Crítica à crítica

As classificações dos críticos cinematográficos são paupérrimas taxinomias, abstracções que imitam o sistema escolar; a mais usada sendo a das 5 estrelas. Ora, isso não serve ao cinéfilo que quer entrar nas salas onde acontecem os filmes. Por isso, proponho uma nova classificação:

Gostei de ver, mas não gostei do que vi

Só para aqueles que já leram Serge Daney

Quando saí, não me apetecia falar com ninguém

Não é cinema, é uma bosta para a TV

Abençoado John Ford, que continuas a ter discípulos

Abençoado Frank Capra, que continuas a ter discípulos

Abençoado António Lopes Ribeiro, que merecias ter pelo menos um discípulo e não há maneira de aparecer

Depois de ver isto, preciso urgentemente de escrever ou realizar um filme

Foda-se, que maravilha!

Estou certo de que a aplicação universal desta classificação muito irá simplificar a escolha do filme adequado ao momento existencial do cinéfilo, assim estimulando a venda de bilhetes para entrar em salas com cadeiras alinhadas por filas e um pé direito quase sempre invejável.

27 thoughts on “Crítica à crítica”

  1. Bom dia Valupi,

    Mais uma vez, não percebes nada.

    Não vês que os criticos de cinema (de teatro, de opera, etc.) são na realidade membros de uma SEITA. Trata-se de pessoas que têm visões cada vez que estão numa sala de cinema (de teatro, de opera, etc.). Reunem-se depois para discutir a visão que tiveram : umas vezes é a virgem, outras foi um anjo, ou ainda o demonio, etc.

    Alguns (um deles chama-se João Lopes) escrevem também artigos nos jornais numa rubrica chamada “critica” que é destinada exclusivamente aos membros da seita. Os outros leigos, que se interessam eventualmente por aquilo que se passa realmente aquando da projecção do filme, podem no entanto tirar algumas informações uteis nesses artigos, tais como as salas onde estão programados, as horas, etc. Mas têm que ter cuidado, pois nem sempre essas informações são exactas.

  2. joão viegas,

    nem mais. Os críticos escrevem uns para os outros, trocam mensagens codificadas entre si. A lógica até me foi explicada por um (ex) crítico de cinema.

    No meio disto tudo, o que menos lhes interessa é a obra e o público. A obra é um meio para brilharem; o público são os pares.

    Enfim, mais uma parte dos jornais nacionais cuja leitura é perfeitamente dispensável.

  3. Obviamente que queres dar uma de pseudo-culto, bem gostavas de ser Pacheco Pereira, nunca hás-de passar de um boy from Sócrates

  4. Apeteceu-me fazer um comentário acerca de uma notícia que acabei de ler no Jornal de Negócios. Fiquei confusa, pois, não sabia bem onde o fazer. Ainda pensei fazê-lo no post cujo título é ‘Provavelmente, o melhor Governo do Mundo’, mas não, por causa do ‘provavelmente’. Também me ocorreu um dos posts a falar do Papa, mas isso podia dar a impressão que a notícia fala de um milagre, e eu não sou dessas.
    Decidi fazê-lo aqui. De qualquer forma, aquela notícia a dizer que Portugal tem o maior crescimento do mundo desenvolvido deve ser ficção. Não tarda a oposição virá dizer isso mesmo, que é mais uma mentira. E eles nunca falham, o seu sistema de classificar o Governo é muito melhor do que o dos críticos de cinema. :)

  5. é difícil, acredito, e este é particularmente repugnante. Mas os trolls alimentam-se de atenção. Daí que a única maneira de os vencer é pela fome.

  6. A tua língua é conhecida em todo o Parque Eduardo VII

    Não gostaste pois não? Pois é, isto de achincalhar as crenças dos outros tem piada, mas quando é connosco já não.

  7. Já há muito tempo que me ouço dizer:

    “os críticos cinematográficos não sabem o que dizem ou o que dizem…ninguém quer saber…”

    …e por isso recuso-me a ler críticas cinematográficas….

