Todos os artigos de José Mário Silva

Uma história feliz com um final assim-assim

Uma das mais recentes modas no universo dos vídeos musicais é as editoras utilizarem o potencial da web 2.0 para organizar concursos em que os fãs são desafiados a realizar um teledisco para os seus artistas. Desde que haja massa crítica (isto é, desde que a banda tenha uma assinalável legião de fãs e tenha ao seu dispor os meios para divulgar o concurso pela rede), esta é uma forma bem económica das editoras poderem vir a obter um vídeo enxuto quase de borla, pois uma simples pesquisa no YouTube demonstra que não falta por aí muita gente com talento disposta a pôr as mãos à obra.

Os Incubus (banda que não me faz abanar o coreto) resolveram enveredar por esse caminho e organizar um concurso para a criação de um vídeo para o single «Dig». O vencedor acabou por ser Carlos Oliveira, um jovem designer português residente em Esmoriz, que concebeu uma animação em Flash para a banda norte-americana. O Carlos lá ganhou alguma notoriedade e levou para casa o material informático da praxe, enquanto o guitarista da banda não se continha nos elogios: «O vídeo é todo feito com animação. A banda não aparece, o que é fantástico. O realizador fez um trabalho surpreendente: animou diversas ilustrações do nosso álbum e através delas contou uma história».

O problema nesta história é que a banda acaba de lançar oficialmente uma versão editada do teledisco original, alternando as imagens da animação original com (pasme-se) filmagens absolutamente dispensáveis dos músicos a tocarem o tema em playback. Comparar os dois vídeos acaba por ser um exercício penoso, mas sempre possui a virtude de nos mostrar a diferença entre o trabalho genuíno de um artista e um produto confeccionado pelos ditames (muito contestáveis) do que a banda e a editora devem apodar de «marketing comercial» (como dizia um amigo meu, a carinha laroca de Brandon Boyd sempre deve dar para vender mais uns milhares de discos).

A web 2.0 é uma cena bonita, não é?

As abelhas fazem o Verão

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Agora que o Verão parece ter finalmente chegado, está na altura de ouvir música cheia de vitamina D. Depois de ter contado nos últimos anos com os préstimos de Ethienne Daho, Beta Band, Magnetic Fields, Beck e LCD Soundsystem, é com um certo aparato e uma razoável estupidez que venho aqui anunciar ter já encontrado o meu disquito de Verão para 2007: Octopus dos The Bees (infelizmente, ainda não foi editado em Portugal, mas eu sei que vocês sabem como arranjá-lo rapidamente). O disco é um magnífico anacronismo que faz questão de ignorar tudo aquilo que está na moda em 2007: ele é pop, dub, soul, country, folk e música latina misturada por um brilhante grupo de músicos que alia a técnica a um irresistível sentido de humor. Como não podia deixar de ser, tratei logo de averiguar se já havia algum videoclip para promover o álbum e, meus amigos, que estalada. O single escolhido foi «The Listening Man», uma canção capaz de fazer ressuscitar a saudosa blue-eyed soul da década de 60 (e olhem que estou a falar de mimos com o gabarito dos Rascals ou dos Righteous Brothers). O teledisco foi realizado por Dominic Leung que, para não destoar, resolveu criar um vídeo como já não se faz hoje em dia, apostando nas virtudes de um grande casting e de um belo fio narrativo (o «I don’t know what to say, I’m speechless» é de antologia). Tudo isto é muito parolo, eu sei, mas podem sempre tentar encontrar formas originais de o dizer na caixa de comentários.

Uma versão em alta-resolução (Quick Time) pode ser vista aqui.

I dream a lot but i’m not a very good sleeper

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Após ter realizado um anúncio inacreditavelmente sóbrio para os seus padrões, e enquanto não chegam os seus novos videoclips para os White Stripes e Paul McCartney, Michel Gondry meteu-se numa missão impossível: convencer os mortais que os HP são melhores do que os Macs. Falha esplendorosamente, é verdade, mas sempre ficamos com mais uma obra-prima do rapaz. As justificações são os meios dos fins.

Uma versão com maior qualidade (Quick Time) pode ser descarregada aqui.

