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Há cinquenta anos

Pouquíssimos o saberiam então e talvez já ninguém o saiba hoje: Salazar tinha uma vidente, que consultava espaçadamente. Não acreditava nela, tal como não acreditava na Lúcia de Fátima, mas não resistia a recorrer aos serviços de ambas quando, em momentos torturantes de incerteza, tinha de agarrar-se a qualquer coisa. De facto, Madame Virginie (era este o nome de guerra da extralúcida senhora) já havia tranquilizado o chefe do governo em várias ocasiões, como quando previra que Américo Tomás ganharia facilmente as eleições presidenciais de 1958. Madame Virginie era uma transmontana que andara por Paris e pelo Brasil até estabelecer um discreto gabinete de consultas num quarto andar da baixa lisboeta. Claro que ela se valia muito, para os seus vaticínios, da mera intuição adestrada pelos desenganos da vida, quando não recorria às dicas de certos informadores bem colocados, porque uma pitonisa também tem de pensar na sua reforma. Mas às vezes saíam-lhe coisas do fundo da mente que a surpreendiam a si própria.

Numa manhã de Janeiro de 1965, o ditador acordou angustiado. A caminho dos 76 anos, que ia completar em Abril, o seu sono era ultimamente perturbado por pesadelos que o faziam acordar banhado em suores frios. Pensar no futuro do país após a sua morte era uma ansiedade recorrente, mesmo de dia. Ultrapassados os abanões que o regime tinha levado nos primeiros anos dessa década, Salazar já não temia seriamente ser derrubado até ao fim do seu consulado. Morreria, previsivelmente, ao leme da nação, pois não havia dentro do regime quem ousasse correr com ele e a PIDE mantinha-o permanentemente informado sobre os mínimos passos da inepta oposição. Mas, depois da sua morte, que rumo tomaria Portugal? Iria por água baixo toda a sua obra, construída com tanto sacrifício? Sentia terríveis calafrios só de pensar que um seu sucessor, num momento de moleza ideológica, poderia abrir as portas aos partidos, acabar com a censura ou entabular negociações com os terroristas africanos ao serviço de Moscovo.

Naquela dita manhã, depois de um pequeno-almoço que lhe custou a engolir, o ditador convocou Madame Virginie para S. Bento. A vidente chegou por volta das dez e meia, sentou-se numa cadeira de braços em frente do governante e, depois de se interessar protocolarmente pela saúde e estado anímico do seu valioso cliente, perguntou:

‒ Ora então, senhor presidente, o que é que o atormenta?
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A liquidez da ministra

O governo continua em pré-campanha eleitoral. Aproveitando o facto de Portugal poder conseguir no mercado empréstimos a custo mais baixo do que o juro associado aos empréstimos do FMI, o governo confirmou hoje ter “pedido autorização” para pagar antecipadamente, nos próximos dois anos e meio, mais de metade da dívida de 27 mil milhões ao dito FMI. A ministra das Finanças não faz mais do que imitar a boa prática da Irlanda, mudando de credores para poupar nos juros futuros. Alegou, porém, como razão da antecipação do pagamento a existência de “um montante de reservas de liquidez muito significativo” que teria sido acumulado por Portugal ‒ isto é, por ela. Poupar nos juros é uma boa medida de gestão da dívida, mas insinuar, sem ousar afirmá-lo, que vai amortizar parte da dívida pública global graças às miríficas “reservas de liquidez” entretanto amealhadas é aldrabice. Essas “reservas de liquidez” ‒ as existentes e, sobretudo, as que a ministra espera conseguir nos próximos dois anos e meio ‒ são obviamente conseguidas pelos tais empréstimos contraídos no mercado a juro mais baixo. A não ser que ela se esteja a referir às reservas de liquidez… das albufeiras.

Actualização: Portas, hoje à tarde, cheio de empáfia balofa: “É um sinal de que Portugal readquiriu a sua independência”. Estava a referir-se à afirmação da ministra de que pretende passar de um credor para outros mais baratos, mantendo-se o mesmo montante global de dívida. O vice-aldrabão repetiu várias vezes que se trata de um “reembolso antecipado” da dívida.

Nunca em Portugal um juiz foi preso

Perante essa infamíssima moscambilha mediático-judicial com que, na prática, se tem pretendido liquidar José Sócrates na praça pública sem provas nem julgamento, é Mário Soares, com 90 anos, quem continua a assumir o combate de primeira linha. Honra lhe seja.

