Fé na liberdade

A Palmira Silva tornou-se na figura mais conhecida do anticlericalismo blogosférico, quiçá nacional, pelo menos a medir pelo número e efeito dos seus textos no Jugular. Ao contrário do que apregoa, contudo, não existe nenhum problema com a laicidade em Portugal, ela está cada vez mais pujante na vivência social, para além de estar consagrada em pleno na legislação e na política. O que motiva a Palmira é mesmo o instinto da caça, divertindo-se a apanhar declarações e figuras típicas do folclore católico conservador e reaccionário – ou tão-só tradicional, que também levam por tabela se usarem os códigos semânticos e simbólicos da instituição. Esta postura, mesmo se infeliz nisso de ser uma forma sofisticada de ignorância e sectarismo, é intelectualmente legítima e aproveita à instrução de certos públicos ainda mais ignorantes.

O anticlericalismo é frequentemente associado só à esquerda por razões ideológicas e históricas que levam a esquecer o anticlericalismo da direita, cultivado nos meios liberais e de variegada espiritualidade. O caso mais célebre entre nós, e mais profundo, é o de Fernando Pessoa, que consta não ter sido amigo de comunismos, ateísmos e materialismos. Agostinho da Silva, e uma boa parte da chamada Filosofia Portuguesa, também são dessa cepa exemplo – e podemos deixar de fora toda a mística cristã; que nunca foi clerical, bem pelo contrário, tal como preconiza o exemplo evangélico do próprio Jesus. Nestes dias, tão parcos em representantes genuínos da direita, José Adelino Maltez deixou o seu erudito testemunho de pertença à corrente. É uma lembrança refrescante. Carlos Abreu Amorim é outro que afirma o seu anticlericalismo sem inibições, não me ocorrendo agora outros nomes.

O que a cidadania iluminista da Palmira despreza, a herança antropológica e civilizacional da religião, torna superficial o seu exercício agónico. Para os católicos, é um discurso meramente discriminativo. Para quem não for católico, é um gasto inútil de energias, posto que não estão actualmente em nada diminuídos pela expressão social e política da Igreja e das igrejas. O que seria admirável ver nos que pretendem reformar qualquer religião era o reconhecimento do seu direito à influência no espaço público, exactamente como os laicos o podem fazer e já radicalizaram nos fundamentos constitucionais desse mesmo espaço. Só a partir daqui surgiria a capacidade de encontrar as formas de influenciar o influenciador. A Palmira, ao invés, pretende fechar o espaço público ao contágio religioso, por isso a sua atitude é de constante alerta e alarme. Talvez a explicação mais simples seja a mais próxima da sua intenção, regras da boa ciência, e a prolixa autora não pretenda reformar o catolicismo porra nenhuma, antes o quer mesmo exterminado de vez.

É que isso de remeter o sagrado para o espaço privado, proibindo qualquer forma de associação do Estado com o fenómeno religioso, não é mais do que a expressão do medo. E onde há medo, a fé na liberdade está a vacilar.

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Nota: a Palmira faz parte do Painel Online do DN, dedicado à visita papal, e este meu texto nasceu da leitura do que publicou no dia 11.

25 thoughts on “Fé na liberdade”

  1. Ola,

    O anticlericalismo de esquerda é, muitas vezes, o resultado paradoxal da filiação directa da esquerda, ou pelo menos de uma boa parte da esquerda, nas doutrinas de determinados movimentos cristãos radicais. O mesmo, alias, pode ser dito da direita tradicionalista, ou pelo menos de alguns dos seus melhores advogados. Neste particular, a fronteira entre (extrema) esquerda e (extrema) direita é completamente porosa, o que não deve surpreender ninguém com algumas noções de historia.

    Num caso como noutro, o fascinio pela doutrina cristã (e o repudio das instituições eclesiasticas) prende-se com um avatar moderno do cristianismo : o odio da burguesia, tão patente na literatura francesa tradicionalista, de Léon Bloy a Georges Bernanos, passando por Péguy (ou seja no imaginario tipico dos conservadores ultra da Europa latina).

    Léon Bloy da a mão a Jules Vallès (o primeiro admirava o segundo e é provavel que a admiração fosse reciproca).

    Eu, como ateu e pessoa de esquerda (embora não me considere radical) assumo perfeitamente este anticlericalismo. Embora não o leve ao extremo da Palmira, porque considero que ela comete erros, e portanto que é contraproducente (da argumentos à padralhada !!!).