In A Beautiful Place Out In The Country

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Se há uma banda que demonstra que a música não é apenas para ser ouvida, essa banda são os Boards of Canada. Senhores de um culto que consegue ser quase tão fascinante como as capacidades evocativas da sua música, não é de estranhar que, apesar dos manos Michael Sandison e Marcus Eoin apenas terem apadrinhado oficialmente a edição de um teledisco, pululem hoje na rede centenas de vídeos amadores feitos por fãs ansiosos por partilharem as suas experiências sinestésicas. Para quem «sofre» dessa condição, ver esses vídeos pode ser uma experiência perturbadora. Embora não venha listada no DSM-IV (a minha mãe acha que devia), a sinestesia é uma capacidade neurológica cujo estímulo pode ser profundamente viciante. Lembro-me que quando descobri que Kandinsky era sinestésico, pensei ter descoberto as razões da grande afinidade que, desde pequeno, sinto com a sua obra. A partir desse dia, procurei ter acesso aos quadros de tudo quanto era pintor sinestésico, mas, com a excepção de David Hockney, jamais voltei a sentir essa morna e inexplicável familiaridade. Voltando aos Boards of Canada, gostaria de partilhar com a malta que tem pachorra para estas coisas uma curta-metragem intitulada In A Beautiful Place Out In The Country que um senhor chamado Neil Krug realizou recentemente a partir da música do duo escocês. Devo dizer que não vi de ânimo leve essa curta-metragem. Primeiro, porque o EP que dá o título ao vídeo é uma das bandas sonoras da minha vida. Depois, porque as duas outras faixas utilizadas («Into the rainbow vein» e «Ataronchronon») são, de longe, os meus dois temas favoritos do último The Campfire Headphase. Não acredito em almas gémeas, mas, que diabos, um gajo dispensa bem este tipo de coincidências.

Podem ver/ouvir/cheirar/tocar/provar esse vídeo aqui.

Post dedicado ao Professor Carlos Reis II

Os Beirut foram a grande sensação da música alternativa de 2006. A edição de Gulag Orkestar valeu a Zach Condon comparações com Conor Oberst (credo), Jeff Mangum (quem lhe dera), Sufjan Stevens (estou a ver, mas não) e Stephin Merritt (ah). Como sou bastante mais palerma nas comparações, as canções de Zach Condon surgem-me com uma bela alternativa à banda sonora de uma das raras aventuras felizes de um realizador europeu nos Estados Unidos: Arizona Dreaming de Kusturica. Os Beirut lançaram há alguns meses um muito recomendável EP intitulado Lon Gisland, cuja faixa de abertura, «Elephant Gun», teve direito a um belíssimo videoclip realizado por Alma Har’el. A primeira vez que vi esta maravilha até me emocionei, carago. Mas a verdade é que sou um sensível da merda.

Apesar dos Willowz terem uma alínea muito relevante no seu curriculum vitae (a de terem feito a Kristen Dunst dançar em trajes menores no belíssimo Eternal Sunshine Of The Spotless Mind de Michel Gondry), a verdade é que me parece que a música dos rapazes apenas conseguirá fazer vibrar a corda sensível a quem passou muitos serões da sua juventude com os amigos a fumar ganzas e a ouvir os os Led Zep, os Rolling Stones ou o Jimi Hendrix aos berros (mas posso estar enganado, né). O mesmo já não se aplica ao vídeo que Ace Norton realizou para «Son of Evil». É verdade que o spleen vem lá retratado como já não o via (lia? caneco, estava tão orgulhoso desta comparação) desde os poemas em prosa de Baudelaire, mas algo me diz que não faltará por aí muita malta que será sensível a esta obra-prima da suprema arte de montagem do celulóide. A primeira vez que vi esta maravilha deu-me logo ganas de ir fumar um charro. Mas também é verdade que sou um drogado da merda.

NOTA: podem ver aqui o bicho em Quick Time.

Dies irae

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O Abrupto até em terramotos é bom. E não em último lugar pelos seus correspondentes. Veja-se o que escrevia, de Faro, Sérgio de Almeida Correia.

A natureza é insondável e não há maior sensação de pequenez, impotência e inutilidade do que aquela que nos atravessa durante um tremor de terra. Só espero que agora não venha aí uma dessas almas da campanha do “Não” dizer que este foi um primeiro sinal da ira divina por causa do resultado do referendo de ontem. Num país em [que] o clero ainda ameaça excomunhões automáticas por delito de opinião tudo é possível, até terramotos por encomenda.

