Todos os artigos de Valupi

KGB

PCP e Pacheco Pereira serão os únicos a consultar as escutas a Vara e Penedos, assim concretizando em pleno a espionagem política feita em Aveiro.

Depois de todas as declarações, que começaram na Comissão de Ética, e depois de todas as racionalizações, que dão a ver um negócio igual a qualquer outro entre privados, estar a explorar discrepâncias entre datas de conversas é tudo o que resta aos deputados da oposição para continuarem com o tribunal da santa aliança.

E também o ódio, claro. O ódio irá devassar a privacidade de cidadãos, possivelmente levando a que eles tenham de voltar a responder na comissão de inquérito. Agora, sendo obrigados a reproduzir o tom de voz usado ao telefone para cada passagem assinalada pelo Pacheco. Em nome da verdade.

Saldanha Sanches, um exemplo

Na morte de Saldanha Sanches, a sentida despedida da Isabel tem ainda a suprema vantagem de lembrar o caso do seu chumbo na FDL; uma história de abuso de poder, e prejuízo para a instituição, que envergonha todos os nomes envolvidos nela, incluindo os que não têm culpa nenhuma, arrastados secretamente para a lama.

Mas homenagear uma vida – que todos rotulam de honesta, frontal e corajosa – pode ser também seguir-lhe o exemplo nesta mesma hora. Por exemplo, o meu exemplo, lembrar que há uns meses Saldanha Sanches disse que Saramago tinha escolhido morar nas Canárias por razões fiscais. É uma acusação do camandro. Foi no tasco do Crespo e levou a que Saramago telefonasse a desmentir uns 15 minutos depois. Não houve qualquer repercussão do episódio, ninguém mais falou nele.

Trago esta situação para ilustrar uma ideia: a irreverência pode confundir-se com a inimputabilidade, causando tão maior prejuízo quanto a credibilidade do irreverente. Se pessoas com as capacidades intelectuais e morais de Saldanha Sanches são raras, e são, tal preciosidade aumenta a necessidade de as aproveitar em favor da comunidade. Precisamos é de descobrir como – para que não nos deixem apenas uma saudosa memória, mas um pedaço do futuro.

Refoder

O filme de Jorge Pelicano, Pare, Escute e Olhe, engana o bom povo do cinema. Alegando estar preocupado com o Tua, o que serve é uma espetada mista de tempo de antena dos escarlates Verdes com um promissor começo de documentário acerca de Abílio Ovilheiro.

Tudo perdoado, não obstante, por causa de uma cena, captada em cima da condenada linha de comboio, onde uma senhora utiliza o verbo refoder com admirável convicção. Ora, este vocábulo mirandês precisa de ser recuperado para o linguajar nacional, deixando de ser apenas um regionalismo.

Creio que expresso um sentimento colectivo indubitável ao afirmar que estamos a precisar de refoder uma série de gente, alguma até por excelentes e óbvias razões.

Vamos lá a saber

Aqueles que acham escandaloso o dinheiro gasto com a visita do Papa fazem alguma ideia do que ela nos vai render em turismo religioso por via da promoção de Fátima como destino obrigatório para mil cento e cinquenta e seis milhões de católicos que se prezem e não estejam impedidos de sair do seu país por calotes, atentados ao pudor ou outras chatices com as autoridades respectivas?

Lá te safaste, Mozos

O documentário Ruínas, de Manuel Mozos, é um exercício que tem tanto de original como de pedante e preguiçoso. Gostei de ver, mas não gostei do que vi.

No entanto, o Mozos fez-me seu eterno fã ao ter filmado um local que descobri há dois anos, num acaso planeado, e que me ficou como uma experiência de cinema subjectivo: Porto das Barcas. É um sítio mágico, irreal na sua actual decadência, e estas fotos não vão conseguir reproduzir pintelho do que evoco: A, B, C.

