Asfixia democrática? Nada disso

O que se passa com a RTP compara inevitavelmente com a TVI. Neste caso, foi preciso montar uma operação de escutas ilegítimas para apanhar registos privados de Sócrates, os quais foram utilizados para um ataque judicial, político e mediático. Essa manobra foi explorada para fins eleitorais, e tinha como finalidade conseguir que o Ministério Público acusasse Sócrates e o levasse a tribunal. Seria o seu fim político e uma reedição do caso Casa Pia quanto à decapitação da liderança política do PS. Como não se conseguiu amedrontar o Procurador-Geral da República e o Presidente do Supremo Tribunal de Justiça, Belém e Lapa lançaram calúnias sucessivas através dos jornalistas engajados de forma a condicionarem as eleições de 2009, passando depois a ocupar a Assembleia da República durante meses com um circo que nos deu a ver o Crespo a tratar os deputados como se estivesse na Feira de Carcavelos e a Moura Guedes a berrar que o Rei de Espanha podia ser muito bom a caçar elefantes mas que nem ele a conseguia abater. O tema da “asfixia democrática” – lançado por Paulo Rangel no discurso do 25 de Abril de 2007 na Assembleia e tendo usado originalmente a expressão “claustrofobia democrática” para se referir à nomeação de Pina Moura para a Prisa (o Pina Moura, esse tentáculo socrático!) – teve no Pacheco o seu Galahad, passando este infeliz a cronometrar o telejornal da hora de almoço da RTP à procura do Santo Graal nesses segundos perdidos ou acrescentados nas peças emitidas acerca do Governo e da oposição, diferenças que podiam ser invisíveis aos olhos do vulgo mas que provavam o poder e alcance da asfixia, garantiu vezes sem conta sem se rir. Acabou fechado numa saleta da Assembleia da República a chafurdar na privacidade de um concidadão que odiava. Fontes anónimas garantem que o Pacheco ainda hoje guarda num frasco uma meia que conseguiu gamar ao mafarrico e que treina regularmente os seus cães da Marmeleira para quando chegar o dia da caçada final. Também teve graça descobrir através do magnifico trabalho das comissões de inquérito parlamentar, e ao arrepio das atoardas dos ranhosos alvares, que o Correio da Manhã foi o jornal que recebeu mais publicidade do Estado em 2009, seguindo-se o Público e o DN, algo que nem com um petroleiro cheio de cola Araldite dava para colar à campanha negra da “asfixia democrática”. Moral desta escabrosa história: um negócio que nunca aconteceu, a que se juntaram centenas de notícias baseadas em escutas que não deviam ter acontecido, gerou acontecimentos nunca antes vistos de baixa política e degradação do regime.

Agora estamos perante o espectáculo de termos um ministro com a pasta da comunicação social que é, de facto, mentiroso e chantagista, o qual já admitiu que apenas se mantém no Governo para conseguir destruir a RTP e acabar com esse bastião de independência jornalística (seja lá qual for a sua distância da perfeição), cultura e identidade. Que maravilhas se conseguiriam apanhar nas conversas privadas de Relvas caso fosse escutado? Que dirá julgando-se a coberto de ouvidos estranhos o homem que disse em público aos filhos de Sócrates para terem vergonha do pai? Que conversas em privado terá este ser com aqueloutro que não se inibe de insultar o Presidente do Tribunal Constitucional apenas porque lhe pediram para abrir a boca antes de ter tido tempo de pensar e que trata os portugueses como se estivesse na taberna a dar lições de moral ao povo? Como é que estes melros fazem os negócios que andam a fazer e que querem fazer até não haver mais nada para vender? Deve ser algo lindo, homérico, mas felizmente não temos acesso a tal festim.

A direita controla a comunicação social. Todos vimos o que se permite fazer com esse poder, alimentado e escudado por um sistema de Justiça absolutamente impotente para travar, sequer diminuir, a perseguição e devassa que se fez a políticos socialistas. Sempre e só a políticos socialistas. Todos vimos a resposta selvagem que deu à mera suspeita de poder ter o seu monopólio beliscado. Acabando com a RTP, a direita acaba com uma instituição onde não podia aplicar os métodos violentos de que precisa para vencer pela calúnia e pelo medo. Não será uma asfixia democrática, vai ser mesmo um ataque cardíaco na liberdade de imprensa.