    …mais vale saber o título, o realizador, actores até o cartaz…….e correr o nosso risco… de ficar surpreendido/ deliciado…:)

    Voto nestas:

    “Abençoado António Lopes Ribeiro, que merecias ter pelo menos um discípulo e não há maneira de aparecer

    Depois de ver isto, preciso urgentemente de escrever ou realizar um filme

    Foda-se, que maravilha!”

  8. Bah, críticos de cinema, em Portugal, não conheço nenhum. Há nos jornais, normalmente num suplemento ou secção designada “cultura”, uns ensaístas literários mais cinéfilos que falam de filmes. Em linguagem para um público literário, que funciona por isso em circuito fechado. Normalmente não veria nada de mal nestes clubes, ninguém me obriga a lê-los, e sempre é melhor que sejam pagos pelos jornais do que por subsidiados pelo Ministério da cultura, mas para mim põe um problema: como gosto de saber de antemão se vale a pena ver um filme ou não (o meu tempo é muito limitado para cinema, infelizmente), recorro aos críticos do NYT ou da Salon, gente que sabe do que fala. Acontece que isso me limita à produção Norte-Americana, e a alguns (normalmente bons) filmes Europeus e Asiáticos. Produção portuguesa, zero. Daí, e devido a más experiências anteriores (lamento, mas já não há pachorra para mais filmes sobre desgraçadinhos da Zona J), não vejo cinema português contemporâneo, porque não posso confiar nos únicos críticos que falam destes filmes. Em ultima análise, o péssimo trabalho destes críticos apenas prejudica os cineastas portugueses, pelo menos os que tenham pretensão de sair do circuito dos prémios e fazer filmes mais “mainstream” (não sei se existe algum, especulo).

  9. Vega,

    há maneiras de perceber, sem teres de ler aquelas xaropadas. Se o filme português tiver 5 estrelas, estamos perante uma obra inspirada na escola francesa de cinema independente.

    Se tiver um pouco menos, é provável que se trate de um exemplar à la americana mainstream.

    Em todo o caso, passam sempre à frente de filmes americanos, mesmo que venham assinados pelos grandes mestres.

  10. Pois, seria simples se fosse assim, mas infelizmente não é. Com menos estrelas, será uma daquelas produções alarves starring Rui Unas muito (mas muito) abaixo de qualquer produção Americana. No cinema português, não parece haver meio-termo. Ou seja, filmes “mainstream”, zero. Nas comédias, então, é gritante.
    Houve uns laivos de esperança há uns anos, com uma série de filmes que a SIC produziu, mas nada que me lembre depois disso.

  11. Valupi, que são esse pobres críticos de cinema comparados com os nossos críticos de arquitectura?

  12. É verdade que o discurso dos críticos cinematográficos pode cair em intelectualismos crípticos, tribalismos e ensimesmamentos lunáticos, mas podemos sempre aprender com eles, mesmo quando discordamos (ou até mais nesse caso).

    Também recomendo com entusiasmo a experiência que a L* refere: ir ver um filme sem informação prévia. Nunca desilude, pois não se leva nenhuma ilusão.
    __

    Sinhã, o Vega9000 está a dar-te excelentes conselhos. Mas podes optar por brincar com o bicharoco, já és crescidinha.
    __

    Zeca Diabo, tens de desenvolver esse tema. Promete.

  13. Parabens Val pela contribuição para o novo segmento de criticos. Os maus criticos de eventuais maus criticos de cinema.:))

  14. Vou retomar este tópico, mas com um exemplo prático. O filme “Robin Hood” de Ridley Scott (que terá sempre a minha eterna gratidão por “Blade Runner”, a versão original – com comentários). Mais “mainstream” que este não há, produção Americana típica. Valerá a pena ir ver? O que dizem os críticos?

