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A imbecilidade que vem de longe

Fernando Rosas, deputado do Bloco de Esquerda, garantiu ontem à agência Lusa que o seu partido não aceitará qualquer tipo de acordo, pré ou pós-eleitoral, com o Partido Socialista (PS) nas próximas eleições legislativas de 27 de Setembro.

O deputado do BE, que ontem à noite participou numa arruada no Barreiro, afirmou que “as bases políticas programáticas do PS são completamente contrárias às do Bloco”, assinalou Fernando Rosas”, para justificar a exclusão de qualquer hipótese de entendimento com o actual partido no poder. Ferro Rodrigues, ex-líder do PS, defendeu em entrevista ao Expresso que o PS deve desafiar PCP e BE para o Governo.

16 de Agosto de 2009

Este Governo é mais perigoso do que o de Sócrates.

Louçã, 2 de Setembro de 2012

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Louçã fez tudo o que pôde para desgastar, quebrar, dividir e derrotar o PS. Era este o seu único plano, sabendo que apenas receberia migalhas dos dissidentes do PCP e que era na radicalização do centro-esquerda que se jogava o seu napoleónico futuro. Em crescendo de agressividade, e definhamento de imaginação, ia revelando a megalómana ambição: liderar uma imperial “esquerda grande” sobre os escombros do socialismo democrático e a tolerância comunista.

Na primeira citação, numa altura em que se dava como certo que o PS iria perder a maioria nas eleições de 2009, vemos Ferro Rodrigues a tentar iniciar um diálogo que gere uma convergência à esquerda só para receber a maniqueísta resposta de um coronel do BE:

as bases políticas programáticas do PS são completamente contrárias às do Bloco

Isto é o mesmo que dizer-se que o PS é o principal inimigo do BE, que onde o BE é de esquerda o PS é direita, e quando o BE defende os trabalhadores o PS defende os patrões. De facto, projectando no PS a raiva ideológica máxima que se é capaz de conceber, qualquer acordo, nem que fosse a respeito de uma conta de somar, seria impossível. E impossível foi, com o BE a preferir que Portugal ficasse com um Governo minoritário de esquerda a partir de 2009, o qual estaria condenado a sofrer todas as golpadas da direita, quando e como ela quisesse.

Em 2012, depois de Louçã nos ter garantido que o chumbo do PEC 4 corresponderia à saída da crise, assoma um laivo de lucidez. Parece que o visionário já consegue vislumbrar que a solução política para a qual ele contribuiu diligente e entusiasticamente é pior do que a anterior. Este deslumbrado que continua a colar o PS à direita – esse mesmo PS que construiu e defendeu o Estado Social – já se esqueceu do que disse na noite eleitoral de 2009, a noite do maior triunfo da sua vida política, e não há ninguém que lhe tenha dado o voto que lhe peça agora responsabilidades depois da bela merda que andou a fazer com ele, mas aqui fica para se contemplar os malefícios da demagogia infrene:

Este é um novo dia para a esquerda portuguesa. Nada será como dantes. Teremos uma esquerda mais rigorosa, com mais capacidade de diálogo. Nenhum eleitor do Bloco de Esquerda terá qualquer dúvida de que todo o voto dado ao Bloco de Esquerda será gasto na defesa dos direitos fundamentais de uma resposta que possa transformar o país.

27 de setembro de 2009

Semiótica dos hipócritas

Os hipócritas adoram sinais. Adoram mostrar sinais. Possuí-los. Para si e para o seu clã. Os hipócritas precisam dos sinais para se reconhecerem. Reconhecem-se pelos sinais porque o sinal é tudo. Quão mais vistosos, mais hipócritas são os hipócritas que vemos a pavonear os sinais da sua hipocrisia.

Foi assim que apareceu por aí, algures em Junho de 2011, um bando de hipócritas que se passou a exibir com um poderoso sinal na lapela: a bandeira de Portugal. Que tamanha hipocrisia estaria a ser preparada, pensei com os meus neurónios especializados em hipócritas. Um ano e tal depois, até os surdos a conseguem ouvir, até os cegos a conseguem ver. É a hipocrisia daqueles que reduzem Portugal a um rectângulo de dois por três centímetros. De plástico. Algo para usar e deitar fora. Muito provavelmente, fabricado na China.