Devo dizer que tive, de imediato, o mesmo pensamento. Não do castigo, mas do clero.

«Onde há amor, não há aborto»

A comentadora que assina Sininho escreveu isto, que importa ‘puxar’ para aqui.

Tenho a sensação que, neste momento, muitos homens sentem um “aperto” ao pensar que, numa situação futura, poderão ver a sua parceira a tomar essa decisão [de interromper a gravidez] de uma forma autónoma, perdendo eles o direito a participarem nessa decisão tão grave e, por fim, irreversível.

No entanto, como mulher e mãe, gostaria de dizer que a maioria das mulheres que aborta, fá-lo por se sentir só, abandonada pelo seu parceiro.

Fá-lo por medo de não conseguir suportar a imensa responsabilidade de colocar neste mundo um ser, sozinha. Fá-lo porque sente essa responsabilidade muito antes do homem, à medida que o seu corpo se transforma. Fá-lo por falta de amor, diálogo, compreensão, apoio… Onde há amor, não há aborto.

Sininho

A propósito de uma estrela global

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Cristiano Ronaldo anda nas bocas do Mundo. Não só porque acaba de festejar 22 anos, mas também, e principalmente, porque segundo o Diário de Notícias do dia 10 de Fevereiro vale 50 milhões de euros, não enquanto pessoa mas enquanto «marca». Fala-se da hipótese de ele sair de Manchester por mais de 85 milhões de euros. Gostaria de convocar aqui, não opiniões sobre se ele, Cristiano Ronaldo é ou não, uma estrela global como foram Best e Cantona e como é ainda David Beckham, mas sim um poema. Nada mais. Jornalista que fui da redacção de O Sporting desde Agosto de 1988 a Novembro de 2006, lembro-me bem de ele chegar da Madeira com apenas 11 anos de idade. Foi recebido no lar do jogador por Leonel Pontes e Paulo Cardoso. Percebia-se logo que ele era diferente, pois só era infantil na classificação etária. Como jogador não era nada infantil. Entrevistei-o muitas vezes no fim dos jogos. Mas vamos ao poema.

Fala de Leonel Pontes a Cristiano Ronaldo

Tu comias uma banana dentro de um pão
E nunca paravas de jogar em toda a Ilha
Nos torneios diários de futebol de salão
Dando às equipas um toque de maravilha

Nas férias eu já não era o teu treinador
Mas o amigo sempre atento e preocupado
Procurando que te alimentasses com rigor
E seguindo os teus passos por todo o lado

Em Lisboa eu era então o teu motorista
E pronto a ir buscar-te a qualquer hora
Tu ligavas mal o avião chegava à pista
E nós ficávamos a falar pela noite fora

Agora tu fazes anúncios de publicidade
Não tens tempo para o treinador antigo
Mas nada destrói a força duma amizade
E nunca deixei de ser muito teu amigo

José do Carmo Francisco

Um «sim» doloroso mas decidido

Se havia um referendo em que eu queria votar, era este. Mas assim não quis o destino, com grande interferência minha, de resto. Não sou cidadão português, a minha opinião não conta aqui.

Eu iria, pois, votar. Por disciplina de cidadão, por ter feitos as contas de ser humano. E iria votar SIM. Com dez, com cem dúvidas pessoais. Mas nenhuma como votante. Eu explico.

Se uma mulher e eu tivéssemos engravidado, eu quereria loucamente ter aquele filho. Sucedeu-me duas vezes (minto, sucedeu uma vez, e vieram logo dois…), portanto sei o que se sente. Contudo, a mulher que comigo tivesse engravidado, mas sem ela o querer, teria a plena liberdade para decidir. Eu poderia beber ranho e lágrimas – mas ela decidiria. Acima de tudo, eu poria, pois, a liberdade dela.

Era esse «sim» pela liberdade da mulher – um «sim» doloroso, mas decidido – que eu daria amanhã.

Poderá alguém dá-lo por mim?

Fernando Venâncio

Duas questões

No Expresso de hoje, em artigo de opinião, e a propósito do referendo de domingo, Miguel Sousa Tavares aponta duas questões que, informa, não viu discutidas. Julgo que importa encará-las.