Soares terminou a sua coluna de hoje no DN com uma frase que excitou meia dúzia de falsas virgens indignadas. Foi só isto: “E o juiz Carlos Alexandre que se cuide”. Por mim, só posso concordar e aplaudir de pé. De facto, nenhum juiz nem nenhum procurador está acima da lei. Exemplificando: agentes da justiça não devem poder impunemente liquidar a reputação de alguém com fins políticos. Por isso, os senhores juízes e procuradores devem-se cuidar, como todos nós devemos, para não pisar o risco. Ora o risco da Operação Marquês já está safado de tanta pisadela que tem levado.

Dito isto, Soares talvez peque por optimismo. Em Portugal, num passado a perder de vista, nunca um juiz ou um procurador foi preso. Marinho Pinto observou isso mesmo, e bem, aqui há uns quatro anos, argumentando que eles se absolvem sempre uns aos outros. Julgo que não será só por isso, pois a regra é nem chegarem a tribunal. No nosso país, muitas pessoas de bem, de todas as profissões, foram no passado atiradas para a prisão, frequentemente por razões políticas. Alguns vieram depois a ser ministros, outros primeiro-ministros, outros presidentes da República. Muitos outros puderam ser reabilitados e refazer a sua imagem de cidadãos íntegros e úteis à comunidade. Mas nunca vi em Portugal um juiz ou um procurador ser incomodado por patifarias cometidas pela organização judicial, muito menos detido. Serão todos assim tão íntegros e honestos? Claro que não. A taxa de delinquência entre os juizes e procuradores não deve ser inferior à das restantes profissões, incluindo médicos, jornalistas, advogados, autarcas, farmacêuticos, padres, banqueiros, polícias, professores e comerciantes.

O juiz Carlos Alexandre será pois, no melhor dos casos, uma pessoa bem intencionada e íntegra, mas um bocado distraída ou descuidada. No pior dos casos pode ser um tratante disposto a tramar Sócrates por razões inconfessáveis, políticas ou outras. Entre os dois extremos há ainda uma série de possibilidades. Ele que se cuide, como diz Mário Soares, porque anda a patinar em gelo fino.

P. S. : Parece que uns fascistóides histéricos desafiaram o juiz Alexandre a processar Mário Soares, mas o fulano já declarou que não pretendia fazê-lo. Pudera. Se avançasse com uma acção, ia-lhe provavelmente ser servida em tribunal a “face oculta” da Operação Marquês, com todos os matadores. O Alexandrinho não se mete nisso.

Sem crescimento não há reformas estruturais

Gostei de ler no DN de hoje “Um enterro grego para a austeridade alemã”, do ex-ministro dos negócios estrangeiros e ex-vice-chanceler da Alemanha, Joschka Fischer. O trecho que destaco, que me parece acrescentar algo ao que todos já vamos constatando, é este:

“Redução da dívida e reformas estruturais em simultâneo, sabemos agora, irão sobrecarregar qualquer governo democraticamente eleito, porque irão sobretaxar os eleitores. E, sem crescimento, não haverá também reformas estruturais, por muito necessárias que estas sejam.”

Até agora, com efeito, os críticos da austeridade têm repetido atá à exaustão que, sem crescimento, um país sobreendividado não pode satisfazer as obrigações da dívida. É certo e óbvio, excepto para cegos voluntários. Mas não é só.

Como diz Fischer, a lógica do primeiro a diminuição da dívida e as reformas estruturais, depois o crescimento, é coxa. Além do mais, tem tendência a derrubar os governos que a cultivam… O ponto para mim crucial vem a seguir, sobre o qual nunca vi ninguém discretear em Portugal: “Sem crescimento, não haverá também reformas estruturais, por muito necessárias que estas sejam.”

Ora isto é a lógica inversa daquela que nos tem governado em Portugal, onde se pretende diminuir a dívida (sem se conseguir) e fazer reformas estrurais (sem se conseguir), para depois se alcançar o crescimento.

As reformas estruturais mais proveitosas, duradouras e exequíveis, tanto as da economia como as do Estado, são as que são introduzidas ou acontecem quando há crescimento. Primeiro, porque o próprio crescimento as vai realizando ou exigindo quotidianamente, sem necessidade de obedecer a nenhum plano salvador, congeminado por sádicos iluminados do FMI ou governantes suicidas. Segundo, porque, havendo crescimento, os efeitos negativos das reformas estruturais sobre o emprego, as condições de vida da população e o próprio evoluir do PIB são menos sentidos e mais transitórios. Terceiro, porque muitas reformas estruturais exigem investimento estatal e a pior altura para este é quando não há crescimento. E poderíamos continuar nesta linha.

