Este é o tempo das grandes decisões, a hora em que o sentido de responsabilidade dos Portugueses, de cada português, irá ser posto à prova. Juntos, conseguiremos ultrapassar as adversidades do presente e dar aos nossos filhos um melhor futuro.
Diz que é uma espécie de Presidente da República
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Em qual das eleições passadas é que não passámos por um tempo de grandes decisões, onde o sentido de responsabilidade dos portugueses, e de cada português, não tenha sido posto à prova? Em qual das outras eleições passadas é que não esteve em causa ultrapassar as adversidades do presente e dar aos nossos filhos um destino melhor? Assim de repente, só me lembro de uma: as últimas presidenciais. Para as restantes, estes clichés encaixam mais perfeitamente do que um bloco de calcário na pirâmide de Gizé.
Quando o eleitorado escolheu o PS para Governar, em Setembro de 2009, ainda não havia Grécia, especuladores internacionais, desnorte europeu e FMI no horizonte. Não foi para esse cenário que algum dos partidos elaborou o seu programa, por isso todos se igualam na desadequação dos mandatos eleitorais recebidos então face à sucessão de acontecimentos a partir de Janeiro de 2010. Que era suposto ter acontecido no contexto pré-crise das dívidas soberanas e perante a recusa da oposição em colaborar com o PS? Uma de três alternativas, e só três: ou o PS governava em minoria, ou o Presidente declarava querer um Governo de salvação nacional ou se repetiam as eleições. Como é para lá de óbvio, não faria sentido, naquela situação nacional e internacional, estar a impedir o PS de governar em minoria. Assim, o Presidente legitimou essa solução. Quer isto dizer: tudo o que o Executivo foi fazendo na gestão da crise da dívida, incluindo os variados ajustes às decisões dos seus pares europeus que foram sempre exigindo mais austeridade, teve o aval do Presidente. Caso não o tivesse recebido, teríamos tido eleições logo que o Presidente considerasse estar o interesse nacional a ser desrespeitado. O Presidente continuou a legitimar o Governo até ao dia da votação para as presidenciais, apesar de conhecer plena e directamente qualquer dos meandros da governação e das contas públicas. Nessa mesma noite em que celebrou a vitória, e ao arrepio do que as suas promessas eleitorais assumiram, declarou que estava na altura de afastar o PS da governação.
Cavaco, o mais nefando agente político dos últimos 30 anos, nunca iludiu os portugueses nem lhes escondeu a verdade [sick]. Foi por isso que permitiu a Sócrates chegar a Março de 2011, dado não haver razões que justificassem a sua substituição ou relegitimação em votos. E não fosse esta crise que derrubou o Governo ter-se desenrolado a uma velocidade que ele já não consegue acompanhar, continuaria a deixar os portugueses sem ilusões e face a face com a luminosa verdade: Cavaco pretendia correr com Sócrates mesmo sem ter qualquer razão válida para o fazer.