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Iniciação ao estudo da Cultura Clássica

Almocei ao lado de três universitários. 20 anos. Falavam de política. Um deles dizia que gostava do Sócrates. Por uma razão qualquer que já esqueci. Outro dizia que não gostava do Passos Coelho, por uma razão qualquer que nem fixei. Os três estavam de acordo em que uma carreira política de topo implica ficar sujeito aos mais baixos ataques, parecendo-lhes absurdo que alguém aceitasse tal funesto destino.

Este diálogo remete, por contraposição, para aquelas ocasiões em que Sócrates declara sentir-se honrado com a possibilidade de servir o País, particularmente em tempos tão gravosos e desafiantes. Os cínicos, fatalmente broncos, não entendem a linguagem da honra, por isso rebolam-se na indiferença ou no escárnio quando ouvem esses testemunhos.

Se o exercício da governação numa democracia é penosamente desgastante e provavelmente ingrato, a gestão das crises exige capacidades que poucos terão. Se perguntássemos a todos os portugueses maiores de 18 anos pelo seu interesse em fazer parte do Governo, a resposta seria baixíssima face ao total da população. E desses que se afoitassem, a maior parte desistiria assim que percebesse no que se estava a meter. Finalmente, raros seriam os que aguentariam a constante pressão e a dificuldade nas decisões.

Muito mal estaríamos se apenas Sócrates tivesse talento para chefiar um Governo em terríveis apuros, mas muito mal estamos ao não admitir que precisamos daquilo que ele já provou ter numa abundância sem rival conhecido até agora.

Menos moralismo, mais judo

A Revista da Ordem dos Médicos de Março inclui dois textos de crítica aos disparates do improvável William H. Clode – cortesia da Shyznogud. Um deles é da Ana Matos Pires, já anteriormente publicado.

Ora, estamos perante um exemplo da indubitável vantagem de se ter permitido um erro. O erro é a publicação na dita revista de um texto de péssima literatura. E a vantagem consiste na resposta que gerou, os dois protestos indignados que foram publicado no local do crime. Esta lógica pode aplicar-se a muitos outros meios, canais e situações em que alguns sentem a tentação de impedir os erros a todo o custo, o que os leva a apelar à censura ou à limitação da liberdade de expressão, quando o que nos faz falta é a correcção do erro e/ou o castigo do seu autor.

Nesta episódio, os homossexuais saíram dignificados em consequência da ridicularização do ataque a que foram sujeitos numa prosa maluca. E não se trata de supor que eles precisavam desta história para alguma coisa, trata-se é de reconhecer que qualquer cidadão precisa do exemplo dado pela intervenção da Ana e do João Ribeiro.

PSD e FENPROF, o que ainda falta destruir

Mário Nogueira alertou que “caiu o Governo, mas não caíram” todas as medidas do executivo, pelo que a luta dos professores prossegue, havendo muita preocupação com aquilo que em Setembro poderá provocar desemprego com a redução de docentes nas escolas.

Quanto às eleições que se antevêm para finais de maio ou princípios de junho, o secretário-geral da FENPROF salientou que estas devem ser vistas como uma “janela de oportunidade” para alterar a política que está a ser seguida.

Questionado sobre se estava surpreendido com o sentido de voto do PSD sexta-feira no Assembleia da República, Mário Nogueira considerou que os sociais-democratas tiveram nos últimos três meses tempo para se aperceberem da inutilidade do atual regime de avaliação, apontando também o trabalho que a estrutura sindical fez junto dos grupos parlamentares acerca desta questão.

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Perguntas simples

O facto de ter aparecido no website da Presidência a notícia do pedido de demissão do Primeiro-Ministro ainda antes deste o ter anunciado ao País, significa que em breve Cavaco poderá publicar outros furos jornalísticos, incluindo o nome do próximo treinador do Sporting?

Sábias palavras

Anthropological and sociological research on the nature of hope shows again and again that hope cannot be reduced to either action or non-action. It is neither active nor passive. In confronting uncertainty, hope demands that we at least temporarily give up our constant quest for information, knowledge and certainty. It then gives us a moment of rest that our mind desperately needs for further thought and action.

Fonte

De caretas

Existirá uma rosto típico dos portugueses, que nos distinguisse dos espanhóis e italianos ou de outras nacionalidades latinas? Se existir, e não existe, pode bem ser este. Estou a ver um documentário acerca dele, Pete Souza. É o fotógrafo oficial de Obama, neto de açorianos. Retintamente português ou galego. E mais uma curiosidade lusitana na Casa Branca, ainda antes do cachorro.