Bem, Amado. Mal, Amado.

A presença de Amado na Universidade de Verão do PSD provocou a reacção de duas figuras socialistas peculiares para a reflexão do que é a esquerda tribal: Ana Gomes e Alegre. A senhora, no seu registo emporcalhado, entrou em modo de fulanização e sarcasmo. O senhor, no seu registo airado, colou Amado ao neoliberalismo.

Como são valentes e rápidos estes socialistas arrumados à esquerda da esquerda, mas só quando toca a atacar o PS. Já a atacar esta decadente direita partidária são uma nulidade absoluta. De Ana Gomes, ninguém se lembra de qualquer posição a respeito da estratégia de assassinato de carácter contra Sócrates et alia, nem sequer quando se chegou ao ponto de Belém lançar uma inaudita conspiração mediática em cima das eleições de 2009. Provavelmente, terá ficado consolada com a tortura infligida ao malandro e terá celebrado a perda da maioria e a sua demissão. De Alegre, fica o seu contributo decisivo para a reeleição de Cavaco, a mais sinistra e ultrajante figura da história da democracia portuguesa.

Amado foi a um evento do PSD dizer o mesmo que dizia como governante e diz como militante socialista: que os desafios do tempo pedem consenso partidário para alcançar certos objectivos fulcrais para o interesse nacional. Estamos perante uma evidência. É evidente que o interesse nacional saiu prejudicado pela falta de consenso em relação à aprovação do PEC 4, como milhões estão agora a sentir no corpinho e uns quantos começam a perceber devagar e a contragosto. É evidente que entregar o poder a um grupo de ignorantes e vendilhões radicais, este Governo da dupla Passos-Relvas, é desastroso por comparação com o Executivo de Sócrates e o que este conseguiu fazer com as contas públicas e as políticas sociais, inclusive apesar da hecatombe económica internacional desde 2008 e da impotência europeia na protecção aos países atacados pelos mercados desde 2010. Por consequência, por ser coerente, Amado está muito bem ao repetir a mesma lógica. Lógica essa onde a RTP não justificaria uma clivagem entre PS e Governo que impeça a união no essencial. Claro que se pode discordar da sua opinião por milhentas e excelentes razões, mas castigá-lo e apelar à sua ostracização dentro do PS, como fizeram Ana Gomes e Alegre, exibe a disfuncionalidade cívica da esquerda narcísica e moralista.

Contam-se pelos dedos de meia mão as figuras públicas que defendem soluções ao centro. E é preciso ser ingénuo para o fazer, tão verrinosas e inevitáveis as agressões de que serão alvo vindas de todos os quadrantes partidários. Só que existem dois tipo de ingenuidade, a negativa e a positiva. A negativa é aquela de Ana Gomes e Alegre, os quais ingenuamente se agarram à ferrugenta armadura ideológica acreditando que ainda assustam os adversários e acabam a perseguir os seus na retaguarda das batalhas. Esta é a ingenuidade que reduz o mundo ao simplismo, que se barrica no sectarismo. A positiva é esta de Amado, nascida da tarimba e da responsabilidade. Esta é a ingenuidade que assume a complexidade do mundo, que ousa advogar a inteligência, que aponta para a criatividade.

Onde Amado se estatelou ao comprido na Universidade de Verão do PSD foi no silenciamento da temática da perseguição criminal aos políticos socialistas que a JSD e as figuras gradas do PSD têm alimentado por palavras e actos. Nessa área, sejam de direita ou de esquerda, não há consenso algum que justifique o compromisso com pulhices e com pulhas. E ao seu lado e à sua frente, como se viu na pergunta à Cândida Almeida a respeito de Sócrates, estavam alguns. Que Ana Gomes e Alegre aceitem esse tratamento dado a camaradas seus, é algo que já não choca. Que Amado desperdice essa oportunidade de afrontar olhos nos olhos quem degrada o regime, fica como um lembrete de como a cidade continua com os seus pilares ao abandono.

