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Cuidado com os anónimos

A condenação de João Adélio Trocado estimulou o aplauso de uns e a saliva de outros. Tudo porque o caso se presta a validar a perseguição e castigo dos anónimos que insistem em comunicar na Internet – percepção esta reforçada por Fernando Esteves, o jornalista autor da acção, ao declarar que “A blogosfera não pode ser um campo onde se diz tudo sem consequência.” Infelizmente, conheço apenas do julgamento e sentença o que saiu na imprensa, e é muito pouco. Mesmo assim, há quatro aspectos a realçar:

– O médico terá enviado para a direcção da Sábado, entidade patronal do jornalista, os textos que escrevia no seu blogue, numa continuada referência crítica que durou 4 anos.

– A juíza Joana Ferrer Antunes considera a profissão do condenado uma agravante para a pena.

– As afirmações citadas como exemplo da matéria punível são uma resposta indignada ao trabalho jornalístico de Fernando Esteves.

– A problemática, ou temática, do anonimato não parece ter sido valorada na sentença.

Tomando literalmente o que veio a público, o Tribunal está só a punir aquilo que entende ser uma difamação, sendo irrelevante o meio pelo qual foi feita, mas relevante o estatuto deontológico, ou social, ou até simbólico, da pessoa que assim agiu. Interpretar a sentença, como o fez Fernando Esteves, no sentido de um castigo ao anonimato na Web poderá não passar de uma deturpação do intento da juíza ao serviço do seu acerto de contas com essa entidade provincianamente chamada de blogosfera. Só a leitura completa do processo poderá esclarecer a questão.
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Palavra de honra

Nada me daria mais gozo, como cidadão apaixonado pela política, do que ver este absurdo concretizado:

Há uma solução que é um governo PSD, CDS, PCP. Uma ideia “provocative”. Não me repugnava que, num governo deste tipo, o PCP tivesse uma pasta social ou do trabalho. Jerónimo de Sousa é um homem sincero, um homem autêntico, um político sério.

Seria o equivalente à violação da Segunda Lei da Termodinâmica, teríamos de reescrever de raiz os tratados de ciência política. E a verdade é a de que Guilherme Silva e Jerónimo já se catrapiscaram, pelo que Bagão está apenas a levar ao seu zénite o estado de absoluta impotência desta pseudo-direita que ocupa o espectro partidário onde outrora se passearam líderes com ideias que justificavam debate (ou tão-só com ideias, chega para marcar a diferença face aos actuais PSD e CDS). Nesse alucinado Governo-Félix, onde Jerónimo teria direito à pasta da Administração Interna dos Sindicatos, ainda veríamos Portas acumular as pastas da Defesa, do Mar, da Agricultura e da Lavoura. Para a Justiça, talvez a Manuela Moura Guedes, pelo seu privilegiado conhecimento dos meandros de certos processos mais complexos. Outro ponto de reflexão concerne à presença de um homem sincero, um homem autêntico, um político sério em tais companhias, mas deixemos a questão para o anúncio do novo pacto germano-soviético.

Esperemos que estes visionários se entendam e nos salvem de Sócrates rapidamente, pois deputados têm que chegue e sobre. Até lá, a gargalhada não vai parar.

Felino Fialho de Almeida

Devo dizer-lhes que este Carlinhos era um adoravel petulante de buço preto e olhos claros, cheio de vivacidades com raparigas, prompto a rir, delgadito e forte, tendo pelos actos de bravura uma quasi religião. Compensavam-se n’elle delicadezas de femea, brancuras de mãos, flexibilidades de cinta, uma doçura candida de feições, toda a graça ondulosa emfim, dos que adolescem á larga, sem cuidados nem represalias paternas, com os primeiros esboços d’essa energia physica, tenaz, inquebrantavel, leviana e generosa, que ainda agora é tradição em certas raças da provincia, e guarda fama de povoado em povoado. A escóla fôra-lhe apenas um pretexto de troça, onde esse incorrigivel tinha posto em debandada a auctoridade classica dos mestres. E como n’esse periodo as primeiras desordens do sangue, ensaiavam pelo campo da aventura, mais agora ou mais logo, as suas sortidas, não havia mesada que chegasse, nem horas para folhear as lições. Demais, a sua impetuosidade que esplendia côr e frescura de saude, pouco dava á vida cerebral; portanto, voltou á aldeia sem curso, elançado de figura, tendo as olheiras symtomaticas do amor esbanjado, lendo romances, com uma arte especial de surprehender mulheres, e predilecções decididas por quanto fosse prazer.

—Doido, dizia a gente pobre da aldeia, mas que rapaz!

