A culpa é dos faraós

[…] Compreendo que o Governo está refém daquilo que foi um passado de algum deslumbramento, e com gastos faraónicos, que um dia nos havia de calhar a conta, iam-nos apresentar a conta. E ela está aí, e agora não há nada a fazer. O Governo tem 5 meses de governo e está sujeito a ter que tomar estas medidas, que se calhar não era isto que pretendiam, mas que tudo o que ficou para trás nos levou a que acontecesse. É uma inevitabilidade […] estamos reféns de um passado que nos levou a todo este deslumbramento e a conta tem de ser paga.

Rui Paredes, gestor de Favaios – Fórum TSF

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Um dos aspectos menos explorados nos estudos do Estado Novo respeita à sua duração. Porquê 48 anos de um regime que teve de cair de podre, sem ao menos se conseguir defender ou antecipar uma saída democrática que a História e a geografia tornavam evidente? E, afinal, quantos e quais portugueses é que colaboraram com a PIDE? Porque razão as estruturas judiciais e municipais passaram intactas para o pós-25 de Abril sem purga, castigo ou sequer memória? A paz social que assim se obteve, a que se junta uma descolonização que não passou de uma irresponsável debandada seja qual for o ponto de vista, permitiram a estabilização do Estado de direito democrático, mas não alteraram as matrizes cívicas que alimentaram a longa noite do conluio entre as famílias que possuíam a banca e a indústria e o messias do provincianismo nacional, de seu nome Salazar.

A estratégia que deu à direita partidária um Presidente da República, um Governo e uma maioria leu bem a tipologia dos tecidos sócio-culturais que nos constituem passados 37 anos da revolução. A aposta na substituição da política pelo moralismo e a hipocrisia sem limites, e as tácticas de perseguição e assassinato de carácter, geraram a violência necessária para afastar a racionalidade e promover a alucinação como normalidade. Isto foi obtido graças às ameaças externas resultantes das crises sucessivas e gigantescas que assolam a economia e finanças internacionais, as quais levam a população para um estado permanente de ansiedade pré-pânico, mas também pelo domínio da comunicação social, onde patrões de imprensa e jornalistas alinharam cooptados ou voluntários nas campanhas delineadas. De tal forma que quando Cavaco, no próprio Parlamento para mostrar quem manda nisto, declara que o Governo PS devia cair o mais rapidamente possível porque estava a impor demasiados sacrifícios (hahaha!! és o maior, bacano…), não havia nada nem ninguém em Portugal que conseguisse impedir esse desfecho.

Este Rui Paredes, que foi ao Fórum TSF dar o seu contributo, provavelmente passaria no teste do polígrafo. Para ele, o Governo anterior, e talvez qualquer Governo socialista do passado ou do futuro, era constituído por pessoas que não se conseguiam controlar por incurável falha moral ou cognitiva, pelo que passavam o tempo a gastar dinheiro mal gasto em inutilidades só para encher o olho, mas que a ninguém aproveitavam para além daqueles que as construíam. E foi assim que ficámos sem dinheiro, conclui com toda a lógica. O Rui não sentiu a necessidade de dar exemplos, embora pudesse disparar com “auto-estradas”, “TGV” e “aeroportos” sem dificuldade. Com um bocadinho de esforço chegaria ao ponto de lembrar as empresas públicas e as parcerias público-privadas. Tanto dinheiro desperdiçado, remataria triunfante agitando uma conta de somar desenhada a lápis na toalha de papel onde tinha acabado de virar um bacalhau com grão.

E eis onde estamos, onde esta direita nos quer: os pelintras de um país de miseráveis dizem-se convictamente vítimas de investimentos faraónicos para a sua educação, saúde, mobilidade, segurança e liberdade.

24 thoughts on “A culpa é dos faraós”

  1. Valupi, sacana, o dia até me estava a correr bem. Quero dizer, fujo eu desta vara que nos “informa” para não ter de ouvir estas alarvidades e depois, aqui chegado, tens de me relembrar da tristeza que é compartilhar o chão com esta gente.

    Caramba homem, que é um desepero. Faço o quê? Espero que quinem todos? Vou-me embora para ter saudades? É que só assim, chiça.

    É que nem esperança no país, nem nesta triste gente que insiste em evangelizar com a sua ignorância arrogante. Como sugeres, e como bem começo a temer, já não se trata nem de estupidez, nem de desinformação, nem de cegueira ou lá o caraças… trata-se da pura e simples má formação de carácter desta gente.

    Estava lá todo a fermentar e começa agora a emergir, como bolor, foda-se. E eu que julgava que era só meia dúzia. Afinal, estamos bem para os merdas que elegemos.

