Todos os artigos de Valupi

Impressões


ÁTICA, 2011

José Barreto fez aqui um ensaio à americana, onde as matérias investigadas são servidas com uma leveza no trato que não compromete o rigor, antes o destaca para uma imediata assimilação; algo simultaneamente raro e exemplo que o marasmo editorial académico podia muito bem seguir se tivéssemos sorte. Em vez de querer enfiar na Betesga da utilidade para o leitor o Rossio da inutilidade de um registo narcísico ou maníaco da investigação que se pretende passar por erudição, típico do provincianismo que tem empestado e imobilizado a academia, o autor foca-se numa intenção principalmente recolectora. Ele foi à procura dos textos cuja topologia estava definida previamente com exactidão, identificou as passagens mais relevantes e apresenta-as com uma suficiente explicação que situa os originais no conjunto da biografia e obra de Pessoa. Há um esforço consciente para limpar a palha subjectiva e deixar refulgir os factos. O mesmo registo económico foi utilizado com os restantes autores citados a partir da biblioteca do nosso António Nogueira, os quais terão sido influenciadores das posições que Pessoa viria a expressar em relação às temáticas femininas e respectivos debates ao tempo. Em suma, e para lá da agradável e instrutiva leitura, a qual oferece 5 inéditos pessoanos, ainda se fica com um inevitável instrumento para investigações futuras.

A temática da misoginia e anti-feminismo em Pessoa tem um bónus especial nisso de nos permitir descobrir (o meu caso), ou relembrar (talvez o teu), a fascinante figura de Thomas W. H. Crosland; um inglês nascido em meados no século XIX e que foi até aos princípios do século XX sempre a cascar no mulherio. É dele o livro Lovely Woman, de 1903, entusiasticamente sublinhado por Pessoa com anotações de aprovação e júbilo, e onde se encontram estas verdades intemporais:

– A mulher moderna deve ser “relegada para a sua esfera natural”, abandonando a política e sendo-lhe retirados privilégios, deferências e liberdades anteriormente outorgados.
– As mulheres são o “inimigo” e comparáveis aos escoceses, com quem não se podia fazer qualquer negócio por causa da sua desonestidade.
– As mulheres da classe média suburbana são pouco castas, avessas à maternidade, obcecadas com o conforto material e gastadoras impenitentes, dessa forma pondo em risco a raça britânica agora ameaçada de “suicídio”.
– A emancipação da mulher vai acabar por criar o “terceiro sexo”.
– A mulher invadiu as fábricas e os escritórios britânicos não por ser competente mas por ser mais barata.
– O “terceiro sexo” (essa tal mulher trabalhadora e independente) não sobreviveria no futuro por tal se opor às “leis do universo” e porque “fora do matrimónio o único lugar da mulher é numa loja de roupa para bebés”.
– A mulher não admite que tenha imperfeições físicas e espera do homem que a encare “como se não existissem dentes postiços”.
– A ideia de que o tempo gasto a namorar ajuda o homem e a mulher a compreenderem-se melhor é totalmente errada “porque na mulher não há nada para ser compreendido” e porque “no homem há muito pouco que a mulher seja capaz de compreender.”
– Do ponto de vista de um homem, “o mais aterrador quando se tem uma mulher é não se poder casar com outra”.
– Quando as mulheres de um país conseguem alcançar o que julgam ser os seus direitos, o país começa a decair.
– Um homem de vários talentos pode fazer coisas admiráveis e ilimitadas quando jovem, desde que “se afaste dele as mulheres”.
– Enquanto as realizações de um homem tendem uniformemente para o desenvolvimento da sua virilidade, as de uma mulher levam à destruição da sua feminilidade.
– Um homem que pensa ter uma beleza de mulher deve meditar se tal se deve à mulher ou à roupa.
– Por fracos oradores que sejam certos homens públicos, uma figura pública feminina fica sempre a milhas dele nesse campo.
– Contrariamente às donas de casa que deixam as criadas terem ascendente sobre elas, “um homem nunca toleraria tal estado de coisas em qualquer estabelecimento ou organização por ele dirigido”.
– O espancamento do marido pela mulher estaria a tornar-se corrente em Inglaterra, não sendo para espantar que “a mulher, se desenvolver a sua musculatura, mais tarde ou mais cedo bata no marido”.
– “A única propriedade com algum valor que uma mulher pode possuir é um bom marido”.