PEQUENO DRAMA NA ALDEIA

O Rio da nossa aldeia

Se houvesse eleições antecipadas, não haveria uma mudança de regime, mas uma mudança no Governo. Isto é de tal forma grave que uma simples troca de Governo é insuficiente.

Para Rio, a queda do regime não acontecerá de forma “tradicional”, mas “de forma pior, com um poder democrático fraco e outros poderes fortes que às vezes nem o rosto se lhes conhece e não se consegue sequer combater devidamente”.

Fonte

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Rio quer um novo regime, mas até lá nada de mudar o Governo só por mudar. Entre Sócrates e Passos, nem sequer há escolha possível, diz-nos o ilustre nortenho. Está claro e está registado, sr. presidente. Mas, quanto aos outros poderes fortes que às vezes nem o rosto se lhes conhece e não se consegue sequer combater devidamente, estamos a falar de quem e do quê? De células comunistas que enterraram centenas de G-3 e granadas depois do 25 de Novembro? Da Maçonaria? Dos magistrados de Aveiro? Do balneário do Sporting? Era giro não ter de esperar pela queda do regime às mãos dessa malandragem para descobrir.

Tempestade no deserto

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Apud Miguel Abrantes, A secção laranja informa

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O PSD de Cavaco-Manela-Pacheco, que humilhantemente perdeu as eleições em 2009 com tudo e mais alguma coisa a seu favor, não foi uma aberração partidária, antes a consequência natural da confluência de dois vectores: o ímpeto reformista do Governo nos anos 2005-2008 e a decadência dos recursos humanos do PSD. Como na altura se falou, e ainda hoje se repete ao serviço de variadas agendas, Sócrates ocupou o centro na sua plenitude, assim conquistando o espaço vital dos social-democratas. De repente, a Lapa deixava de ser a coroa do império de centro-direita para se tornar numa ilhota descaracterizada em risco de desaparecimento por efeito das alterações climáticas.

Pacheco ainda tentou, timidamente, ser parte do processo de renovação cultural e programática que a sua inteligência lhe apontava como o caminho necessário, incontornável, durante a travessia da legislatura com maioria absoluta do PS. Durou esse proto-optimismo o tempo que durou Marques Mendes. Contudo, o marmeleiro não aguentou a golpada de Menezes, um tonto que ao fim de dois meses já envergonhava os barões com as suas calinadas, e juntou-se de alma e coração às forças negras, sulfúricas, que tinham na manga as velhas receitas, tão antigas quanto as cortes e os príncipes: calúnias, calúnias e mais calúnias. Sócrates iria provar a supina arte dos pasteleiros de Belém, os quais confeccionaram um bolo para ser coberto de cerejas por fogozos e intocáveis magistrados, jornalistas e tribunos de feira. E a SONAE já levava avanço nessa guerrilha, com o Público em ataque a outrance desde que a OPA tinha ido para o galheiro.

Ora, a via de regeneração do PSD não passa por esta toca do Coelho onde estão encafuadas figuras sem talento político nem estofo intelectual, muito menos autoridade moral. Por isso não espanta que à sua volta seja terreno de caça, mas quem anda a disparar responde pelos nomes de Marcelo, Santana e Pacheco, guiados por GPS a partir de certo palácio com vista para o Tejo. O sonhado D. Sebastião desta pobre e soberba gente – a aparecer, o que é incerto – virá no Sol de um cristalino e ofuscante meio-dia. A sua mensagem não será a de que regressou a salvo à pátria para reinar feliz, antes a de que continua no deserto. E que é a partir daí, desse reconhecimento do lugar onde se está, que o PSD pode encontrar o caminho para casa.

Lá se safaram, lampiões

Todos os treinadores que já tomaram a decisão, algures na sua carreira, de substituir o Vukcevic deviam ser julgados em tribunais populares e esses crimes nunca prescreverem. Teriam de justificar as decisões e explicar o bonito resultado da merda que fizeram sob pena de serem obrigados a decorar os discursos completos de José Eduardo Bettencourt. Espero que o montenegrino saia do clube quanto antes, já que ninguém vê o óbvio: ele é o jogador com mais fome de golo na equipa. Devia estar em frente da baliza a receber bolas, tamanha a sua facilidade em criar jogadas de perigo, em vez disso é posto a correr de um lado para o outro na lateral sem equipa que o acompanhe na raça.

Quanto ao resto, foi bonita a festa, pá. Fiz as pazes com o Postiga e o Benfica mereceu a sorte do jogo pelo balanço de vitórias consecutivas que vai somando. É que é só isto que se pede a um treinador, que tenha sorte. Não foi outra coisa que há dias o Mourinho reconheceu ao dizer que Deus gostava dele.