  2. Num certo sentido o fascismo é isto – escolher o que é contra nós. Não é só a política na taberna; é o esplendor da ignorância e da ingratidão. Escuso de dizer que não votei nem no diabético nem no passos perdidos – mas isso é outra coisa.

  3. Sinceramente começo mesmo a colocar em dúvida a honradez da “nossa gente”.
    Na primeira qualquer cai, na segunda cai quem quer. E o povo português “aguentou” sereno, submisso e cumplice 48 anos de ditadura, depois de uns tantos séculos de Santa Inquisição que, dir-se-ia, formatou as mentes lusas do jeito que as vimos expostas à luz do dia com o advento da democracia. Até parece que a democracia libertou a podridão acumulada por séculos de sacanagem vivida, presenciada, consentida, aplaudida e abençoada pela santa madre igreja. O espectáculo das fogueiras justiceiras alimentadas por uma multiidão incontável de “bufos” que agiam por inveja, por cobiça, por despeito, por intolerancia ideologica e religiosa ou por simples malvadez, moldou a mente desta gente poeticamente pintada de “brandos costumes”.
    Talvez os nossos filhos ou filhos dos nossos filhos sejam diferentes e que nós, os das gerações que transitaram do fascismo para a democracia, sejamos os últimos herdeiros da miseria moral em que os portugueses chafurdaram por séculos a fio.
    Pior cego é aquele que não quer ver. Os últimos dez anos foram anos de fogueiras a queimar quem muito bem se entendeu na praça pública e ninguém, nenhum PR, nenhum deputado, nenhum “senador”, nenhum Juiz do Supremo, nenhum PGR deu um murro na mesa para dizer “basta!”. Tudo o que se ouviu e continua a ouvir são frases inocentes e resignadas até à cumplicidade. Assistimos, todos, brandamente, ao massacre, com a mesma leviandade com que aguentamos 48 anos de fascismo e séculos de Inquisição. Com a agravante de agora não termos sequer a desculpa do medo da policia repressiva e impiedosa.
    Estamos transformados em pulhas e a passar o testemunho da pulhice. Para nossa vergonha, a bandeira desta miseria moral é empunhada precisamente pelos magistrados, os mesmos que, durante séculos, administraram a justiça das fogueiras.
    Eça foi bem mais duro no diagnóstico.

  4. Hoje já vi lágrimas sinceras, mas não são portuguesas.

    As nossas vão ser amargas, mas serão de crocodilo! Como sempre há séculos que choramos baba e ranho!

  5. não acho, nem deixo de achar, mas o resultado é favorável à imagem da senhora. já estou a ver o gasparito de lenço e cebola ao peito anunciando os novos escalões de irs ao povo.

  6. é das saudades pá, é das saudades! até fiquei com saudades por antecipação, imagina. Venho um milhão de anos atrasado mas não faz mal que com isto agora dos neutrinos papamo-los todos (aos rojões), fiquei aqui com uma lagriminha, fosga-se que vozeirão, e o gajo lá atrás é um bonzão que até deitei fumo das orelhas, mais de uma do que outra, poças que até tenho que ir comer.

  7. olha que eu palmilhei essas ruas, becos, vielas e escadinhas, todinhas!

    mas ainda assim essa não tem o bonzão lá atrás, pois deixa lá, agora deu-me para gostar um pouco de fado,

  8. Quem são? O que pensam?
    Quem são as elites, agora na ribalta, que conduzem os destinos do País? Qual a ideologia que lhes está subjacente, qual o projeto estratégico de desenvolvimento que ambicionam para Portugal? Quais os valores que estruturam as suas personalidades?
    Em alguns momentos de reflexão, concluo que a chave para melhor os conhecermos talvez resida num período de tempo, compreendido entre o 25 de Abril de 1974 e o 25 de Novembro de 1975.
    Onde estiveram? Que disseram? Que calaram? Onde estariam se o PREC tivesse triunfado e Portugal fosse uma República Cubana de 2ª linha?
    Ouso afirmar o seguinte:
    Certamente que muitos estiveram bem calados, quiçá com cartões de militantes partidários pré-preenchidos, prontos a abraçarem esse novo mundo da utopia socialista: seriam hoje homens e mulheres bem sucedidos na vida? Temo bem que sim. Afinal a diferença entre ser um utópico comunista ou um neoliberal depende, em grande medida, da “zona de conforto” individual. E da fraca coluna.
    Outros já lá estavam, do lado “certo” da barricada. Mas na verdade debandaram logo que o cessar de fogo do “campo de batalha” foi anunciado. Devem esse”feito heróico”, essencialmente, á coragem dos homens e mulheres que corajosamente enfrentaram as ameaças totalitárias que então pairavam sobre toda a sociedade portuguesa.
    Não correr riscos, compensa. Jogar pelo seguro. Capital de riscos. Ricos de capital.
    Estão na moda. Vieram para ficar? Não sei………

  9. O que vai na alma dos “Paredes” deste País, é que o anterior governo andou a “dar pérolas a porcos” e isso, nos dias de hoje, tal como nos tempos dos faraós, é inadmissível. Quando se pensava que eles se iam afogar na própria baba, eis que o presunto começa a ser servido.