A estrada da Beira e a beira da estrada

Se houvesse alguma dúvida de que não era mais possível suportar uma “situação” sustentada apenas na chantagem e no desprezo pelas mais elementares regras da democracia, o gesto final deste tiranete vindo das Beiras encarregou-se de a desfazer.

Zé Manel

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Em sintonia com a Fernanda, também eu me deslumbro com a decadência do PSD. É um partido que não produz pensamento e é alérgico à inteligência, mas cujos quadros e conselheiros habitam no topo da pirâmide social, tendo acesso às melhores fontes onde se poderão informar e instruir. A sua ocupação, ubíqua, da comunicação social implica que tenham à mesma de produzir um qualquer discurso. Sem surpresa, é o discurso da hipocrisia mais obscena e do ódio. A surpresa vem da longa duração deste miserável registo, que incrivelmente – depois de uma violenta e opressiva campanha de assassinato de carácter contra Sócrates, como nunca tinha sido feita em Portugal contra um político – lhes custou as eleições em 2009, e ameaça as de 2011, sem que retirem as devidas ilações. Só que eles não aprendem, nem quando todas as sondagens valorizam uma postura responsável e a favor da governação. A gula e prepotência dos oligarcas precisa das injecções de dopamina que só a instabilidade política oferece quando estão afastados do pote – os interesses dos mais frágeis nunca incomodaram os abastados, não seria agora que tal anestesia iria desaparecer.

A suposta direita nacional (tão estúpida que me recuso acreditar corresponda à verdadeira direita), assim que Ferreira Leite foi eleita presidente do PSD entrou em campanha eleitoral sem outro projecto que não fosse o de vencer pela destruição moral do adversário. Foi um plano concertado com Cavaco Silva, cujos discursos e acções o confirmam para além de qualquer dúvida. Resultou desta indigência política um absurdo intelectual: o grotesco dirigido contra Sócrates – fazendo dele alguém que seria capaz dos esquemas mais sofisticadamente malévolos e criminosos e, simultaneamente, alguém destituído das mais básicas competências governativas – espalhou-se de forma tóxica contra todo e qualquer um que tivesse ligação política, administrativa ou opinativa com o Primeiro-Ministro. Milhares e milhares de cidadãos eram, de repente, agentes e cúmplices de ilegalidades, incúrias e gestão danosa, segundo os publicistas do PSD. Este caldo esquizóide, de acordo com as previsíveis dinâmicas da psicopatologia, gerou fenómenos paranóides, onde quem se atrevesse a manifestar o seu apoio ao Governo era acusado de ser assessor do mefistofélico gabinete, e também fenómenos delirantes, em que se começou a pedir ao PS para decapitar a sua liderança e entregarem a cabeça de Sócrates ao PSD, já que eles tinham chegado ao limite do desespero com tanta derrota e humilhação seguidas às mãos daquele… daquele… monstro!

O Zé Manel, nesta incarnação em que já não precisa fingir ser jornalista, tem sido de uma transparência ofuscante. Ei-lo aqui a desabafar o quanto lhe custa ver um tipo chegado das Beiras a ganhar eleições democráticas. É uma “situação” insuportável, diz-nos febril. Ele, logo ele, o pau para todo o serviço de Belém, que conhece como poucos o que significa o desprezo pelas mais elementares regras da democracia. Dificilmente encontraremos melhor retrato do que é o actual PSD do que o dado por estas infelizes criaturas a ladrar a quem passa na estrada.

Impressionar no emprego, seduzir em festas, brilhar nos jantares

A Dose of Safflower Oil Each Day Might Help Keep Heart Disease at Bay
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Medically Underserved Girls Receive Less Frequent Evaluation for Short Stature
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Feeling Angry? Say A Prayer and the Wrath Fades Away
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Good News for Meat Lovers: Most Ready-to-Eat Meat Products Contain Very Few Cancerous Compounds
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Mentholated Cigarettes No More Harmful Than Non-Mentholated Brands
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Psychologists Find the Meaning of Aggression
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Study Reveals Social, Financial, Other Benefits of Toy Libraries
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New Study Examines How Leaders Explain Unpopular Decisions
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After Collective Trauma, Religiosity and/or Spirituality Found to Affect Health Outcomes
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Pulling an All-Nighter Can Bring on Euphoria and Risky Behavior
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Contented Citizens Vote Against Change

Broad Coalition Briefing

Sugestões para o PSD aproveitar o tempo que falta até às eleições através da sua coligação com o PCP e BE no Parlamento, a qual já lhe deu tantos inolvidáveis sucessos:

– Acabar com a avaliação na Função Pública.

– Acabar com os limites ao endividamento autárquico.

