, consideradas “graves”, motivaram, ontem, o requerimento do PSD [de avaliação das faculdades mentais] onde podia ler-se que as palavras do deputado do PS “indiciam demência, tal o absurdo e o insulto que revestem”.”(J.N., 09/02/06)

    Pois claro, ensandeci. É sempre assim: seja Valupi, seja Jardim, apanham-nos distraídos, querem fazer-nos levantar vôo, mas, se a gente embarcasse na superioridade da civilização deles, quando déssemos por nós, já teríamos aterrado no Funchal. Depois, seria apenas uma questão de requerimentos, algumas formalidades burocráticas, enfim, legalidades locais, talvez uma douta citação sobre o conceito de geografia da blasfémia.

  17. Luis Rainha,

    Escreveste, em minha opinião, o coment]ario que deveria pôr, mas duvido que ponha, ponto final a esta questão, a esta campanha desnaturada, diabólica e maquiavélica para convencer psicologicamente o indigena português a alinhar politicamente nas aventuras contra o povo do Islão. Espero que a gente mal informada que aqui vem urinar opiniões repescadas na media vendida aproveite algum do miolo e da côdea do teu arrazoado.

    Felizmente, esta noite ainda será uma noite de luar para as minorias…

    Andronicus

  18. EUROLIBERAL,

    “Tenham juízo. Se continuan assim ainda vão ter razões a sério para se queixarem… o 9/11 foi apenas uma (limitada) e legítima retaliação militar (de guerra assimétrica) pelos massacres no Iraque e a Palestina. É que quem vai à guerra dá e leva… E é claro que todo o mundo muçulmano gostou. Só achou é pouco…”

    “Enquanto tal não acontecer, a guerra continua. Incluindo no território do inimigo, porque isso não é proibido pelas leis da guerra. E isso é guerra (assimátrica), não é terrorismo. Guerra desencadeada ilegalmente pelos cruzados nazi-sionistas, assinale-se. A resistência à ocupação essa é sempre legítima”.

    E tu queres convencer-me, com essas duas pérolas aí em cima, que não és um agente provocador da Mossad ou da CIA, unleashed among the portuguese bloguers to supply unmistakable evidence to the socialist government that fundamentalist Islam is spreading fast accross the blogospheric Algarves? Try harder, patsy.

    There are a few signs that give you away.

    First – You’re, as you say, a liberal. Really bad choice of clothes, mate. Modern liberals do not behave like fanatics; the Lawrence of Arabian idea is spent, dead and buried; neither do normal Christians, as you say you are, who sincerely believe in God;

    Second – You believe in Bin Laden, but Bin Laden does not care a little bit about you, not a fucking chance there, because he is almost certainly a tool created by Bush and his clique. If he weren’t, he would have already been caught and embalmed, as they caught Sadam after the bombing of Baghdad, and Guevara and many others before him; probably he is living in a nice villa with swimming pool surrounded by cypresses and palm trees somewhere in Saudi Arabia, changing his blood every other day;

    Third – You are a believer in the official story of the 9-11, topped by martyrs and all the rest, despite half a million internet sites believing in anything but that. And even if I don’t get my news from the “best station in the world”, your darling AL-Jazheera, I have no problem with accepting that they are better informed than you on that particular subject. Therefore, a dork who works with Google knows better than you. So does any duck. As simple as that. The only difference is that Bush and company need lots and lots and lots of idiots spreading the word around the world that Al Khaeda did it. Suits him. This reveals the real you more than anything else.

    Fourth – You are not anti-Bush, you are anti-American. Bad move and bad choice of weapons. And that makes shit of anything political coming out of your mouth. Your model is Europe because Europe is the key, the matrix. You are tired of the Yankees but I am not going waste my time explaining these things to you because you are a purpose built ignorant, probably injected with some serum.

    Of course, I could be wrong. But then you had to be unbalanced, which in itself is sad and not an easy thing to solve. I am prepared to help you. Try to write all your comments in the same spirit of the last ten or twelve lines of your post. Other than that, you have to face reality: Anacardium Orientale 50 million C – single dose, as any homeopath will confirm to you.

