Todos os artigos de Valupi

Inspirações canalhas

Portugal está a viver uma crise terrível, que é a crise de valores. Suspeita-se do que está por detrás dos contratos dos submarinos, suspeita-se do que está por detrás da venda da EDP aos chineses, suspeita-se do que está por detrás da Fundação Social Democrata da Madeira, suspeita-se do que estaria por detrás da proposta da TSU, suspeita-se de um ministro porque mentiu sob juramento no Parlamento a respeito da sua relação com espiões tendo ainda, no seguimento desse episódio, feito alegadas pressões sobre jornalistas no chamado “caso Relvas/Público”, suspeita-se das negociatas que esse mesmo senhor senhor quer fazer à custa da RTP. Temos em Portugal um Governo sob suspeição e isto corrói as instituições e mina a autoridade do Estado.

Inspirador: Aguiar-Branco

Canalhice: PSD usa caso Freeport para atacar governo de Sócrates

Revolution through evolution

Birth is no reason to go to hospital, review suggests
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Sexually Aroused Women Are Harder to Gross Out
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Music Underlies Language Acquisition, Theorists Propose
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The Downside of Dams: Is the Environmental Price of Hydroelectric Power Too High?
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Why Power Corrupts
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Human First Impulse Is Generosity
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People Change Moral Position Without Even Realizing It
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Reading Food Labels Helps Shoppers Stay Thinner
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The More People Rely On Their Intuitions, the More Cooperative They Become
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Revisiting Robbers Cave: The easy spontaneity of intergroup conflict
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Make Healthy Choices Easier Options
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Who creates harmony the world over? Women. Who signs peace deals? Men
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Your Body Doesn’t Lie: People Ignore Political Ads of Candidates They Oppose
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Women Speak Less When They’re Outnumbered
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Video Games Help Patients and Health Care Providers
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Smaller Waistlines, Sharper Minds, Stronger Bones and Healthier Hearts?

Antes o KKK do que as PPP

PSD e CDS, moral e intelectualmente decadentes, atiçaram o populismo e espalharam calúnias atrás de calúnias, e promessas falsas atrás de promessas falsas, para assim chegarem ao poder custasse o que nos custasse. Um dos alvos foi, e continua a ser, as PPP. A ideia que propagaram diz que esses contratos foram celebrados para burlar o Estado. Os beneficiários seriam as empresas envolvidas e os governantes socialistas. Nunca falam de governantes social-democratas ou populares, embora as PPP tenham começado com Cavaco.

Ranhosos e imbecis, broncos e analfabrutos, passaram a repetir essa cassete. Engolem agradecidos qualquer côdea que lhes ponham na gamela desde que ela permita alimentar a sua impotência, o seu imobilismo. A imagem de socialistas corruptos a meterem ao bolso como se o Estado fosse um enorme BPN é hipnótica para um país onde a iliteracia e a baixíssima cidadania são marcas seculares. Só vem confirmar o que desde sempre se repetiu em voz alta em cafés e praças de táxis: eles andam todos a gamar, o tempo todo – e os piores são os de esquerda, porque os de direita nem sequer fingem ao que andam, conclui o povoléu ao balcão entre dois amendoins.

Ora, porque será que não aparecem no Correio da Manhã excertos desses contratos com as tais cláusulas da festança expostas e as continhas feitas para todos ficarmos a saber quanto é que foi roubado e por quem? O laranjal não consegue dar com a papelada? Foram acordos de boca e ninguém assinou coisa nenhuma? Como é óbvio, óbvio em todos os países e tempos, os negócios do Estado estão sempre sob a atenção de variadas entidades, com variadas metodologias de análise e variadas agendas. Se até onde há pouco dinheiro a correr a corrupção é estatisticamente inevitável, quanto mais onde há muito. Bastaria relembrar os casos de corrupção na União Europeia, ao mais alto nível, para ninguém ter ilusões: eles podem muito bem ter acontecido nalgumas, quiçá muitas, PPP. Mas quais, se alguma? E por quem, se alguém?

