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Matar, matar, matar!

Já tínhamos o relógio do Portas. Como uma imbecilidade nunca vem só, agora temos o relógio do Adolfo Luxúria Canibal.

O fundador dos Mão Morta falou sobre o seu novo disco, “Pelo meu relógio são horas de matar”, com que festejam 30 anos de existência, boa idade para ter algum juízo. A intenção, disse, não foi fazer um disco de intervenção à moda dos anos 70, mas adoptar uma “intervenção menos directa, mais poética, que exprima o nosso mal-estar”. Então saiu essa cagada escabrosa, inacreditável, como que a pedir que os processem por incitamento ao assassinato. Como se a letra não bastasse, as imagens do clip são de uma fúria homicida explícita e personalizada. “Poesia” de psicopatas.

Adolfo diz que está a leste. Não esperava nem compreende o burburinho que o disco está a provocar. Diz que em 1998 fizeram um disco “muito mais político e radical”, o “Há já muito tempo que nesta latrina o ar se tornou irrespirável “, que terá sido bem recebido e nunca gerou polémicas. Realmente não se compreende agora este “assédio” dos jornalistas, né?

Notícias de Marte

O país com o sistema de democracia directa mais avançado da Europa disse hoje não, por 74% dos votos, a um salário mínimo de cerca de 3300 euros mensais ou 18 euros/hora. Se tivesse sido aceite, o salário mínimo – proposto pelas organizações sindicais, mas não todas – passaria a ser o mais elevado do mundo. Esse país não tem salário mínimo nacional e vai continuar a não ter. O receio do efeito negativo sobre o nível do emprego foi decisivo. A taxa de desemprego no país está em 3,3 e há dois anos era de 2,9.

O referendo, que só teve 44% de abstenção, abrangeu várias questões. Os votantes disseram não à compra de 22 aviões de combate, que iriam custar o equivalente a 4 ou 5 submarinos daqueles que Portugal comprou à Alemanha. E votaram para que os pedófilos sejam impedidos de trabalhar com crianças. E aprovaram medidas de apoio à medicina de família e aos médicos de família.

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Natal em Maio

Um tribunal animado do mais puro espírito natalício acaba de perdoar aos antigos dirigentes do BCP uma data de crimes de que eram acusados, de os presentear com penas suspensas de dois anos e de lhes diminuir as indemnizações pedidas pelo Ministério Público de 19 milhões de euros para 1,2 milhões (600 mil a Jardim Gonçalves e 300 mil a Filipe Pinhal e António Rodrigues, cada um), soma que terão de entregar a organizações de caridade. O tribunal não decidiu quais as organizações de caridade que vão beneficiar dos 1,2 milhões, mas espera-se que não seja a Associação Caritativa de Auxílio na Velhice aos Banqueiros e Carteiristas.

Os três meliantes acima nomeados foram condenados por manipulação do mercado em co-autoria, mas safaram-se das acusações de terem criado as 17 offshores nas Ilhas Caimão, de terem falsificado contas e escondido prejuízos do BCP com o fim de sustentar o valor das acções do banco. Isto porque o tribunal não conseguiu provar que as 17 offshores do BCP tenham sido constituídas por ordem do BCP, nem que o BCP controlava as 17 offshores do BCP, nem que as 17 offshores do BCP fossem do BCP, nem que os banqueiros do BCP tenham dado ordens para o BCP financiar as operações das ditas 17 offshores do BCP. Para que servem os advogados, né?

Pergunta você e pergunto eu: mas então se os meliantes foram condenados por manipulação do mercado, porque é que não foram condenados pelo resto, que foi o modo concreto pelo qual manipularam o mercado?   Faz lembrar a história do O. J. Simpson, ilibado do homicídio da mulher, mas condenado a pagar a indemnização pelo mesmo homicídio, embora nesse caso fossem dois processos em dois tribunais distintos. Aqui não, é tudo na mesma sala de audiências e no mesmo processo.

