Uma voz que respeito muito

“Ainda bem que há ateus que criticam a atitude infame dos religiosos.”

Padre Anselmo Borges, há minutos na Antena 1, a propósito dos cartoons do Charlie Hebdo contra a intolerância religiosa (por “religiosos”, entendia muçulmanos e cristãos).

Compare-se:

“Os cartoons publicados pelo semanário Charlie Hebdo são uma ofensa”

Sheik Munir hoje ao jornal i, afirmando embora que “a resposta nunca pode ser a violência”.

43 thoughts on “Uma voz que respeito muito”

  1. A comunidade muçulmana mostra um défice nefasto quanto à participação política neste problema, o que é parte enorme do problema. Não chegam as declarações de alguns responsáveis, era preciso que eles assumissem comunitariamente uma manifestação de repúdio pelo que se faz em nome da sua religião e cultura.

    Uma geração mais nova de muçulmanos, em termos globais, está a dar passos nesse sentido.

  2. Outra comparação interessante:

    David Aaronovitch, chairman do Index of Censorship:

    “Yesterday in Paris we in the west crossed a boundary that cannot be recrossed. For the first time since the defeat of fascism a group of citizens were massacred because of what they had drawn, said and published.”
    _____________________

    Wikipedia, artigo ‘Naji Salim al-Ali’:

    “(Arabic: ناجي سليم العلي‎ Nājī Salīm al-‘Alī ; born c. 1938 – 29 August 1987) was a Palestinian cartoonist, noted for the political criticism of the Arab regimes and Israel in his works. He drew over 40,000 cartoons, which often reflected Palestinian and Arab public opinion and were sharply critical commentaries on Palestinian and Arab politics and political leaders.[1] He is perhaps best known as creator of the character Handala, pictured in his cartoons as a young witness of the satirized policy or event depicted,[1] and who has since become an icon of Palestinian defiance. On 22 July 1987, while outside the London offices of al-Qabas, a Kuwaiti newspaper for which he drew political caricatures,[1][2] Naji was shot in the face and mortally wounded.[3] Naji al-Ali died five weeks later in Charing Cross Hospital.
    […]
    “By refusing to pass on the relevant information to their British counterparts, Mossad earned the displeasure of Britain, which retaliated by expelling three Israeli diplomats, one of whom was the embassy attache identified as the handler for the two agents.[14] A furious Margaret Thatcher, then prime minister, closed Mossad’s London base in Palace Green, Kensington.”

  3. Bem, eu gostaria de saber o que achou o dito padre de certo cartoon de António que caricaturou JP II com o preservativo no nariz…..Foi pena o jornalista da A1 não estar atento a esse detalhe.

    MRocha

  4. Parafraseando o meu próprio pastiche do post anterior do Valupi: atribuir algum tipo de estupidez religiosa a quem está num estado de niilismo assassino e suicida é precisamente o modo mais eficaz de chamar à colação o papel das madrassas e rituais holocaustomaníacos, e sensibilizar os respectivos cleros mais responsáveis para a necessidade de combater o fanatismo religioso.

    Acho que isto até o o Munir e a Pimentel são capazes de perceber.

  5. Quando católicos, com o então presidente da Câmara de Lisboa á cabeça, se manifestavam á frente do Nimas contra a exibição de um filme, por eles considerado obsceno, era nessa altura que eu teria gostado de ouvir os Padres Anselmo Alves, falarem contra essas manifestações fanáticas, com este tipo de desenvoltura, e não foi assim há tantos anos.

    Já para não falar no Cartoon do António ou das campanhas contra certos livros do Saramago.

  6. Este é o tipo de acontecimento ideal para entreter papalvos. Não tem nada a ver com atentado à liberdade, nada a ver com religião. Trata-se apenas de mais um ataque terrorista a um alvo com uma elevada carga simbólica, mais nada.
    É óptimo para o governo, pois consegue esconder a sua incompetência, é óptimo para as televisões, pois conseguem preencher os telejornais sem estar a encher chouriços, e é óptimo para os jornais (menos para o correio da manha que esse ainda prefere o Sócrates).

  7. Carlos Sousa, obrigado por explicar aos papalvos que matar gente por ofensas a Maomé não tem nada a ver com atentados à liberdade, nem com religião.

    Já agora, matar gente por ter orelhas grandes teria alguma coisa a ver com tamanhos de orelhas? Ou apenas com o ciclo reprodutório do texugo do Himalaia? Simples curiosidade.

  8. Ó Meireles, eles por acaso disseram que era por ofensas a Maomé, olha se eles tinham dito que era por causa do Sócrates, já viste a prenda que era para o Alex?