(citações das páginas 105 a 108)

Portas, Prémio Biltre 2012

Num ano de fortíssima concorrência, Paulo Portas acaba de dar um passo de gigante para a conquista do Prémio Biltre 2012 ao ter comentado com esta honestidade intelectual e exemplarismo ético uma frase retirada do seu contexto, contexto esse do foro particular, e frase essa absolutamente correcta; tão correcta que até Passos Coelho, um homem invulgar, já a validou para o mundo poder concentrar-se em paz na implosão da Zona Euro:

Portas diz que teve de ler duas vezes declarações de Sócrates sobre dívidas para acreditar

“O único comentário que me ocorre, com toda a franqueza, é que está explicado como é que o setor público e as empresas públicas atingiram o nível de dívida absolutamente astronómica que se atingiu em Portugal: é porque o primeiro-ministro pensava que não se pagava”, disse.

Paulo Portas comentava em Bruxelas, à margem de uma reunião de chefes de diplomacia da NATO, uma declaração proferida por Sócrates em Paris durante uma palestra, e hoje reproduzida pelo “Correio da Manhã”, segundo a qual “para pequenos países como Portugal e Espanha, pagar a dívida é uma ideia de criança”, pois “as dívidas dos Estados são por definição eternas”.

O ministro dos Negócios Estrangeiros e líder do CDS-PP disse que, ao ser informado dessa declaração, teve “que a ler segunda vez para acreditar que um antigo primeiro-ministro tinha dito isso”, e acrescentou que, “infelizmente, como as pessoas sabem”, porque estão a sofrer sacrifícios, “as dívidas pagam-se”.

O Ministro ensombrado de um Governo tétrico tem-se notabilizado por conseguir fazer de Houdini um mero aprendiz perante a sua peculiar arte para sair do palco sem necessidade de se enfiar em caixotes ou gaiolas. Ainda ninguém sabe ao certo que técnicas Portas está a utilizar para desaparecer de todas as situações onde o Governo defende o povo contra os efeitos nefastos da presença de dinheiro nos bolsos dos contribuintes, mas fontes especializadas, que não quiseram ser identificadas, já garantiram estarmos perante o maior espectáculo de magia da gente séria desde aquele número que fizeram no BPN.

Pois este ser ultimamente apagado e vadio teve uma injecção de alegria porque podia falar de Sócrates depois de alguns meses de carência. E falou de ouvido, terá sido enganado por algum meliante desses do rendimento mínimo? Não, confessa que leu. E que voltou a ler. São assim os leitores do Correio da Manhã, voltam sempre ao local do crime onde assassinam a inteligência.