O senhor de Beck, ex-vice-presidente do BCP, foi absolvido de todas as acusações, por não ter ficado provado que sabia das operações de compra de acções do BCP por parte das 17 offshores do BCP realizadas com créditos do BCP, embora fosse o mesmo senhor de Beck quem superiormente “filtrava” a atribuição desses créditos. À saída do tribunal o senhor de Beck teve uma frase maravilhosa, descarregando as suas responsabilidades numa certa pessoa – o que, a ser verdade, nos faz pensar que o Banco de Portugal está agora em óptimas mãos. Foi assim:

“A maior parte [dos créditos do BCP às offshores] eram subscritos pelos meus directores, entre os quais, o Dr. Carlos Costa [actual governador do Banco de Portugal] que, durante muito tempo foi o meu director da direcção internacional [no BCP]”.

Aquele primeiro 1.º de Maio em liberdade

Contrariamente ao Vasco Pulido Valente, que não deve nada aos militares de Abril (até acredito), eu e a maioria dos portugueses devemos-lhes a liberdade. O regime opressor de Salazar e Caetano caiu, por obra dos militares do MFA e só deles, no dia 25 de Abril de 1974. Não caiu no 1.º de Maio seguinte, ao contrário do que Mário Soares enfaticamente afirmou – “O regime caiu aqui!” – na tribuna do antigo estádio da FNAT, que nesse dia ganhou o nome que hoje tem. Nem sequer no sentido de aprovação popular à revolução, porque essa foi imediata.

No 1.º de Maio que hoje faz 40 anos começou, no meio da grande festa popular, outra coisa, menos perceptível, que foi uma aliança espúria e felizmente efémera entre o PS, o PCP, parte da extrema-esquerda e um sector dos militares. Foi um enxerto, quiçá inevitável, na árvore da liberdade do 25 de Abril. Iniciou-se um plano inclinado que conduziu ao “processo revolucionário em curso”, ao contragolpe do 11 de Março e ao verão quente de 1975. Pelo meio houve um segundo 1.º de Maio, em que os socialistas, encabeçados por Mário Soares, já foram impedidos de entrar na tribuna do dito estádio e agredidos à paulada por energúmenos comunistas.

O 1.º de Maio já não se festeja no estádio que tem essa data como nome. Ainda bem. Aquilo era tudo um grande mal-entendido.

Se fosse hoje…

Se fosse hoje, que rating dariam a Standard and Poor’s, a Moody’s e a Fitch ao Portugal de Salazar? Décadas de estabilidade governativa, moeda sólida, orçamentos enxutos, contas externas equilibradas, horror à dívida pública… AAA, não é?

E como teriam reagido ao 25 de Abril, se fosse hoje? Aqui vai um cheirinho de como os “mercados” pensam quanto à estabilidade política:

Drawing on the stability requirement, a stable autocracy should afford less protection than a stable democracy but greater stability than an unstable democracy.

Ou seja, do ponto de vista dos mercados, uma democracia instável oferece menos garantias do que uma autocracia estável.

Se fosse hoje, os “mercados” chumbavam o 25 de Abril.

Mistério

Cada vez que ouço a comentadora Manuela Ferreira Leite na TVI24 fico com a mesma sensação invencível: como é que esta mulher aparentemente sensata, serena, politicamente quase (quase!) social-democrata, foi capaz do histerismo, da ultra-demagogia e da bacoquice doentia de 2009?

Lembro-me bem da campanha da “asfixia democrática”. De como seria bom haver “seis meses sem democracia para pôr tudo em ordem”. E daquela boca que “os portugueses não querem ser mortos por Sócrates”.

O que é que se passou, entretanto, com esta dama? Mistério.

Qual é a verdadeira Manuela, a de hoje ou a de 2009? As duas? Nenhuma delas?

Agora ela é oposição, claramente. Malha regularmente no governo, sem dó nem piedade, às vezes até melhor que o líder da oposição. Malha no Barroso, como ainda há pouco ouvi, a propósito da educação no antigamente. Defende que se festeje o 25 de Abril, o que no PSD é mentira. E até explica, e bem, porque se deve festejar.

O que move afinal esta senhora? Diga quem souber.