A primeira é que com tanta veemência no “direito à vida” de um feto que se transformará num filho não desejado, não ocorra pensar no direito oposto: o direito de uma criança não vir ao mundo quando aquilo que a espera é uma vida indigna e miserável. 2006 foi, entre nós, um elucidativo exemplo de casos desses: filhos abusados sexualmente pelos pais ou padrastos à vista das mães, assassinados e escondidos em parte incerta ou mortos à pancada, sem que as instituições do Estado, a sociedade civil e os piedosos militantes do ‘não’ absoluto tenham demonstrado ter a solução que nos convença que não teria sido melhor nem sequer terem chegado a nascer. Não tenho dúvidas de que existem anualmente uns milhares de abortos que não deveriam ter sido feitos. Mas existem também, infelizmente, muito mais pais que nunca o deveriam ter sido.

A outra questão conexa que eu gostaria de ter visto explicada pelos defensores do ‘não’ é a da sua atitude perante o suposto crime, que a mim me parece totalmente hipócrita. Se eles acreditam verdadeiramente que um feto até às dez semanas é um ser humano que, pelo aborto, estará a ser morto, por que é que, em lugar de proporem penas suavíssimas ou até a isenção de pena para este ‘crime’, não propõem antes, e com toda a lógica, o seu agravamento? Como se chama o crime que consiste em tirar voluntariamente a vida a um ser humano? Homicídio, não é?

Miguel Sousa Tavares

A paranóia das Ligas já chegou ao Boavista

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Apareceu há pouco tempo nos jornais desportivos uma curiosa notícia sobre os 2000 golos do Boavista na I Divisão. Nada mais falso. De facto entre 1935 e 1938 realizou-se em Portugal uma prova experimental, um torneio particular intitulado Liga no qual as equipas entravam por convite. Assim aconteceu por exemplo com a Académica que em 1934/35 ficou em último com 3 pontos e voltou a jogar em 1935/36 ficando de novo em último. Voltou a jogar em 1936/37 e em 1937/38.

O campeonato nacional da I Divisão só começou a ser disputado em 1938/39. Até essa época existiu sempre o Campeonato de Portugal. Nos anos das Ligas os vencedores do Campeonato de Portugal foram o Benfica (1934/35), o Sporting (1935/36), o Porto (1936/37) e o Sporting (1937/38). Ora acontece que, como o Benfica ganhou 3 Ligas e o Porto 1 delas, alguns jornalistas tentaram apagar o Campeonato de Portugal desses anos. Ou seja fingem que não existiu Campeonato de Portugal entre 1934 e 1938. Depois escrevem burrices como esta: «O Boavista em 1936 desce de Divisão». Nada mais falso, pois a II Divisão só surgiu em 1938/39 tendo o vencedor desse ano sido o Carcavelinhos.

O que aconteceu de facto ao Boavista em 1936 foi que não foi convidado. No seu lugar apareceu o Académico do Porto. Essa é que é a verdade e como dizia o «outro» a verdade é só uma. Não pode haver duas verdades. Na época de 1935/36 o campeão de Portugal foi o Sporting Clube de Portugal, que venceu o Belenenses por 3-1 na final em 5-7-36, depois de ter vencido o Salgueiros, o Carcavelinhos e o Marítimo.

O Boavista não desceu de divisão em 1936 porque não havia descidas de divisão. Isso só começou a acontecer em 1938/39. Pese embora a boa vontade dos jornalistas sem memória que tentam apagar os Campeonatos de Portugal de 1934 a 1938 como se eles não tivessem existido.

José do Carmo Francisco

Saudação breve a Ana Carolina

Eu te saúdo oh! Ana Carolina, menina pequenina envolta em cor-de-rosa numa alcofa de ternura entre o olhar doce da tua mãe e a força do teu avô, entre o frio da tarde a anunciar hipóteses de chuva e a minha pressa em te conhecer.

Tu não sabes, mas, minutos depois de te ter conhecido, eu comprei uma embalagem de beijinhos e fiz-me à estrada a caminho de Lisboa. Tu não sabes, mas nessa tarde choveu muito. As terras finalmente encharcadas fizeram deslizar essa água fértil para as valetas. Passei pelas Gaeiras, pela Ponte Seca, pela Sancheira Grande, pela Palhoça, pelos Carreiros e pelo Cercal sempre debaixo de uma chuva que nos anunciava e nos trazia de facto a fertilidade.