Hermenêutica libertadora

João Galamba foi ao Eixo do Mal, protagonizando um brevíssimo, incompleto e suficiente episódio onde se pode aprender a lidar com a pulsão de contrapoder, típica da esquerda adolescente, que não passa de uma forma de estupor político. O que estava na berlinda era a reportagem na prisão de Paços Ferreira e esta passagem:

Enquanto o senhor não tomar medidas de ser um ser humano, o senhor vai ser altamente violentado. Há dúvidas?

O Daniel agarrou-se à frase. Tinha algo de muito importante a dizer acerca dela. Porque a puta da frase existia, tinha sido captada em vídeo, e ela era todo um programa. Era a manifestação da perfídia da instituição policial, a expressão do mal fardado. A isto respondeu o João, depois de uma provocação do Daniel, com a seguinte proposta de raciocínio:

Aquela frase claro que incomoda. Eu não sei é se ela tem algum significado. E não sei se ela tem o significado que lhe queres dar.

No seguimento da discussão, o Daniel acabou a dizer que, por princípio, não confia na Polícia e nos polícias. O que é uma afirmação que pedia aprofundamento urgente. Que o leva a não confiar? E haverá algum profissional, ou cidadão, em quem confie por princípio? Adivinhamos que não, que reina naquela cabeça um cepticismo ético que o obriga a olhar para a realidade com uma permanente suspeita. Logicamente, indivíduos que interpretem os acontecimentos à sua volta a partir destas areias movediças não podem, consequentemente, gerar qualquer confiança naqueles com quem se relacionam. E nisto está uma explicação para a alergia do BE ao exercício da governação, situação na qual é obrigatório confiar se o propósito é viver em democracia. Já se for para viver em tirania, então a paranóia é o estado mental mais avisado.

O desafio dos significados, como incisivamente ripostou o João Galamba, é um dos mais heróicos trabalhos da liberdade.

Apocalypse Now

Avisam-se todos os sacerdotes do culto socrático, tantos os do lado direito do templo, os mais fanáticos, como os do lado esquerdo, os mais proselitistas, de que o mês de Fevereiro terminou sem o desmembramento ritual do vosso deus – e isto apesar de uma certa geração cada vez mais parva, uma Alemanha cada vez mais estúpida, um PSD cada vez mais idiota, um BE cada vez mais imbecil, uma Líbia cada vez mais louca e o petróleo cada vez mais histérico. A Gerência pede a vossa compreensão e paciência, fazendo notar que ainda temos mais 10 meses pela frente, período durante o qual poderemos encher as ruas com urros e flores festejando a chegada do FMI, voltar a bloquear as estradas com camionetas de mercadorias ou incendiar o Parlamento e edifícios contíguos.

Se cada um destruir a sua parte, se não vacilarmos no boicote de tudo por causa de todos e no ataque a todos por causa de tudo, se os profetas da desgraça se abraçarem amorosos às Cassandras chonés, vamos bem a tempo de dar uma grande alegria aos apóstolos da situação explosiva.

Pendurados em Alvalade

No seguimento da violência no estádio do Sporting, onde adeptos do clube agrediram a polícia depois de terem tentado agredir jogadores do Benfica e demais auxiliares no campo, a SAD emitiu este comunicado. É um texto abjecto, que toma o partido dos que violaram a lei atacando os que a queriam defender. E, ao não vir assinado, vincula todos os elementos dos corpos dirigentes do clube ao seu teor.

Algures na Internet, esse mesmo comunicado foi reproduzido, tendo acolhido os dois comentários supra. Não sabemos quem os escreveu. Não sabemos o nome de registo civil, a idade, o género, a morada, a profissão, as habilitações escolares. Não sabemos se estavam sob o efeito de medicamentos, álcool ou estupefacientes quando escreveram. Não sabemos se estão em depressão, sofrem de paranóia ou esquizofrenia. Não sabemos se escreveram num registo irónico, ou de pastiche, ou de provocação infantil. Não sabemos se se arrependeram dias, horas, minutos ou segundos depois de os terem enviado. Não sabemos se estas duas almas não fazem mal a uma mosca, nunca fizeram nem farão. Não sabemos se são dois indivíduos ou o mesmo. Mas sabemos isto: o registo é psicopata e está lógica e moralmente suportado pelo comunicado do Sporting.

Nenhum candidato à presidência leonina, que eu tivesse ouvido ou lido, emitiu opinião acerca dos incidentes ou do comunicado. A superior violência contra o clube, logo contra a sociedade, está neste deserto de carácter daqueles que pretendem ter o privilégio de inscrever o seu nome na história do Sporting Clube de Portugal.