Portugal não é um país pequeno

Os ministros Crato e Cristas resolveram mandar afixar no dia 2 de Abril em todas as salas de aulas de todas as escolas do país ‒ pontualmente às 10h 30, como na tropa ‒ um mapa intitulado “Portugal é mar”, que mostra que o país poderá vir a ter 40 vezes mais mar do que terra, se for aceite a proposta de alargamento da plataforma continental portuguesa entregue nas Nações Unidas em 2009 pelo governo de Sócrates. A ideia de mandar afixar nas escolas estes 44.780 mapas (!) é a de sensibilizar os “públicos-alvo”, vulgo alunos, para a importância que o mar tem para os portugueses.

Portugal é mar

Estamos perante o acontecimento nacional de maior transcendência desde que Vasco da Gama chegou à Índia e Cavaco foi dormir às Selvagens. Agora só falta fazer qualquer coisa pelo nosso imenso território marítimo, como explorá-lo, estudá-lo, protegê-lo, vigiá-lo e tirar de lá algum proveito. Fica para a próxima.

O mapa em que aparentemente se inspiraram os actuais governantes, da autoria do capitão Henrique Galvão, que mais tarde se zangou com Salazar, era este aqui abaixo, que foi produzido em 1934. Reparem que o capitão se esqueceu de Cabinda, onde só nos anos 60 se descobriu petróleo.

Portugal não é - H Galvão 1934

O bazófias do capitão Galvão pretendia mostrar que o território do Império Colonial Português era superior ao do conjunto da Espanha, França, Inglaterra, Itália e Alemanha. À luz dos acontecimentos posteriores, não se pode dizer que isso nos tenha sido muito útil. Mais valia ter aparecido petróleo em Benavente ou no Algarve.

O arquitecto Paulo Moreira, que tem trabalhado no Porto e em Luanda, teceu em 2011 um comentário muito actual e bem-humorado ao mapa de Galvão, que aqui fica.

Angola não é

Migalhas de história político-bancária

Falsa amnésia, descomunal lata, toneladas de hipocrisia – são estes os três ingredientes que têm sido sistematicamente usados pela direita e pelos banqueiros laranja e da Opus Dei nos sucessivos casos em que tem sido posta em causa a supervisão do Banco de Portugal no tempo de Vítor Constâncio. Como o ex-governador do BP foi em tempos dirigente do PS, a tábua de salvação para essa gente toda foi a tentativa de politização do assunto, que consistiu essencialmente em apontar o fogo a Constâncio e, por tabela, ao governo de Sócrates. Os banqueiros a contas com a justiça tentaram aparecer como vítimas de perseguição política socialista e os dirigentes do PSD julgaram encontrado o meio de desviar a atenção do público do irritante facto de a esmagadora maioria daquela corja de burlões, intrujões e falsificadores ser filiada no partido laranja.

É engraçado comparar as acusações de que uns e outros se serviram para o fim comum de atacar Constâncio, o governo socialista e o PS. Os banqueiros denunciaram a perseguição impiedosa que Constâncio lhes moveu, enquanto os políticos do PSD e do CDS acusaram Constâncio exactamente do contrário, isto é, de não exercer como devia a supervisão dos bancos, perseguindo os prevaricadores. A corja conhece os méritos da divisão do trabalho.  

Todos os banqueiros que foram alvo de processos por parte do BP e da justiça ‒ nomeadamente Oliveira e Costa, Tavares Moreira, Jardim Gonçalves, João Rendeiro, Filipe Pinhal, e fico-me só por estes cabecilhas ‒ se queixaram da maldosa perseguição que o mesmo BP lhes teria movido quando os supervisiounou e processou. Como o dever da justiça, afinal, é exactamente perseguir quem prevarica, os banqueiros acharam por bem subir a parada e passar às acusações de “perseguição política” e “cabala”, que soam muito melhor. Vários deles tiveram a lata de escrever livros a queixar-se das malfeitorias persecutórias do BP e dos tribunais portugueses. Filipe Pinhal, num livro que intitulou, certamente por recurso ao absurdo, O Dever do Bom Nome, foi ao ponto de acusar o governo socialista de, mancomunado com o BES, “assaltar” o BCP. Acusou também Constâncio de lhe ter movido uma cabala política e, cúmulo dos cúmulos, de não ter abafado os escândalos daquele banco, como se fazia nos tempos idóneos do Estado Novo (é preciso ler para crer).

