Rui Tavares não pode ir dar aulas

Rui Tavares tem andado a negar que criou um partido, ou quer criar, para continuar no Parlamento Europeu. Na entrevista de ontem à rádio, Rui Tavares negou-o outra vez, mas disse que não se importava que o acusassem disso. E que, se o seu objectivo fosse continuar no PE, teria três ou quatro maneiras mais simples de o conseguir. Três ou quatro. O Rui é muito requisitado. E afirmou ter sido convidado pelo Assis para as listas do PS, suponho que em 2011, e ter recusado.

Eu estava a ouvi-lo no carro, nas filas de sexta-feira ao fim da tarde. Quando liguei o rádio, com a entrevista já a meio, não sabia quem era o entrevistado. Por isso ouvi-o durante dez minutos com ouvidos particularmente isentos. Quando falou do lugar de deputado ao PE é que percebi quem ele era. Foi curioso, porque eu tinha melhor impressão sobre o Rui Tavares do que aquela que o entrevistado me causou enquanto se manteve anónimo.

A questão de querer ou não querer manter o lugar no PE é irrelevante. Primeiro, se quer ser deputado, terá sempre que conquistar os votos dos eleitores, não lhe basta criar um partido. Segundo, ele fez um bom trabalho no PE, quanto mais não seja pelo excelente “Relatório Tavares” sobre a Hungria, que pôs os fascistóides húngaros todos a chamarem-lhe Tovaris (camarada, em russo). O que me arrefeceu foram as outras coisas que ele disse: conversa anti-partidos (embora o negasse), conversa anti-política (idem), conversa de chacha sobre convergência, conversa de chacha sobre uma “maioria progressista” e uma “alternativa política para o país”, etc.

Rui Tavares saiu do Bloco e não quis alinhar, nem como independente, numa lista do PS. Estava no seu pleníssimo direito. Mas como ele tem muita peninha que a esquerda portuguesa seja o que é, um punhado de partidos irreconciliáveis que parecem combinados para colocar a direita no poder, vai daí teve uma ideia brilhante: juntar mais um partido ao monte. Dado que, como ele sugere, esse partido se situará entre o Bloco e o PS, Rui Tavares propõe-se, pois, caçar votos nesses dois partidos. Ora caçar votos nesses dois partidos (se não também em outros) é algo que, a priori, não se coaduna muito com a beatífica convergência que ele quer produzir na esquerda portuguesa. Em lugar de aproximação, esse partido vai é criar mais clivagens, mais motivos de discórdia partidária, mais reflexos sectários, mais obstáculos artificiais à santa convergência que diz ser o seu grande objectivo. Além do mais, essa almejada aproximação no seio da esquerda – que admito como mera hipótese académica que seria desejável – nunca dependeria só, nem principalmente, do seu novo partido, nem que ultrapassasse em votos o Bloco.

Rui Tavares afirmou na rádio que se a esquerda portuguesa se entendesse, ele retirava-se da política e ia dar aulas. (Retirava-se também do PE, pelos vistos…)  Descontada a presunção de se julgar o Messias da convergência da esquerda, não vejo, é que não estou mesmo a ver, como é que ele contribui para ela criando mais um partido.          

5 thoughts on “Rui Tavares não pode ir dar aulas”

  1. ouvi a entrevista na tsf,desde o inicio.gostei de algumas coisas doutras nem tanto. disse que quer ocupar o espaço entre o bloco e o ps e que pretende terminar com este bloqueio na esquerda que só tem favorecido a direita.perante isto ,não tenho duvidas que com uma equipa que os portugueses achem credivel,podem perfeitamente roubar votos ao ps, bloco e ao pcp, com voto de comunistas que estão fartos de um partido que se resume ao protesto e atacar o ps. a minha assinatura terá. o voto poderá ter o de um membro do um agregado de 4 votantes,por uma questão estrategica. há que o forçar a ser mais claro no discurso,para ver se saimos deste impasse que já tem barbas e que cresceram com a entrada do” berloque de esquerda”

  2. Este Tavares (rico) deputado europeu ganha quanto? também me saiu um ganda cromo. Aliás sempre que o oiço nunca lhe ouvi nada de novo e, por isso, não sei o que é que vem acrescentar. Que quer tacho já percebemos agora unir o quê? Unir quem?
    V ai mas é vender xuxas para a porta da Alfredo da Costa antes que ela feche para sempre.

  3. Quem sabe se futuramente teremos condições para um governo de esquerda, com um minimo de pragmatismo? quem sabe? força PL

  4. O Rui Tavares NÂO SAIU DO BLOCO, porque NUNCA foi militante do Bloco.

    Fez parte de uma lista ao Parlamento Europeu como INDEPENDENTE, e nem sequer cumpriu os compromissos que tinha assumido a nivel do Parlamento Europeu, quando se passou para o Grupo dos Verdes.

    Rui Tavares pode, se para isso tiver apoio , criar um partido, mas deixem de o ligar ao Bloco de Esquerda, aliás as adesões até estão a vir da area do PS, vide casos da Madeira e Ana Benavente.

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