Iniciação ao estudo da Cultura Clássica

Almocei ao lado de três universitários. 20 anos. Falavam de política. Um deles dizia que gostava do Sócrates. Por uma razão qualquer que já esqueci. Outro dizia que não gostava do Passos Coelho, por uma razão qualquer que nem fixei. Os três estavam de acordo em que uma carreira política de topo implica ficar sujeito aos mais baixos ataques, parecendo-lhes absurdo que alguém aceitasse tal funesto destino.

Este diálogo remete, por contraposição, para aquelas ocasiões em que Sócrates declara sentir-se honrado com a possibilidade de servir o País, particularmente em tempos tão gravosos e desafiantes. Os cínicos, fatalmente broncos, não entendem a linguagem da honra, por isso rebolam-se na indiferença ou no escárnio quando ouvem esses testemunhos.

Se o exercício da governação numa democracia é penosamente desgastante e provavelmente ingrato, a gestão das crises exige capacidades que poucos terão. Se perguntássemos a todos os portugueses maiores de 18 anos pelo seu interesse em fazer parte do Governo, a resposta seria baixíssima face ao total da população. E desses que se afoitassem, a maior parte desistiria assim que percebesse no que se estava a meter. Finalmente, raros seriam os que aguentariam a constante pressão e a dificuldade nas decisões.

Muito mal estaríamos se apenas Sócrates tivesse talento para chefiar um Governo em terríveis apuros, mas muito mal estamos ao não admitir que precisamos daquilo que ele já provou ter numa abundância sem rival conhecido até agora.

13 thoughts on “Iniciação ao estudo da Cultura Clássica”

  1. É por isso que muitos o detestam, mas é também por isso que muitos o apoiam. Pela sua inquebrantável confiança em si próprio e pela sua tenacidade na incondicional defesa do país. É um excelente governante que, saudavelmente e humanamente, não é infalível, nem sempre tem razão. Vai ter o meu voto.

  2. Pois é. Governar em ditadura é fácil. Difícil é governar em democracia (que o digam as ministras da educação).

    Se não for tão burro como parece, Passos já deve estar a perceber onde se foi meter. Mas, por muito que quisesse, ou que os seus correligionários quisessem, já não há margem para arrepiar caminho. Portanto, munido de um manual graciosamente cedido pelo FMI, lá irá debitando as habituais banalidades, aparentes ousadias, reais contradições, impreparação e imprevisibilidades usando a técnica teatral da voz mansa, assim tentando distinguir-se de José Sócrates, para “dar tranquilidade” ao eleitorado. Será conveniente não esquecermos esta técnica. Por mim, prefiro um furioso com a incompetência e irresponsabilidade alheias, mas que sabe o que está a fazer e se organiza irrepreensivelmente para isso.

    Receio bem que, se os portugueses mesmo assim derem a maioria dos votos a tão irresponsável criatura, assistamos a mais um daqueles espectáculos degradantes da nossa vida democrática como foi o governo de Santana Lopes. Há indícios de que tal venha a acontecer, apesar de ainda só estarmos em pré-campanha. Um autêntico festival do desnorte. Uma vergonha. Com a agravante de estarmos a viver uma crise económica gravíssima. Seria mais uma vez um maná para os jornais, tantas seriam as cenas anedóticas, mas um preço bem alto para Portugal. Marco António ministro da presidência? Portas ministro da defesa? Oh, não, outra vez não, please! Marques Mendes ministro para os média?

  3. Bom, o problema é mesmo com os universitarios, ou antes com a ideia estapafurdia de que existiria uma relação entre eles (universitarios) e cultura classica.

    Se assim fosse :

    1. Eles (e tu) saberiam que os cinicos são tudo menos broncos, o que obviamente não significa que devamos subscrever todos os seus ensinamentos.

    2. Eles (e tu) procrariam saber o que é que deve aos cinicos a ideia de que é absurdo querer seguir uma carreira politica de topo.

    3. De caminho, eles (e tu) lembrar-se-iam da doxa à qual os cinicos se opoem e evocariam com certeza o que é a “honra”, como se alcança e como, nalguns casos, pode mesmo reinvidicar-se, ao mesmo titulo que outros bens, embora deles se distinga.

    4. O mais provavel, então, seria eles (e tu) concordarem que a politica é a arte suprema porque a felicidade pertence àqueles que agem… De seguida, veriam porque é que as pessoas aspiram a exercer cargos publicos, e veriam também porque é que a virtude dos politicos se mede, não nas ideias ou nas intenções puras, mas nos actos e nos resultados.