  19. Euroliberal,

    sabes que na escatologia islâmica sufi se protetiza que no fim dos tempos, depois do Encoberto se “descobrir” – será este o Mahdi que instaura um reino de paz e justiça entre os filhos de Abraão e derrota os ímpios – Ele virá em glória para coroar o epílogo da História dos homens. Ele não será Maomé, mas Issa, Jesus, o filho de Maria…Enfim, profecias…

  20. Pequeno esclarecimento sobre o 9/11 para uso de cínicos, incrédulos e desinformados

    O 9/11: Foi um acto de retaliação militar da Nação árabe (o comando que o executou era uma verdadeira selecção árabe)pelos massacres na Palestina desde 1948 (em que o apoio americano aos sionistas foi e é determinante) e no Iraque e Irão desde 1979:

    1) guerra Irão-Iraque, um milhão de mortos; os EUA desejosos de esmagarem Khomeini enviaram contra ele o seu agente Saddam e ajudaram-no maciçamente durante a guerra. Também ajudaram o Irão (Contragate) quando o Iraque parecia estar a ganhar, segundo o principio de que quando dois países muçulmanos se massacram mutuamente quem ganha são os sionistas…

    2) crimes de guerra no Golfo em 1991: na autoestrada da morte Koweit-Bassorá, dois dias depois do cessar-fogo o grosso do exército iraquiano em retirada
    sem precauções militares e a descoberto foi atacado cobardemente durante cinco horas por toda a aviação americana. Deste tiro aos “sitting ducks” (assim o descreveram os aviadores) resultaram cerca de 100.000 mortos carbonizados. Uma divisão inteira foi também deliberadamente enterrada viva quando os tanques americanos passaram sobre as saidas dos seus profundos abrigos no deserto, numa altura em que a guerra já tinha acabado e as tropas se rendiam em massa.

    3) crimes de guerra contra os xiitas iraquianos em 91 (300.000 mortos): os EUA preferiam Saddam aos chiitas “khomeinistas”. Por isso não foram até Bagdad e armaram uma armadilha criminosa aos chiitas: incitaram-nos a levantarem-se contra Saddam prometendo-lhes que viriam ajudá-los. Não foram e assistiram impávidos e com grande prazer a poucos Km ao massacre pelos saddamistas de 300.000 chiitas em todo o centro e sul do Iraque. Chegaram a dar autorização aos helicópteros iraquianos para voarem na no-fly zone a fim de melhor afogarem em sangue a rebelião. Por detrás disto, tal como na guerra 79/88 contra o Irão, e no Iraque de hoje, está o lobby sionista e o seu plano satânico de dividir para reinar, à custa de milhões de mortos de povos “não eleitos”.
    4) urânio empobrecido e embargo 1991/2003: o uso intensivo do urânio nas bombas provocou em todo o Iraque sobretudo no Sul centenas de milhares de recém-nascidos disformes e cancerosos. O embargo fez cair brutalmente o nível de vida de um povo até aí rico. A fome e as doenças levaram centenas de milhares, sobretudo crianças (500.000 segundo a Unicef) e velhos.

    Por tudo isto, um punhado de patriotas pertencentes à elite social e intelectual da Nação árabe (que não tem forças convencionais para o fazer), golpeou no 9/11 o coração do Imperio nazi-sionista.

    Circula por aí muita desinformação sobre as motivaçõres destes patriotas que planearam e realizaram a operação de comando mais espectacular da história militar.

    Que fique claro: não havia aí ódio nenhum ao ocidente, à sua “riqueza” e ao seu “way of life”. Eram quase todos das classes superiorres árabes, vivendo no ocidente há muitos anos, com estudos superiores e perfeitamente integrados nesse way of life. Os seus países também não são miseráveis, pelo contrário, alguns estão ao nível do que melhor há no mundo.

    Também não havia ódio religioso ao cristianismo ocidental. Se eram ferverosos muçulmanos, o papel da religião no 9/11 limitou-se ao do necessário reconforto espiritual aos combatentes que iam enfrentar o martírio.
    A única razão era militar, de puro nacionalismo (pan-árabe), ou seja, de vingança exemplar (embora limitada pelos meios disponíveis) de todos os mártires do imperialismo americano na Pátria árabe ocupada. Para os árabes a honra impõe que se vinguem os mortos. A desonra é a desgraça absoluta e o martírio no campo de honra a maior das glórias. Quanto à teoria de que o 9/11 foi uma invenção, enfim, paranóias… sem qualquer base empírica.

  21. Luís

    O campo da moralidade não tem relação necessária com o da legalidade. A moralidade é um composto heterogéneo, mistura de discursos subjectivos. A legalidade, num rigoroso contrário, é um intento de objectividade e coerência orgânica. Claro que o jurídico é consequência de pressupostos históricos, culturais, políticos e filosóficos. Nesse sentido, traduz e circunscreve uma qualquer moral; apenas não fica sujeito ao caótico da sua dinâmica e variabilidade social.