Bint êrrus, Cratu?

“Não faz sentido nenhum que um professor dê vinte erros ortográficos numa frase”, disse há dias o Crato.

Fiquei curioso e tentei construir uma frase com o máximo de erros. Saiu assim:

Nam fás centidu qe un prufeçôr dei bint êrrus urtograficus noma frazz.

Tive que simular idiotia, mas lá consegui atingir a espantosa marca de vinte e dois erros numa frase, contabilizando os erros múltiplos em cada palavra.

Pergunto: haverá algum aluno extraordinariamente bronco no primeiro ano de escolaridade, já não digo um professor, que consiga o mesmo que eu consegui, esforçando-me tanto?

Ó Crato, mostra lá a tal frase com vinte erros, se fazes o favor. É que a tua insinuação é que não faz sentido nenhum.

Acho mesmo que és um mentiroso, Crato.

Pérolas de um clássico

O neo-acaciano Zé Manel Fernandes é já um clássico, com direito a ver as suas elucubrações citadas nas provas de avaliação de conhecimentos dos professores. Neste trecho proposto pelo Instituto de Avaliação Educativa para tema de um texto a redigir pelos examinandos, Zé Manel perora acerca dos efeitos da Internet e das redes sociais sobre a qualidade e a utilidade da informação:

Como a prensa de Gutenberg, a Internet e as redes sociais permitem que muito mais gente seja capaz de comunicar mais depressa e com mais pessoas, mas isso não implica que a informação que circula seja melhor e mais útil. (José Manuel Fernandes, Liberdade e informação, Lisboa, Edições Pingo Doce, 2011, p.90)

Segundo este notável pensador do Pingo Doce, são duvidosos os efeitos benfazejos das novas tecnologias. Pois são. Já a invenção da roda serviu modernamente a muitos imbecis para andarem por aí a acelerar, pondo em risco a vida de inocentes. Mas, fora de brincadeiras, com a Internet não há realmente garantia nenhuma da qualidade e utilidade da informação veiculada. Veja-se o caso do Observador, que, se não existisse, haveria muito menos besteiras a circular e não se perderia absolutamente nada.

 

Tsipras defende os interesses de Portugal?

Há quem pense e diga, entre os actuais e anteriores dirigentes do Bloco de Esquerda, como Louçã, que Tsipras é o primeiro ministro que (melhor) defende os interesses de Portugal. Puro voto pio, com a cabeça bem enterrada na areia. O governo do Syriza estará, talvez, genuinamente interessado em defender os interesses da Grécia  – independentemente de se saber se o conseguirá. Mas a premissa de que defender os interesses gregos equivale a defender os interesses portugueses é falsa, proibindo a conclusão do silogismo. A Grécia pode defender os seus interesses à revelia, contra e até parcialmente à custa dos interesses portugueses. Se o governo de Tsipras conseguir assestar sobre a UE, os credores, os EUA e a NATO todos os seus meios de pressão e chantagem, convencendo a Europa e o sistema bancário a adoptar soluções específicas para a Grécia e só para ela, Portugal poderá não beneficiar em nada com isso, ser prejudicado na sua eventual posição negocial e até ter de vir a pagar uma parte da factura daquelas soluções. O governo grego tem, de resto, todo o interesse em tentar convencer a Europa e os credores de que o seu caso é separado ou único. Por mais que diga o ministro das Finanças Varoufakis, com os problemas da restante Europa do Sul pode bem o governo do Syriza.

Pois é, “a Grécia tem mais trunfos do que Portugal” e, sobretudo, trunfos diferentes. Veja-se, por exemplo, a atitude dissonante tomada em relação à questão da Ucrânia, que deixa prever futuros atritos com Bruxelas e a NATO. Se bem que agora, depois de um ligeiro amuo, o governo de Tsipras meteu o rabinho entre as pernas e alinhou “construtivamente” com os outros 27 no prolongamento e agravamento das sanções contra a Rússia. Entrada de leão, saída de sendeiro. Mas pronto, sempre deram um arzinho da sua graça, para lembrar que existem e poderão vir a chatear.