E tu dormias descansada nos braços do teu avô, dando à tua mãe um pouco de descanso nas rotinas e nas tarefas diárias perante um recém-nascido. Tua não sabes ainda, mas a fertilidade começa pela água e eu já não via chover assim desde 2003. Aquilo a que chamamos «vida» começa com um momento que se define como «o rebentar das águas».

Pequena e indefesa tu, oh! Ana Carolina, não sabes como gostei de te conhecer e de fazer esta viagem entre as Caldas da Rainha, onde ficaste, e Lisboa, onde te escrevo esta saudação breve e emocionada.

Vejo naquela chuva que caiu poucos minutos depois de te conhecer um anúncio de vida e de alegria contra a aridez hostil da seca do ano que passou. As valetas da estrada velha entre as Caldas e Lisboa ficaram cheias de água nessa tarde em que te vi pela primeira vez. E os meus olhos cansados ficaram com uma neblina de alegria. Graças a ti oh! Ana Carolina e à tua alegria cor-de-rosa dentro de uma alcofa de ternura.

Porque o teu rosto envolto em rosa foi uma presença efectiva no espelho do meu velho Citroen, cinzento e cansado. E cheirava a maçãs no pequeno habitáculo entre a pressão da chuva e o negro do asfalto da estrada velha das Caldas até ao Cercal.

José do Carmo Francisco

Aborto, uma polémica de sempre

De Ana Cristina Leonardo recebemos este informado ensaio que, com prazer, pomos à vossa disposição.

Portugal reinicia uma discussão onde parece continuar a haver demasiado «ruído». Ou como alguns temas nos recordam os limites da razão humana.

«Um bebé não é um problema metafísico» foi uma frase que encheu as ruas de Paris, há cerca de 20 anos, durante uma campanha em prol da maternidade. Em Portugal, hoje, a discussão diz respeito ao aborto. Paula Teixeira da Cruz, do Movimento Voto Sim, afirmou que «não estamos a discutir nem a vida nem a morte. Recuso-me a discutir o problema nesses termos» (DN, 20-01-2007). A verdade é que muitos insistem em fazê-lo.

Não sendo os bebés, definitivamente, um problema metafísico, há questões levantadas pelos opositores do Sim que nos deixam na dúvida sobre se não o serão o zigoto, o embrião e o feto. Um dos argumentos mais publicitados pelo Não assenta no seguinte raciocínio: (premissa a) o feto é, em potência, um ser humano; (premissa b) todos os seres humanos, mesmo os seres humanos em potência, têm direito à vida; (conclusão): o feto tem direito à vida.


Ana Cristina Leonardo

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Esta pergunta, e não outra

Peço mil desculpas – e mais uma – ao Público, mas este texto de Rui Tavares, de hoje, tem de ser lido pelo maior número possível de pessoas. E eu já paguei para o ler. Aqui vai.

Uma pergunta directa para uma resposta honesta

A pergunta a que vamos responder no referendo do próximo dia 11 é compreensível para qualquer pessoa que saiba ler e isso é algo que nenhum contorcionismo político ou gramatical poderá mudar. “Concorda com a despenalização…” A despenalização é, evidentemente, a palavra-chave desta pergunta. É talvez surpreendente, mas o referendo do próximo dia 11 não é acerca de quem gosta mais de bebés, tal como não é acerca de quem mais respeita o sofrimento das mulheres. A pergunta do referendo também não é “dê, por obséquio, o seu palpite acerca de quando é que a alma entra no corpo dos seres humanos”, matéria que sempre intrigou os teólogos. Não é acerca de quem gosta de fazer abortos e quem gosta de dar crianças para orfanatos. Por isso e acima de tudo, devo confessar que sofro de cada vez que ouço na televisão jornalistas falarem dos dois campos em debate como o “sim ao aborto” e o “não ao aborto”.