    As considerações acima são uma fabula. As coisas so poderiam acontecer dessa forma num pais remoto, talvez inexistente, onde as pessoas abrissem mesmo os livros que citam e olhassem mesmo para a realidade onde vivem.

    Nada a ver com a universidade portanto. E nada a ver com Portugal…

  4. Aproveito também para louvar as notáveis capacidades de adivinhação demonstradas pela Penélope.

    Quando até o modo de Passos Coelho colocar a voz é motivo de implicância – eu que sempre o ouvi falar dessa maneira, ainda ele não pensava chegar a líder do PSD -, é difícil estabelecermos um patamar de mínimo bom senso neste tipo de discussões. Vamos lá ver, não vejo em PPC o salvador da pátria e reconheço que ele deveria gerir melhor a forma como tem feito algumas declarações, por forma a evitar cair em eventuais contradições (embora bem saibamos que uma certa manipulação e descontextualização por parte da comunicação social leva a que se tomem como factos assentes essas supostas contradições) e a não alimentar a sensação que apenas debita ideias vagas, factores esses que o fragilizam perante o eleitorado, mas que também são extrapolados sofregamente pelo PS. Mas também se diga que a um líder da oposição, ainda para mais quando não arrancou a campanha eleitoral, não se pede que lance um mar de ideias e medidas concretas, pois essa competência é dos governos.

    Sócrates até pode ter mais fibra e coragem, mas está no poder há seis anos. Passos Coelho nunca esteve lá e essa diferença é importante e não pode ser esquecida. Daqui a uns anos falamos melhor.

  5. Mas também se diga que a um líder da oposição, ainda para mais quando não arrancou a campanha eleitoral, não se pede que lance um mar de ideias e medidas concretas, pois essa competência é dos governos.

    Então o que é que se pede a um líder da oposição, HG? Especialmente o líder de um partido com responsabilidades governativas, e que toma a decisão de forçar o derrube de um governo a meio de uma crise gravíssima por alegadamente não concordar com as medidas? “Logo se vê, prometo fazer tudo ao meu alcance” para ti chega-te?

    e a não alimentar a sensação que apenas debita ideias vagas, factores esses que o fragilizam perante o eleitorado, mas que também são extrapolados sofregamente pelo PS.

    É suposto o PS deixar passar isso em claro?

    Sócrates até pode ter mais fibra e coragem, mas está no poder há seis anos. Passos Coelho nunca esteve lá e essa diferença é importante e não pode ser esquecida.

    Louçã e Jerónimo também nunca lá estiveram. Explica lá isso melhor.

  6. Alto aí, HG, não se trata de adivinhação. Trata-se de um receio mais do que fundado.
    O líder anda um ano a dizer que subida de impostos nem pensar, o governo que reduza a despesa. Espoletada a crise, a primeira coisa que diz é que deverá ter de aumentar a taxa de IVA, para, no dia seguinte, vir um outro e dizer que não, que esse é o último imposto a utilizar. Numa entrevista, o líder diz que colaborará na discussão do novo PEC, passadas 2 semanas chumba o PEC. Diz o PSD, para Portugal, que as medidas são demasiado duras e que há limites para os sacrifícios; diz o líder à Reuters que as medidas não iam demasiado longe e que, por isso, foram chumbadas. Perguntam-lhe, então, que medidas propõe e a resposta é ah e tal privatizar parte da CGD, fechar uns institutos e outras coisas que terão de ser feitas porque o Estado e tal tem que emagrecer, não pode fazer concorrência aos privados. Mas medidas, quais? Quais? Ah, isso. Estamos a elaborar o programa de governo. Dias depois sabemos que a apresentação do programa foi adiada, ou mesmo suspensa.
    Anda esta alma há mais de um ano a liderar o partido e ainda não tem nada de concreto para apresentar? Nem com um livro de teoria neoliberal nas mãos? E quando alguém apresenta qualquer coisa vem logo outro desmentir ou “interpretar”? Por favor. Eu até me divertia com as figuras tristes do Santana, mas o problema é que a situação não é para brincadeiras. Não é mesmo.