O banqueiro Tavares Moreira, antigo secretário de Estado do Tesouro e das Finanças e governador do BP (!!) no tempo de Cavaco, publicou em 2009 uma arenga intitulada Processo Indecente. Diga-se que este banqueiro laranja foi o primeiro a entrar para a nova classe que está a surgir em Portugal ‒ a classe dos BANQUEIROS PRESCRITOS. Vou contar como foi, porque já ninguém se lembra. Tavares Moreira tinha recorrido para os tribunais das sanções que lhe foram aplicadas em 2003 pelo Banco de Portugal, por ter lesado em mais de 50 milhões os accionistas do Central Banco de Investimento, a que o mesmo Moreira presidiu até à falência. Foi preciso esperar cinco anos pelo parto de uma sentença no Tribunal de Primeira Instância que, em Julho de 2008, confirmou as sanções impostas pelo BP. Moreira recorreu prontamente e, em fins de Fevereiro de 2009, o Tribunal da Relação de Lisboa, invocando minudências processuais, mandou repetir o julgamento, sabendo-se perfeitamente de antemão que já não havia tempo para repetir o julgamento. Como os factos a que o processo se referia tinham acontecido no distante ano de 2001, o processo prescreveu em Junho de 2009. Assim se “fez justiça” em 2009 e assim se continua a fazer em 2014, como ainda há pouco se viu com Jardim Gonçalves. Na fila da prescrição estão agora Rendeiro, Oliveira e Costa e os restantes.

O culpado, obviamente, é Constâncio. E Sócrates, já me esquecia.

Barroso mentiroso

O ainda presidente da Comissão Europeia declarou a um jornalista que nos anos em que foi primeiro-ministro tinha chamado “três vezes o Vítor Constâncio a São Bento para saber se aquilo que se dizia do BPN era verdade”. A declaração surgiu só no final de uma entrevista banal, quando Barroso lançou o isco ao jornalista com esta curiosa lamentação: “Foi pena não me ter perguntado mais nada sobre o BPN”. O jornalista, intrigado, mordeu o anzol e Barroso debitou a mentira que obviamente já trazia preparada. Uma aparente vingançazinha do Cherne, ele poderá explicar porquê.

Acredito firmemente que Constâncio se lembraria muito bem se alguma vez (quanto mais três vezes!) tivesse sido “chamado” por Barroso a S. Bento para esclarecimentos sobre o “que se dizia” do BPN. É evidente que Barroso mente com quantos dentes tem na boca. E não mente para alijar as suas próprias responsabilidades no caso BPN, visto que nunca a servil comunicação social ou a distraída Assembleia da República o importunaram com isso. Mente por razões inconfessáveis, como baixo mentiroso. Ele quer claramente atingir Constâncio, suspeito que por alguma razão pessoal.

Houve uma comissão parlamentar de inquérito sobre o caso BPN, mas Barroso só agora, mais de dez anos depois dos factos alegados, vem lançar esta bocarra infamante sobre um técnico de reconhecida competência e honestidade, que como tal é hoje mesmo defendido na imprensa pelos seus antigos pares do Banco de Portugal. Barroso teve dúzias de oportunidades para prestar esclarecimentos sobre o maior roubo jamais feito em Portugal, mas só agora é que resolveu abrir a boca… respondendo a uma pergunta que o jornalista não lhe tinha feito.

Repare-se que Barroso não explicou o que é “que se dizia” sobre o BPN, nem quem o dizia. É outra conhecida maneira de mentir, por omissão e insinuações veladas. O jornalista deve ter ficado pedrado com a “revelação” e esqueceu-se de lhe fazer as perguntas óbvias. Ou então estava à espera de mais um isco lançado pelo habilidoso condutor da entrevista, do género: “É pena não me perguntar o que é que se dizia sobre o BPN”.  