Aqueles que repetem a lengalenga das PPP, onde se inclui muito jornalista que também nada explica ou demonstra mas onde o semblante carregado vale por mil documentos validados em tribunal, já só querem ver o Estado de direito a arder.

No princípio era uma pergunta

Na passada quinta-feira, a RTP Memória exibiu um Falatório, rubrica de entrevistas e debate apresentada por Clara Ferreira Alves, com Sebastião Salgado, Chico Buarque e José Saramago. O programa data de 1997. Há diversas entidades internacionais, e mesmo uma ou outra nacional, que garantem terem já passado perto de 15 anos desde que o ilustre encontro teve lugar. 15 anos pode ser muito tempo, ou então não, mas para o que aqui nos faz estar a gastar os monitores é alguma coisa de respeito.

Pois nesse evento televisivo ficou registada a crítica do nosso Nobel a esse presente passado através do seguinte carimbo: neoliberalismo. Eis que o neoliberalismo já merecia o estatuto de Grande Satã antes da viragem do século para um notável comunista português. Na verdade, o termo é muito mais antigo, mesmo muito e muito mais antigo, mas não conheceu grande popularidade na retórica da extrema-esquerda portuguesa antes da crise de 2008 por ser demasiado intelectual. Logo depois dessa síntese, deu-se voz a um telespectador que partilhou com os notáveis convidados e demais audiência a seguinte visão: não existia democracia em Portugal porque os partidos não representavam o povo, apenas certos interesses. Saramago concordou e mostrou-se magoado com essa realidade.

Não existir democracia, assumindo que a opinião do telespectador e do escritor representam o pensamento de uma mole de cidadãos desiludidos com o regime, não impede que se realizem actos eleitorais os mais variados nem que se continue livremente a escrever e a publicar livros cujo sucesso se mede em vendas e prémios. Poderíamos mesmo ser levados a concluir que esta falsa democracia até que nem é tão má quanto isso, que se calhar nem difere assim tanto da outra cuja ausência se lamenta. Porém, a denúncia é invencível: fora dos modelos de democracia directa, a democracia representativa sujeita-se inevitavelmente a ser vista como uma redução, ou disfunção, ou perversão, do ideal contido no conceito. A lógica que justifica a existência dos partidos, vistos como a expressão das diferentes forças que constituem a sociedade, é exactamente a mesma que os leva a favorecerem uns em detrimento de outros quando exercem o poder. Não é possível satisfazer todos ao mesmo tempo, nem sequer se tenta satisfazer todos uma só vez que seja.

Contemplar as derivas sectárias que se geram em todos os sistemas democráticos é algo que se faz na ciência política há décadas e décadas. A actual vaga de desencanto contra o regime nascido pelo 25 de Abril, para informação dos que ainda não tiraram as palas dos olhos, não é nova, não é culta e não é justa. É uma reacção emocional condicionada pela extraordinária crise económica, pelos extremismos ideológicos que sonham com ditaduras e pelo aproveitamento populista organizado, como nos casos da direita portuguesa para o derrube do Governo PS, ou inorgânico, consequência da colossal tonteira de Passos Coelho.

Mas nem tudo é perda: quem diz mal da democracia sujeita-se a que lhe perguntem pelo tipo de regime em que quer viver. E esta pergunta, mesmo que fique sem resposta, é o princípio dos princípios de todas as democracias.

Entretanto, na Sala das Bicas

Inacreditável a imagem dos conselheiros atravessando a Sala das Bicas em grupinhos de conversas e risadas no final do Conselho de Estado. Tão ostensivo o modo jovial que até pareceu coreografado para transmitir um ar de descontracção a raiar o despautério. Se fossem a caminho de um jogo da bola ou de uma sardinhada não estariam num espírito diferente daquele que exibiram para os jornalistas captarem.

Depois seguiu-se o comunicado. Diz que a crise do TSU acabou. Que o Governo vai combinar umas cenas diferentes com os parceiros sociais, já se falando cá fora que o saque voltará a ser nos subsídios. E pronto. Nem sequer o estado da coligação provoca qualquer angústia, são todos bons rapazes.