– Aumentar as pensões e o salário mínimo para o dobro ou triplo (valor final a negociar com o Jerónimo).

– Desfazer as obras feitas nas escolas e vender o entulho resultante.

– Reabrir todas escolas do Ensino Básico encerradas desde 2005 e quadruplicar os funcionários e professores lá alocados desde que garantam participar em caminhadas na Avenida da Liberdade em dias a indicar por um senhor de bigode.

– Dotar cada vila com mais de 5000 habitantes de hospital próprio.

– Desviar o dinheiro investido em ciência e tecnologia para a festa do Avante, a festa do PPD/PSD Madeira e as festarolas do BE.

– Criar uma comissão parlamentar de inquérito para averiguar a responsabilidade de Sócrates no assassinato do arquiduque Francisco Fernando, a partir das notas tiradas pelo Pacheco aquando da sua aturada investigação das escutas à moda de Aveiro.

(mais) razões para amar Miguel Macedo

Por muito zangado que fique o primeiro-ministro, por muito que franza o sobrolho, pensando que nos mete medo, não mete medo nenhum, vai ter que ouvir, o que quer e o que não quer ouvir. E tudo o que dissermos ao primeiro-ministro, é pouco para o que ele fez ao país.

Vamos ter uma luta terrível pela frente, vamos ganhar, mas vamos passar muito…

O PSD não vai para a campanha “encolhido” porque se há alguém que tem de ir para a campanha com olhos no chão, são aqueles que conduziram o país à situação em que está.

Se o primeiro-ministro pensa que intimida o PSD com a sua famosa má disposição, está enganado. E quero dizer-lhe que no PSD também há quem tenha muito má disposição, a começar por mim, e que já não temos paciência para aturar estas cenas que faz permanentemente ao país.

Fonte

Afinal, Ferreira Leite tinha razão

Por mais que nos custe, temos de dar o braço a torcer, ou talvez ela prefira o pescoço, porque Ferreira Leite tinha toda a razão e foi injustamente criticada. Agora vemos como sempre colocou o interesse nacional em primeiro lugar e procurou alertar os portugueses para os perigos iminentes. De facto, ela bem sabia das desgraças que Passos Coelho poderia causar nas finanças públicas, por isso deixou-o fora do Parlamento para que pudesse procurar uma outra carreira, por exemplo em telenovelas, ou tão-só um brinquedo para ficar entretido. Foi uma decisão que procurou defender o prestígio de Portugal da estouvada imaturidade, cujo alcance poucos na altura compreenderam, mas que hoje até na Alemanha se aplaude pelo rasgo visionário.

A verdade política da Política de Verdade

Esta é a pequena história do meu fracasso no marketing político. Em 2004 eu trabalhava para a agência que viria a fazer a campanha que opôs Santana Lopes a José Sócrates (legislativas de 2005). Para os profissionais brasileiros vale tudo quando se está em campanha, e nesse tudo coube a criação do blogue Portugays onde mais do que se insinuou a homossexualidade do candidato socialista. Não satisfeitos com isto, que a imprensa portuguesa da altura ainda mal espiolhava a blogosfera como depois veio a fazer, um dos marqueteiros melhor relacionados com os jornais do Brasil pediu a um camarada que colocasse uma notícia dando conta da alegada ligação entre Sócrates e Diogo Infante que, como é óbvio, passou para a imprensa deste lado do Atlântico. (…)

Ricardo Gross, Como as coisas se fazemapud Miguel

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Se existisse imprensa em Portugal, este testemunho seria imediatamente investigado. Para algo do género ocorrer, implica que há dezenas de pessoas que conhecem os factos directamente ou por ligação directa com os protagonistas. O que sabemos é que a notícia no jornal brasileiro existiu, que ela chegou a Portugal e que foi alimentada. Enfim, se existisse imprensa em Portugal, Cavaco não resistiria ao caso das escutas nem à sua ligação à SLN.

Do outro lado, temos Sócrates, um alvo para campanhas de assassinato de carácter ainda antes de ter chegado a Primeiro-Ministro, e a quem já fizeram de tudo, incluindo a devassa da sua privacidade para efeitos de espionagem política e incriminação conspirativa. Para Sócrates há milhares de páginas e de horas de investigação por parte de variadas autoridades. Tem sido um fartar vilanagem, onde o segredo de Justiça é uma gargalhada. Isto acontece porque o PSD domina a comunicação social, não tem qualquer escrúpulo ético e anda a ser dirigido por sucessivas lideranças medíocres que se limitam a recorrer à insídia. E nem é por mal, é só porque não sabem fazer mais nada.