  9. Ah bom, já percebo. Matar gente que se fartou de gozar com o profeta das arábias, e matá-la aos gritos de «Alá é Grande» não é por ofensas a Maomé. Deve ser por ofensas ao profeta Joseph Smith da seita mormon que tambem recebe livros angélicos em directo do céu…

  10. “Matar gente que se fartou de gozar com o profeta das arábias”
    Já vi que o teu conceito de liberdade é “gozar” com o profeta das arábias. Se o teu entendimento é esse, só te digo que há pessoas que não gostam de ser “gozadas”.
    Mas quanto a mim foi apenas mais um ataque terrorista, mais nada.

  11. Augusto, Anselmo Borges só há um. Algo me diz que não fazes a mínima ideia de quem ele é. Se queres saber se ele apoiou o Abecassis, tens bom remédio: pergunta-lhe. Eu, sendo ateu e sem lhe ter perguntado, sei que esse padre jamais poderia ter apoiado tal coisa.

    Se queres uns pozinhos sobre o que ele pensa, lê “A dignidade de ser ateu”, no Diário de Notícias de 13 de Dezembro passado.

    Ou “Religião: promessas e ópio?”, no DN de 14 de Maio de 2006.

    Se queres saber a opinião dele sobre Saramago, lê “Saramago e Deus”, no DN de 23 de Outubro de 2010.

    Se queres saber o que ele pensa sobre as caricaturas e a crítica da religião, lê “Religião e ‘cartoons’ – caricaturar caricaturas”, no DN de 12 de Fevereiro de 2006.

    Depois diz-me se achas possível que ele tenha apoiado o Abecassis.

  12. Carlos Sousa: “Matar gente que se fartou de gozar com o profeta das arábias”
    Já vi que o teu conceito de liberdade é “gozar” com o profeta das arábias.

    Um típico non sequitur que mostra que o teu conceito de visão é estrábico.

    Se o teu entendimento é esse, só te digo que há pessoas que não gostam de ser “gozadas”.

    Mais estrabismo (possivelmente mediúnico?). Não se trata de gostar ou não gostar, trata-se de assassinar ou não assassinar. A Cosa Nostra também não gosta de ser gozada. E depois?

    Mas quanto a mim foi apenas mais um ataque terrorista, mais nada.

    Queres tu dizer que provocado assim a modos que pela tômbola do euromilhões, ou já abandonaste por completo o respeito pelo paracleto causal, esse mistério dos mistérios e santo dos santos que as religiões não se cansam de gozar?

  13. Ignatzia, padres há muitos. No passado, alguns acabaram assados na fogueira. Mas houve ateus que o mereciam e morreram na cama, como o Estaline.

  14. Engraçado, essa teoria de que quem não pensa como nós é estrábico.
    Ó Meireles, se parares um bocadinho para pensar, hás-de reconhecer que todo o acto tem uma consequência. Porque é que não vais a um país europeu (Alemanha, por exemplo) e numa daquelas manifestações anti-emigração, levas um cartaz a dizer “ I am gay”, em vez de “ Iam Charlie”. O que é que achas que pode acontecer? Estás num país livre…

  15. e para o oitávio ribeiro e a tânia do correio da manha neste momento que nos querem cortar a liberdade de calúniar, insultar e acusar criminalmente que nos apetece.

  16. Caro Júlio, eu vejo. O Júlio é que usa as cangalhas erradas. Se aprender a pensar e ver por si, sem a carga do seguimento a que se propõe quando expõe, certamente a minha ilação poderá ser outra.

  17. Beltrão tem direito a opinar e a expressar todas as opiniões que tiver, inclusive aos peixes, sendo certo, porém, que estes não o ouviriam.
    Santo Agostinho também não era crente, mas percebeu mais tarde que perdeu tempo na sua «não crença».

  18. uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.
    No caso de o meu ídolo que frequentava a missa, não o impediu de mandar emigrar um bispo da capital do norte.

  19. Engraçado, essa teoria de que quem não pensa como nós é estrábico.

    Não é quem não pensa como nós. É quem diz que viu sem ter visto nada («Já vi que o teu conceito de liberdade é…»). Aplicado à frase anterior, não à discussão.

    Ó Meireles, se parares um bocadinho para pensar, hás-de reconhecer que todo o acto tem uma consequência.

    Esse singular é um bocado inquietante, mas adiante.

    Porque é que não vais a um país europeu (Alemanha, por exemplo) e numa daquelas manifestações anti-emigração, levas um cartaz a dizer “ I am gay”, em vez de “ I am Charlie”. O que é que achas que pode acontecer? Estás num país livre…

    A pergunta é um bocado ilógica, a começar pela noção que me identifico com o Charlie e pela noção ainda mais estrambólica de que a Alemanha (e genericamente qualquer outro país europeu) é um país livre «onde se podem exibir cartazes».