Mas se Barroso queria tanto saber se o “que se dizia do BPN” era verdade, porque não perguntou ao seu estimado amigo e patrono Cavaco, um financeiro de primeira água? Lembro que nesses mesmos anos Cavaco tornou-se co-detentor do BPN através da aquisição familiar, fora da bolsa, de 250.000 acções da SLN.

E porque não perguntou Barroso a Oliveira e Costa, a Dias Loureiro e a mais uma dúzia de políticos-banqueiros do seu próprio partido?

“A Dança das Horas”, pela Companhia de Bailado de Pequena Instância

Um juiz do Tribunal de Pequena Instância Criminal de Lisboa (TPICL), apropriadamente chamado António da Hora, decidiu declarar extintas, por prescrição dos factos, as nove contra-ordenações que visavam o ex-presidente do BCP, Jardim Gonçalves, num dos três processos que lhe foram interpostos pelo Banco de Portugal. O tempo para este julgamento tinha começado a contar em 2005, altura em que o banqueiro da Opus Dei abandonou a presidência do BCP.

O Banco de Portugal explicou agora, em comunicado, como foi possível ter-se chegado a esta prescrição do processo contra-ordenacional. O julgamento deveria ter arrancado em 2010 (já com 5 aninhos no papo), mas só em 2011 foi possível dar-lhe início. Tinham já decorrido 38 sessões quando, em Outubro de 2011, o nosso juiz do TPICL, António da Hora, apesar do adiantado da Hora, se lembrou de interromper a audiência e anular o julgamento, alegando que teria havido violação do sigilo bancário logo no início do processo.

O Banco de Portugal recorreu então para o Tribunal da Relação, que, passados uns milhares de Horas, devolveu o processo ao juiz António da Hora e determinou o reinício da audiência de julgamento que tinha sido interrompido.

Seguiu-se então uma sucessão de recursos de Jardim Gonçalves para o Tribunal Constitucional, o qual, passados mais uns milhares de Horas, acabou por determinar o regresso do processo à Relação de Lisboa e, depois, ao juiz do TPICL que tinha conduzido o processo desde o início, António da Hora.

Em Outubro de 2013, António da Hora ainda alegou que não lhe competia prosseguir a audiência, dado ter sido transferido para outro tribunal, não se sabe se a seu pedido. Apesar disso, mais de dois meses passados, a Relação determinou que a elaboração da sentença teria mesmo de caber a António da Hora.

Mas, entretanto, as Horas tinham estado sempre a contar, como toda a gente envolvida no processo sabia perfeitamente. Só restava, pois, ao nosso juiz emitir o despacho a declarar a prescrição do processo, o que ele acabou por fazer, na Hora.

O advogado do réu declarou ao Dinheiro Vivo estar muito contente com esta “vitória”, acrescentando que o seu cliente só lamentava que o processo tivesse sido “ganho na secretaria” e não na sala de audiências, pondo as culpas deste facto no Banco de Portugal, que não terá mostrado “capacidade” para o caso ser julgado em tempo útil…

 

Quatro governos sem palavra nem honra

“Os últimos quatro governos prometeram todos que  não aumentavam impostos e quando chegaram ao governo aumentaram esses impostos”, disse ontem o ainda secretário-geral do PS. O país precisa de um Estado “que honre a sua palavra”, acrescentou o honrado Tozé.

Assim colocou um sinal de igual entre os governos de Passos, Sócrates, Santana e Barroso, se é que não estava a referir-se também ao de Guterres. Para o Tozé, o que se passou com os tais quatro governos foi igualzinho. Tudo gente sem palavra que hoje diz uma coisa na oposição e, quando chega ao poleiro, faz outra.

Eu pensava que o menino se tinha abstido de falar de Sócrates. Engano. Não resistiu ao malhanço no anterior governante, pensando que isso o fará subir nas sondagens.

