A ética morreu afogada

Há oito anos que, de vez em quando, notícias dos submarinos emergem e depois, de repente, submergem. Quando interessa, aparecem e quando deixa de interessar, desaparecem.

Portas

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As notícias a que Portas se refere emergiram no Ministério Público, o qual anunciou a (re)descoberta de documentação em falta no processo da compra dos submarinos. Independentemente do desfecho do caso, esta declaração literalmente en passant é um diagnóstico letal para o regime. Eis um dos políticos mais antigos em actividade, presidente do CDS e segunda figura do Governo, a dar como normal que haja instrumentalização da Justiça para fins de ataque político.

A declaração nada tem de extraordinário no plano intelectual, onde corresponde à visão cínica sem a qual muitos nem sequer concebem a actividade partidária e governativa. Este é o mundo da violência permanente e da conquista do poder pelo poder. A única regra a ser respeitada é a de fazer batota sempre que se saiba que não se é apanhado, sendo este o critério do talento para a função.

E a declaração é toda ela incrível no plano moral. Porque diz respeito à ética. Se Portas sabe que há magistrados ou jornalistas que lançam notícias difamantes e caluniosas, que espalham sistemática e impunemente suspeitas de crime a serviço de interesses próprios ou de terceiros, onde estão as denúncias? Onde está o seu combate contra tamanha perversão e decadência? Onde está o seu compromisso com o Estado de direito? E como se permite fazer política em casos similares, como o Freeport, onde bastou o seu silêncio de conhecedor deste tipo de manobras agora denunciadas para ser cúmplice de manobras por denunciar?

Espera… vai na volta, Portas considera que no Freeport as notícias não emergiam e submergiam quando interessava. E se lhe perguntarem se vê semelhanças nos dois casos nesse aspecto, podemos já antecipar a resposta: dirá com um sorriso mavioso, o sorriso de quem já anda a virar frangos há décadas, que o Freeport não é um submarino.

2 thoughts on “A ética morreu afogada”

  1. A displicência com que Portas fala é sintomática da maneira de estar da direita na política.
    “… teus inimigos são todos os que se julgam ofendidos com o fato de estares ocupando o principado…” escreveu Maquiavel no seu “O Príncipe”.
    Este príncipe da era moderna, vive e respira o seu maquiavelismo duma forma basilar, daí o aceitar, sem grande nojo, aquilo que habitualmente é o seu modus operandi.

  2. Se calhar,portas até pode ter razão.Isto pode ser a ala “social ppd” na justiça, a trazer o submarino à superficie, para condicionar as suas criticas ao proprio governo.confesso, que nunca ouvi portas, criticar Socrates,sobre os folhetins frepoort e companhia.Info: ontem fui aos jardins do palacio de cristal no porto,ouvir “a naifa”.vim simplesmente encantada com a voz da vocalista,as letras e o som da sua musica.foi um fecho das “noites ritual” em grande.

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