    Bom, experimenta ostentar um cartaz do tamanho de uma caixa de fósforos a dizer «as camâras de gás nunca existiram» numa manifestação seja de quem for, ou mesmo em isolamento, num cantinho recatado da tua rua, para dois gatos vadios, e vais ver o que te acontece se alguém te denunciar.

    Pior ainda, experimenta imolar-te pelo fogo como protesto contra a ignomínia que é a execução e aviltamento de acusados por crimes que não cometeram, bem como a exploração chantagista sem fim à vista do país, e os que cá ficarem vão poder ver que as consequências do teu acto deseperado vão ser uma cortina monolítica de silêncio nos media e a recolha imediata pela polícia, ainda muitos anos virados, nos aniversários desse episódio, das flores que aparecerem no local, bem como a detenção de quem lá as for depositar.

    Olha, experimenta tu, no próximo 25 de Abril em Portugal, levar um cartaz comemorativo do gesto do velhote Reinhold Elstner. Podes ir sossegado porque ninguém vai perceber:

    O 25 de Abril de Reinhold Elstner (75 anos)

    «At about eight o’clock in the evening of Tuesday, April 25, 1995, a retired German chemist walked to a prominent memorial hall in downtown Munich, poured a flammable liquid over himself, and set himself on fire. Reinhold Elstner, 75 years old, took his life in this gruesome, painful fashion to protest against a half century of “defamation” and a “Niagara flood of lies pouring down on our nation.”

    «During the Second World War Elstner served as a Wehrmacht soldier on the eastern front. For several years after the war he was held in the Soviet Union as a forced laborer. Along with three million other Sudeten Germans, his family was driven from its ancient home in the Sudetenland region that is now part of the Czech Republic.

    «On his death the German monthly magazine Nation und Europa commented:

    Elstner was no political fanatic or muddle-headed fool. He suffered neither from loneliness nor incurable illness. After his return home from Soviet camps he led a normal, ordered life. He studied in Munich, married, and, together with his wife (who died a few years ago), raised a son. As a certified chemist, he did not suffer materially.

    «Colleagues and neighbors all appreciated this sprightly pensioner, who was always ready with a friendly witticism and who, in spite of his critical view of certain contemporary developments, never seemed depressed.»

  20. dou por mim a pensar no que seria de nós sem sátira e sem paródia. como nos conseguiríamos ver? dá vontade de ir a correr para os braços do Gregório do Barroco.

  21. Numbejonada: «Santo Agostinho também não era crente, mas percebeu mais tarde que perdeu tempo na sua “não crença”».

    É verdade, Numbejonada, mas depois de perder esse tempo todo tornou-se crente, encontrou-se com o bispo cristão maniqueísta Fausto, na época do édito de 380 do imperador Constantino que tornou o culto cristão oficialmente único e obrigatório em todo o império, e concentrou-se na refutação dos argumentos do bispo, ressaltando dois pontos essenciais de discórdia: o primeiro, porque o Cristo de Fausto tinha uma existência terrena, mas não tinha um nascimento de mulher, i.e. materalizava-se como ser humano directamente a partir da sua forma celeste (como no antigo proto-evangelho de Márcio), e o segundo, que para o dito Fausto, a autoridade da confusa e contraditória literatura evangélica era altamente duvidosa.

    A partir daí, ainda perdeu algum tempo com a humilde filosofia, mas já se pôde dedicar mais a problemas realmente importantes, e sobretudo a subordinar as perguntas às respostas.

  22. Numbejonada, acho que foi para o céu, onde deve estar sentado nalguma pétala da rosa do empíreo dantesco, com algodão nos ouvidos para não ouvir os gritos lá de baixo. Eu também numbejotudo.

  23. ó mairreles, oube, da factu num bêse, mas olha ca muitus savem vem o ca ça paça du ótro ladu, tás a berre. e olha que santo agustinhu parresse istarre muito beie.ebentualemente istarrá avaixo deesses que tu indicass, teie tudo a berre cum a ivólussão du ispiritu, pracebess?

  24. Lá mais acima: «ciclo reprodutório do texugo do Himalaia». Referia-me, é claro, ao ciclo reprodutivo da doninha indo-gangética, e não «reprodutório».

  25. “Podes ir sossegado porque ninguém vai perceber:”
    Ó Meireles, ainda bem que tu percebes tudo. Olha o que seria deste mundo se tu não existisses, ninguém ía perceber nada, principalmente o teu conceito de liberdade.
    É que eu por ver sem ter visto, sou estrábico mas tu que respondes à frase e não à discussão, tens um olho brutal para a liberdade.
    Ó Meireles, por favor…

  26. Mairreles, oube, num precizo limparre as lunetas meue, inquanto houberrrem ignurrantes letradus a tecqualarre, num tanhu da fazerre isforsso, taás a berre? hum, prassebes ó pícaro?

