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Άνθρωπος

A entrada da extrema-direita no parlamento sueco, obtida por um partido que começou por atrair neo-nazis e anti-semitas, é uma boa ocasião para a esquerda pensar um bocadinho. Porque, nos últimos anos, o Sverigedemokraterna conquistou eleitores comuns, sem fanatismo e densidade ideológica. Que se terá passado, pois?

A resposta parece estar na problemática da imigração. Uma oposição radical às políticas que permitem a entrada de imigrantes desqualificados gera, no contexto de um longo ciclo de ameaças e restrições económicas, popularidade positiva – naturalmente. Isto, como fenómeno sociológico, é inevitável. Explica-se com o recurso a manuais básicos de antropologia. Qual deve ser a resposta?

Toda menos aquela que está a passar-se no caso francês com a expulsão de certas comunidades de ciganos, onde se fazem analogias com a Alemanha Nazi e a França de Vichy. Essas comparações – num certo sentido – são mais graves do que o próprio problema, por terem consequências vastas e duradouras. Infectam a discussão com um maniqueísmo que despreza e ofende pessoas que não se reconhecem como racistas, antes como vulgares cidadãos cumpridores da lei ou temerosos pela sua segurança e bens. Serem acusados de que a sua posição não passa de uma monstruosa falha moral é mais uma potencial razão para se barricarem à volta do populismo da extrema-direita. A desmesura do anátema destrói as frágeis vias para o diálogo e a racionalidade civilizacional. A cura da esquerda, pois, aumenta a doença da direita.

Na verdade, Sarkozy, involuntariamente, provocou um teste à saúde política da Europa. Pela resposta de Viviane Reding e Barroso, entre outras individualidade e partidos em diferentes países, podemos constatar da impossibilidade de se imitar qualquer tipo de violência que tenha a menor relação com a patologia suprema do Nazismo. Não se concebe que tal possa ser repetido neste espaço da União Europeia quando meras situações avulsas e ambíguas geram tamanho alvoroço – o que torna a retórica inflamatória ainda mais abominável. Mas existir uma forte e emocionada reacção às decisões do Eliseu, sendo bondosa na sua finalidade, não resolve problema algum. Só a integração económica e cívica dos marginais, de qualquer origem, pode acalmar as populações que estão dispostas a defenderem-se do que consideram – com toda a legitimidade – uma ameaça à sua qualidade de vida e segurança.

Para anular o discurso xenófobo da extrema-direita, a qual imita a estratégia da extrema-esquerda quando esta cresce através da agenda ao centro, a esquerda terá de reaprender a ouvir o povo.

Uóte?

Tive a mesma reacção da Ana quando ouvi o presidente do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, Miguel Oliveira e Silva, declarar, em modo enfastiado-descontraído, que sabe da existência de ilegalidades das quais não tem provas. Ora, essa peculiar intervenção cívica, em que se presume a existência de ilícitos sem carência de justificação válida da denúncia, não será estranha à prática da enorme maioria da população. O que origina o espontâneo uóte, então, é a suspeita de não sermos todos presidentes de conselhos nacionais de ética. Uma suspeita com algum fundamento, salvo melhor informação.

Mas isto, lá está, é a malta a presumir que a ética terá alguma relação com a definição do Bem para uma dada comunidade, num dado tempo, dadas certas circunstâncias e finalidades. Claro, podemos estar é muito bem enganados.

Um partido a vapor

Ferreira Leite nunca associou o TGV ao problema do financiamento externo pela simples razão de esse problema só ter surgido em 2010. Primeiro, saiu-se com o fantasma de que o TGV não iria dar lucro, depois que seria um encargo que não permitiria baixar os impostos, a seguir que ficaria como despesa a pesar durante os próximos 30 anos, por fim que o Governo devia adiar a decisão para depois das eleições em Setembro, não comprometendo um eventual Governo do PSD. E isto sempre em relação com o novo aeroporto e restantes grandes obras públicas. Era algo que tinha para dizer, prontos, faltando algo que valesse a pena ser dito.

Foi isso, e só isso (se esquecermos a internacionalista alusão aos cabo-verdianos e ucranianos), que a Manela andou a papaguear sem ter alguma vez explicado o que faria para além de parar tudo. Não espanta, então, que a sua claque – comentando agora uma decisão tomada e publicitada em Maio – venha mentir à boca cheia. Os proprietários da verdade são sempre os maiores mentirosos, isso é sabedoria banal de conto infantil. De resto, não existe nenhuma correlação entre as notícias acerca do TGV e do aeroporto e as flutuações no risco da dívida – quem quiser perder tempo, que faça quadros cronológicos comparativos. O mercado reage num misto, indiscernível, de estratégias individuais de ganhos, e de reacções colectivas, a certas fontes de informação seleccionadas pelo seu valor de referência para o cálculo de curto prazo. Se alguma autoridade europeia de topo se pronuncia, seja de que forma for, acerca da economia nacional, o mercado ouve e age no imediato. Se o Governo anuncia que faz obras públicas, seja qual for a dimensão do investimento, o mercado tem mais em que pensar. Não se ganha dinheiro, num sistema onde os agentes são especialistas em volatilidade, fazendo cálculos a 15, 10 ou 5 anos. Isso é para os pacholas animais domésticos dos governantes e comunidades locais, não para os felinos e abutres da alta finança global.