Fazer à Constituição o que fizeram ao Caniço

Se alguém estiver a preparar uma antologia dos textos exemplarmente populistas dos tempos que vivemos, esta peça entra para lá directamente com louvor e distinção. O autor, para além de grande amigo do Vítor Gaspar, é um celebrado caluniador que escreve para alimento dos broncos e que aqui revela pretender cortar o pirilau e a tomatada à Constituição. Nem depois de ler se acredita no que chocalha dentro daquela cabeça:

Oh, não! O que será do país se a RTP acabar?

Revolution through evolution

Strong Female Portrayals Counteract Negative Effects of Violent Media for Young Adults
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Gender Bias in Leading Scientific Journals
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Healthy Lifestyle Reduces Risk of Hypertension by Two Thirds
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The Hidden Truths about Calories
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Insights Into Language And Emotion From Psychological Science
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The Role of Genes in Political Behavior
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Prolonged cannabis use leads to drop in IQ, study shows
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Studying Instead of Sleeping Bites Students
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Midlife Fitness Cuts Chronic Disease Later
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Healthy Living Into Old Age Can Add Up to Six Years to Your Life: Keeping Physically Active Shows Strongest Association With Survival
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Reliance on supernatural explanations for major life events, such as death and illness, often increases rather than declines with age
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How Algorithms Rule The World
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Affluent People Less Likely to Reach out to Others in Times of Trouble?
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People of Normal Weight With Belly Fat at Highest Death Risk

A ética morreu afogada

Há oito anos que, de vez em quando, notícias dos submarinos emergem e depois, de repente, submergem. Quando interessa, aparecem e quando deixa de interessar, desaparecem.

Portas

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As notícias a que Portas se refere emergiram no Ministério Público, o qual anunciou a (re)descoberta de documentação em falta no processo da compra dos submarinos. Independentemente do desfecho do caso, esta declaração literalmente en passant é um diagnóstico letal para o regime. Eis um dos políticos mais antigos em actividade, presidente do CDS e segunda figura do Governo, a dar como normal que haja instrumentalização da Justiça para fins de ataque político.

A declaração nada tem de extraordinário no plano intelectual, onde corresponde à visão cínica sem a qual muitos nem sequer concebem a actividade partidária e governativa. Este é o mundo da violência permanente e da conquista do poder pelo poder. A única regra a ser respeitada é a de fazer batota sempre que se saiba que não se é apanhado, sendo este o critério do talento para a função.

E a declaração é toda ela incrível no plano moral. Porque diz respeito à ética. Se Portas sabe que há magistrados ou jornalistas que lançam notícias difamantes e caluniosas, que espalham sistemática e impunemente suspeitas de crime a serviço de interesses próprios ou de terceiros, onde estão as denúncias? Onde está o seu combate contra tamanha perversão e decadência? Onde está o seu compromisso com o Estado de direito? E como se permite fazer política em casos similares, como o Freeport, onde bastou o seu silêncio de conhecedor deste tipo de manobras agora denunciadas para ser cúmplice de manobras por denunciar?

Espera… vai na volta, Portas considera que no Freeport as notícias não emergiam e submergiam quando interessava. E se lhe perguntarem se vê semelhanças nos dois casos nesse aspecto, podemos já antecipar a resposta: dirá com um sorriso mavioso, o sorriso de quem já anda a virar frangos há décadas, que o Freeport não é um submarino.

O sonho de uma Universidade de Verão

A Universidade de Verão do PS faz parte do puzzle que, se algum dia for completado, permitirá descobrir o que levou Seguro a boicotar o PS na sua tentativa de derrubar Sócrates e ocupar-lhe o lugar. Sócrates acabou com esta iniciativa enquanto foi secretário-geral, a qual era organizada pelo Seguro. Estará aqui a origem da vingança? Terá sido essa decisão a natural consequência de Sócrates não querer Seguro no seu círculo próximo, provavelmente por não confiar nele pelas razões que o futuro agora passado se encarregou de exibir? Será que a interrupção desta iniciativa teria ficado sem consequências caso Sócrates tivesse levado Seguro para o Governo ou o tratasse como o príncipe que ele se imaginava? Si non è vero è ben trovato, pois a ambicionada presença de Seguro à frente do PS e a inépcia da sua estratégia com líder da oposição são um verdadeiro enigma – e estamos mesmo perante uma ignomínia pelo seu apagamento da história de como a direita provocou uma crise política para trazer a troika e assim ganhar as eleições e ficar com carta branca para os negócios à custa do Estado Social.