  27. Numbejonada “Podes ir sossegado porque ninguém vai perceber:”
    Ó Meireles, ainda bem que tu percebes tudo. Olha o que seria deste mundo se tu não existisses, ninguém ía perceber nada, principalmente o teu conceito de liberdade.

    Julgo que poderás não ter percebido. Não era «perceber» no sentido de entendimento laborioso de algo complicado, difícil de atingir, que requer algum grau de inteligência capaz de captar subtilezas sofisticadas acima do estritamente necessário à sobrevivência diária,. Era só «perceber» no sentido de ligar a alguma a coisa, de já ter ouvido falar.

    É que eu por ver sem ter visto, sou estrábico

    Não, não, nada disso. Não é por veres sem teres visto, no estilo do 3º olho (interno) do Lobsang Rampa. É por teres julgado que tinhas visto direito com os olhos em bico («Já vi que o teu conceito de liberdade é…»).

    mas tu que respondes à frase e não à discussão, tens um olho brutal para a liberdade.

    Não é «responder à frase em vez da discussão». É só numteresbistonada ali, naquele sítio para onde apontaste («aplicado à frase anterior, não à discussão»).

    Ó Meireles, por favor…

    Esteja à vontade, bom homem. Não é favor nenhum.

  28. Correcção: o comentário anterior era dirigido ao Carlos Sousa e não ao Numbejonada. Com esta coisa do estrabismo de um e do numbernada do outro, acabo por fazer confusão. A minhas sentidas desculpas.

  29. Incréu sem conserto que sou, também há muito que me habituei a respeitar, e apreciar, o padre Anselmo Borges.

    Quanto ao Munir, sipaio dos gatos gordos de Riade e Gidá, tem duas preocupações: primeira, que as moedinhas dos referidos gatos gordos, que financiaram a construção da Mesquita de Lisboa, continuem a cair. Segunda, que os «ataques perpetrados em nome do islão podem ter consequências para a restante comunidade islâmica», como admite ao “i”. Além de que «o “Charlie Hebdo” passou a linha da sua liberdade ao publicar os cartoons de Maomé, diz o líder religioso em Portugal. A reacção tem, por isso, de existir». Este lamentável homenzinho também existe, infelizmente. Ele que se foda, e o Maomé com ele.

  30. Valupi disse: “Uma geração mais nova de muçulmanos, em termos globais, está a dar passos nesse sentido.”

    Vê o que lhes acontece no país dos guardiães da fé e dos lugares santos do condutor de camelos, financiadores da prosélita “tolerância” do Munir:

    http://rt.com/news/221175-saudi-arabia-blogger-flogged/

    Acaso ouves por aí algum clamor de indignação democrática? Um simples espirro, ao menos? E comichão humanitária, vês alguma? Não? Nem eu! Gastaram-na toda com a Crimeia e o Donbass.

  31. Porque é que ao fim de tanto post de comentário ninguém ainda percebeu que não está em causa nem em debate o sentir-se ofendido pelo que quer que seja, que é também um direito de todos, mas sim o direito a ofender sem sofrer represálias com isso?
    Quando chamo filha da puta a um fascista, estou certamente a ofende-lo, é razão para me cortar a cabeça?
    Quando um filha da puta de um PM vêm para a TV dizer que estamos melhor do que alguma vez estivemos, sinto-me ofendido, isso dá-me o direito de lhe ir a casa enfiar um balázio na testa?
    Get a grip people.

  32. Muita gente critica os padres e bispos que se indignaram ou acharam de mau gosto a caricatura do António e compara-os com estes irmãos.
    Não digo que exista falta de bom senso nessa comparação, pois há falta de tudo.

    Obviamente que qualquer pessoa se pode indignar (toda a gente tem o direito a indignar-se) com o humor, com uma caricatura, com uma frase, com uma opinião. Obviamente que qualquer pessoa (onde se incluem os padres) pode achar que a caricatura do António, que a “última Ceia” do Herman ou o sketch do Bruno Nogueira sobre Fátima tenham sido de mau gosto. É uma opinião (pessoalmente apreciei o humor de Herman, achei o cartoon do António um espirro ideológico e o sketch do B. Nogueira tão fraco quem nem com cócegas me sacava uma pequena gargalhada).
    Tal como o Manuel Machado manifestou a sua indignação com o sketch do Gato Fedorento, também os padres podem manifestar publicamente a sua indignação com o cartoon do António. Mas tal como o Manuel Machado não pode sacar de uma AK47 e desatar aos tiros ao Miguel Góis, também nenhum crente o pode fazer em nome dessa mesma crença.

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