Aliás, se o mundo não mudou no princípio de 2010, que mal fizemos ao PSD para não nos ter avisado do que vinha a caminho? Não podiam ter explicado logo, um mês ou dois antes das eleições, que a Grécia andava a fazer maroscas com as suas contas públicas? E que a União Europeia seria atabalhoada na resposta aos ataques à sua moeda, fragilizando os países que mais precisavam de investimento público para acelerar e robustecer a recuperação económica? Isso teria muito maior impacto nos resultados eleitorais do que a aposta na Moura Guedes, Pacheco Pereira e pastéis de Belém. Seria como um TGV em direcção ao Poder, em vez do barulhento, poluidor e lentíssimo comboio a vapor com que foram a votos.

Deficitários

A ideia de que Sócrates e Teixeira dos Santos cometem erros crassos atrás de erros crassos, que promovem uma cultura de irresponsabilidade e que preferem a bancarrota às medidas que salvariam a economia de um Governo para o outro, é sintoma de um défice muito maior, e muito mais grave, do que o da dívida soberana.

E mais dois

Mourinho pode treinar Portugal (isto é, fazer a convocatória ao calhas e montar a equipa pelo telefone), Portugal pode ganhar os dois jogos, toda a minha gente pode ficar feliz e contente, até o futebol pode ser bonito de ver. Isso em nada alterará a natureza efémera, provinciana e burlesca da solução. Na verdade, estará a criar-se um novo problema para o seleccionador seguinte, visto como mero recurso por não se poder contar com Mourinho para mais dois jogos, e mais dois, e mais dois, e mais dois, e mais dois, e mais dois, e mais dois, e mais dois, e mais dois, e mais dois, […]

[…]

[…]

[…]

e mais dois.

Lições do Vasquinho

O dr. Cavaco está em aflições e alguns dos ministros do dr. Cavaco estão em grandes aflições. Essas aflições não têm remédio e vão fatalmente aumentar nos próximos anos. Ora sendo certo que o dr. Cavaco é um mau político e os ministros que escolheu à sua imagem e semelhança execráveis políticos, a causa do já visível fracasso deste governo de incompetentes não se deve atribuir à incompetência. Mesmo com outros ministros, um pouco menos pecos e pedantes, o governo não podia deixar de falhar pela simples razão de que prometeu fazer e se propõe fazer o que em toda a evidência não há maneira de alcançar.

Só não percebe quem não quer: as forças armadas precisam de mais dinheiro, o ensino precisa de mais dinheiro, a saúde precisa de mais dinheiro. Como também a habitação social, os transportes, os tribunais e a cultura. E os reformados, e as câmaras, e o ambiente. A dívida pública incha e o dr. Cadilhe rebusca os nossos bolsos com minhota diligência. Apesar disso, o dinheiro não chega. Nunca chega. Nunca irá chegar.

Vasco Pulido Valente, in O Independente, 17 de Fevereiro de 1989

Um livro por semana 198

«Portugal – O sabor da terra» de José Mattoso, Suzanne Daveau e Duarte Belo

Esta é a reedição do clássico de 1998 cujo título (O sabor da terra) vai homenagear Ruy Belo e que, através da mistura feliz de imagens e de texto, procura desvendar a terra e o homem nos seus caminhos em busca do pão, do amor, do poder ou da morte. Além de capítulos sobre Lisboa e Porto, o volume abarca onze regiões: Trás-os-Montes, Minho, Douro, Beira Litoral, Beira Alta, Beira Baixa, Estremadura, Ribatejo, Alto Alentejo, Baixo Alentejo e Algarve. Ficam de fora Açores e Madeira por serem territórios acrescentados no século XV. O título poderia ser «Portugal ponto por ponto» e, como convite ao leitor, ficamos pela Estremadura. Em 1416 o arauto do conde Barcelos, natural de Lamego, escreveu «a Stremadura tem este nome de extremada porque é a melhor, a mais rica e a mais forte de todas as regiões do reino. É, entre todas as regiões, a mais bela e notável, está quase a meio do reino e os seus encantos deleitam.» Esta é a região que faz a síntese da geografia do país: nos cumes das serras, nas praias ricas de iodo, nas planícies férteis de vinha e pomar. As fotos de Duarte Belo mostram ora um moinho em Runa, ora uma falésia na Serra do Bouro, ora um penedo em Cheleiros, ora um maciço de calcário no Arrimal. Sintra, Alenquer, Leiria São Martinho do Porto, Zambujal, Picanceira, Sobral do Monte Agraço, Penafirme, Alcobertas, Lourinhã, Arruda dos Vinhos e Atouguia da Baleia (entre outros pontos) são registados pelo fotógrafo e cada legenda dá origem a um novo aspecto.

