
ÁTICA, 2011
José Barreto fez aqui um ensaio à americana, onde as matérias investigadas são servidas com uma leveza no trato que não compromete o rigor, antes o destaca para uma imediata assimilação; algo simultaneamente raro e exemplo que o marasmo editorial académico podia muito bem seguir se tivéssemos sorte. Em vez de querer enfiar na Betesga da utilidade para o leitor o Rossio da inutilidade de um registo narcísico ou maníaco da investigação que se pretende passar por erudição, típico do provincianismo que tem empestado e imobilizado a academia, o autor foca-se numa intenção principalmente recolectora. Ele foi à procura dos textos cuja topologia estava definida previamente com exactidão, identificou as passagens mais relevantes e apresenta-as com uma suficiente explicação que situa os originais no conjunto da biografia e obra de Pessoa. Há um esforço consciente para limpar a palha subjectiva e deixar refulgir os factos. O mesmo registo económico foi utilizado com os restantes autores citados a partir da biblioteca do nosso António Nogueira, os quais terão sido influenciadores das posições que Pessoa viria a expressar em relação às temáticas femininas e respectivos debates ao tempo. Em suma, e para lá da agradável e instrutiva leitura, a qual oferece 5 inéditos pessoanos, ainda se fica com um inevitável instrumento para investigações futuras.
A temática da misoginia e anti-feminismo em Pessoa tem um bónus especial nisso de nos permitir descobrir (o meu caso), ou relembrar (talvez o teu), a fascinante figura de Thomas W. H. Crosland; um inglês nascido em meados no século XIX e que foi até aos princípios do século XX sempre a cascar no mulherio. É dele o livro Lovely Woman, de 1903, entusiasticamente sublinhado por Pessoa com anotações de aprovação e júbilo, e onde se encontram estas verdades intemporais:
– A mulher moderna deve ser “relegada para a sua esfera natural”, abandonando a política e sendo-lhe retirados privilégios, deferências e liberdades anteriormente outorgados.
– As mulheres são o “inimigo” e comparáveis aos escoceses, com quem não se podia fazer qualquer negócio por causa da sua desonestidade.
– As mulheres da classe média suburbana são pouco castas, avessas à maternidade, obcecadas com o conforto material e gastadoras impenitentes, dessa forma pondo em risco a raça britânica agora ameaçada de “suicídio”.
– A emancipação da mulher vai acabar por criar o “terceiro sexo”.
– A mulher invadiu as fábricas e os escritórios britânicos não por ser competente mas por ser mais barata.
– O “terceiro sexo” (essa tal mulher trabalhadora e independente) não sobreviveria no futuro por tal se opor às “leis do universo” e porque “fora do matrimónio o único lugar da mulher é numa loja de roupa para bebés”.
– A mulher não admite que tenha imperfeições físicas e espera do homem que a encare “como se não existissem dentes postiços”.
– A ideia de que o tempo gasto a namorar ajuda o homem e a mulher a compreenderem-se melhor é totalmente errada “porque na mulher não há nada para ser compreendido” e porque “no homem há muito pouco que a mulher seja capaz de compreender.”
– Do ponto de vista de um homem, “o mais aterrador quando se tem uma mulher é não se poder casar com outra”.
– Quando as mulheres de um país conseguem alcançar o que julgam ser os seus direitos, o país começa a decair.
– Um homem de vários talentos pode fazer coisas admiráveis e ilimitadas quando jovem, desde que “se afaste dele as mulheres”.
– Enquanto as realizações de um homem tendem uniformemente para o desenvolvimento da sua virilidade, as de uma mulher levam à destruição da sua feminilidade.
– Um homem que pensa ter uma beleza de mulher deve meditar se tal se deve à mulher ou à roupa.
– Por fracos oradores que sejam certos homens públicos, uma figura pública feminina fica sempre a milhas dele nesse campo.
– Contrariamente às donas de casa que deixam as criadas terem ascendente sobre elas, “um homem nunca toleraria tal estado de coisas em qualquer estabelecimento ou organização por ele dirigido”.
– O espancamento do marido pela mulher estaria a tornar-se corrente em Inglaterra, não sendo para espantar que “a mulher, se desenvolver a sua musculatura, mais tarde ou mais cedo bata no marido”.
– “A única propriedade com algum valor que uma mulher pode possuir é um bom marido”.
(citações das páginas 105 a 108)