Não é só desleal, é injusto e aldrabão. Qualquer candidato a primeiro-ministro tem que dizer, antes das eleições, se tenciona aumentar os impostos ou não. Se não quiser falar nisso, a oposição e os jornalistas obrigam-no, muito naturalmente. Mas uma coisa é declarar que não quer nem tenciona aumentar os impostos quando não há nuvens negras sobre a economia nacional ou internacional. Se depois lhe cai em cima uma tormenta que ninguém esperava, como a que começou em 2008-2009, o governante não tem outro remédio senão aumentá-los, independentemente do que tencionava fazer. Outra coisa é que o Coelho fez: com o país e a Europa afundados numa crise como não havia memória, prometeu tudo e mais umas botas para saltar para o poder. Ele e o tipo de Belém sabotaram o PEC com o argumento de que os portugueses não aguentavam mais sacrifícios. Logo depois, mal chegado ao poder, multiplicou os “sacrifícios” por cinco.

Para o ainda secretário-geral do PS é tudo igual: tudo gente sem palavra nem honra. Hoje dizem uma coisa, amanhã fazem outra. Com ele, Tozé, tudo será diferente. Nem “promete” nada na oposição nem chegará ao poder.

O diácono volta a atacar

O homem das Neves foi ao cinema, o que é louvável. Eu não ponho infelizmente os pés nessas manjedouras de pipocas há uns anos, contribuindo assim para a desgraça cada vez mais iminente da indústria de exibição de filmes, do que sinceramente me penitencio.

 Depois de ler a crónica de hoje do homem das Neves, porém, decidi que tenho que ir ver O Lobo de Wall Street. Diz o cronista católico que o filme está “muito bem feito”, mas que, deploravelmente, o assunto dele não é a nobre actividade da corretagem, é “o deboche”! O diácono do Herman não diria melhor. Martin Scorsese e o autor do livro em que o seu filme se baseia são acusados de truques “velhacos” e de serem grotescamente caricaturais, por traçarem do sistema financeiro um retrato “escabroso”. Ora, diz o Neves, no sistema financeiro só pode vingar quem tenha “grande profissionalismo, honestidade e rigor”.

 Uma ingratidão revoltante é o que este filme é. Porque o sistema financeiro, diz o Neves, “sustenta não apenas Hollywood, mas os empregos de todos os espectadores”. Pois é, meus amigos, comemos todos à mesa de Wall Street e não sabíamos. Hoje para o almoço há bezerro de ouro com hóstias.

Notícias explicadas

“Cavaco fez votos de que o ano de 2014 seja um ano de inversão de tendências”.

Parece que o estúpido não ouviu o governo dizer que 2013 foi o fim da recessão.

 

“Portugueses já gastaram 543 milhões de euros em raspadinhas este ano.”

Passos pondera tornar a raspadinha obrigatória para os reformados.

 

“Piloto teve intenção clara de despenhar o avião”.

Na caixa negra encontraram-se umas instruções de resgate em alemão.

Declarações reles

Referindo-se aos professores que se recusaram a fazer a prova avaliação de conhecimentos ou a servir de vigilantes dos seus colegas, declarou hoje o ministro Marques Guedes:

“Foi uma péssima imagem que foi passada para a escola pública e espero que os próprios tenham consciência da péssima imagem que transmitiram. Não há nenhum pai que possa ficar sossegado se achar que alguma daquelas pessoas, com as cenas a que assistimos ontem na televisão, possa ser professor de um filho seu”.

Perpassa nesta declaração o desprezo que o governo nutre pelo ensino público, que o bombista da pasta da Educação quer implodir. Mas o propósito reles de desassossegar os pais e de os virar contra os professores descontentes ultrapassa as raias da elementar decência.

Pense-se o que se pensar desta prova de avaliação de conhecimentos  ‒ que pessoalmente considero despropositada, iníqua e humilhante * ‒ um ministro não tem o direito de tecer comentários ofensivos e tabernários sobre o caso.

*  Sei de um director de uma escola secundária, apoiante da política do Crato, que se tivesse que fazer a prova dos contratados, chumbaria de certeza.

Migalhas, já disse!

Uma jornalista do Público, sintonizada com a histeria anti-Putin que grassa em quase todos os meios de comunicação social portugueses, europeus e americanos, diz na edição de hoje do jornal, com direito a destaque e parangonas, que a Rússia investiu 10 milhões de euros em títulos de dívida ucranianos. A senhora considera essa quantia (e a descida do preço do gás russo, acarretando um decréscimo do valor total importado que não contabiliza) como “migalhas” em comparação com os 610 milhões de euros previstos como apoio ao acordo de associação e comércio livre da Ucrânia com a UE.