Dir-se-á que Portugal não tem mais trunfos por incompetência do actual governo, que só tem apostado na subserviência mais canina aos ditames da Alemanha, do BCE, do FMI e da NATO. Pois será, mas enquanto este governo aí estiver e continuar com a sua política, os triunfos de Tsipras não beneficiarão necessariamente e até podem vir a prejudicar a posição, actual e futura, de Portugal. Tsipras talvez só beneficiasse a posição portuguesa se o governo de Lisboa fosse, suponhamos, do Bloco de Esquerda e adoptasse o programa do Syriza. Aí, porém, é que se veria realmente quem é que defende melhor os interesses de Portugal. E quanto a ver quem é que defende melhor os interesses da Grécia, ainda estamos para ver. Falamos daqui a uns meses.

ΣΥΡΙΖΑ

O Syriza parece que vai ser o partido mais votado nas eleições gregas. É mais ou menos como se o Bloco de Esquerda, saindo da sua atitude de fazer oposição sistemática (“correr por fora”), de repente convencesse a maioria dos eleitores portugueses de que tinha a receita adequada para curar os males do país e fosse capaz de ganhar as eleições em Portugal. Era obra, convenhamos.

Syriza é a sigla do Synaspismos Rizospastikis Aristeras, ou seja, Coligação da Esquerda Radical. Ao menos tem um nome que não pretende enganar ninguém. Este sinapismo, palavra que em português designa aquela cataplasma de mostarda com que antigamente se aliviavam as bronquites, reúne uma dúzia de movimentos de esquerdistas, comunistas, trotsquistas, internacionalistas, ecologistas, eco-socialistas, eco-comunistas, anticapitalistas, “cidadãos activos”, radicais e democrata-sociais. Duvido fortemente que semelhante emplastro seja sequer capaz de aliviar a tosse da Grécia, mas estou aqui para ver.

O sinapismo tem um líder seguro de si, insinuante, que fala ao coração dos descrentes nos partidos tradicionais. Receita sedutora num país falido e aparentemente sem outra perspectiva que não seja a de continuar a empobrecer, gerindo uma dívida externa de 400 mil milhões de euros e vendo o seu PIB a decrescer todos os anos desde o início da crise em 2009. Em circunstâncias semelhantes, porém, nasceram na Europa de entre as duas guerras os regimes fascistas, conduzidos por líderes insinuantes que falavam ao coração de pessoas descrentes nos partidos tradicionais. Aprendizes de feiticeiros que depois conduziram os seus países à catástrofe…

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Uma história das arábias

Era uma vez um chefe guerreiro sanguinário nascido em 1880, que em 1932, com muitas atrocidades, manhas e a ajuda dos ingleses, fundou um reino a que deu o seu próprio nome. Teve pelo menos 45 filhos varões e não se sabe quantas filhas. Sucedeu-lhe em 1953 o 2.º filho. Sucedeu a este em 1964 o 3.º filho. Sucedeu a este em 1975 o 5.º filho. Sucedeu a este em 1982 o 8.º filho. Sucedeu a este em 2005 o 10.º filho, que reinou até ontem, 22 de Janeiro de 2015. Sucedeu-lhe hoje o 25.º filho, de 79 anos de idade e saúde fraca. Na linha de sucessão ficou agora o 35.º filho, aparentemente o último ainda vivo, com 70 anos.

Para a história da justiça em Portugal

Há um mês, a 17 de Dezembro de 2014, a comunicação social noticiou que o processo dos submarinos foi arquivado. Não foram encontrados culpados de ilícitos. Por curiosa coincidência, exactamente no mesmo dia, a TVI24 revelou uma gravação do conselho superior da família Espírito Santo, realizado a 7 de Novembro de 2013. O vídeo está no YouTube. Segue abaixo a transcrição da parte mais sumarenta, para a história.

Reunião do conselho superior da família Espírito Santo, realizada a 7 de Novembro de 2013 (ou seja, 1 ano, 1 mês e 10 dias antes do arquivamento do processo dos submarinos).

Ricardo Salgado ‒ Muito bem. Eu quero que saibam, eu não sei o que vai acontecer ao processo dos submarinos, mas, em princípio, parece – parece, ainda não há a certeza – que poderia vir a ser arquivado.

José Manuel Espírito Santo ‒ Ó Ricardo, já agora explica como é que foi o assunto do recebimento da comissão da ESCOM.