    Assim, obviamente, a lei pode ser imoral, mas só porque tudo pode ser imoral consoante o ponto de vista moral que se escolha. O nosso debate não é esse, e esse é um argumento meramente retórico. Vejamos, os EUA invadem o Iraque sem a legitimidade legal requerida ao abrigo da ONU e justificam o acto com argumentos morais. Que relação tem essa acção com a captura de criminosos nazis protegidos por leis dos países onde se esconderam? Tem aquela que cada um quiser ver. São questões dilemáticas, obrigam a uma tomada de posição que é sempre (e estritamente) polémica pelas contradições inerentes.

    O caso em apreço não é uma querela bizantina, abstracção pura onde se escamoteia o princípio de realidade. A realidade é a de na Dinamarca não existir um quadro legal que ofenda a moralidade comum das sociedades laicas, bem pelo contrário. Não colhe sugerir hipóteses irrealistas, pois não está nem estará nos meus propósitos cometer imoralidades à custa de legalidades alheias. Mas está nos meus propósitos defender a lei contra ataques imorais. Este é o debate.

    Para atalhar caminho, vou directamente para o que me parece estar em causa: o advento do laicismo. As sociedades laicas são historicamente muito recentes, uma novidade ainda mal assimilada. Na verdade, não sabemos se irão prevalecer ou se irão ser um momento fugaz no percurso da humanidade. Aparentam ser duradouras, pois é nelas que melhor a ciência empírica se desenvolve; levando ao aparato tecnológico que é fonte de domínio económico, cultural, policial e militar. Entretanto, as matrizes do religioso – que fizeram todo o caminho anterior – não são abolidas pelo laicismo, antes deixadas ao abandono. Esses corpos subitamente anacrónicos conservam todo o seu poder original e podem ser usados, a qualquer momento, com pristina eficácia. Aqui deparamos com um obstáculo absolutamente insolúvel, o da conciliação do religioso e do laico. Concorrem os dois paradigmas pela mesma supremacia: a ordenação do social. Neste combate só pode haver um vencedor pacificador, o laicismo. Caso vença a religião, repetir-se-á a história do Ocidente, em que desde o nascimento da filosofia começou a gradual autonomia da razão positiva face à narrativa mítica. Este parece ser um movimento inscrito na lógica evolutiva do organismo que somos.

    Ora bem, como pode uma blasfémia ter legitimidade jurídica numa sociedade laica? Quando, em 1911, o código penal português deixou de sancionar a blasfémia, fê-lo de acordo com um primado de justiça republicana. A “coisa” é “pública”, não é património de minorias que endossam a sua autoridade para entes intangíveis. É que os entes intangíveis conferem essa dulcíssima benesse de tornar impunes os seus representantes. De facto, o que está sempre em causa na blasfémia é a reclamação por parte de um delegado que se toma como juiz autocrático do critério. Não foi contra isto que a Esquerda sempre lutou?…

    A tua argumentação está a ir num crescente de contradições basilares. Comecemos pelo b-a-ba: não há sujeitos de Direito que não tenham corpo humano. Até uma ideia tem corpo, na pessoa do seu autor ou proprietário. Mas um ser que escapa à definição não pode ser alvo de ofensa, pois não é reconhecido como existente, não tem forma de se apresentar ou representar. Tu, nessa linha de raciocínio que optaste por seguir, tens de conceder neste ponto tão cristalinamente evidente: é um absurdo dizer-se que se ofendeu Deus. Manter a definição de blasfémia na sua superfície semântica leva a cenários onde se largam homéricas gargalhadas. Por exemplo (e presumindo que não discriminas qualquer religião), terias de conceder iguais regalias a todas as expressões do divino, incluindo uma que eu iria de imediato fundar e onde Deus correspondesse à equipa do Sporting. Sempre queria ver se algum árbitro se atreveria a cometer as usuais blasfémias… Bom, o caso não é para rir, pois assistimos a este estranhíssimo fenómeno de ver pessoa lúcidas, como tu, a conceder margem de manobra a grupos cuja agenda é totalitária e maligna nisso de pretenderem coarctar o pensamento laico e o livre arbítrio…