Isto significa que nenhum órgão de soberania pretende assumir qualquer responsabilidade pela situação. O Governo recua derrotado e humilhado e aquelas cabeças acham que este é o fim da história. Acontece que se trata do começo de uma outra coisa onde o primeiro-ministro está definitivamente desautorizado, como já estava a maioria dos seus ministros. Nem sequer se deve falar em diminuição da credibilidade pois o estatuto deste Governo passa a ser o do escândalo. É um escândalo ter uma figura reles como Relvas ou inane como o Álvaro, é um escândalo ser uma coligação cujos partidos se agridem em público no meio de uma emergência nacional, é um escândalo ter o primeiro-ministro com a sua tonteira finamente modulada afundado ainda mais o País numa crise económica que agora passou a ser também de confiança e respeito nas principais instituições da República. Esta gente conseguiu destruir com o seu revanchismo e fanatismo o frágil tecido de esperança que ainda resistia pela ignorância de muitos e pela resignação de tantos.

Isto quer dizer que o povo do 15 de Setembro foi deixado ao abandono. Não tem um líder, o que faz do Medina Carreira, do Marinho Pinto e da Ferreira Leite fortes candidatos ao lugar. Mas também quer dizer que a própria lógica da austeridade está ferida de morte, pois quem se revoltou contra os 7% da TSU mais facilmente se irá revoltar agora contra novos cortes nos subsídios e o cambalacho que está a ser preparado no IRS. Os cenários futuros são completamente imprevisíveis, só a incompetência das actuais elites políticas continuará fatal.

5 anos

Os mesmos que mentiam à fartazana para enterrar Portugal, dizendo que os juros da dívida subiam porque os mercados não queriam Sócrates no Governo, são os mesmo que à fartazana mentem dizendo que os juros da dívida baixam porque os mercados querem Passos, Relvas, Álvaro e Gaspar no Governo.

Até 5 de Junho de 2011 não existia qualquer crise na Europa. Bastava afastar aqueles gajos do PS e os mercados viriam cá despejar dinheiro. Depois de meterem a bocarra no pote, passou a não existir qualquer efeito do BCE. Se os juros de repente descem, é porque os mercados ficam ofuscados com a credibilidade de tão incríveis farsantes. Se sobem, então sim, há uma crise internacional algures e não podemos fazer nada a não ser sofrer.

A idade mental de quem acredita nesta tanga é a mesma de quem acha que esta tanga chega para o gasto: 5 anos.

Um novíssimo Dia de Portugal

A manifestação de 12 de Março de 2011 foi preparada ao longo de meses. Teve a influência dos Deolinda e do seu sucesso “Parva que sou”, adoptado como hino apartidário em Janeiro. Recebeu o apoio das máquinas do PCP e BE, a salivar para reclamarem mais uma vitória na rua. E teve o impulso decisivo, ao longo do mês de Fevereiro, quando a imprensa escrita e televisiva começou a promover intensamente o evento por o entender como crucial manobra de desgaste do Governo no seu momento mais frágil. Por fim, até Cavaco Silva apelou à participação em massa nesse protesto. O alvo, para todas as agendas, incluindo as politicamente inconscientes, era o Governo socialista e a figura de Sócrates. Mas tratava-se apenas de uma festa, de uma farsa. Por isso a populaça ficou satisfeita só por lá ter estado. Já chegava para dar na televisão e ver na Internet. Estava tudo bem, até porque o Governo ia cair e rapidamente nos veríamos livres da fonte de todos os males.

A manifestação de 15 de Setembro de 2012 teve dias de anúncio, nenhum grupo musical a animar a malta, nenhuma campanha ou apoio na imprensa. Esperavam-se 50 mil manifestantes em Lisboa, chegou um jornal a prever, se calhar com ousadia. Quem participou sentiu-se a concretizar um dever de presença por questões relativas à sua própria dignidade. Mais do que o folclore de estar contra a Troika ou contra o Governo ou contra este ou aquele ministro, a manifestação era a favor de Portugal – entenda-se: foi um acto que simbolizou a existência de uma comunidade que está antes e acima das circunstâncias políticas e económicas. Assim, essa manifestação talvez tenha sido única nisso de representar de forma pura o Soberano.