Corruptio optimi pessima

Muito antes dos blogues já existiam comunidades na Internet que proporcionavam espaços de discussão apaixonada e ininterrupta sobre os mais diversos e exóticos assuntos. Os blogues foram apenas mais um formato posto à disposição, com acrescidas vantagens editoriais, a que se seguiu a vaga das “redes sociais”, tornando ainda mais pessoal e logisticamente envolvente a participação em grupos de comunicação digital. Esta introdução para me regozijar com a animação provocada pela Isabel ao publicar uma crítica virulenta ao Bastonário da Ordem dos Advogados. Este texto gerou uma quase unânime recusa exaltada por parte daqueles que o comentaram. Quase, quase unânime, porque apareceu uma inusitada e singular Ana d’Arc disposta a malhar nos bifes com seráfica e incansável graciosidade. Ora, eis o alvo a que aponto: a Internet tem um potencial de democratização e elevação do espaço público que permanece como uma das mais tangíveis promessas civilizacionais recentes. Estas são as novas tertúlias, já não limitadas pela geografia, o espaço, a classe, os laços pessoais, mas abertas literalmente a todos os que saibam escrever e tenham tempo para gastar na interacção. O que a Isabel e a Ana fizeram, que consistiu tão-somente na zelosa exposição do seu pensamento e coerências respectivas, permitiu que um conjunto de pessoas se unissem num esforço de análise e expressão afectiva que a todos beneficiou. É que o propósito das tertúlias não é, nunca foi, criar unanimidades, bem ao contrário. A vitalidade das tertúlias advêm da alteridade intrínseca e dos conflitos e derivas daí resultantes. Aprender a tirar proveito dos choques de ideias e valores, experiências e expectativas, devia ser apanágio da educação familiar e do ensino escolar. Para aqueles que não tiveram essa sorte, oportunidades não faltam para começar a aprender e a treinar. Sim, a inteligência e cultura não são mais do que o treino, a disciplina, o hábito. E a ética não difere desta matriz, dizem alguns carolas.

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Lembraduras

Como é que tem corrido a reflexão no Bloco acerca do estupendo plano que delinearam para entregarem o poder todinho a Cavaco, Passos, Relvas e maralha amiga? Estão satisfeitos com os resultados da vossa sui generis defesa dos trabalhadores e dos mais fracos ou a ideia é começarem já a trabalhar, de braço dado com os outros puros do PCP, para colocarem o PNR no Governo num futuro próximo?

Violência publicitária

Junto-me à Ana Matos Pires na crítica a esta campanha contra a violência doméstica, um tema que me é especialmente querido (a par com o racismo, outra das patologias inscritas no legado animal que transportamos). De facto, a literatura mostra que a vítima é muitas e muitas vezes incapaz de se ajudar a si própria, seja qual for a duração e grau da violência. Dependendo dos contextos sócio-culturais, à volta da vítima até pode existir um cordão coercivo de familiares, vizinhos e autoridades variadas (civis e religiosas) a inibir uma decisão de rompimento da relação. E, finalmente, como a Ana acentua, muitas das vítimas mortais acontecem após um moroso e dramático processo de separação estar concluído.

Este filme está bem intencionado e o seu destino sobrenatural devia ser o Inferno. Por um lado, procura explorar a sexualidade feminina em registo gore, fazendo do efeito físico da violência um espectáculo de horror em ambiente higienizado, clean, cool, assim repetindo os clichés mais básicos da criação e produção publicitária. Por outro lado, transmite a mensagem de que a vítima, afinal, lá no fundo, é a principal responsável pela sua trágica condição. Ou seja, quem leva nos cornos é que tem a culpa.

A Ana aponta para uma outra via infinitamente mais relevante a explorar, haja discernimento para tal, em futuras campanhas: a responsabilidade da comunidade adentro do mandato da Lei. Divulgar que estamos perante um crime público, não carecendo por isso da iniciativa da vítima para ser denunciado às autoridades, levará a que algumas vidas se salvem, disso podemos ter a certeza. E se a mim fosse dada a direcção criativa da campanha, as peças de comunicação que resultariam seriam todas do foro da acção: o que fazer quando, onde ir, com quem falar, como se proteger.

É prática comum as agências de publicidade, e também as produtoras de vídeo, oferecerem os seus serviços para campanhas de interesse social, cívico, humanitário. Há milhares e milhares de filmes, spots de rádio, anúncios de imprensa e outdors giríssimos, onde a malta aproveita para se exibir como os grandes génios que nunca virão a atingir o estrelato. Obviamente, o barato sai caro.

A propósito da suspeita mais bizarra de sempre a respeito da PSP

ah, e gostaria, já agora, de ver toda a gente que arrepelou os cabelos quando dois polícias foram a um sindicato fazer perguntas e achou que isso era uma manobra de intimidação mandatada pelo governo de então a rasgar as vestes perante a possibilidade, muito real, de estarem a ser usados polícias como agentes provocadores em manifestações. vai um bocadinho para além da historieta dos polícias palermas no sindicato, não vai? vai, pois vai. tão tão além que até arrepia. mas, pelos vistos, a liberdade e a democracia agora estão bem guardadas, tão bem que os grandes arautos da liberdade nem repararam nesta insignificância.