    – Andrew Hoheir na Salon:

    Ridley Scott’s “Robin Hood,” which opened the Cannes Film Festival with a relatively low-wattage premiere on Wednesday night, has pretty much all the problems you’d expect from a big-budget Hollywood revision of material that’s been told and retold on screen 248 times. (That’s not an official count.) It’s a solid half an hour too long and is constructed around an endless series of incoherent action scenes in which sweaty, hairy men wearing Dark Ages costumes and layers of drainage-ditch mud hack each other apart. It’s got all the stylistic tics of Scott’s late-career films: Murky, misty, oddly lit group shots that move from the ground to shoulder level and then track from right to left; back-and-forth reversals of camera position that violate the traditional language of cinema for no particular reason.
    (…)
    What I’m working my way around to saying (talk about damning with faint praise!) is that despite its abundant flaws and historical howlers and generally dimwitted tone, “Robin Hood” is a surprisingly enjoyable work of popcorn cinema, if you’re willing to take it on its own terms. As ever, Scott hires the best production-design teams in the business, and his muddy vision of late medieval Britain — where even London is little more than a collection of wood-and-wattle huts built around the royal castle — is richly detailed and totally convincing. Much more important, this is a knockout love story built around two adult characters who’ve learned some of life’s toughest lessons and faced real responsibilities.

    – Michael O’Sullivan, do Washington Post (com direito a estrelinhas):

    If you said, “Steal from the rich, and give to the poor,” you must be thinking of the old Robin Hood. The correct answer here is: “Don’t retreat, reload.” There are more arrows flying every which way than you’ve ever seen — through the face, the neck, the chest, the back. It’s a pincushion of a movie.

    There is, however, precious little of the socialist stuff that we normally associate with the man in tights in this new, politicized version, which ends precisely where most tellings of the legend begin: with Robin Hood being declared an outlaw and moving to a camp in the woods with Maid Marion, Little John, Friar Tuck and the rest of them. In other words, it’s a prequel to the movie that many of us remember. Except for the last five minutes, “Robin Hood” is the story of the radicalization of some guy named Longstride.

    Who?

    (…)

    Yeah, it’s complicated. And the numerous on-screen titles, which identify the ever-shifting locations — Barnsdale one minute, Berkhamsted Castle the next — don’t really help. There’s so much backroom palace intrigue going on that the movie can start to sound like an episode of “The Sopranos” after a while. “He knows too much,” says Godfrey at one point. “Get rid of him.” Gruesomely disfigured by one of Robin’s arrows, and clad all in black, he looms as large as Darth Vader.

    But Mafia and “Star Wars” overtones aren’t the only odd ingredients in “Robin Hood,” which was written by Brian Helgeland (“L.A. Confidential”). Godfrey’s Gestapo tactics are straight out of a Holocaust movie. And the film’s climactic battle — set on a beach beset by a fleet of French troops against whom Robin has rallied the English people — is weirdly reminiscent of the D-Day scene in “Saving Private Ryan.”

    So where’s the room for Robin Hood — the derring-do, the dash — amid all this clutter? Unfortunately, there isn’t much. Crowe makes an especially dour Robin. The actor looks grim, puffy and haggard throughout, except for one brief scene in which he strips out of his chain mail — with the help of Marion — for a long-overdue bath, revealing a buff if battle-scarred physique. He just doesn’t seem to be having that much fun.

    Not that the movie is completely without it. Mark Addy makes for a jolly, dipsomaniacal Friar Tuck; Kevin Durand, a goofy and lumbering Little John. And Blanchett’s Marion, who takes up arms alongside the best of the men, is a feisty, feminist treat.

    But the Robin Hood of myth and moviedom is for the most part AWOL. Why should we have to wait until the last five minutes to see Crowe crack a smile, let alone split an arrow? The film’s closing title screen — which reads “And so the legend begins” — suggests that if you want to see that movie, you may have to wait for “Robin Hood II.”