7 thoughts on “Asfixia democrática? Nada disso”

  1. não foi só a direita, a esquerda ranhosa tamém alinhou na manobra tvi, aliás fez o trabalho encomendado por belém e que o psd não teve coragem de executar, mais uma vitória da semedo, pureza & associados no campeonato da asfixia onde se classificaram em 5º lugar e perderam 1/2 dos votos. nunca é demais relembrar a merda que estes gajos querem tapar com congressos de alternativas canhotas.

    http://www.esquerda.net/artigo/comiss%C3%A3o-de-inqu%C3%A9rito-aprova-relat%C3%B3rio-de-jo%C3%A3o-semedo

  2. É toda uma história escabrosa que é preciso relembrar até à exaustão.

    Foi uma experiência inesquecível assistir em 2010 ao “grande consenso” (J. M. Pureza) formado na AR entre a direita e os pupilos de Estaline e Trotsky, capitaneados pelo relator-inquisidor Semedo, na tentativa de provar a alegada “promiscuidade perversa entre poder político e mediático” sob o governo de Sócrates – a tal “claustrofobia” ou “asfixia democrática” de Paulo Rangel-Ferreira Leite, sabendo-se quanto a comunicação social estava então, e continua cada vez mais a estar, completamente nas mãos da direita (com a excepção, talvez, da RTP, onde ainda assim pontificava a reles Judite de Sousa, equivalente na estação pública da Moura Guedes da TVI e do Crespo da SIC).

    E como esquecer o afã acusatório do estalinesco deputado do PCP na comissão de inquérito parlamentar, a brincar aos processos de Moscovo sob a batuta de Rangel e Ferreira Leite?

    Se provas faltassem de que não há nem nem pode haver qualquer possibilidade de aproximação, entendimento ou cooperação política entre o PS e esta extrema esquerda, o episódio do inquérito parlamentar “consensual” é definitivamente esclarecedor.

    Um dia se fará, espero, a história completa da coligação negativa contra o governo Sócrates, essa multiforme colaboração entre os golpistas de direita e a extrema esquerda, que vai muito além desse episódio bufo da comissão de inquérito à “asfixia democrática” ou do chumbo do chamado PEC IV, que precipitou a queda do governo. É uma história que começa na AR, passa pelos bastidores vergonhosos e miasmáticos da política, da polícia e do ministério público e se espraia á vista de todos na comunicação social.

  3. Nem mais, Júlio. Em especial, os subterrâneos serviços, e os ataques públicos à doida, do sindicato dos magistrados e do sindicato dos juízes.

  4. Caro Val, como és uma pessoa geralmente bem informada, és capaz de me dizer quem é que foi condenado no caso das gravações ilicitas feitas ao antigo primeiro-ministro?
    É que já se sabe que as gravações foram ilícitas, não é verdade? Assim sendo, e uma vez que no caso Bragaparques, o Sá Fernandes foi condenado em juízo por ter efectuado tais gravações, quem é que foi objecto de processo e condenado neste assunto?
    Estou curioso!

  5. Teofilo M, não só se desconhecem condenações, até porque não consta existir qualquer processo aberto para aferir responsabilidades, como o Ministério Público e o Tribunal de Aveiro conseguiram desrespeitar a ordem do Supremo para a destruição das escutas, tendo feito variadas cópias que vão aparecendo conforme dá jeito.

  6. Val
    Continue. Não deixe esquecer este período negro da nossa história. Repita até à exaustão. Os cabrões não merecem que por obras vergonhosas “se vão da lei da morte libertando”.

  7. Diz o Povo na sua imensa sabedoria que, a verdade é como o azeite…vem sempre à
    superfície! Para pessoas medianamente informadas, a grande “cabala” montada contra
    o Governo do PS liderado por José Sócrates, nunca as convenceu, razão próxima da
    vitória, mesmo em minoria, nas eleições de 2009!
    O caso “freeport”, razão directa do despedimento da Guedes da TVI, só porque teve o
    azar de convidar o Bastonário da O. dos Advogados que, no seu programa de lixamento
    desmontou e explicou como nasceu esse processo aliás, no seguimento de outro posto
    a correr na NET sobre a sexualidade do então lider do PS que, o próprio autor já disse
    como foi aliciado, lá no Brasil sua terra natal!
    Tudo obra de pessoas ligadas ao PSD e CDS com a preciosa colaboração de polícias e
    magistrados, por isso, não podem sacudir a àgua do capote, na falta de idéias políticas
    e, na ausência de um programa para o País…optaram pela calúnia e o chamado assassí-
    nio de carácter! A saga continuou com a grande “operação face oculta”, onde um polícia
    e um magistrado, escritor nas horas vagas, descobriram um atentado contra o Estado
    de Direito…será que se referiam ao estado em que vivemos, onde os portugueses são
    manipulados por uma comunicação social domesticada ???
    Mais uma vez a montanha irá parir um rato…no entanto ninguém será responsabilizado!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.