  10. Não é por acaso que Salazar foi eleito à pouco tempo o mais ilustre dos portugueses ou coisa assim.
    A mim parece-me que ter alguém que olhe por nós como um grande papá, que nos castiga quando nos portamos mal é uma tentação que se calhar vem desses tempos em que não se devia pensar.
    E depois também existe aquela ideia católica do pecado ligado ao dinheiro…
    Essa salganhada toda pode explicar que agora aceitemos de ombros caidos e em relativa paz este castigo austeritário

  11. O Expresso de 26 de Novembro trazia na página 44 um título que é todo um programa: “O MAR É UMA SAÍDA PARA A CRISE”. Óptima solução, em sintonia, aliás, com a recente e iluminada descoberta do oráculo de Boliqueime! Assim, pegar nos ranhosos amigos do pote e atirá-los ao mar (sem esquecer o oráculo) poderá não solucionar os problemas do país, mas terá pelo menos o mérito de engordar uns cardumes de sardinhas que, quando a penúria se agravar, poderão ajudar-nos a matar a fomeca!

  12. O Rui Paredes tem o mérito de dar o mote para uma boa, aliás, uma ótima (e urgente) discussão! Ora vamos mas é a ela e deixemo-nos de lamúrias inconsequentes (que nunca nos levarão a lado algum):

    Condicionamentos pavlovianos à parte (por favor, tentem), eu ouso dizer que concordo com o Rui no essencial – embora discordando em todos os acessórios. Explico melhor: concordo com o seu remate, que passa a mensagem crucial: “- É uma inevitabilidade (…). Estamos reféns de um Passado que levou a todo este deslumbramento e a conta tem de ser paga”.

    O que não quer dizer que eu pense (que disparate…) que o Passado são os últimos seis, ou até os últimos quinze anos. Se nos abstraírmos desta falácia implícita e discutirmos, despreconceituosamente, esta límpida frase em si, poderemos deixar para ocasião mais propícia a discussão dos acessórios adjacentes, o que me parece bastante útil.

    Quem aceita discutir nestes termos? É que, para mim, o importante não é a existência de políticas de austeridade em si mesma – nisso até estamos muito bem acompanhados -, o importante mesmo é discutir se essa austeridade é JUSTA OU NÃO!

    E penso que enquanto nos distraírmos com a discussão inútil de se deve haver austeridade ou não em vez de discutir a sua forma, vamos perdendo tempo e ensejos de fazer alguma coisa por este Povo e este País…

  13. Acabo de ouvir na «Antena 2» (passe a publicidade involuntária…) o baboso falhado do Freitas do Amaral a associar a necessidade de austeridade à governação… de José Sócrates!

    Isto releva de pura propaganda FASCISTA E DESONESTIDADE INTELECTUAL, pelo que este tipo de argumentos desqualificam irremediávelmente quem os utiliza e, por mim, são suficientes para negar aos seus defensores a entrada na discussão despreconceituosa que proponho acima (sim, o Odisseu é um hetrónimo que às vezes uso por aqui…).

    Discutir é preciso, mas num ambiente despoluído…

  14. (acho que andamos aqui a avacalhar a cumbersa, Edie, mas não faz mal, vai-se lendo pelo meio. Pois foi, caraças!, estou acabar um paper onde procuro entrelaçar assim umas coisas, cipós, entre o lá e o cá do Atlântico, em palavras, co bromélias por cima, e já estava com o hemisfério esquerdo esfalfado, vai ddaí fui ouvir aquela música e só reparei depois no rapaz da viola, fosga-se acordou-me o direito ou lá que, fundiu-se a pituitária com a pineal e só não mandei uma parede abaixo à dentada. Cabrão de Deus que agora anda virtual, mas quando eu acabar o artigo já Lhe digo, ando a treinar, acendo ali o ponteiro laser e corro as paredes às espirais depois quando tiro o dedo foi um neutrino, será? :))))

  15. bem , acho que tenho o paper pronto, falta a última revisão mas é só amanhã para mandar, que calha certo

    grunf!, mas tá bonito acho

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