PSD faz História

Esta crise política já estava prevista, só que era para o final do ano, com o chumbo do Orçamento. O primeiro-ministro não achava bem esse calendário e foi ele que resolveu provocar a crise política agora e tentar lançar as culpas para cima dos outros.

Marques Mendes

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Segundo nos conta Marques Mendes, repetindo os seus pares partidários, Sócrates quis provocar uma crise política nesta altura e o PSD não pôde fazer nada para a evitar. Ou porque Sócrates sozinho é mais forte do que o PSD no seu todo, ou porque o PSD nem vê com maus olhos a crise que Sócrates pretendeu abrir porque lhe dava mais jeito agora e não lá para o Outono. É isto que nos está a dizer o aquilino Marques Mendes. E continua. Que Sócrates, para abrir uma crise que lança a nossa economia para o centro do furação mundial e tem consequências sistémicas para outras economias europeias, apenas precisou de ser mal-educado. Bastaria ter dado uma palavrinha a Cavaco e tudo isto teria sido evitado. Um telefonemazinho, não era preciso mais. Assim, como se armou em rufião, está a pagá-las… hã… isto é, desculpem-me… está a ganhá-las, pois era isto mesmo que ele queria, o malandro!

Contudo, porém, todavia, há uma coisinha que Marques Mendes não nos está a explicar. É que se a sua tese é para ser algo mais do que a enésima manifestação da decadência dos sociais-democratas, por que razão não vimos o PSD a tentar negociar um PEC que só tinha de ficar fechado em finais de Abril e que só foi levado a Bruxelas a 11 de Março para efeitos de dar um sinal político que era absolutamente necessário dar naquela altura e daquela forma inequívoca? Que impediu o que seria a lógica decisão do PSD à luz das acusações que agora lançam: evitar que Sócrates levasse a sua maquiavélica perversidade avante e obrigá-lo a defender os mais altos interesses de Portugal nas vésperas de tão crucial cimeira europeia? É que seria uma cicuta a que ele não poderia fugir, posto que anunciou estar pronto para negociar qualquer das medidas. Anunciou-o até ao último dia, incansável e veementemente.

A estupidez deste PSD ultrapassou todos os limites da responsabilidade. É, verdadeiramente, um momento histórico.

A oposição que somos

Quando o PS pediu reuniões com a oposição parlamentar para tentar um compromisso que desse estabilidade à acção governativa, ocorridas em Outubro de 2009, nenhum partido aceitou qualquer tipo de acordo, por mínimo que fosse. O Executivo teria de governar em minoria, sujeito ao capricho dos líderes que perderam as eleições. De imediato se constatou a disfuncionalidade de tal situação, ficando o PSD como penhor da viabilidade do Governo PS. Nessa altura, Ferreira Leite garantiu que iria deixar passar o Orçamento para 2010, só abandonaria o barco após concluir essa missão. Cavaco aceitou e aplaudiu. Chegados ao Orçamento para 2011, já com Passos a marcar passo, alimentou-se um drama apenas resolvido por força das circunstâncias: havia que assegurar a reeleição do Presidente da República. Assim que Cavaco fechou esse ciclo, e logo na noite da vitória eleitoral, começou a lançar fogo para cima do Governo. O que se seguiu em Belém depois do fel e desvario emocional de 23 de Janeiro, para espanto de toda a gente incluindo os seus apoiantes, tem vindo num crescendo de irresponsabilidade e violência institucionais.

É sintomático que não nos lembremos de uma única condição invocada por algum partido da oposição para a partilha da responsabilidade governativa. O PCP não pediu uma nova reforma agrária ou o aumento da produção à sua moda, o BE não disse que governava se pudesse sacar o dinheiro aos bancos e aos ricos, o PSD não reclamou a expulsão de Sócrates do Largo do Rato e o CDS não exigiu o recrutamento de um milhão de polícias. Nada de nada propuseram, estavam unidos no asco aos socialistas. À esquerda, porque precisam de inimigos impossíveis de vencer, logo permitindo uma luta que nunca poderá acabar. À direita, porque os fidalgotes falhos de inteligência e coragem estão condenados a serem vazadouros dos ódios nascidos da sua impotência.

A oposição continuou até esta quarta-feira a tentar boicotar a governação de todas as formas disponíveis, indiferente às consequências que são evidentes. Atingiu nessa irracional tarde o cúmulo da negatividade ao impedir Portugal de continuar a resistir à tempestade financeira internacional, sem se ter dado sequer ao trabalho de apresentar um esboço de alternativa para a defesa do interesse nacional.

Que grande lição, e não só de política.