Ricardo Salgado ‒ O problema da ESCOM, no caso dos submarinos, é um problema que de facto é uma história complicada. Porque vocês sabem que a origem desta operação até vem de alguém que trabalhava convosco na Santogal…

Voz não identificada – Era o Miguel Horta e Costa, irmão do Luís [Horta e Costa, presidente da ESCOM].

Ricardo Salgado – … e o Miguel Horta e Costa foi à ESCOM propor a operação. Nós ficámos, enfim, com uma impressão que isto provavelmente não tinha pés para andar e que, de qualquer forma, era uma operação pontual. O Banco [Espírito Santo] com o Crédit Suisse tinha organizado a operação de leasing para a compra dos submarinos. E então a ESCOM dirigiu sempre a operação, sempre, desde A a Z, e só nos deu informação pelo montante que nós recebemos. Vocês dizem: “Ah mas vocês deveriam ter pedido mais elementos.” Com certeza que nós queríamos mais elementos. E mais uma vez esteve lá o Luís Horta e Costa que explicou que dos… eram 30 milhões…

Voz não identificada – … que a ESCOM recebeu de comissões…

Ricardo Salgado – … teve de fazer uma redução de 2 milhões imediatamente, porque o programa dos franceses estava mais barato. Ficou em 28, depois teve encargos com advogados e mais não sei o quê, e pagamentos que eles fizeram por fora, mas garantiram-me que não tinham pago nada a ministros, alguns. Acabaram por ficar 20 milhões. Deram-nos 5 a nós e eles guardaram 15. E vocês têm todo o direito de perguntar: “Mas como é que aqueles três tipos [Pedro Pereira Neto, Miguel Horta e Costa e Hélder Bataglia] receberam 15 milhões?” A informação que nós temos é que não é para eles, que há uma parte que não é para eles. Eu não sei se é ou se não é, mas como hoje em dia só vejo aldrabões à nossa volta… Os tipos garantem que uma parte tem que ser entregue a alguém em determinado dia.

Ricardo Abecassis Espírito Santo – Tu não achas esquisito ser a administração da própria empresa que decide quanto é que eles vão ganhar e não os accionistas ou os controladores da empresa? É isso que me choca.

Ricardo Salgado – Ó Ricardo, ó Ricardo…

Ricardo Abecassis Espírito Santo – O Pedro, o Miguel Horta e Costa e lá o outro… o Hélder dizem: “Nós vamos ficar com tanto”…

Ricardo Salgado – Ricardo, tu tens razão a levantar a questão, mas, imediatamente a seguir à operação estar feita, começou imediatamente uma campanha nos jornais, horrível, sobre a operação e nós nem quisemos saber de mais nada, mais nada.

Ricardo Abecassis Espírito Santo – Se nós controlamos a empresa [a ESCOM], nós temos de controlar os gestores da empresa e quanto é que eles ganham. Se eles têm que ganhar um milhão, ganham um milhão. É assim que…

Ricardo Salgado – Este assunto não é da área financeira. Parece-me que é melhor não remexer mais neste assunto…

Ricardo Abecassis Espírito Santo – Está bem, eu…

Ricardo Salgado – … porque vamos acabar por saber quem é que recebeu parte disto e quem é que deixou de receber. É melhor não perguntar. Não fomos nós, de certeza absoluta. Pronto, a operação foi em 2003 [na realidade, em 2004]. Em 2004, o grupo [BES] decidiu acabar completamente com esta actividade, que é uma coisa horrorosa. Porque eles estavam a preparar-se para fazer muito mais, com carros blindados e havia mais outras: fragatas, metralhadoras…

Voz não identificada – Eh, eh, eh, eh, eh, eh…

NOTA:  Paulo Portas nunca foi ouvido pelo MP desde que o inquérito dos submarinos começou, em 2006, apesar de em Março de 2005 o director financeiro do CDS-PP, Abel Pinheiro, e o ministro da Defesa cessante, Paulo Portas terem sido escutados a falar sobre “acordos” com o “Luís das Amoreiras”. A justiça também ficou satisfeita com as explicações dadas sobre os 105 depósitos feitos em quatro dias, em 2004, na conta do CDS-PP no BES, no valor de 1,06 milhões de euros. Em 2014, oito anos após o início do inquérito, Paulo Portas prestou finalmente declarações ao DCIAP, por escrito e apenas como mera testemunha.

