O Jornal das 9 da passada terça-feira contou com um Crespo risonho e ufano. Durante a tarde tinha sido confirmado o agravamento do sarilho à volta de Lopes da Mota, boa nova antecipada pela imprensa desde o final da semana anterior. Havia que explorar a ocasião, esse seria o único tema do espectáculo. O qual abriu com Eurico Reis, juiz desembargador, e teve Ângelo Correia e Vicente Jorge Silva no frente-a-frente. Que nada disseram digno de memória futura.
Crespo, sim. Muito. E sempre. Tanto que excede a verbalização, dispensa-a. O homem especializou-se na pantomima, nos remoques de expressão facial e prosódia. O que faz na televisão passou a ser um assunto exclusivo entre ele e a câmara, ele e a imagem que ele próprio consome. Os convidados reduzem-se agora a pretextos para as suas perguntas, pouco importando o que digam ou não digam, e as perguntas sabem-se intencionais declarações políticas, o sentido que importa reter depois de esquecida a resposta. De cada vez que Crespo abre a boca, a audiência recolhe um libelo contra o Governo e um retrato fatal para a honorabilidade dos governantes. E o rapaz não tem a mão leve, atente-se no exemplo de uma pergunta-clímax feita ao juiz:
Mas não podemos ser ingénuos, e pensarmos que Lopes da Mota agiu apenas e só por sua iniciativa, pois não?…
Seguiu-se a recordação do caso macaense onde Alberto Costa foi suspeito de interferências na Justiça. Se porventura alguém estivesse distraído, o jornalista Mário Crespo garantia diligente a cobarde transmissão da sua crença: anunciou à audiência que Alberto Costa e Sócrates são os responsáveis máximos por factuais actos de pressão ilegítima sobre os procuradores do Freeport, para tal lhe bastando a referência a indícios adentro de um processo ainda por realizar e sujeito a segredo de Justiça.
Nesta dinâmica debochada, de quem se imagina impune bolce a calúnia que bolçar, Crespo e Ângelo acabaram a sessão a rir com uma alarvidade mal contida. Para eles, o momento era festivo: os outros, os cabrões dos xuxas, tinham sido entalados e não havia como se defenderem. Saboroso triunfo, alucinada vingança. Sócrates começava a pagá-las.
Foi então que o anjo das telecomunicações & programação da SIC desceu até mim com uma importante mensagem das alturas. Que era mais ou menos isto: a dissonância cognitiva que me andava a perseguir há uns meses, sempre que via o Jornal das 9, não passava, afinal, de uma questão semântica. O anjinho disse isto e partiu. Tinha razão, claro. O problema residia no elemento conceptual da designação: Jornal. A denotação do termo sugeria que estávamos perante um bloco noticioso; ora, não estávamos, nem vagamente perto. O que ali acontecia era outra coisa, coisa que não respeitava códigos deontológicos ou metodológicos relativos à procura de uma qualquer objectividade — e cujo singelo nome é opinião. Sem segredo, o Jornal das 9 evoluiu por selecção artificial até se tornar no órgão oficioso da opinião do cidadão Mário Crespo. O que em si não tem mal nenhum, mas nenhum nenhum. Há que, tão-somente, resolver o problemazito da nomenclatura daquela hora diária, esgalhar outro nome e não se fala mais nisso.
Por exemplo, este: Na pocilga do Crespo . Mas há outros.