É só lastimoso, e perigoso, que a actual ausência de responsabilidade na Presidência da República e no Governo, a que se junta a actual ausência de inteligência na oposição, deixe o campo aberto para que se dê a contaminação populista que ameaça o próprio regime de forma larvar e cada vez mais efervescente.

A decência é uma matemática

Quando olhamos para a direita partidária portuguesa, das personagens principais aos figurantes, dos passarões à arraia-miúda, dos que representam eleitores e dos que comentam eleitos, o panorama é tenebroso. Vai desde a figura mais sinistra e perniciosa do regime, Cavaco Silva, até essa sumidade do nacional-chungismo, Carlos Abreu Amorim, passando pelos paradigmáticos João Jardim, Dias Loureiro, Valentim Loureiro, Isaltino Morais, Duarte Lima, Santana Lopes, Filipe Menezes, Marques Mendes, Ângelo Correia, Marcelo Rebelo de Sousa, Ferreira Leite, Pacheco Pereira et alia, e ainda agrega um circo de horrores composto pela Moura Guedes, Crespo, arquitecto Saraiva, Medina Carreira, João Duque, Zé Manel Fernandes, Eduardo Cintra Torres, Helena Matos, João Miguel Tavares, Carlos Barbosa, este, aquele e a outra. Têm até um órgão oficial, o Correio da Manhã, esse esgoto a céu aberto, para além de variados satélites com que dominam a comunicação social. Apesar de não se poderem ver uns aos outros na maior parte dos casos, porque vivem na selva e é cada um por si, estão unidos no ódio a um tal de Sócrates que os humilha pelo simples facto de existir. É uma gente ressentida, ressabiada e velhaca, enquanto agentes políticos e/ou figuras mediáticas, que não se importou nada de atiçar o populismo dos ignaros e dos assustados para com ele derrubarem um Governo e o País.

Pairando acima deste charco putrefacto está o Pedro Marques Lopes, fonte de salubridade e inteligência para o molestado e depauperado eleitor de direita. O Pedro é admirável na sua intransigência perante as pulhices que os seus correlegionários despejam incessantemente no debate político e no espaço público. O Pedro, pois, é um defensor do próprio ideal de democracia enquanto sistema pensado para acolher a diversidade de opinião na procura de um bem comum, enquanto modo de realizar a liberdade em conjunto, não como palco de ataques ao carácter e arena de conspirações onde a política fica reduzida à violência. E que acontece? Acontece que as suas ideias – resumindo à bruta: que passam por defender uma sociedade onde o Estado tenha menos peso do que aquele que o PS concebe como apropriado, por exemplo – nada percam do seu valor, antes ganhem acrescido interesse por ser ele quem as assume. Ele, alguém que faz da decência a condição sine qua non para a intervenção pública. Se o PSD estivesse entregue a políticos desta fibra, fosse no poder ou na liderança da oposição, Portugal não estaria nesta desgraçada situação.

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Relvas, o mais sumarento fruto da Política de Verdade

Se o único problema do Governo está na comunicação, tudo o resto sendo excelente ou estando nos mínimos aceitáveis, ouçamos o seu maior especialista vivo:

Estou convencido que Passos Coelho vai ser um primeiro-ministro que vai marcar a História do nosso país, nasceu para este lugar, tem um sentido de responsabilidade…

[…]

Sabe que em Portugal se criou a ideia de que boa comunicação política é iludir os portugueses, que má comunicação política é dizer a verdade. Não, nós seguimos o contrário. Os que comunicavam muito bem, que faziam uma grande coordenação política, que muitas vezes se fala… os da ilusão perderam as eleições, vão ser julgados pela História. Nós acreditamos que chegou a hora de um Governo chegar ao fim do seu mandato e dizer: nós prometemos isto e fizemos isto, nós prometemos fazer estas reformas e fizemos estas.

[…]

É muito importante que sejam apuradas as responsabilidades de cada um. A culpa em Portugal tem definitivamente de não poder morrer solteira na vida pública.