  7. Vega9000, eu creio que por muito bem informado que um líder da oposição esteja, só quando chega ao poder é que tem a possibilidade de ter um verdadeiro e aprofundado conhecimento da realidade, como, por exemplo, a situação das contas públicas. E por isso é recomendável que haja alguma cautela no anúncio prévio de medidas e isso pode ser confundido (não estou a dizer que seja sempre o caso, atenção) com falta de ideias. Mas a verdade é que Passos Coelho e a sua equipa já demonstraram em termos gerais a via que querem seguir, independentemente de merecer a discórdia, inclusive ideológica, de muita gente. Nesta voragem da informação dos dias de hoje e ouvindo os vários comentadores da actualidade política, confesso que me sinto por vezes baralhado em relação ao que se diz sobre Passos Coelho. Se por um lado parece-me que se criticam ferozmente certas ideias concretas – como as privatizações em vários sectores -, por outro parece-me que afinal é acusado de não ter ideias nenhumas e de apenas dizer coisas vagas e inconsequentes. Decidam-se.

    O que quero dizer com essa questão dos seis anos de poder que separam Sócrates de Passos Coelho (nem são seis, até são bem mais, como é sabido), é que este ainda não foi testado a sério, pois não tem experiência de poder, e é perfeitamente normal que Sócrates seja mais animal político e transmita hoje uma imagem de maior confiança e experiência. Acho algo precipitado e até injusto que se queira fazer já uma comparação entre o que um fez e faz e o que o outro pode fazer em termos de governação. Já agora, Louçã e Jerónimo nunca estiveram no poder e é por demais evidente que não o pretendem. Mas isso já é outra novela.

    Penélope, não vejo nenhuma contradição entre dizer-se há um ano que o governo deveria reduzir a despesa e agora falar-se num hipotético aumento de impostos, pois isso decorre da incapacidade revelada pelo governo em diminuir a despesa. E digo hipotético, porque o que PPC afirmou foi que quando conhecer a real situação das contas públicas e em caso de necessidade urgente, prefere aumentar os impostos sobre o consumo do que sobre o rendimento. Além disso, sempre se diga que a não aprovação do PEC resultou mais do modo como Sócrates procedeu, sem dar Cavaco ao próprio e aos demais, do que propriamente com uma discordância clara com a maior parte das medidas. Ou melhor, o problema não está apenas nas medidas de austeridade a tomar, nem PPC alguma vez disse que está tudo bem e que não as vai também assumir e aplicar, mas sim no porquê de termos que as aplicar, no que não se fez ao longo de todo este tempo para as evitar hoje.

  8. HG:
    “e em caso de necessidade urgente, prefere aumentar os impostos sobre o consumo do que sobre o rendimento”.
    Mas sabes ou não sabes que entretanto já vieram dizer o contrário? As contas públicas têm sido “acompanhadas” pelo Banco de Portugal, pelo BCE e pela CE e os dados estão disponíveis. Não arranjem eles, nem tu também, desculpas esfarrapadas.

    “a não aprovação do PEC resultou mais do modo como Sócrates procedeu”.
    Engraçado. Manda-se o país para as urtigas por uma questão de forma. Teve, mesmo assim, um mês para negociar. Disse que não. Por outro lado, sabendo nós o que sabemos sobre as pressões internas no PSD, queres mesmo convencer alguém de que o PEC teria sido negociado, não fosse a questão da forma? É claro que não. Como eles disseram, era agora ou nunca.

    Quanto ao que dizes lá mais atrás ao Vega. Sim, PPC vai anunciando as suas intenções de privatizar isto e aquilo e mais aqueloutro. O próprio governo também tem agendadas alguma privatizações. O problema é que as privatizações, a fazerem-se, com sorte, havendo interessados, não são feitas no curto nem no médio prazo. Precisamos de saber onde vai PPC buscar receitas para reduzir o défice em 2011 e 2012 para os valores assumidos.

    Passos, é certo, pode até não dizer nada. Não é obrigado. Pode até dizer “Querem saber o meu programa? Pois não digo! Votem e depois verão.” Está nesse direito. Há muitas pessoas em Portugal que têm “fé”. Reúnem, portanto, as condições ideais para terem mais esta. Não peças é que esta estratégia, de consequências potencialmente catastróficas, não seja condenada, denunciada, desmontada e impedida (aqui e pelas instâncias europeias).

  9. HG,se, como dizes, “por muito bem informado que um líder da oposição esteja, só quando chega ao poder é que tem a possibilidade de ter um verdadeiro e aprofundado conhecimento da realidade, como, por exemplo, a situação das contas públicas. E por isso é recomendável que haja alguma cautela no anúncio prévio de medidas”, como explicas que até há poucos dias, o aumento de impostos fosse a medida tabu, peremptoriamente e definitivamente tabu para PPC e PSD? E menos de 12 horas depois de derrubar o governo passasse a ser uma medida socialmente justa, mas com cautela e coiso e tal?

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