Vai lá. Ao documentário e a este pedaço de Portugal onde apetece fazer filmes e filhos. Ou, pelo menos, tentar.

Cruzada

Esta viagem parece assim querer ressuscitar os ícones políticos que povoam o relicário mental de uma Igreja que ainda se considera a única detentora de verdades absolutas, reveladas pela mesma reverberação divina que a incumbiu da missão histórica de nos salvar mesmo contra a nossa vontade.

Palmira

*

O ateísmo pode ser infantil, quando é o simulacro de uma revolta. Como neste passo supra, onde se reclama uma religião sem verdades absolutas. Mau, mas existem verdades relativas? A noção de verdade estará em pior estado do que o Sporting, nesse caso. E será necessário privar os religiosos dos seus absolutos, sejam verdades ou mentiras? Não dá para os deixar em paz, até quando acreditam que é seu dever salvar-nos apesar da nossa vontade? É que nós vivemos numa sociedade secular, salvo informação mais actual que me tenha escapado.

A Palmira quer transformar a Igreja numa ONG e mandá-la acabar com o disparate dos sacramentos que não têm validade científica nem se deixam referendar pelo eleitorado. Aí, finalmente, terminará a sua cruzada.

Provavelmente, o melhor Governo do Mundo – II

Melhor do que o facies acabrunhado do Crespo ao anunciar que Portugal teve um crescimento trimestral desvairadamente superior às previsões e à média europeia, só o silêncio a que se recolheram paranóico-catastrofistas, bota-abaixistas, medina-carreiristas, reumático-cavaquistas e leite-rangelistas. Esta maltósia não falha: tudo o que seja estatística e indicador negativo é agitado triunfalmente, indo logo matar cabritos para celebrar pela noite fora a desgraça pátria; tudo o que seja notícia positiva, é abafado, nem piam.

Temos de ser misericordiosos, também em homenagem ao hóspede de branco, e reconhecer que este Governo é tão pérfido e maligno que desenvolveu um plano que passa por levar o País ao abismo através do crescimento económico. É o nunca visto, nunca antes tentado neste sistema solar, daí o pânico que imobilizou tantos e os impediu de sequer comentarem as notícias. A bolsa de Lisboa, em mais um sinal apavorante, sentiu igualmente a pressão da tirania suicida do Engenheiro, tendo fechado nesta quarta-feira a liderar os ganhos na Europa. Se o desemprego começar a descer, então, aí é que estaremos mesmo perto do fim.

Todavia, outro facto, ainda mais extraordinário e significativo, foi registado ontem. Trata-se da primeira nidificação de flamingos confirmada em Portugal. Ora, qual é a cor do flamingo? Rosa…

Escusam de arranjar desculpas maradas, apenas o melhor Governo do Mundo conseguiria esta exibição de poder sobre os seres da terra e do céu.

Crítica à crítica

As classificações dos críticos cinematográficos são paupérrimas taxinomias, abstracções que imitam o sistema escolar; a mais usada sendo a das 5 estrelas. Ora, isso não serve ao cinéfilo que quer entrar nas salas onde acontecem os filmes. Por isso, proponho uma nova classificação:

Gostei de ver, mas não gostei do que vi

Só para aqueles que já leram Serge Daney

Quando saí, não me apetecia falar com ninguém

Não é cinema, é uma bosta para a TV

Abençoado John Ford, que continuas a ter discípulos

Abençoado Frank Capra, que continuas a ter discípulos

Abençoado António Lopes Ribeiro, que merecias ter pelo menos um discípulo e não há maneira de aparecer

Depois de ver isto, preciso urgentemente de escrever ou realizar um filme

Foda-se, que maravilha!

Estou certo de que a aplicação universal desta classificação muito irá simplificar a escolha do filme adequado ao momento existencial do cinéfilo, assim estimulando a venda de bilhetes para entrar em salas com cadeiras alinhadas por filas e um pé direito quase sempre invejável.