(Editora: Círculo de Leitores/Temas e Debates, Textos: José Mattoso e Suzanne Daveau, Fotos, legendas, capa e maqueta: Duarte Belo)

Assim, sim

Se o PSD quer servir para alguma coisa, e deixar de ser parte do problema por ser incapaz de se regenerar e reformar, tem de fazer sua esta lucidez. Luís Menezes Leitão é uma voz isolada, mas sólida. Se ganhar balanço, teremos algo de interessante a nascer no PSD, finalmente.

Cineterapia


The American President_Rob Reiner

Para uma genealogia das conspirações políticas, não vale a pena a longa viagem até à China das dinastias, nem visitar o bizarro Egipto dos faraós, muito menos entrar nas movediças areias bíblicas, fiquemo-nos pela Europa; com a acrescida vantagem de estarmos no berço da democracia nesse exacto momento em que esta dava os primeiros passos.

Anaxágoras, nascido há 2.510 anos na actual Turquia, foi para Atenas algures na sua idade adulta. Levava ideias nunca antes pensadas. Como esta:

Em todas as coisas, há uma parte de todas as coisas.

Parece coisa simples, coisa de somenos, mas pressupõe uma coisa do camandro: que não há dimensões absolutas na realidade, não existe algo que seja o mais pequeno ou o maior por comparação com o restante, e que a matéria é infinitamente infinita, que estamos cercados por uma multiplicação de infinitos. Vou-te poupar à explicação de como ele chegou aqui, até porque tens de ir a correr preparar o jantar, mas não admira que esta cabeça fosse alérgica ao sistema religioso, mitológico e supersticioso das geografias que atravessava. O que via com a sua inteligência fazia do Olimpo uma casinha de bonecas.

Já adivinhaste, as grandes cabeças gostam de conversar umas com as outras, especialmente quando se cruzam numa cidade mediterrânica servida por mobiliário urbano de estética aprimorada e jarros de vinho a preços módicos. Foi o que aconteceu entre Anaxágoras e um dos mais famosos cabeçudos da História: Péricles, o tio da Democracia (o pai foi Clístenes, Sólon o avô, toma e embrulha). Rapidamente ficaram amigos, o cientista genial e o genial político.

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Na veia

Salazar é quem nos vai salvar. Para isso, precisamos de acabar com dois tabus: aquele criado pelo PCP, para efeitos de apropriação e exploração da lenda antifascista; aquele criado pela Democracia, quando preferiu varrer para debaixo do tapete o lado criminoso do anterior regime. Em ambos os casos, por mitificação e ocultação, cortava-se o acesso à realidade histórica.

Nesse sentido, a biografia política de Salazar que Filipe Ribeiro de Menezes escreveu promete ser a inauguração de uma nova era onde os académicos, ufa!, começam a fornecer à comunidade elementos objectivos e detalhados para uma nova compreensão do século XX português a partir do seu mais importante estadista. Inevitavelmente, a polémica nascerá – e ainda bem, significa que estamos a fazer caminho.

Leia-se, pois, a crónica de Fernanda Câncio – e respectiva discussão na caixa de comentários – onde ela pega numa ideia veiculada pelo autor em entrevista, nem sequer esperou para ler o livro. Isto diz bem do melindre da problemática. E leia-se, na sequência, Irene Pimentel, num texto que alia a minúcia de investigadora com a síntese e simplicidade de pedagoga.

Venham mais polémicas. Quão mais conhecermos Salazar, e a estrutura social que lhe permitiu o mando, mais nos iremos conhecer como comunidade.

É impressão minha ou…

Uma das situações mais encaralhantes da realidade portuguesa está aqui subsumida. Duarte Levy, jornalista freelancer, pôde publicar no DN uma notícia causadora de alarme público por atingir o cerne da credibilidade do Ministério Público precisamente num caso de gravíssimas implicações e consequências políticas. Seguiu-se a usual exploração do boato pelos trastes do costume e, 3 dias depois, os magistrados em causa publicaram uma declaração formal que estancou a sangria. Finalmente, o próprio Serious Fraud Office confirma a falsidade do documento que fundamenta a notícia de Duarte Levy, publicada pelo DN. A isto tudo responde o autor com um ataque à agência inglesa e a insinuação de ter mais informações em seu poder que comprometem as declarações e honorabilidade dos visados.

É impressão minha ou o DN não poderá, sob pena de ficar igual ao Sol e ao Correio da Manhã, continuar em silêncio num episódio a que deu a sua chancela sem validar as informações publicadas, tornando-se ainda mais responsável do que o próprio jornalista? Se Duarte Levy tem razão, façam o favor de publicar os restantes documentos que o senhor alega ter em seu poder. Se não tem razão, afirmem-no inequívoca e urgentemente.