    Boa continuação.

  2. Bem visto, joão viegas. O ódio à burguesia é um tema fascinante, pois impregna o marxismo até à medula, mas a sua origem é estritamente monárquica, com raízes medievais.

  3. Muito a propósito da questão da liberdade e da relação igreja/estado, uma colega dizia-me mais ou menos isto,ontem: “por mim, acho bem que os católicos e os representantes do estado prestem homenagem ao papa, mas porque é que eu sou obrigada a pagar e bem a uma instituição privada para ficar com os meus filhos, para que isso aconteça?”

    Ou seja, enquanto cidadã, a senhora teve de “participar” na cerimónia católica e ainda pagou para isso. Não teve liberdade de recusar.

  4. Mais que anticleralismo de Palmira Silva, é “anticlericalismo de base”, jacobino, divisionista, impedindo um debate intelectualmente sério.

    Acácio Lima

  5. Sendo ateu, confesso que não consigo perceber o radicalismo de algumas pessoas.
    Mas sempre ouvi dizer que “pólos diferentes atraem-se” e “pólos iguais repelem-se”…

    Creio que as sociedades (pelo menos uma grande parte delas) evoluíram já para um estádio em que se tornará impossível o regresso ao passado em que a Igreja interferia nos assuntos do Estado – em Portugal, até Salazar deixou isso bem claro!

    A laicidade está, seguramente, para continuar! E por isso, mesmo sendo laico, o Estado deverá continuará a respeitar a liberdade religiosa de cada um evitando cometer os mesmos erros que Afonso Costa e a sua trupe.

    Quanto à visita do papa, tenho uma visão muito própria (e talvez completamente distorcida da realidade…)
    http://politicaevida.blogspot.com/2010/05/visita-de-bento-xvi-vista-por-um-ateu.html

    keep up!

  6. Pois Valupi,

    Concordo com o que dizes.

    Mas, se eu quisesse complicar ainda mais o que estou a tentar dizer – e que muitos acharão provavelmente um paradoxo demasiado fino – acrescentaria que o odio à burguesia é também, e talvez mesmo antes de tudo, uma caracteristica tipicamente… burguesa !!!

    Dai, alias, essas discussões (e a guerra com os extremismos supramencionados, e deles entre si) não terem fim.

    A minha mãe, de quem me vem esta forma de pensar por paradoxos, diria que o odio à burguesia (ou seja o odio a si mesmo, “le moi est haïssable”) é precisamente o traço que melhor caracteriza o burguês. As outras classes, mais do que odia-lo, desprezam-no…

  7. Consciente do bom trabalho social de (muitos? poucos? alguns?) padres junto das suas comunidades, em termos gerais engrosso as fileiras do anti-clericalismo, ainda que dispensando radicalizações. Que querem, sou alérgico. É a isso e às massificações, sobretudo as do pensamento.

    Católico de nascimento e tenra educação, fiquei ateu por exclusão de partes, passavam 12 a 18 anos do meu nascimento. Um ateu algo despreocupado face à discussão religiosa e distante do seu combate ideológico.

    Ah, mas a herança antropológica e civilizacional da religião, esse é um assunto que gosto de ver na mesa. Por essa Europa que posso, frequento locais onde se admira, ou meramente contempla, a herança. Para o bem e para o mal, a nossa história foi cozinhada em grande parte na Cozinha da ICAR.

    Só gostava que não fosse proibido olhar para esse espelho como para outros, e rir.

    E só gostava que a visita papal, na justiça da sua importância para os membros da igreja católica, impactasse menos no dia a dia do país. De acordo com a conclusão, Valupi, não temo, mas tanta genuflexão do Estado fez-me abanar a cabeça, tsc, tsc, ao longo desta semana.