Fernanda Câncio

*

Os mais altos dirigentes do PSD, e seus mais ubíquos e furiosos publicistas, a que ainda se junta a Casa Civil, insinuaram nos últimos anos – e para além do cerco judicial e mediático a Sócrates – que o anterior Governo tinha um plano para dominar a comunicação social através da PT, exercia uma “asfixia democrática” que impedia a plena liberdade de expressão, usava técnicas dos serviços secretos a partir do Gabinete do primeiro-ministro, espionava o Presidente da República, utilizava o SIS para manobras políticas, desenvolveu um plano para identificar todos os percursos automóveis de todos os cidadãos através de um chip na matrícula, tentava influenciar magistrados através de outros magistrados, perseguia magistrados e juízes, dominava o Procurador-Geral da República e o Presidente do Supremo, falsificava dados do INE, adulterava relatórios, escondia informações, inventou a ASAE para esmagar os pequenos comerciantes e acabar com as nossas mais saborosas tradições, lançava campanhas publicitárias contra o direito à greve através da Antena 1 e, sim, mandava polícias intimidar sindicalistas, como a Fernanda aqui recorda. Estarei, com toda a certeza, a esquecer-me de muitas mais acusações deste teor, onde apenas se procurava causar alarme social e diabolizar os governantes e seus apoiantes. Paulo Rangel, para dar um especialmente escabroso e patético exemplo do calibre desta rapaziada, chegou a declarar no Parlamento Europeu que já não existia um Estado de direito em Portugal porque tinham censurado uma crónica ao Crespo no JN. Que trastes estes ranhosos.

Pois bem. A Comissão Nacional de Protecção de Dados acaba de considerar inconstitucional a proposta do Governo sobre a instalação de câmaras de videovigilância, alegando que não garante os direitos fundamentais dos cidadãos quanto ao tratamento de dados pessoais. O Governo aprovou em Conselho de Ministros uma proposta sobre a utilização da videovigilância pelas forças de segurança, a qual atribui ao Ministro da Administração Interna o poder absoluto de decidir sobre a instalação e adequação destes sistemas em espaços públicos na prevenção da criminalidade. Pois muito bem. Se isto se passasse com o anterior Governo, os direitolas estariam agora num frenesim de protestos desvairados que os levaria a montar barricadas na estrada em Rio Maior e a rogar por uma intervenção militar estrangeira contra o inimigo instalado em São Bento. E Cavaco faria de imediato uma comunicação ao País, dizendo-se muito preocupado com a possibilidade de os socialistas andarem para aí a espiolhar o que a gente séria faz no meio da rua.

A culpa é dos faraós

[…] Compreendo que o Governo está refém daquilo que foi um passado de algum deslumbramento, e com gastos faraónicos, que um dia nos havia de calhar a conta, iam-nos apresentar a conta. E ela está aí, e agora não há nada a fazer. O Governo tem 5 meses de governo e está sujeito a ter que tomar estas medidas, que se calhar não era isto que pretendiam, mas que tudo o que ficou para trás nos levou a que acontecesse. É uma inevitabilidade […] estamos reféns de um passado que nos levou a todo este deslumbramento e a conta tem de ser paga.

Rui Paredes, gestor de Favaios – Fórum TSF

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Um dos aspectos menos explorados nos estudos do Estado Novo respeita à sua duração. Porquê 48 anos de um regime que teve de cair de podre, sem ao menos se conseguir defender ou antecipar uma saída democrática que a História e a geografia tornavam evidente? E, afinal, quantos e quais portugueses é que colaboraram com a PIDE? Porque razão as estruturas judiciais e municipais passaram intactas para o pós-25 de Abril sem purga, castigo ou sequer memória? A paz social que assim se obteve, a que se junta uma descolonização que não passou de uma irresponsável debandada seja qual for o ponto de vista, permitiram a estabilização do Estado de direito democrático, mas não alteraram as matrizes cívicas que alimentaram a longa noite do conluio entre as famílias que possuíam a banca e a indústria e o messias do provincianismo nacional, de seu nome Salazar.