    Resta a blasfémia enquanto ofensa à crença de terceiros. Não tiveste pejo em usar o argumento paternal, em que Deus é Pai e teria os mesmos direitos do meu pai biológico ou equivalente. Se não se pode ofender os nossos pais, então não se pode ofender Aquele que é pai adoptado por alguém. Porque será que este argumento é tão falacioso? Porque, como é óbvio, o meu pai humano é um sujeito de Direito e o outro não. O Estado reconhece a existência do meu pai e, nesse acto, obriga a comunidade a reconhecê-lo também como ser a quem são consignados direitos e deveres. É a função normativa e punitiva do Direito, a base de uma sociedade juridicamente regulamentada. O que eu não posso fazer sob pena de ser alvo de sanção é infligir “dano na crença alheia”, e este dano compreende qualquer acto que danifique propriedade ou estatuto. Por exemplo, se eu pegar fogo a uma igreja ou destruir um missal, se eu rasurar o texto corânico ou agredir um muçulmano por ele ser muçulmano, se eu impedir o livre ajuntamento de hindus e difundir informações falsas a respeito dos indivíduos e seus familiares, e um extensíssimo etecetera. Mas, se eu me pronunciar sobre as entidades Cristo, Alá, Krishna – e reflectir no seu valor para mim, exprimindo opinião no espaço público – estarei no mesmo plano de igualdade do crente que não depende do meu consentimento ou adesão para se assumir num tipo de relação pessoal e social com essas entidades; crente esse que ocupa com a sua crença o mesmo espaço público que também é meu. O crente tem direito a impor-me publicamente (mas não na minha esfera privada) a realidade material e intelectual da sua crença; não terei direito igual? Enfim, será que não poderei dizer que a defesa da existência de Deus ofende a minha crença na sua não existência, configurando um acto blasfemador?…

    Para a racionalidade laica, só há ofensas onde há realidades. Para a irracionalidade religiosa, a própria realidade é ofensiva. São (também) geografias.

  22. Valupi,

    Impressionada com o silvo que a sua bala-laica fez ao passar-me rente ao ouvido esquerdo.Espero que o Luís encontre o furo que ela deixou. No entretanto, o tio Tadeu está a espumar de raiva e a dizer: “Este gajo tem uma lata!”.

    Dona Ermelinda

  23. Valupi,

    Não me parece produtivo para este debate explorar a fundo as relações entre moral e lei. Foste tu quem decidiu que te bastava o respeito pelo quadro legal do país onde te encontras para que tudo esteja no melhor dos mundos.
    Nós (eu, pelo menos) achamos que lapidar mulheres adúlteras é imoral. Os muçulmanos têm como certo que insultar o seu profeta é coisa de gravidade inimaginável.
    Nós organizamos manifestações, abaixo-assinados, vigílias, sempre que começam a recolher calhaus para mais uma vítima. Eles desatam a partir coisas e incendiar embaixadas quando se encontram face a provocações destas (devidamente ampliadas por quem tem interesse no florescer do caos, claro). Estamos todos errados, só alguns, ou depende também do “ponto de vista”?
    Repara que não comparo a gravidade nem dos acontecimentos (lapidações vs. cartoons) nem das reacções. Mas repara que na Nigéria também existe um “quadro legal” que é por vezes sujeita a ataques do exterior, também eles “imorais” face à Sharia. Irás defendê-la com igual vigor?

    Quanto ao conúbio que detectas entre o religioso e o laico, não vejo bem onde é que vês esse processo em operação; na maior parte dos estados de maioria muçulmana o laicismo estatal que possa ter existido poucas marcas profundas deixou na organização mental ou sequer social dos cidadãos (nem o Iraque de Saddam criou estruturas laicas capazes de sobreviver sozinhas mais de um par de dias). Ali, o laicismo nunca irá vencer qualquer confronto porque nem sequer existe, salvo como ornamento no topo das pirâmides sociais.

    Ninguém anda a exigir que a blasfémia tenha “legitimidade jurídica numa sociedade laica”. Ninguém, excepto talvez os mullahs mais alucinados, se lembrou de pedir penas de prisão para estes desenhadores satânicos… E uma coisa seria a “reclamação”; esta é sempre da autoria de um agente mais ou menos autocrático. Outra coisa é a sentença judicial, sempre sujeita ao domínio da lei.