Fé na liberdade

A Palmira Silva tornou-se na figura mais conhecida do anticlericalismo blogosférico, quiçá nacional, pelo menos a medir pelo número e efeito dos seus textos no Jugular. Ao contrário do que apregoa, contudo, não existe nenhum problema com a laicidade em Portugal, ela está cada vez mais pujante na vivência social, para além de estar consagrada em pleno na legislação e na política. O que motiva a Palmira é mesmo o instinto da caça, divertindo-se a apanhar declarações e figuras típicas do folclore católico conservador e reaccionário – ou tão-só tradicional, que também levam por tabela se usarem os códigos semânticos e simbólicos da instituição. Esta postura, mesmo se infeliz nisso de ser uma forma sofisticada de ignorância e sectarismo, é intelectualmente legítima e aproveita à instrução de certos públicos ainda mais ignorantes.
Continuar a lerFé na liberdade

Parvónia

Só através do aumento das exportações (ou da produção de bens que substituam as importações) conseguiremos diminuir o crescente endividamento do País, que a prazo pode ter consequências muito graves. Só assim conseguiremos voltar a crescer e a convergir com a União Europeia. É necessária uma política económica de apoio aos sectores de bens transaccionáveis.

Programa do PSD para as eleições de 2009

*

Duas ideias nesta passagem: a de que o País está a realizar o desiderato, pois as exportações aumentam; a de que o PSD não via no horizonte a nuvem do vulcão grego, falando de consequências indefinidas num tempo por definir. De facto, uma das possibilidades faladas no Verão era a de a União Europeia adiar por alguns anos a exigência de baixar os défices, pois todos os países estavam na mesma situação e a prioridade tinha de ser o crescimento, não a contenção das despesas. Ninguém podia adivinhar a crise dos mercados financeiros seis meses depois.

Quando falamos do PSD de Ferreira Leite é preciso recordar que a senhora fez uma campanha onde foi para Aveiro dizer aos jornalistas que tinha medo de falar ao telemóvel por desconfiar que era escutada, e poucos dias antes da votação chegou ao ponto de espalhar a suspeição de que a correspondência dos portugueses podia estar a ser violada, para além de ter cavalgado a galope a espionagem política do Face Oculta e as pulhices da inventona de Belém. Era esta a verdade da Política de Mentiras que um grupo decadente gizou na Lapa, julgando ir a votos na Parvónia.

Bancarrota à sexta, fortuna à segunda

Quem investiu na bolsa na passada sexta-feira – apesar do berreiro dos histéricos em pânico, que chegaram a falar em corrida aos bancos num cenário de ruína dos sistemas financeiros europeus – enriqueceu na segunda-feira.

Se a estupidez destes catastrofistas pagasse imposto, teríamos superavit nas contas públicas.

Provavelmente, o melhor Governo do Mundo

O arremedo de direita que nos calhou em azar, um conglomerado de ressabiados e cagões, conseguiu convencer-me de que temos o melhor Governo do Mundo. Não é uma ideia fácil de aceitar, a natural modéstia do português estranha a distinção, mas eles foram persistentes e apresentam argumentos fortíssimos: dizem que o Governo é composto por incompetentes, mentirosos, corruptos, irresponsáveis e dementes, os quais, cantando e rindo, vão levar o País para desgraças e catástrofes sem fim.

Ora, tendo em conta que este Governo não possui maioria parlamentar, é atacado pela comunicação social e pela Justiça como nunca antes se tinha ousado fazer, e está ainda sujeito ao arbítrio e armadilhas de um Presidente da República que não despiu a camisola laranja, o facto de governar no meio da maior crise económica internacional dos últimos 80 anos, e no meio da maior crise financeira do Euro desde que foi criado, leva a concluir que o Governo terá qualidades absolutamente extraordinárias e únicas. Caso contrário, já teria caído há muito coisa tão ruim, tão abjecta.

Podemos procurar noutros países, não há quem se compare aos nossos heróis. E é a direita quem o demonstra.