A estratégia que deu à direita partidária um Presidente da República, um Governo e uma maioria leu bem a tipologia dos tecidos sócio-culturais que nos constituem passados 37 anos da revolução. A aposta na substituição da política pelo moralismo e a hipocrisia sem limites, e as tácticas de perseguição e assassinato de carácter, geraram a violência necessária para afastar a racionalidade e promover a alucinação como normalidade. Isto foi obtido graças às ameaças externas resultantes das crises sucessivas e gigantescas que assolam a economia e finanças internacionais, as quais levam a população para um estado permanente de ansiedade pré-pânico, mas também pelo domínio da comunicação social, onde patrões de imprensa e jornalistas alinharam cooptados ou voluntários nas campanhas delineadas. De tal forma que quando Cavaco, no próprio Parlamento para mostrar quem manda nisto, declara que o Governo PS devia cair o mais rapidamente possível porque estava a impor demasiados sacrifícios (hahaha!! és o maior, bacano…), não havia nada nem ninguém em Portugal que conseguisse impedir esse desfecho.

Este Rui Paredes, que foi ao Fórum TSF dar o seu contributo, provavelmente passaria no teste do polígrafo. Para ele, o Governo anterior, e talvez qualquer Governo socialista do passado ou do futuro, era constituído por pessoas que não se conseguiam controlar por incurável falha moral ou cognitiva, pelo que passavam o tempo a gastar dinheiro mal gasto em inutilidades só para encher o olho, mas que a ninguém aproveitavam para além daqueles que as construíam. E foi assim que ficámos sem dinheiro, conclui com toda a lógica. O Rui não sentiu a necessidade de dar exemplos, embora pudesse disparar com “auto-estradas”, “TGV” e “aeroportos” sem dificuldade. Com um bocadinho de esforço chegaria ao ponto de lembrar as empresas públicas e as parcerias público-privadas. Tanto dinheiro desperdiçado, remataria triunfante agitando uma conta de somar desenhada a lápis na toalha de papel onde tinha acabado de virar um bacalhau com grão.

E eis onde estamos, onde esta direita nos quer: os pelintras de um país de miseráveis dizem-se convictamente vítimas de investimentos faraónicos para a sua educação, saúde, mobilidade, segurança e liberdade.

Contributos para o futuro Ministério da Saúde Mental

Devíamos ser obrigados a uma consulta psiquiátrica anual paga pelo Estado, nas instalações do futuro Ministério da Saúde Mental, onde nos seria feita esta pergunta:

Tem a noção de que o que você pense ou deixe de pensar, faça ou deixe de fazer, berre ou deixe de berrar, é absolutamente indiferente para o que vai acontecer nos próximos dias, semanas, meses e anos na Zona Euro, na União Europeia, nos EUA, na China, na Rússia, no Irão, no Paquistão, no Afeganistão, no Iraque, em Israel, na Palestina, na Síria, no Egipto, na Somália, no Congo, no Aquecimento Global, na OPEP, na Amazónia, nas galinhas, na Cintura de Kuiper, no PCP e na Madeira?

Aqueles que protestassem a sua capacidade para influenciar os acontecimentos nalguma dessas entidades, regiões ou problemas, seriam levados calmamente até à porta e mandados embora com umas palmadinhas carinhosas nas costas. Nos casos extremos em que eles reclamassem o poder de conseguir intervir em todos os assuntos, responsáveis das televisões nacionais ali de plantão tentariam de imediato fechar contratos para comentadores com esses malucos mais prolixos e confiantes.