  8. edie, essa colega que proteste. A realidade tem esta feliz característica: é imperfeita. Caso contrário, estávamos feitos.
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    ACÁCIO LIMA, a Palmira não quer debate, quer combate.
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    PMatos, fizeste uma excelente reflexão no teu blogue.
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    joão viegas, esse ponto de vista é interessante, se te estás a referir à inevitável tendência para escalar a pirâmide social, assim renegando as origens. Mas, ficando no plano estritamente histórico, a burguesia sempre se distinguiu da nobreza e da aristocracia por ser plebeia e democrática. A burguesia era vulgar e vulgarizava, criando ressentimentos de classe, tanto para baixo como para cima, pois detinha poder financeiro sem a educação e status elitista.
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    Paulo Querido, adivinho que a tua experiência seja a da grande maioria, com maior ou menos consciência e aparato intelectual. E é absolutamente legítimo reprovar a recepção do Estado ao Papa nos moldes escolhidos. Não entendo é a tua alusão à proibição de rir. Sempre se riu, e muito, da padralhada e do sagrado. É um dos traços característicos da cultura popular de todos os países católicos do Sul da Europa.
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    António Parente, a Palmira não se cansa de malhar na Igreja. Só um grande amor explica tamanha dedicação.

  9. valupizinho, temos muito que falar, mas agora, depois d um dia d fátima e 2 d papa mais um a caminho, não m considero em condições. brincas mais um bocadinho sem mim, sim?

  10. É um amor maior do que o meu, Val. O que é uma vergonha para mim. Já vi que vais ser repreendido pela f. O preço é pequeno (a repreensão) face ao que está em causa (a liberdade).

  11. Val,
    não concordo que neste caso, o argumento de que a realidade é mesmo assim (“é a vida…” ), seja adequado. A liberdade de alguém não termina onde prejudica a liberdade dos outros? Porque é que, dependendo de quem são uns e outros, ora se trata da defesa dos legítimos direitos, ora se diz “é a vida…”??

  12. António Parente, as repreensões de quem nos ama são para nosso proveito, estou certo de que subscreves esta ideia.
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    edie, mas a realidade é mesmo assim. E estás a optar por ver o copo meio vazio, enquanto o vejo meio cheio – ou até cheio a transbordar. É que onde vislumbras passividade, o “é a vida” que trouxeste, eu vejo participação, cidadania, envolvimento nas questões políticas. Quem não concorda, e se considera justamente prejudicado, pode (e deve!) expressar as suas razões e procurar alterar a situação. É nesse sentido que a realidade é imperfeita, por ainda não estar feita, acabada. Há espaço e tempo para a liberdade de qualquer um, eis o caminho que a nossa civilização tem vindo a trilhar. O facto de a Igreja ter perdido poder e privilégios políticos e sociais é disso um dos maiores exemplos históricos.

  13. OK, se o sentido é esse, já concordo.

    Mas também acho que este tipo de protestos – e foram feitos vários – teve como resultado interpretações no sentido em que se está a fazer guerra histérica aos católicos, ao Papa, à Igreja, ao Governo…
    Podemos não desistir de lutar pelos nossos direitos, mas hás-de concordar que é difícil vencer quando o Estado e a Igreja se aliam. É poder a mais para um cidadão não alinhado nas maiorias…

  14. E se as nossas notas tivessem impresso um bem visível “In God We Trust” e o nosso hino nacional nos pusesse a cantar a nossa devoção a Deus com um “In God is our trust”?

    Nas muitas discussões que por aí andam sobre a laicidade do estado vejo sermos comparados com o Irão, os países muçulmanos ou a Arábia Saudita, num exercício muito pouco honesto, mas ainda não vi uma única referência aos Estados Unidos da América.

    (parece-me que questionar a existência de liberdade religiosa em Portugal é hoje em dia tão descabido como questionar a existência da liberdade de expressão mas se quiserem talvez se possa arranjar mais uma comissãozinha parlamentar. É que as pequenas seitas, tal como os pequenos partidos, podem sempre argumentar que estão a ser discriminadas e que o Edir Macedo deveria ser recebido tal qual foi o Papa…)

  15. Eu sei que as repreensões de que nos ama são para nosso proveito. O problema é que a f. não me ama e repreende-me de vez em quando (põe em causa o meu cristianismo, diz que não sou bondoso, que não amo os inimigos, etc).

    Sim f, estou com ciúmes.

  16. Como não imagino o Sócrates e o Silva Pereira a levantarem-se um belo dia de manhã e decidir que iam parar escolas, hospitais a serviços mínimos, tudo o que é serviço público durante três dias, só porque são muito devotos, acredito que tudo passou por lobby, pressão, negociação, concessões e acordo – política.

    Aliás, a pressão veio na comunicação social. Exemplo:

    http://aeiou.expresso.pt/papa-camara-de-vila-do-conde-recusa-tolerancia-de-ponto=f581816

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