A quantia certa da compra de títulos ucranianos era 11 mil milhões de euros. Ou seja, a jornalista diminuiu o número para 10 e dividiu-o por mil.  Alertada por algum leitor perto do meio-dia de hoje, a profissional corrigiu o dislate no Público online, colocando o número certo. Todavia, com encarniçada teimosia, não alterou o texto, que lá continua: “O que Ianukovitch trouxe esta terça-feira de Moscovo parecem migalhas ao lado dos 610 milhões de euros previstos pela UE”. Ou seja, 11 mil milhões ‒ além de uma descida muito substancial do preço do gás ‒ parecem à rapariga “migalhas” em comparação com 610 milhões de euros da UE.

Vindas do Putin, serão sempre migalhas, não há nada a fazer.

Rui Tavares não pode ir dar aulas

Rui Tavares tem andado a negar que criou um partido, ou quer criar, para continuar no Parlamento Europeu. Na entrevista de ontem à rádio, Rui Tavares negou-o outra vez, mas disse que não se importava que o acusassem disso. E que, se o seu objectivo fosse continuar no PE, teria três ou quatro maneiras mais simples de o conseguir. Três ou quatro. O Rui é muito requisitado. E afirmou ter sido convidado pelo Assis para as listas do PS, suponho que em 2011, e ter recusado.

Eu estava a ouvi-lo no carro, nas filas de sexta-feira ao fim da tarde. Quando liguei o rádio, com a entrevista já a meio, não sabia quem era o entrevistado. Por isso ouvi-o durante dez minutos com ouvidos particularmente isentos. Quando falou do lugar de deputado ao PE é que percebi quem ele era. Foi curioso, porque eu tinha melhor impressão sobre o Rui Tavares do que aquela que o entrevistado me causou enquanto se manteve anónimo.

A questão de querer ou não querer manter o lugar no PE é irrelevante. Primeiro, se quer ser deputado, terá sempre que conquistar os votos dos eleitores, não lhe basta criar um partido. Segundo, ele fez um bom trabalho no PE, quanto mais não seja pelo excelente “Relatório Tavares” sobre a Hungria, que pôs os fascistóides húngaros todos a chamarem-lhe Tovaris (camarada, em russo). O que me arrefeceu foram as outras coisas que ele disse: conversa anti-partidos (embora o negasse), conversa anti-política (idem), conversa de chacha sobre convergência, conversa de chacha sobre uma “maioria progressista” e uma “alternativa política para o país”, etc.

Rui Tavares saiu do Bloco e não quis alinhar, nem como independente, numa lista do PS. Estava no seu pleníssimo direito. Mas como ele tem muita peninha que a esquerda portuguesa seja o que é, um punhado de partidos irreconciliáveis que parecem combinados para colocar a direita no poder, vai daí teve uma ideia brilhante: juntar mais um partido ao monte. Dado que, como ele sugere, esse partido se situará entre o Bloco e o PS, Rui Tavares propõe-se, pois, caçar votos nesses dois partidos. Ora caçar votos nesses dois partidos (se não também em outros) é algo que, a priori, não se coaduna muito com a beatífica convergência que ele quer produzir na esquerda portuguesa. Em lugar de aproximação, esse partido vai é criar mais clivagens, mais motivos de discórdia partidária, mais reflexos sectários, mais obstáculos artificiais à santa convergência que diz ser o seu grande objectivo. Além do mais, essa almejada aproximação no seio da esquerda – que admito como mera hipótese académica que seria desejável – nunca dependeria só, nem principalmente, do seu novo partido, nem que ultrapassasse em votos o Bloco.

Rui Tavares afirmou na rádio que se a esquerda portuguesa se entendesse, ele retirava-se da política e ia dar aulas. (Retirava-se também do PE, pelos vistos…)  Descontada a presunção de se julgar o Messias da convergência da esquerda, não vejo, é que não estou mesmo a ver, como é que ele contribui para ela criando mais um partido.          

Ninguém o espia, chiça!