Aos que assumissem a sua irrelevância, não hesitando na resposta, seria entregue um cartão, com a validade de 12 meses, a garantir que o indivíduo em causa possuía as condições mentais mínimas para poder ir acompanhado ao café, ao jardim ou a um restaurante e ficar a conversar sem necessidade de supervisão clínica.

Impressionar os vizinhos, brilhar nos cafés, seduzir os credores

Seeking to Be the ‘Perfect Parent’ Not Always Good for New Moms and Dads
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Patients Get More Unnecessary Scans from Doctors Who Own Equipment
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3-D Printer Used to Make Bone-Like Material
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Cursing Relieves Pain, But Not If Over-Used
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What Does It Look Like When an Economy Collapses?
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A Vaccination Against Social Prejudice
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Research Reveals How Physicians Learn – Or Not
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Are Doing Harm and Allowing Harm Equivalent?
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Some Atheist Scientists With Children Embrace Religious Traditions, According to New Research
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Age-Old Remedies Using White Tea, Witch Hazel and Rose May Be Beneficial, Study Suggests
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Chewing Gum Helps Test-Takers
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Study Debunks Stereotype That Men Think About Sex All Day Long
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Creative Excuses: Original Thinkers More Likely to Cheat

Política de Verdade – um conceito que ainda tem muito para nos dar

“O Presidente da Republica é um pouco responsável por muita coisa que aconteceu até agora”, disse o comendador à Lusa, acrescentando: “Acho que o Presidente da República devia pedir a resignação.”

“O nosso Presidente da República, não sei por quanto tempo, vai ficar muito zangado, mas não estou preocupado com o PR, estou preocupado é com o que está a acontecer a Portugal, que não há maneira de dar a volta por cima”, acrescentou Joe Berardo.

O empresário justifica o pedido de resignação, dizendo que Cavaco Silva está “relacionado com o BPN, ganhou dinheiro, e isso nunca foi bem explicado aos portugueses”, e tinha encontros com Oliveira e Costa (antigo responsável do BPN), um “amigo de longa data e homem do fisco do tempo” dos seus governos.

“Vi o Presidente da República dizer publicamente que o Dias Loureiro (antigo ministro e responsável do BPN) era uma pessoa honesta, em quem tinha confiança, mas já saiu”, referiu ainda o comendador.

Joe

Sócrates, o nosso Kennedy

Rui Verde lança livro
Ex-dirigente da Independente revela dossier original da licenciatura de Sócrates
30.11.2011 – 07:18 Por José António Cerejo, com Andreia Sanches

Sócrates é um filão inesgotável para o jornalismo idealista, objectivo, independente, exemplar que se faz no Correio da Manhã, no Sol, no Público, na SIC. E se fazia na saudosa TVI do casal Moniz. Daqui por 30 anos, um maduro da gente séria realizará um filme a provar que sim, sim senhor, o cabrão falsificou mesmo um documento qualquer. Pelo menos um, prontos. E mentia. Ou que alguém disse ter a impressão que ouviu a alguém num baptizado que Sócrates, um dia, já mesmo no final do dia, quase hora do chichi cama, teria mentido a fulano e beltrano, quiçá aos dois em simultâneo. Será um filme com a duração de três horas e fará um agradecimento especial a esse David do jornalismo português chamado José António Cerejo. Só temos a lamentar a sua especialização nos tão ansiados escândalos e crimes de Sócrates, pois poderia ter derrubado muitos outros gigantes horrendos com esta fulminante e incansável facilidade em que se exibe desde que o sonho imperial do clã Azevedo morreu na praia.

Encafuados na toca

A entrevista de Passos Coelho confirmou a percepção que se tem dele desde que foi considerado persona non grata pela iluminada Ferreira Leite: existem mais espaços vazios entre as suas duas orelhas do que entre a Lua e a constelação de Centauro*. Com regular cadência, objectos variados atravessam esses espaços. O último foi a ideia de que o Banco Central Europeu, afinal, e evidentemente, se calhar, pois é, até devia ser mais interventivo. Mas não se espere que Passos saiba donde vêm esses objectos, sequer para onde vão, porque o seu vácuo espacial é demasiado extenso e tenebroso para que ele consiga descobrir a direcção destes corpos velozes.