Rui Tavares
«Público» de 3 de Fevereiro de 2007

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O sorriso de Maria José

Na carruagem azul do Metropolitano de Lisboa, na Linha Verde, num fim de manhã cinzento, descubro um inesperado e doce sorriso. É Maria José que vem de um café com a sua irmã Hermínia na Baixa-Chiado e regressa a Arroios com o almoço em perspectiva. As mulheres são as mães dos milagres. Outra coisa não posso eu chamar a este encontro feliz que transformou a soturna carruagem do Metropolitano numa verde e alegre camioneta a caminho de Arganil mas com destino final em São Romão. De súbito era como se estivéssemos no meio de uma camioneta com cabazes de verga no tejadilho. Com pão e queijos, com fruta e vinho, com bolos de mel e azeite, com chouriços e morcelas de arroz. Da voz e do sorriso de Maria José vinha uma alegria do campo no meio de um transporte da cidade. Uma alegria pura e genuína tão pura e tão genuína como os sabores dos cabazes de verga no tejadilho da camioneta que eu imagino só de olhar para o sorriso de Maria José. Continua a ser a mulher-menina sempre pronta a desfazer o tempo, a ignorar a cronologia, a rejeitar as emboscadas do bilhete de identidade. No sorriso de Maria José o tempo não passa e é sempre lugar de alegria. As mulheres são as mães dos milagres. Por isso Maria José transforma o tempo e o espaço de quem a encontra no fim da manhã. Ao lado ninguém percebia, mas eu não me vou esquecer. O sorriso de Maria José veio obliterar – inesperado verbo para um encontro – o fim da minha manhã cinzenta no Metropolitano de Lisboa. O meu bilhete foi obliterado e muito bem obliterado pelo inesperado e doce sorriso de Maria José, na carruagem que lembra o velho autocarro verde com cabazes de verga no tejadilho.

José do Carmo Francisco

Notas para a recordação do meu mestre Assis Pacheco

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Foi em Abril de 1980 que o conheci. Infiro isto da data que anotei no exemplar de Cuidar dos Vivos que ele me arranjou. Era a belíssima edição da Vértice, de 1963, que ele foi desencantar ainda algures. De alfarrabistas sabia ele. Ainda aí se lê: «Natal 1963 / Of. a prima / Maria Fernanda». Ignoro de todo em todo quem você seja, mas obrigado, prima ou primo desta Maria Fernanda, por ter-se desfeito do livrinho.

Encontrava-o sempre de fugida, trabalhando ele na redacção de O Jornal, ali à Avenida da Liberdade. Batia furiosamente as teclas (com um só dedo, efectivamente – não é lenda urbana), mas falando comigo, enquanto avançava no «Bookcionário». Não me lembro de tê-lo visto em outro sítio em Lisboa, de almoçarmos juntos, de sequer tomarmos um café. Digo em Lisboa, já que em 1985 teremos jantado em Roterdão, aquando da Poetry International, em que estiveram mais poetas lusos: Pedro Tamen, Melo e Castro, Armando Silva Carvalho, Casimiro de Brito, para só cuidar dos vivos.

A segunda conversa com o Fernando seria muito proveitosa. Tinha-lhe eu dado a ler umas coisitas minhas. «Parece o Mário-Henrique Leiria», disse. Hoje sei que isso desmerecia grandemente do autor do Gin Tonic, mas o importante foi saber, ali, da sua existência. Eu já por então vivia fora, e longe. Escapara-me essa obra cimeira da nossa ficção, cujo autor, de resto, falecera havia pouco. [Contei esta história em 1995, no JL, já o Fernando tinha morrido. Está em Maquinações e Bons Sentimentos, onde reuni crónicas da altura]. Corri a comprar os dois volumes de Leiria, e passei uma tarde inesquecível à beira-rio, em Belém.

Aprendi com o Fernando alguma escrita. Como aprendi com Cardoso Pires. Falo dos cronistas. Quem os conhecer a ambos sabe a que me refiro. Eles escreveram algum do mais belo português que o século XX produziu. Um português impecável, clássico à prova de todas as gramáticas, mas descontraído, fluido, nervurento, cheio de relevos e malícia.