Alice

Acaba de ser lançada a segunda vida da revista Alice, iniciativa do Clube de Criativos de Portugal começada em 2004 e terminada 7 números depois por falta de financiamento. O conceito da revista partia do universo criativo profissional para o mundo ilimitado da criatividade. Mais do que ser uma celebração da comunidade das agências de publicidade e design, o projecto ambicionava ser uma fonte de novas referências pensantes para as disciplinas dos profissionais da comunicação. Sem qualquer esforço, e sem qualquer isenção, pode dizer-se que superou largamente as mais optimistas expectativas. Agora, renasce digital.

A criadora, editora, alma e coração da Alice foi Maria João Freitas, também autora do sui generis A Namorada de Wittgenstein. Foi e continua a ser, voltando a oferecer um conjunto de leituras que rivalizam com o melhor que se possa fazer em Portugal no campo do jornalismo artístico, literário, cultural. Basta ver o índex para confirmar.

Tive o prazer e a honra de participar na primeira versão da Alice, onde assinei os artigos com o pseudónimo Guru. Essa opção foi uma homenagem ao Jorge Teixeira e ao Manuel Maltez, respectivamente o pai e o padrinho da alcunha com que me brindaram quando trabalhei na BBDO. Esses números em papel serão todos republicados na Internet, respeitando integralmente o grafismo original. Já se encontra disponível o 1º.

Membro da Comissão de Inquérito Parlamentar antecipa-se a João Semedo e publica o relatório

*

JÁ TODOS SABEMOS QUE ELE MENTE…

…mas isso não é muito importante.

..e depois? Não mente toda a gente?

…e que fez tudo que já sabemos que fez?

Que importa? O país não tem problemas mais importantes?

É assim que nós estamos. Doentes até à à raiz da medula.

*

Consta que este relatório também pode ser apresentado como atestado médico para os devidos efeitos.

Governo só há um

Pedro Correia, alguém que participa em dois blogues colectivos (pelo menos), descreveu o Aspirina B como o mais fervoroso blogue pró-governamental. Contudo, não o nomeou, nem sequer ao autor de quem aproveitou um texto para escrever o seu. Foi uma deselegância nascida do acinte, claro, a qual atinge os meus actuais colegas, José do Carmo Francisco e Confúcio Costa, subitamente transformados em apoiantes de quem nunca apoiaram (e que até, provavelmente, repudiam).

Pedro Correia sabe o que é um blogue colectivo, e seria o primeiro a defender a independência de todos os autores com quem partilha os blogues, aposto, mas esse respeito mínimo por terceiros em condições iguais não está reservado para os inimigos. Se lhe cheira a Sócrates, vê assessores, anónimos, bando. É ele que define quem são os livres e os inteligentes – por coincidência os seus amigos e preferidos, ui, ui.

Acontece que o homem está certo, desde que seja mais zeloso na atribuição. Eu sou pró-governamental, com um fervor que transcende a cor política. Caso os Verdes façam uma coligação eleitoral com o que ainda restar do MIRN, e ganhem, continuarei a minha gloriosa campanha a favor do Governo. A ideia de ser contra um Governo democraticamente eleito, e que respeite o Estado de direito, é um luxo que não posso pagar. A minha segurança, bem-estar e realização cívica estão dependentes da governação, o bacanal anarquista pode esperar mais uns séculos.

Resta só acrescentar que ser pró-governamental implica ser pró-oposição; isto é, também desejar a melhor oposição possível. Um Governo com uma oposição que se limite ao boicote, que não seja alternativa, que calunie de forma maníaca, terá uma governação necessariamente inferior visto as condições políticas serem disfuncionais. Já o inverso não acontece, pois quando a oposição é superior ao Governo o resultado é benéfico: os opositores ganham as eleições seguintes e substituem quem não deu conta do recado.

Isto é simples, Pedro. Talvez seja é demasiado simples para ti.