    O teu “b-a-ba” afigura-se-me carregado de buracos de tamanho apreciável. Claro que há incontáveis “sujeitos de Direito que não tenham corpo humano”: as sociedades e agremiações várias. Por outro lado, muitos outros entes podem possuir direitos legais, mesmo que sejam intangíveis: concepturos, a “moral pública”, o meio ambiente, por exemplo. Sim, sei da luta entre a ideia segundo a qual a “pessoa de direito” é um ente artificialmente criado pela lei e a tese de que a lei se limita a reconhecer realidades que sempre a antecedem; mas isso fica para outra altura.
    Esticar o conceito de “corpo” até incluir autores já defuntos retira-lhe qualquer utilidade. Sobretudo nestes dias, em que conceitos como “autoria” já cobrem o resultado de processos de concepção quase integralmente informáticos, como chips de computador.
    E que corpos estão em causa quando muita legislação da nossa Europa tão laica descobre as suas modernas blasfémias: questionar o Holocausto ou divulgar ideais nazis, só para recolher dois exemplos? E que me dizes da protecção que os símbolos religiosos ainda gozam, por exemplo em Portugal, por exemplo no nosso métier? Se Deus não existe, para quê protegê-lo, se somos assim tão laicos? É que a protecção é destinada sim aos crentes!
    Por isto mesmo, estás a confundir o meu argumento com outra coisa qualquer: desde o princípio afirmei que “blasfémia”, até pela sua etimologia, é um ataque ao bom-nome da divindade; não à própria. E a ofensa neste caso presente não teve Allah como vítima (deve estar-se bem nas tintas, aliás); mas sim os seus crentes mais assanhados.
    E, depois de um pausa, vais por certo reconhecer que é bem possível ofender coisas que objectivamente só existem nas nossas mentes: é fácil ofender a memórias dos mortos, ofender reputações, ofender o bom-nome.
    Mais uma vez: eu não exijo “regalias” para as religiões; não me passa pela cabeça proibir seja o que for — mas sei bem que já existem proibições similares há décadas (como no código da publicidade) sem que isso te pareça causar incómodo.
    A lei, como bem reconheceste, tem a sua sabedoria imanente. E se tende por vezes a proteger as crenças religiosas estabelecidas e sérias (quem o determinaria, no caso da tua “igreja sportinguista”? Um juiz, provavelmente), tem uma razão de peso: a sensibilidade de quem atribui a essas patacoadas uma importância desmedida e até fundadora da sua identidade.

    Falando agora de pais, olha que mencionei o teu apenas à laia de exemplo. Vejo com satisfação que ainda está entre nós. Mas e se já não fosse este o caso? Por não ser um sujeito de direito indignar-te-ia menos o insulto soez? Não me parece; e era apenas de indignação que eu falava.
    Descobres agora no teu alegre laicismo que “só há ofensas onde há realidades”. Isto, mormente no caso em análise, é absurdo. Ofendes alguém sempre que lhe dizes: “a visão do universo em que acreditas é uma chachada”; “o teu profeta é um terrorista de bomba em punho”; “Jesus era provavelmente um pedófilo”, etc.
    Uma ofensa assim não tem nada que ser punida por lei. Mas não é por isso que causa menos danos. Não é por isso que deve ser proferida sem cuidar dos sentimentos alheios, da reacção que provoca no outro.

    Mas tudo isto é lateral ao cerne do que afirmaste primeiro: o primado da tal geografia. “Na Dinamarca existe o direito de retratar o profeta Maomé. Fim da história.” Volto ao princípio: na Alemanha nazi era legal despojar os judeus de direitos e propriedades. Na Nigéria é legal apedrejar até à morte mulheres que são vistas como adúlteras por terem sido violadas. Em inúmeros países, a excisão é legal. Fim da história? Não me parece.

    Mas reconhecer o direito à indignação com o que se passa sob outros ordenamentos jurídicos não equivale a aplaudir ou sequer tolerar a violência. Reconhecer que um ataque a uma religião ofende muitos crentes não é recomendar a proibição desses ataques. É simplesmente reconhecer que as coisas não são tão simples como as pintas. E que a liberdade, como já ficou antes escrito, é um caminho perigoso a exigir, por vezes, alguma cautela.

  24. Valupi,

    Vejamos, por exemplo, no portiditorazinho do costume: em “blasfémia, s.f.”, podemos encontrar “impropério”.

    Se fingirmos que o hipertexto ainda não foi inventado e avançarmos umas páginas, encontramos, em “impropério, s. m.”, “acusação ultrajante”. De “ultraje”, “ofensa grave; insulto; afronta; vexame”.

    Depois, olhemos de novo para aquela caricatura em que a cabeça de alguém é conformada a uma bomba. Relembremos que a figura ali evocada é uma referência para centenas de milhões de pessoas. Não interessa se é pró-feta, anti-feta, a vedeta da canção lá do sítio ou o “poeta nacional” do território; importa que o que pensou, disse, escreveu ou fez, merece a adesão de centenas de milhões de pessoas a quem essa caricatura “explica” que aderiram ao terrrorismo.