Este evento reúne figuras da política activa e teorizada, destinando-se a uma audiência presencial de 110 jovens militantes socialistas. Acreditando na imprensa, os carolas mandantes elaboraram uma bibliografia que inclui tudo e mais alguma coisa, não faltando obras que nem após vários anos de estudo consecutivo se podem considerar assimiladas: A Política, de Aristóteles; Manifesto do Partido Comunista, de Karl Marx e Friedrich Engels; Teoria Geral da Política, de Norberto Bobbio; A Liberdade dos Antigos Comparada à dos Modernos, Benjamin Constant; Ensaios Morais, Políticos e Literários, David Hume; Da Democracia na América, Alexis de Tocqueville; A Política como Profissão, Max Weber. Há muito, muito e muito mais na listagem, coisas incríveis e espantosas. Pelos vistos, a lógica é a de que os neófitos cheguem à Universidade de Verão com esta papelada toda lida para poderem opinar ou, quiçá, meramente entender o que vão ouvir. E não pensem que vão escapar ao rigoroso escrutínio do TPC, pois o programa vai distribuir a rapaziada por três salas após cada painel. Isso vai dar 30 e tal galfarros por cada “Reunião de Turma”, os quais terão 60 minutos para chegarem ao local devidamente reciclados de líquidos e nicotina, após o que terão de conseguir sentar-se, acalmar e calar, e ainda não descurando que terão de chegar a horas ao encerramento do painel para não atrasar o programa das festas. Tudo somado e subtraído, ficam à volta de 15 minutos para gastar na discussão colectiva a respeito dos grandes pilares da civilização ocidental e o rumo ao socialismo.

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A situação de Manta Rota

António Borges explicou que está tão “otimista” em relação ao programa de ajustamento financeiro assinado com os credores internacionais e ao futuro da economia portuguesa porque, “em primeiro lugar, a situação de bancarrota desapareceu” e, ao contrário do que acontecia há um ano, o país já não vive “exclusivamente” do crédito externo.

Fonte

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Há algo de muito meritório, talvez heróico, no dizer-se que um país sujeito a um programa de assistência financeira, onde os credores ditam a parte fundamental das políticas e todas as metas económicas a atingir sob pena de fecharem a torneira, já não vive “exclusivamente” do crédito externo. A frase é tão extraordinária que apela a uma interpretação mais lata, quiçá remetendo para o sentido conotativo onde Borges estaria a reconhecer que, agora sim e ao contrário do anterior, o Governo português já não tem qualquer crédito externo (nem interno, mas não sejamos demasiado exigentes com o senhor).

Este bambino d’oro está optimista porque a situação de bancarrota desapareceu. É uma excelente notícia, até a minha vizinha do 4º andar concordará. Mas que situação é essa de que o laranjal tanto fala, de que o laranjal só fala? Do que se sabe publicamente, a bancarrota aludida pertence à mesma categoria do Bigfoot, do Abominável Homem das Neves, do Monstro do Lago Ness e da responsabilização pela Inventona de Belém. São seres de que milhões de pessoas falam, de que milhares garantem a existência, de que centenas reclamam ter provas e a que dezenas (ou nenhuma, no caso da Inventona de Belém) dedicaram vidas de investigação. Pura e simplesmente, a bancarrota não aconteceu, apesar dos esforços titânicos nesse sentido feitos pelo PSD, CDS, BE, PCP, Presidente da República, sindicatos vários, super-patrões, patrões de imprensa, jornalistas honésticos e o todo da gente séria.