    – Mário Jorge Torres, do Público:

    Riddley Scott joga a histeria da câmara como compensação para a ausência de espessura mítica do seu Robin dos Bosques: é a principal imagem de marca do filme, e também a sua principal limitação

    O mito de Robin dos Bosques possui uma larguíssima fortuna cinematográfica que podemos radicar no veículo concebido para as acrobacias atléticas do grande Douglas Fairbanks, realizado por Allan Dwan, em 1922, no qual se figurava uma longa sequência de um torneio medieval, tropo incontornável do “swashbuckler” como género, a preceder a partida de Ricardo Coração de Leão para as cruzadas. No entanto, o filme que constitui a matriz para quase todas as variações modernas (cinematográficas ou televisivas) é a obra-prima da Warner Bros, “As Aventuras de Robin dos Bosques” (Michael Curtiz, 1938), em que, num glorioso tecnicolor, se cunhavam as características fundamentais das histórias da Floresta de Sherwood: o carisma aventuroso romântico do herói (genial Errol Flynn), as flechadas certeiras em alvos de cartão e inimigos, uma Lady Marian angelical confiada a Olívia de Havilland, um trio inesquecível de vilões, progressivamente tragicómicos, um Rei Ricardo idealizado, um Frei Tuck glutão e belicoso e, sobretudo, uma ligação directa ao imaginário oitocentista, desde o romance histórico de Walter Scott às vinhetas vitorianas de uma Idade Média herdeira das baladas medievais ou das configurações pré-rafaelitas.

    (…)

    Dito isto, e apesar da fotografia soturna de John Mathieson, nos costumeiros “tons de caca, tremoço e vomitado” (que saudades do tecnicolor de tempos idos!), a forçar uma nota “realista” e feiosa, não se pense que “Robin Hood” não exibe emoção a rodos e façanhas aventurosas para todos os gostos: batalhas, emboscadas, duelos à espadeirada, chuvas de setas, assaltos a castelos medievais, estranhas invasões de praias desertas, com proezas subaquáticas (a lembrar um “O Resgate do Soldado Ryan” de outros tempos) e sádica violência sobre os camponeses, quase a citar o “peplum” italiano mais primário. E neste amálgama de condimentos, filmados “à la Ridley Scott”, ou seja cruzando efeitos publicitários, estratégias televisivas, planos de grua vertiginosos ou câmaras lentas (felizmente poucas), reside a imagem de marca do filme e a sua principal limitação: ao querer trazer à liça a memória de um certo cinema recente – de “Braveheart” a “Gladiador” ou “Rob Roy” -, Scott joga com a histeria da câmara, a fim de colmatar a ausência da espessura mítica, que fez de Errol Flynn “o Robin Hood” cinematográfico por excelência.

    Nos ombros avantajados de Russell Crowe, igual a si próprio, repousa a tarefa de conduzir o projecto a bom porto: imperturbável, machão (não faltam as indispensáveis cenas de nu parcial), castigador e possante, o australiano (como Flynn, curiosamente) modela o herói à sua “persona” pesadona e, atrevíamo-nos a dizer, anti-romântica, não sem que esboce, como pode, a sua aproximação ao alvo amoroso, algo masculinizado pela intervenção de Blanchett, de armadura a rigor, na batalha da praia. Desilusão? Sim, sobretudo se permanecermos fiéis ao triunfo da lenda sobre a “verdade histórica” e a um certo conceito da Hollywood que não volta mais, mas esperávamos muito pior desta tentativa de modernizar o mito (desmitificando-o), de construir um Robin dos Bosques do século XXI, destinado a um público-alvo sem memória fílmica para trás dos anos 70.
    (…)
    ——–

    “Pré-Rafaelitas”, “público-alvo sem memória fílmica para trás dos anos 70”. Como crítica cinematográfica a um filme deste género, num jornal generalista como o público…

    I rest my case.

  15. Outro traço muito comum: fala sobre a sua cultura cinéfia, desenvolvendo mais sobre o seu quadro de referências, do que sobre o objecto em questão.

    Os anglo-saxónicos falam sobre o filme, por forma a fazerem entender-se (são uns básicos :))

  16. tens razão, edie. uns básicos pouco sofisticados. onde é que já se viu criticar um filme de aventuras de época sem referências ao “peplum” italiano, ao “imaginário oitocentista”, às “vinhetas vitorianas”, e sobretudo ao “glorioso Technicolor”, que como todas as pessoas cultas sabem, foi o apogeu do cinema, e a partir daí tem sido sempre a descer.
    Tirando, claro, o cinema independente francês. Dos anos 70, de preferência.

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