Já a discussão posterior na SIC Notícias confirmou que David Dinis, editor de política no DN, é um fanático laranja. Não que precisássemos dessa confirmação para alguma coisa, posto que o jornal do Marcelino foi transformado num pasquim ao serviço do PSD durante a campanha eleitoral para as legislativas. O que tem interesse é observar como os patrões da imprensa se deixam afundar num sectarismo político que só piora a crise em que estão mergulhados por díspares e complexos factores. Pois que se fodam todos juntos.

Finalmente, também ficámos a saber que a deliciosa Ana Lourenço acha que o anterior Governo devia ter chamado a Troika muito mais cedo. Aqui, tenho um conselho a dar: Ana, cuidado com as companhias, especialmente as de televisão.

Escolas práticas de cidadania

A época em que os blogues estavam na moda passou há muito, tendo o seu auge durado de 2002 a 2004. Em 2005 já havia uma geração de bloggers cansada de teclar e farta das palrações no monitor. A cultura inicial de encantamento e concórdia universal onde o cordeiro adormecia no regaço do leão, um caldo de fusão tribal também possível pelo baixo número e superior qualidade intelectual dos autores e comentadores, tinha sido perdida para sempre com a contínua chegada de novos participantes que não conheciam as regras tácitas, não comungavam numa memória colectiva e, em crescendo, não conseguiam fugir à sua mediocridade cognitiva e moral. Nos anos seguintes, o aparecimento do Facebook e do Twitter levou ao esvaziamento e fragmentação das comunidades blogosféricas, retirando protagonismo aos blogues como vox populi de uma qualquer vanguarda ou elite e levando-os a cristalizarem-se como territórios de expressão individual, atomizada, onde a relevância raramente foge a ser subsidiária de uma marca obtida em esferas de actividade profissional. Assim se explica, em especial, a perenidade de blogues ligados a políticos, jornalistas e académicos.

Apesar deste reordenamento e requalificação da paisagem mediática digital, os blogues políticos foram importantes placas de Petri de 2008 em diante. Neles se assistiu, de forma literalmente obscena, aos processos mais básicos de manipulação da informação, ao lançamento de calúnias surpreendentemente abjectas e a um fanatismo demente que reduziu o debate ao maniqueísmo sem remissão. Estes fenómenos não são novos, estão descritos em todos os canhanhos de História e nos manuais de ciências sociais. A novidade esteve em vermos quem eram os agentes e vítimas da convulsão política que resultava da passagem de um Governo de carisma reformista ao centro, assim anulando a direita e baralhando a esquerda, cruzada com a irrupção de duas das maiores crises de sempre: afundanço da economia global e implosão do Euro. Os blogues, pelo seu extenso e detalhado registo do mundo interior e social dos seus autores, permitiram-nos constatar que o número de pulhas, afinal, iguala, ou até supera, o número de broncos. Essa informação tem inegável valor.

Aqui no Aspirina B tem reinado um regime de livre comentário, embora sujeito ao arbítrio pessoal de cada membro da equipa nas suas publicações. Quem quiser, chega e bota faladura sem precisar de registo e sem esperar para entrar nas conversas. Tem óbvias vantagens, e para todos os envolvidos. Mas igualmente permite que infantilóides, taralhoucos, maluquinhos e canalhas apareçam e empestem o ambiente com as suas descargas peristálticas. Seria preferível expulsá-los do convívio, como se faz em tantos blogues com toda a legitimidade e suposto proveito? A minha tese é a seguinte: aqueles que partilham connosco a sua raiva, a sua desorientação, o seu desespero e a sua tristeza estão a fazer-nos um grande favor – repetem-nos, alguns de forma maníaca, que também eles querem ser parte da cidade. Só por isso, por nos confrontar nos nossos preconceitos e inércias, medos e arrogâncias, a sua presença pode fazer de um blogue uma escola prática de cidadania.