O que existe é a situação de Manta Rota. Consiste num primeiro-ministro populista e estúrdio, nado e criado nos corredores partidários oligárquicos, o qual papagueia o que lhe mandam dizer soberbo de ignorância e bazófia, sendo um fulano cujo braço-direito no Governo e na carreira é o mefítico Relvas.

Novíssimos provérbios – Edições Crato

A preguiça é a mãe de todos os ofícios

Deus dá o chumbo conforme a vocação

Há mar e mar, há ser doutor e vadiar

Aluno pequenino, ou canalizador ou dançarino

Junta-te aos bons e serás como eles; junta-te aos maus e vais para o ensino profissional

Ladrão que rouba a ladrão tem cem anos de formação

Mal por mal, antes uma turma de maus alunos do que o hospital

Não adianta chorar sobre o leite derramado, a menos que sejas um cábula, estejas a estudar para leiteiro e tenhas tropeçado num balde cheio de sumo de vaca

O seu a seu dono

Mesmo que o Governo tivesse tido a intenção de nos pôr a falar da RTP para não falarmos do fiasco das contas públicas, intento esse logo à partida desmiolado pois resultou num acrescento de fragilidade e descrédito para Relvas e para o Executivo, a verdade é só uma: não se fala mais dos números da execução orçamental porque a oposição não quer. Já não queria antes de Borges ter lançado o barro à parede e continuou a não querer até hoje, com os troikanos regressados ao burgo. Aliás, a oposição tolera indiferente a presença de Relvas no Governo e os insultos do Primeiro-Ministro aos portugueses.

Uma das grandezas da democracia está no papel decisivo das oposições para a qualidade da governação. Pelos vistos, a nossa oposição está ao nível do nosso Governo.

Asfixia democrática? Nada disso

O que se passa com a RTP compara inevitavelmente com a TVI. Neste caso, foi preciso montar uma operação de escutas ilegítimas para apanhar registos privados de Sócrates, os quais foram utilizados para um ataque judicial, político e mediático. Essa manobra foi explorada para fins eleitorais, e tinha como finalidade conseguir que o Ministério Público acusasse Sócrates e o levasse a tribunal. Seria o seu fim político e uma reedição do caso Casa Pia quanto à decapitação da liderança política do PS. Como não se conseguiu amedrontar o Procurador-Geral da República e o Presidente do Supremo Tribunal de Justiça, Belém e Lapa lançaram calúnias sucessivas através dos jornalistas engajados de forma a condicionarem as eleições de 2009, passando depois a ocupar a Assembleia da República durante meses com um circo que nos deu a ver o Crespo a tratar os deputados como se estivesse na Feira de Carcavelos e a Moura Guedes a berrar que o Rei de Espanha podia ser muito bom a caçar elefantes mas que nem ele a conseguia abater. O tema da “asfixia democrática” – lançado por Paulo Rangel no discurso do 25 de Abril de 2007 na Assembleia e tendo usado originalmente a expressão “claustrofobia democrática” para se referir à nomeação de Pina Moura para a Prisa (o Pina Moura, esse tentáculo socrático!) – teve no Pacheco o seu Galahad, passando este infeliz a cronometrar o telejornal da hora de almoço da RTP à procura do Santo Graal nesses segundos perdidos ou acrescentados nas peças emitidas acerca do Governo e da oposição, diferenças que podiam ser invisíveis aos olhos do vulgo mas que provavam o poder e alcance da asfixia, garantiu vezes sem conta sem se rir. Acabou fechado numa saleta da Assembleia da República a chafurdar na privacidade de um concidadão que odiava. Fontes anónimas garantem que o Pacheco ainda hoje guarda num frasco uma meia que conseguiu gamar ao mafarrico e que treina regularmente os seus cães da Marmeleira para quando chegar o dia da caçada final. Também teve graça descobrir através do magnifico trabalho das comissões de inquérito parlamentar, e ao arrepio das atoardas dos ranhosos alvares, que o Correio da Manhã foi o jornal que recebeu mais publicidade do Estado em 2009, seguindo-se o Público e o DN, algo que nem com um petroleiro cheio de cola Araldite dava para colar à campanha negra da “asfixia democrática”. Moral desta escabrosa história: um negócio que nunca aconteceu, a que se juntaram centenas de notícias baseadas em escutas que não deviam ter acontecido, gerou acontecimentos nunca antes vistos de baixa política e degradação do regime.

