Migalhas de história político-bancária

Falsa amnésia, descomunal lata, toneladas de hipocrisia – são estes os três ingredientes que têm sido sistematicamente usados pela direita e pelos banqueiros laranja e da Opus Dei nos sucessivos casos em que tem sido posta em causa a supervisão do Banco de Portugal no tempo de Vítor Constâncio. Como o ex-governador do BP foi em tempos dirigente do PS, a tábua de salvação para essa gente toda foi a tentativa de politização do assunto, que consistiu essencialmente em apontar o fogo a Constâncio e, por tabela, ao governo de Sócrates. Os banqueiros a contas com a justiça tentaram aparecer como vítimas de perseguição política socialista e os dirigentes do PSD julgaram encontrado o meio de desviar a atenção do público do irritante facto de a esmagadora maioria daquela corja de burlões, intrujões e falsificadores ser filiada no partido laranja.

É engraçado comparar as acusações de que uns e outros se serviram para o fim comum de atacar Constâncio, o governo socialista e o PS. Os banqueiros denunciaram a perseguição impiedosa que Constâncio lhes moveu, enquanto os políticos do PSD e do CDS acusaram Constâncio exactamente do contrário, isto é, de não exercer como devia a supervisão dos bancos, perseguindo os prevaricadores. A corja conhece os méritos da divisão do trabalho.  

Todos os banqueiros que foram alvo de processos por parte do BP e da justiça ‒ nomeadamente Oliveira e Costa, Tavares Moreira, Jardim Gonçalves, João Rendeiro, Filipe Pinhal, e fico-me só por estes cabecilhas ‒ se queixaram da maldosa perseguição que o mesmo BP lhes teria movido quando os supervisiounou e processou. Como o dever da justiça, afinal, é exactamente perseguir quem prevarica, os banqueiros acharam por bem subir a parada e passar às acusações de “perseguição política” e “cabala”, que soam muito melhor. Vários deles tiveram a lata de escrever livros a queixar-se das malfeitorias persecutórias do BP e dos tribunais portugueses. Filipe Pinhal, num livro que intitulou, certamente por recurso ao absurdo, O Dever do Bom Nome, foi ao ponto de acusar o governo socialista de, mancomunado com o BES, “assaltar” o BCP. Acusou também Constâncio de lhe ter movido uma cabala política e, cúmulo dos cúmulos, de não ter abafado os escândalos daquele banco, como se fazia nos tempos idóneos do Estado Novo (é preciso ler para crer).

O banqueiro Tavares Moreira, antigo secretário de Estado do Tesouro e das Finanças e governador do BP (!!) no tempo de Cavaco, publicou em 2009 uma arenga intitulada Processo Indecente. Diga-se que este banqueiro laranja foi o primeiro a entrar para a nova classe que está a surgir em Portugal ‒ a classe dos BANQUEIROS PRESCRITOS. Vou contar como foi, porque já ninguém se lembra. Tavares Moreira tinha recorrido para os tribunais das sanções que lhe foram aplicadas em 2003 pelo Banco de Portugal, por ter lesado em mais de 50 milhões os accionistas do Central Banco de Investimento, a que o mesmo Moreira presidiu até à falência. Foi preciso esperar cinco anos pelo parto de uma sentença no Tribunal de Primeira Instância que, em Julho de 2008, confirmou as sanções impostas pelo BP. Moreira recorreu prontamente e, em fins de Fevereiro de 2009, o Tribunal da Relação de Lisboa, invocando minudências processuais, mandou repetir o julgamento, sabendo-se perfeitamente de antemão que já não havia tempo para repetir o julgamento. Como os factos a que o processo se referia tinham acontecido no distante ano de 2001, o processo prescreveu em Junho de 2009. Assim se “fez justiça” em 2009 e assim se continua a fazer em 2014, como ainda há pouco se viu com Jardim Gonçalves. Na fila da prescrição estão agora Rendeiro, Oliveira e Costa e os restantes.

O culpado, obviamente, é Constâncio. E Sócrates, já me esquecia.

4 thoughts on “Migalhas de história político-bancária”

  1. Quem pergunta a esse Tavares Moreira,onde estão as 14 (catorze) toneladas de ouro que esse sério PPD mandou para a Drexel? Quando chegar o momento do ajuste de contas,muitos se vão surpreender com a memória que o povo tem.
    Já agora:como ficou o caso do roubo do tesouro que Portugal expôs em Haia?
    O Otelo,coitadinho,falava no Campo Pequeno. Lides numa hora destas?

  2. vou repetir, o cunstâncio é um nabo e um incompetente, demorou 6 anos a fazer queixa dos bandidos à polícia e só o fez porque não teve outra alternativa. a merda da solidariedade com este idiota inútil serve para minar a credibilidade das decisões governamentais (sócras) e lavar responsabilidades da camarilha cavaco. o berardo merecia uma estátua neste processo.

  3. Interessante é ver como no meio de todo este restolho, as famosas informações de Dias Loureiro ao BdP, prestadas na comissão par(a)lamentar de inquérito, e transmitidas ao então responsável pela área da supervisão – António Marta – foram por este classificadas de mentirosas, tendo-se inclusivamente prestado para uma acareação, e verificarmos que nem a dita comissão, nem a justiça, nem sequer os nossos ‘jornaleiros’ de investigação lhes prestaram atenção alguma…

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