Um dia depois de ter sido revelado que os américas interceptaram dezenas de milhões de chamadas espanholas em apenas dois meses, entre 2012 e 2013, o governo do Coelho diz que não há indícios de espionagem da NSA a entidades portuguesas e, melhor ainda, que “não existe cooperação institucional” entre os serviços secretos americanos e os portugueses.

Que se pode concluir?

1. Que o Portugal do Coelho não existe ou ninguém ainda deu por ele.

2. Que o Coelho não interessa nem aos psicopatas da NSA.

3. Que o governo não vê um boi à frente, nem sequer um boi de auscultadores e mini-saia cor-de-rosa a andar de patins e a mostrar o rabo em cima da mesa do conselho de ministros.

4. Que o Coelho mente como um cesto roto.

5. Que quem trata dessas merdas é o Paulo Portas.

6. Que desde as histórias do Relvas o Coelho só comunica por gestos.

7. Que Portugal não tem serviços secretos e os Estados Unidos também não.

8. Que NSA quer dizer Nossa Senhora da Aparecida.

9. Que o SIS e o SIED são duas equipas de futebol de salão ali da Madragoa.

10. Que não há nada para espiar em Portugal, infelizmente está tudo à vista.

Um governo bi-acéfalo

A apresentação do chamado guião da chamada reforma do Estado, documento que se adivinha repleto de lugares-comuns e slogans eleitorais dois anos atrasados, faz pensar que Portas quis apenas dar-se ares de vice-primeiro para satisfazer o seu inesgotável narcisismo. Ou, quiçá, dar a impressão que é ele agora quem manda.

Porque mais nada se viu ou ouviu ali, senão declarações de intenções vagas, pérolas do mais pio ‘wishful thinking’, desafios à oposição para que não o seja e uma única novidade, a ideia funambulesca de vender escolas públicas a grupos de professores. Coisa certamente assoprada pelo Crato, o tal que quer fazer implodir a educação pública em Portugal.

A cereja do bolo oco foi aquela de que o pomposo Guião da Reforma do Estado, com Portas ao guiador, era afinal uma “proposta aberta”, ou seja, um punhado de dicas chutadas displicentemente  para a mesa de café, para estimular a conversa. Teve um ano e tal para parir isto.

Com o governo totalmente remendado, desacreditado e desesperado, em vésperas de apresentar mais um orçamento terrorista, Portas lembrou-se de exibir os seus dotes de menino queque a enganar os malandros. Ele e todo o governo só estão à espera da retoma económica na Europa, mas entretanto é preciso entreter o público.

No final Portas mandou um sacristão à TV dizer que o objectivo é mudar “da lógica dos cortes para a lógica da reforma”. Como se fosse possível mudar seja o que for com mero palavrório estafado.

Tínhamos um governo acéfalo. Agora temos um governo bi-acéfalo.   

Teologia financeira

O cardeal Policarpo, que não sei se tem um conselheiro de finanças ou se lê o Correio da Manhã, disse ontem em Setúbal que Portugal só teria dinheiro para mês e meio se falhasse o acordo com a tróica. Acontece que só as reservas de ouro do Banco de Portugal montam a 382,5 toneladas e valem agora 17 mil milhões de euros, o equivalente a 7,5% da dívida pública.

Receará o cardeal que a quadrilha laranja estafe isso tudo num mês e meio? Bem, já não digo nada…

Será notícia em 2015

A Roménia vai comprar 12 caças F16 a Portugal por 78 milhões de euros. Quer dizer, 186 milhões, mas com um custo prévio de 100 milhões para preparar os aviões e fazer formação. Os 8 milhões que faltam nestas contas e que as notícias não referem devem ser a taxa laranja.

Se for tão bem esgalhado como o negócio dos submarinos, ainda vamos perder dinheiro. E alguns encher a mula, as usual. Daqui a dois anos, veremos.

Já agora, os romenos não quererão levar também o ministro da Defesa, a custo zero?

Ainda há dois submarinos em estado quase novo, com a rodagem feita, faróis de nevoeiro e pintura metalizada. Como brinde oferecemos o gajo que os comprou à Merkel.