Mau e bom terrorismo islâmico?

O conceito elástico e paranóide de “ofensa ao islão”, invocado por psicopatas terroristas para matar humoristas, é usado pelas autoridades da teocracia saudita, aliada do Ocidente, para aplicar sentenças terroristas a quem questione o papel da religião islâmica ‒ tal como essas autoridades a entendem ‒ na condução da vida pública e privada. As 1000 chicotadas a que o blogger Raif Badawi foi condenado, em prestações de 50, todas as sextas-feiras durante 20 semanas, são apenas o exemplo mais recente dessa barbaridade institucionalizada. Uma sinistra paródia de justiça, em que o advogado de Raif foi condenado a 15 anos de prisão por o ter defendido! Parece que, privadamente, tudo isto incomoda algumas autoridades ocidentais. Onde estão as condenações oficiais, sem ambiguidades nem condescendências políticas, de tal terrorismo? Haverá um terrorismo mau e um terrorismo bom ou, pelo menos, desculpável?

Uma boa notícia é que a Assembleia da República, por proposta do Bloco de Esquerda, aprovou hoje por unanimidade um apelo à libertação de Raif Badawi. Outra é que as autoridades da Arábia Saudita, parece que preocupadas com as suas public relations, suspenderam as chicotadas de hoje por uma semana, por “razões médicas”. Quer isto dizer que quando Raif estiver de saúde, ficará novamente pronto para ficar sem ela.

O ancestral “crê ou morres” é literalmente lei na Arábia Saudita. Uma Santa Inquisição de keffiyeh chamada Comissão para a Promoção da Virtude e Prevenção do Vício encarrega-se de denunciar qualquer aparência de contestação ou desobediência aos líderes religiosos, que depois é punida em moldes medievais. Dizem muitos que o islão autêntico é uma religião pacífica e tolerante, que condena o assassinato de inocentes, etc. Mas onde é que está no mapa-mundo real esse islão fiel ao preceito do Corão segundo o qual “A religião não é imposição, porque a verdadeira via se torna claramente distinta do erro. Aquele que rejeita falsas divindades e abraça a crença em Deus fica firmemente ligado a ela para sempre. E Deus tudo ouve e tudo sabe” (versículo 2:256)? Como é que este preceito se conjuga com a existente condenação à morte por “renúncia à fé”, numa antecipação terrena do fogo do inferno em que os descrentes terão de penar? Será que esse preceito é abrogado por muitos outros versículos do Corão que preconizam a jihad contra os infiéis? E que autoridade infalível sabe apontar o que é o “erro”, do ponto de vista da religião, em todas as questões públicas e privadas?

Eu sou Raif Badawi

Mais terrorismo religioso, desta vez sem kalashnikov.

Raif Badawi, um blogger saudita que “insultou o islão” recebeu ontem, sexta-feira, numa praça da cidade de Jidá, as primeiras 50 de 1000 chicotadas, que serão escalonadas ao longo de 20 semanas. O seu crime, pelo qual foi condenado também a 10 anos de prisão, foi ter-se insurgido, no blogue que fundou com a activista dos direitos das mulheres Suad al-Shammari, contra a influência da religião na vida pública do seu país. Já tinha sido acusado no passado de “renúncia à fé”, um “crime” que pode levar à pena de morte.

P.S.: Suad-al-Shammari está presa na Arábia Saudita desde Outubro passado porque tweetou que a sociedade saudita era masculina e que a religiosidade de um homem não se mede pelo comprimento da barba. Um “clérico” saudita quer que ela seja condenada a perder uma mão e a vista.

Uma voz que respeito muito

“Ainda bem que há ateus que criticam a atitude infame dos religiosos.”

Padre Anselmo Borges, há minutos na Antena 1, a propósito dos cartoons do Charlie Hebdo contra a intolerância religiosa (por “religiosos”, entendia muçulmanos e cristãos).

Compare-se:

“Os cartoons publicados pelo semanário Charlie Hebdo são uma ofensa”

Sheik Munir hoje ao jornal i, afirmando embora que “a resposta nunca pode ser a violência”.

Vive la France!

Vive-la-France!-Wolinski

Islamistas cobardes mataram hoje, aos 80 anos, o grande Wolinski. E também Cabu, Charb, Tignous e mais seis colaboradores do velho Charlie Hebdo. Em nome  de Alá, disseram.