    Como vê, tudo isto pode ser explicado sem maiúsculas, sem deuses e sem religiões (de que só preciso para explicar algumas das reacções a que assistimos: o Mulá X, por exemplo, ou o Imã Y, o Aiatolá Z, a Civilização Ocidental, ou o Pacheco Pereira).

    Portanto, a sua cruzada em nome do Laicismo (mais uma maiúscula…) é injustificada, para além de ser perigosa para a integridade física da D. Ermelinda.

    Aliás, parece-me que bem que, em matéria de laicismo, está a querer ensinar o pai-nosso ao vigário…

  25. Dizia uma tunisina entrevistada para um jornal: “Maomé é o nosso Pai. Insultá-lo é insultar-nos a todos”. Está tudo dito… O que as caricaturas (ou algumas delas, pelo menos) diziam era: “todos os muçulmanos são terroristas e a war on terror é uma guerra contra todos os muçulmanos”. Uma declaração de guerra, portanto. Simples exercício da liberdade de expressão ? Are you kidding ?

  26. CORRAM COM ESTA ESCUMALHA DOS BIGORNAS ! Não há nada de pior que cretinos compulsivos e obsessivos que tentam em vão ser engraçados…

  27. Valupi,

    Pensando bem, nem entendo porque é que te encarniças tanto a defender que uma sociedade laica não pode proteger um ente a quem não reconhece existência. Afinal, estes cartoons ofendem não Deus mas sim Maomé, personagem histórica e “pai” espiritual de milhões…

  28. Luigi

    Encarniço-me a defender o direito a proteger o laicismo de uma sociedade laica que está a ser atacada num dos seus pilares constitutivos e definidores, isso sim. O que está em causa na figura de Maomé é o atributo de “sagrado”, o qual implica a noção de “divino” e sem o qual não se pode invocar a “blasfémia”. Ora, o que a sociedade laica, em versão ocidental, faz (e muito bem) é consignar o direito à crença. Protege-se o crente e o seu património cultural. Em simultâneo, protege-se o descrente e o seu património cultural. Desta circunstância resulta que o Direito laico não toma partido metafísico por algum dos lados. O que lhe interessa é salvaguardar direitos e liberdades respectivos.

    Estás a usar a noção de “ofensa” em sentido psicológico, subjectivo, não jurídico. Por esse caminho, também eu poderei reclamar o direito à ofensa por existir uma religião ou ideia, o Islão (ou o Catolicismo, tanto faz!), tão degradante para a condição humana. Poderia dizer que ofende a dignidade da Razão humana postular a subserviência a entidades literalmente improváveis, dentre um rol muito extenso de eventuais perversidades inerentes a qualquer discurso e práticas religiosas por onde encontrar ocasiões de ofensa ao humanismo mais básico. Nesse caso, reconhecendo-se o meu legítimo direito ao sentimento ofendido, posto que eu não seria inferior em direitos a qualquer outro cidadão, que deveriam os crentes fazer para colmatar a minha indignação?…

    Mas é claro que tu sabes isto tudo muito bem, e com isto concordas até aos fundilhos da tua alma. Apenas estás a optar por te agarrar à tua posição inicial (essa, sim, perigosíssima), o que te levou para uma estratégia argumentativa de deslocação do problema. Lá para cima, tentaste sistematicamente convocar a minha dimensão individual, ética, na procura de uma anuência: eu teria de aceitar limitar o meu direito à livre expressão da descrença por não bastar o quadro normativo da minha sociedade para lidar com subjectividades alheias ou (ainda mais falacioso por ser “ad hominem”), por não conheceres em mim igual protesto perante outras limitações vigentes no meio. Escusado será dizer que olimpicamente assumirias o reverso da tua actual postura se o caso fosse o do Vaticano a mostrar-se ofendido com representações artísticas ou humoristas de Jesus, Moisés e a Virgem Maria. Aí, tudo o que é gente laica a tentar “compreender” os actuais protestos muçulmanos saltaria feérica para a arena e malharia na cruz com alegria e empenho. Lá está, ninguém é santo na sua terra.

    Pura e simplesmente, não podes estabelecer um relação de equilíbrio entre as crenças religiosas, venham de onde vierem, e os princípios constitutivos de um Estado de Direito laico que não reconhece a blasfémia como objecto jurídico. É só isto, meu caro; não chega a ser rocket science.

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