Relvas, Fevereiro de 2012

Parasitas e nefelibatas

A recusa do PCP e do BE em serem parte de uma qualquer solução democrática para a governança do País – invariavelmente exigindo ao PS que abdique da sua história, ideário e eleitorado e se submeta à cartilha radical de comunistas e bloquistas – explica sem surpresa a constante atitude de despeito e ofensas à dignidade dos governantes com que preenchem os discursos. Falam dos políticos eleitos como se eles não tivessem legitimidade para aplicar os seus programas, alimentam frenéticos as suspeições quanto à honestidade intelectual de qualquer um que aceite trabalhar com o Executivo e alinham com entusiasmo nas campanhas de assassinato de carácter que tenham como alvo socialistas. PCP e BE têm sido isto, porque isto lhes garante a manutenção dos nichos eleitorais que continuam a defender um Portugal pré-25 de Novembro e a preferir o consolo das utopias literárias à criação do homem novo em comunhão com a Humanidade envelhecida e constantemente infantilizada.

Ao mesmo tempo, lançam soluções que implicam alterações monumentais na lógica com que a sociedade tem estabelecido os seus modos produtivos e de regulação estatal. Se calhar serão as melhores saídas para esta e todas as crises, se calhar bloquistas e comunistas possuem uma inteligência superior, uma bondade muito superior, e por isso estão mais próximos da verdade última, ou mesmo já lá chegaram porque só eles é que conhecem as leis da História. Mas, então, em vez de a sua legião de fanáticos perder tanto tempo nas disputas teológicas acerca da superioridade das variadíssimas seitas marxistas, seria de esperar que conseguissem demonstrar a viabilidade, oportunidade e urgência daquilo que propõem. Por exemplo, o PCP que faça uns folhetos onde consigamos perceber como é que exactamente vai funcionar essa ideia catita do aumento da produção nacional. Aposto que não há um único empresário que queira ficar de fora desse grandioso plano. E o BE vá à TV dizer como é que vamos conseguir roubar aos ricos para dar aos pobres e não ficarmos mais pobres com esse assalto passado pouco tempo, pois terá 9 milhões de almas que não irão querer perder pitada da lição.

O bloqueio à esquerda tem um sentido unívoco: aumentar a pressão sobre as fragilidades do regime democrático, as suas inevitáveis disfunções, de modo a aumentar o capital de revolta. Isto é de manual e transpira por todos os poros dos sectários, por isso eles estão sempre em combate numa luta sem fim nem tréguas. Por um lado, dependem do dinheiro recebido em eleições e demais actividades financiadoras que o regime lhes concede, servindo-se de todos os direitos consagrados constitucionalmente para espalharem as suas mensagens. Por outro lado, boicotam o próprio modelo onde subsistem, esperando que ele continue a servir os seus interesses ou que seja substituído por outra coisa onde comunistas e bloquistas se tornem no poder dominante e a democracia tal como a conhecemos seja uma fase ultrapassada no caminho da felicidade por decreto.

Esta esquerda pura e verdadeira, sem qualquer espanto, foi a aliada perfeita desta direita boçal e revolucionária. A política faz estranhos companheiros de cama, mas neste caso a estranheza é nenhuma pois são as duas faces da decadência portuguesa.

Não sejam piegas, saiam da vossa zona de conforto, acabem com este regabofe, emigrem ou ide estudar, mas deixem de nos dar cabo do lombo e de nos lixarem a vidinha

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Setembro

Um casal de amigos meus, norte-americanos actualmente a viverem em Londres, enfrentou um cancro da mama descoberto em 2011 na M. de forma completamente estranha para os hábitos portugueses: partilhando todas as informações clínicas, desenvolvimentos e consequências corporais da doença com a família e amigos, inclusive recorrendo a fotos da estadia no hospital, da parafernália de tubos e ligaduras, do corte de cabelo, da sofrida alteração daquele rosto. Através de um website fomos tendo acesso ao decorrer do processo. Para além disso, o M., dotado de talento profissional para a comunicação, usou a escrita para tranquilizar a comunidade ali reunida em angústia. Os seus textos conseguiram aliar o mais cru relato da realidade com a mais terna exaltação do optimismo e da indestrutível alegria de viver da sua mulher, daquele casal.