Não sei que caralho de Alá é esse, mas se em nome dele se matam humoristas, deve ser uma merda muito ruim.

Heil, Operação Marquês!

O “nacionalista” Mário Machado apresentou uma queixa-crime contra José Sócrates. De acordo com esse cabecilha neo-nazi, o detido de Évora violou o segredo de justiça quando respondeu às perguntas da TVI, nomeadamente por se ter pronunciado directamente sobre o processo.

Ora aqui está uma excelente deixa para os nossos magistrados se sentirem mais à vontade em castigar Sócrates por ter ousado defender-se. É o povo que pede, meus senhores. É a fina-flor da nacionalidade que exige que se faça justiça.

 

Felizmente há Soares

No dia 22 de Novembro passado, quando Sócrates foi preso no aeroporto por funcionários da Autoridade Tributária, deixei aqui uma simples interrogação: “O fascismo a regressar?” Houve pessoas que acharam então exagerada a pergunta. Na caixa de comentários do mesmo post precisei o que entendia por fascismo:

Não há fascismo, mas há fascistas. Não há nem pode haver fascismo como o antigo, que está fora de moda. Agora a agressão política é mais refinada. Não se partem cabeças nem se faz ingurgitar óleo de rícino aos adversários políticos. Usam-se as latrinas da comunicação social e os palradores remunerados para campanhas de ódio e desinformação. Infiltra-se a organização judicial e a magistratura para levar a cabo vendettas políticas. Fazem-se petições públicas, subscritas por milhares de imbecis, para tentar calar adversários e reestabelecer a censura. Dão-se golpes, mas já não são precisos generais a cavalo nem espadas a tilintar. O espírito, ou a falta dele, é que é sempre o mesmo.

Continuo a subscrever o que então disse. Só não podia imaginar que, 43 dias depois, Sócrates continuaria preso. E que os magistrados que o prenderam com base em conjecturas improvadas não só não formularam ainda qualquer acusação, como pretendem amordaçar o preso a todo o custo, para que não  possa defender-se publicamente das calúnias que esses magistrados deixam sistematicamente passar para o espaço público. A canalhice deste procedimento da organização judicial só é comparável às patifarias da miserável PIDE, que foi sempre acolitada por magistrados caninos e censores sem vergonha – fascistas no sentido puro da palavra. (Só os PIDES foram incomodados depois do 25 de Abril, não os magistrados nem os censores!)

A massa humana de que em Portugal se fez o salazarismo, a PIDE, o Tribunal Plenário e a Censura continua por aí, igual ou pior. Os tempos são outros, mas a canalha é a mesma, se não pior do que a que pariu e sustentou o salazarismo. E não me estou a referir a folclóricos de cabeça rapada. Estou a referir-me a magistrados, a procuradores, a comentadores jornalísticos, radiofónicos e televisivos, a catedráticos de Direito e a dirigentes partidários. Estou a referir-me à grande massa de imbecis e hipócritas que chulamente os aplaudem.

Se os deixarmos, tomarão inteiramente o poder. Não vão formar nenhuma junta de botas ferradas nem nenhum governo de camisas negras. Não vão saudar de pata estendida nem fazer paradas no Terreiro do Paço. Vão é parasitar todo o aparelho constitucional da Democracia e infiltrar-se em todas as sedes de poder efectivo, da administração central à comunicação social, das escolas e universidades às empresas, dos tribunais à Autoridade Tributária e às polícias. Tudo, claro, com a bênção do escafandro de Belém.

Felizmente há Soares!

 

Um tango para o papa

Hoje, dia do 78.º aniversário do papa, dançou-se o tango na Praça de S. Pedro. No mesmo dia em que se soube que os EUA e Cuba vão reatar relações diplomáticas graças, nomeadamente, à mediação de Francisco, a Praça de S. Pedro animou-se com duas mil pessoas a dançarem o tango, numa homenagem ao aniversariante e à sua cidade natal, Buenos Aires, que é também o berço da música e da dança outrora amaldiçoadas pela beataria. Outros tempos! Para contraste com o dia de hoje, transcrevo abaixo parte de um texto com 101 anos.