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Lembra-te

Culture is the by-product of consistent behavior. Change your behavior and you change your culture. Directives, announcements, declarations, missions statements – that’s all crap. SAYING something doesn’t change culture. The only thing that changes culture are repeated, consistent actions.

Fonte

Duas perguntas

Fanatismo, sectarismo, distorções morais, dissonâncias cognitivas e um sem-número de outros fenómenos mentais congéneres são características antropológicas inevitáveis na política, correspondendo à matriz tribal de onde só há pouquíssimo tempo histórico começámos a sair – e só nalgumas partes do Planeta. Observam-se por todo o lado, em todos os quadrantes ideológicos e partidários, seja cá na terrinha ou nesse mundão afora. Mas há uma imensa minoria que pede mais à política. Pede, por exemplo, que os políticos tratem os cidadãos como se acreditassem que os tais cidadãos são inteligentes.

Tomando a inteligência como critério supremo, e assim limitando ou até idealmente anulando o tribalismo, podemos olhar para a situação política nacional e fazer estas duas mui inteligentes perguntas:

– Chumbar o PEC 4 foi a melhor decisão para os interesses da maior parte dos portugueses?

– Este Governo está a executar o Memorando da melhor forma?

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O regabofe da avaliação: que se lixem as fundações

A notícia que o Júlio refere tem uma parte que precisa de ser lida do princípio ao fim. É o retrato fiel da qualidade dos tipos que nos desgovernam:

Côa avaliada por lapso?

Se a Fundação Paula Rego lamenta o “vexame” causado pela classificação negativa, não é a única descontente com os danos de imagem que esta avaliação do Ministério das finanças pode ter causado. Fernando Real, presidente do conselho de administração da Fundação do Côa, responsável pela gestão do Parque Arqueológico e do Museu do Côa, também não ficou propriamente satisfeito quando viu que a instituição a que preside aparecia referida na imprensa local como “a pior fundação do distrito da Guarda”. Na verdade, a acreditar no relatório, não é apenas a pior da Guarda, é quase a pior de todo o país, com uns míseros dez pontos. Que, refira-se, foram todos obtidos no parâmetro “pertinência”, já que em eficácia e sustentabilidade levou com dois rotundos zeros. Um juízo surpreendentemente severo, que poderá ter resultado de uma interpretação equívoca das respostas enviadas por Fernando Real. A história chega quase a ser divertida e conta-se em poucas palavras. Quando o presidente da Fundação do Côa recebeu o questionário, com a indicação de que a resposta era obrigatória sob pena de uma eventual extinção – aviso que a Gulbenkian, por exemplo, também terá recebido -, achou melhor responder, ainda que estivesse consciente de que não teria muito a dizer sobre os números da fundação relativos aos anos 2008-2010, período a que esta avaliação diz respeito, pela razão singela de que a instituição só veio a ser criada em 2011. Foi já, de resto, o actual secretário de Estado da Cultura, Fancisco José Viegas, a dar posse ao respectivo conselho de administração, que só veria aprovado o seu primeiro orçamento em Junho deste ano, há coisa de dois meses.

Real tentou, por isso, responder “não se aplica” onde essa era a única resposta aplicável, mas, infelizmente, explica, onde eram solicitados números, o questionário electrónico só aceitava mesmo algarismos. Decidiu, então, optar por responder com zeros, que os responsáveis pelo tratamento de dados terão aparentemente assumido no seu significado matemático literal, mesmo quando esta interpretação era manifestamente inverosímil. Lembrando que, “logo no início da ficha, estava a data da criação”, deixando claro que a fundação ainda não existia no triénio que o inquérito se propunha avaliar, Real considera que “o erro é tão evidente e grosseiro, que é de admitir que tenha havido um lapso”.

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