Nunca falámos disso, o Fernando e eu, como nunca falámos de outras coisas importantes. Mas estou em que ele o sabia. Que lê-lo me era um gozo e uma escola. Foi por mão dele que se publicou no JL, em Julho de 1981, o meu primeiro do que iam ser muitas dezenas de artigos. Era uma longa crítica, educada mas feroz, ao livro Língua Portuguesa de João de Araújo Correia. Ainda hoje não me envergonha, vá lá. Tempos depois, haveria de mandar-me ter com o Mega Ferreira, umas portas abaixo. Redigira eu um textozinho faceto sobre a festança pessoana de 85, que se divisava. O Mega, que eu via por primeira vez de perto, percorreu o texto em três segundos e meio (cálculo por alto), dizendo «Publica-se». É daquelas sortes. E eu ia bem recomendado.

Tinha o Fernando sempre plaquetes, artesanais mas cuidadosíssimas, que oferecia aos amigos. Assim tenho (cito sem ordem nenhuma) Variações em Sousa, A profissão dominante, Nausicaah! e A bela do bairro. Tudo isto está hoje reunido, editado primeiro na Hiena, depois na Asa, agora na Assírio. É uma poesia fundamental. Como foi a de O’Neill, como foi a de Sena.

O Fernando Assis Pacheco faria hoje 70 anos? É capaz de ser verdade.

Actualização

Como o meu referido artigo a pretexto de M.-H. Leiria é de 13 de Setembro de 1995, e o FAP faleceu em Novembro, ele tê-lo-á lido, confio.

A Olivetti de FAP – e mais outras coisas de ver e ler – está no blogue do Francisco José Viegas.

E deitam culpas ao Camões

Fernando Assis Pacheco escreveu (veja-se um soneto de 1981, «Por uma cona assim eu perco o tino», ou um poema às «segóvias» da guerra de África) algumas peças de mimosa pornografia. Um poeta assim inspira. Tal como ele próprio se inspirara em Bocage. Tal como, a este, o inspirara Camões.

O sagazmente camoniano José Luiz Tavares tinha coisas assim na aljava, pois tinha. Publicada uma ali abaixo, encheu-se ele de brios e fez-nos chegar as abas do tríptico. Aqui vão. O pretexto é o aniversário, amanhã, de Assis Pacheco? O difícil era arranjar-se algum melhor.

2.

Minha senhora quero enfiar minha maça
em sua nassa assim acavalitados té sana
iríamos com licença da senhora sua mana
hosanas cantaríamos alegria del’ e nossa

nosso feito seria invejado até na nasa
(poisar assim suave sem nenhuma mossa)
em televisão daria audiência grossa
mesmo se à luz desta pobre chama rasa

noite lassa não haveria que minha
maça é bom vigia té grota escura palmilha
ó cadelinha que em lume fazes este molosso

outros te dirão que no coração fosso
lhes fazes eu dou-te só o ardor que posso
como forçado condenado ao poço

3.

amor é foda? eu fui deste celeste
quimbo soba de porrete e cassetete
intendente deste escuro palacete
por isso não me chameis de cafajeste

esgaçar cricas é arte nobre
é fogo que arde e se vê
mesmo se em porno canal de tevê
ou nesta pobre rima pobre

eu não diria suave milagre
esse deslizar da piça até à cona
mas louvo seu acre odor vinagre
néctar para a língua sabichona

ó minha escarranchada puta bela dona
conta-me essa da ovelha e do padre

JOSÉ LUIZ TAVARES

70 grandes anos

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Fernando Assis Pacheco faria amanhã, 1 de Fevereiro, 70 anos. Para recordá-lo em adequada forma, José Luiz Tavares escreveu (e ofereceu-nos) este soneto muito assis-pachequiano.

Posso mesmo dizer-te que gramei esta
foda? Repetir em linguado (ou filete)
os viris uivos que mais que ardor deleite
foram? Caberia em dicionário a lesta

batida em que jamais a seta erra a fresta?
Mas um torpor me vara a língua em que me
alonguei até ao fosso. Fora outra a fome,
serias só cândida fruta na nascente floresta

de espinhaços. Cem foles, porém, não são
metáfora digna pró árduo sugar do piço
descrever. Se acontecia faltar-lhe o viço

arengava-o num trejeito meretriz — lição
de bem foder me deu esta pura niña
pelos couvais onde a poterna se aninha.

JOSÉ LUIZ TAVARES

P.S. Recomendamos à niña em apreço uma proveitosa leitura de Respiração Assistida (edição de Assírio & Alvim).
fv