O TANGO…

Não negarei que é com dor que vejo entrar em salões ricos, estrelados de luzes faiscantes de cristais, esta coisa bárbara que se chama «tango». Eu sei que a moral é, em muitos lábios carminados de cereja, finos e caprichosos, uma atitude elegante que realça perversamente a sempre tentadora cabeça de uma mulher linda, encarecendo a esquisitice do pecado… Mas, em nome da Arte e do volvente encanto feminino, que já esse colosso do génio que foi Goethe disse que era eterno, eu peço-vos, senhoras minhas, que não danceis o «tango».

[…]

A dança era a arte suma da delicadeza, um galanteio cheio de respeito e graça, tímido e harmonioso, como se se dirigisse a uma santa do altar. A Dama era rainha, sentada na corte do respeito. E o cavalheiro temia tocar-lhe como se violasse o encanto de uma deusa…

Hoje… violou-se o encanto… Já não é o ser delicado e reinante diante do qual o homem vinha confessar-se, adorador… É apenas a mulher frágil, com os olhos líquidos de desejo, amortecidos, arrastada num turbilhão alucinante de paixão por um homem brutal que a preme contra si – a ela que desmaia, abandonada, com a cabeça sobre o ombro dele, sem encanto e sem realeza… É uma camélia rubra desmaiada, apertada na mão de um macaco com cio…

Está escrito: a mulher só reina pelo encanto. Quebrai-o. Volver-nos-á escrava de sangue remordido de ardências pecaminosas… e inestéticas…

O tango!

E há quem no dance!… É a paixão ardente da savana, escaldante, uivando, mordendo…, com seivas virgens e selváticas esbrazeadas pelo sol ardente! Vêde-los? O cavalheiro cravou os dedos crispados naquela cinta alvorotada e ela enrosca-se nele, coleante, serpentina… Cobra!

Perdoai, senhoras. Mas se quereis conservar a vossa realeza da graça e do sorriso e do bem, não danceis o «tango»!

O tango e até… a valsa…

Manuel Gonçalves Cerejeira [futuro cardeal patriarca de Lisboa]

Ilustração Católica, Braga, 18 de Outubro de 1913, págs. 243-244.

Texto completo aqui.

 

Perguntas à Autoridade Tributária

Dois trabalhadores da Autoridade Tributária estão a ser investigados por, alegadamente, terem consultado os dados fiscais do Coelho e, por isso, podem vir a ser alvo de processos disciplinares – disseram há pouco as notícias.

Acontece que esses dados não são tão confidenciais como os dos outros contribuintes, pois todos os políticos com assento parlamentar ou com funções públicas têm de divulgar atempada e publicamente as suas declarações de rendimentos e de património.

Pergunto agora à Autoridade Tributária:

1 – Quantas vezes aconteceu no passado que trabalhadores da Autoridade Tributária consultaram dados fiscais de contribuintes sem motivo pertinente ou atendível?

2 – Se a Autoridade Tributária não sabe responder à primeira pergunta, porque é que agora soube, e como é que soube, das consultas aos dados fiscais do Coelho?

3 – Será que a consulta dos dados fiscais do Coelho está a ser alvo de uma vigilância especial por parte da Autoridade Tributária?

4 – Se sim, porquê? Se não, voltar à primeira pergunta.

5 – Os dados fiscais de José Sócrates nunca foram consultados por funcionários dos impostos?

6 – Se a Autoridade Tributária não sabe responder à pergunta anterior, porque é que não sabe?

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P. S.:  ontem, as primeiras notícias sobre este caso apenas mencionavam a consulta de dados fiscais de Passos Coelho. Mais tarde, juntaram o nome de Sócrates: também ele teria tido os seus dados fiscais vasculhados. Muito conveniente, para disfarçar que o que chateou a Autoridade Tributária foram as consultas indevidas dos dados de Passos Coelho. Algum dia a Autoridade Tributária teria, por sua iniciativa, investigado fosse o que fosse, se o contribuinte com dados devassados fosse só Sócrates ou qualquer Zé pagante? Querem fazer de nós parvos!

Novas notícias dão hoje (12 de Dezembro) mais pormenores. Afinal não foram só dois funcionários, mas 100 (cem), embora só dois estejam a ser alvo de investigações. Presume a Autoridade que os outros 98 foram movidos apenas por “curiosidade” e não andaram a divulgar os dados. Eu presumo que foram os tais dois que forem espreitar o Coelho. As questões que aqui deixei continuam oportunas, excepto a 5.ª e a 6.ª, que são substituídas por esta:

– Desde quando é que os dados fiscais de José Sócrates são devassados por funcionários da Autoridade Tributária?