Em Portugal está a acontecer algo parecido, e numa escala de exposição muito maior quanto ao alcance. Miguel Esteves Cardoso tem relatado no Público a doença da Maria João com inaudita transparência e intimidade. Como estamos perante um dos nossos melhores escritores de sempre, os seus testemunhos – servidos por um ritmo de escrita diária e sintética, etimológica e formalmente à maneira de um blogue – conjugam o dilaceramento pungente face ao pânico, à degradação da saúde, à morte, à finitude com a lírica de um artista da palavra, a capacidade de exorcizar a sua dor no acto mesmo de nos convidar a senti-la como só nós, cada um de nós na nossa irredutível solidão, a poderá fingir.

Esse o contexto, o subtexto e pretexto para esta lindeza tamanha:

Ainda assim Setembro

Setembro é o mês que recapitula o Verão, narrado pela voz do Outono, ainda longe da pressa do Inverno. Na zona equatorial não há estações do ano. Contou um escritor do Sri Lanka que viveu um ano em Londres como aprendeu a achar graça às mudanças das estações do ano, apesar de não gostar da maneira como havia meses muito mais frios do que os poucos que não o eram.

Tem sido tão estranho este ano. Setembro, nos últimos dez dias de Verão, ainda poderá ser um regresso ao ano passado, em que as coisas estavam mais bem encaminhadas, ao ponto de estarem à espera dos prazeres da praia em Outubro.

Este ano, até hoje, fui só uma vez à praia, tomar banho, sem ter tomado no dia anterior e sabendo que não iria tomar no dia seguinte. Mas não são os anos que são maus: são as vidas. São as estações. São os dias. São as manhãs. São as horas. É a noite, todas as noites, da noite a começar, mais uma vez.

Todos os dias a Maria João tem fotografado o fim do dia, visto das muitas janelas da nossa casa nova. Chama-me para ver o que às vezes até conseguiu fotografar. Ela diz-me: “É único”. Ela diz-me: “Está quase a acabar”. Ela diz-me: “É lindo”. E eu penso, como ela quer que eu pense: “Nunca mais vai ser assim”. A não ser, talvez, amanhã. Amanhã ainda é Setembro. Ainda falta mais de uma semana para o Verão acabar. Os nevoeiros desceram e as pessoas voltaram ao trabalho.

Mas ainda falta uma medida certa de magia. O nome do mês conta o segredo: é Setembro.

Miguel Esteves Cardoso, 11 de Setembro de 2012

Estrangeirinha

O espectáculo decadente que PSD e CDS estão a dar, levando o Governo para uma inacreditável crise de confiança no meio de uma extraordinária crise histórica, é o corolário de uma cultura partidária onde vale tudo menos respeitar Portugal e os portugueses. Quando podiam ter defendido o País numa altura de sistémica fragilidade a que não se poderia fugir, nem se poderia ter evitado, preferiram usar essa situação para interromperem uma legislatura que ainda nem tinha chegado a meio. Queriam ser eles a mandar, a fazer os grandes negócios que a entrega de Portugal aos estrangeiros iria proporcionar. E assim montaram uma estrangeirinha que passou por mentirem com quantas promessas tinham na campanha eleitoral. Naturalmente, logicamente, obviamente, não podem confiar uns nos outros. Conhecem-se de ginjeira.

Precisamos de uma estratégia de tolerância zero para esta epidemia

Jovem agride ex-namorada até à morte

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Precisamos de perfis, padrões e profilaxias. Precisamos de conhecer o fenómeno por incidência geográfica, etária, escolaridade e história clínica. Precisamos de nos lembrar que para cada morte registada há centenas e milhares de episódios violentos escondidos. Precisamos de acudir a uma população onde a doença mental é um flagelo calado, onde a crise económica vem agudizar e multiplicar o que já era calamitoso.