Duas questões

No Expresso de hoje, em artigo de opinião, e a propósito do referendo de domingo, Miguel Sousa Tavares aponta duas questões que, informa, não viu discutidas. Julgo que importa encará-las.

A primeira é que com tanta veemência no “direito à vida” de um feto que se transformará num filho não desejado, não ocorra pensar no direito oposto: o direito de uma criança não vir ao mundo quando aquilo que a espera é uma vida indigna e miserável. 2006 foi, entre nós, um elucidativo exemplo de casos desses: filhos abusados sexualmente pelos pais ou padrastos à vista das mães, assassinados e escondidos em parte incerta ou mortos à pancada, sem que as instituições do Estado, a sociedade civil e os piedosos militantes do ‘não’ absoluto tenham demonstrado ter a solução que nos convença que não teria sido melhor nem sequer terem chegado a nascer. Não tenho dúvidas de que existem anualmente uns milhares de abortos que não deveriam ter sido feitos. Mas existem também, infelizmente, muito mais pais que nunca o deveriam ter sido.

A outra questão conexa que eu gostaria de ter visto explicada pelos defensores do ‘não’ é a da sua atitude perante o suposto crime, que a mim me parece totalmente hipócrita. Se eles acreditam verdadeiramente que um feto até às dez semanas é um ser humano que, pelo aborto, estará a ser morto, por que é que, em lugar de proporem penas suavíssimas ou até a isenção de pena para este ‘crime’, não propõem antes, e com toda a lógica, o seu agravamento? Como se chama o crime que consiste em tirar voluntariamente a vida a um ser humano? Homicídio, não é?

Miguel Sousa Tavares

3 thoughts on “Duas questões”

  1. Ora vamos lá:

    – As crianças não são responsáveis pelos pais. Pelos pais responsabilizam-se os próprios e o Estado, obrigatoriamente, e a família ou cidadãos avulsos em condições especiais. Assim, se os pais são maus pais, tal não é superior ao princípio que prefere o nascimento de uma criança nesse ambiente de risco.

    Haveria muito, e tanto, para desenvolver aqui, mas basta uma constatação: se o critério de MST fosse aplicado, biliões de seres humanos não teriam nascido, sendo que alguns desses – tenho a certeza – fazem actualmente parte da minha vida e são pessoas que eu amo ou, simplesmente, me enriquecessem e me dignificam como ser humano.

    Que pensamento mais desvairadamente perigoso, esse, que se substitui ao mistério da existência. É uma tese em potência para a eugenia.

    – Sim, o crime de aborto poderia ser penalizado com 30 anos. Ou com 300. E daí? Que se quer discutir com esse argumento? A relatividade das penas, o arbítrio de qualquer pena?

    É um argumento infantil. E maligno, pois promove a discórdia. As penas são o resultado da aplicação da justiça, pelo que só os homicídios julgados como tal devem ser penalizados (e, mesmo esses, com as mais variadas atenuantes possíveis).

    Uma pergunta para MST: num caso em que uma mulher confesse ter abortado para poder ir de férias no Verão a seguir, ou para evitar quebrar o peito, qual a pena a aplicar?

  2. A primeira questão, com efeito, não foi discutida poia é perfeitamente imbecil. ainda bem que só hoje este cromo publicou tal idiotice.

    A segunda já foi amplamente glosada por meio mundo. E não se refere a nenhuma verdade universal, como nos diz o mestre-escola Valupi, mas apenas à supina incoerência dos defensores da “vida humana desde o primeiro segundo”.

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