Esta pergunta, e não outra

Peço mil desculpas – e mais uma – ao Público, mas este texto de Rui Tavares, de hoje, tem de ser lido pelo maior número possível de pessoas. E eu já paguei para o ler. Aqui vai.

Uma pergunta directa para uma resposta honesta

A pergunta a que vamos responder no referendo do próximo dia 11 é compreensível para qualquer pessoa que saiba ler e isso é algo que nenhum contorcionismo político ou gramatical poderá mudar. “Concorda com a despenalização…” A despenalização é, evidentemente, a palavra-chave desta pergunta. É talvez surpreendente, mas o referendo do próximo dia 11 não é acerca de quem gosta mais de bebés, tal como não é acerca de quem mais respeita o sofrimento das mulheres. A pergunta do referendo também não é “dê, por obséquio, o seu palpite acerca de quando é que a alma entra no corpo dos seres humanos”, matéria que sempre intrigou os teólogos. Não é acerca de quem gosta de fazer abortos e quem gosta de dar crianças para orfanatos. Por isso e acima de tudo, devo confessar que sofro de cada vez que ouço na televisão jornalistas falarem dos dois campos em debate como o “sim ao aborto” e o “não ao aborto”.

Rui Tavares
«Público» de 3 de Fevereiro de 2007


Numa pergunta que começa com aquele “concorda com a despenalização”, os dois votos possíveis não se dividem em pró-aborto e antiaborto, e muito menos pró-escolha e pró-vida. Os que respondem “sim” à pergunta são “pró-despenalização”. Os que respondem “não” são “pró-penalização” (ou “antidespenalização”, o que é forçosamente ser a favor da penalização). Tudo o mais é responder com alhos a uma pergunta sobre bugalhos, e qualquer chefe de redacção deveria saber isso. “… da interrupção voluntária da gravidez…”. Até agora sabemos que a pergunta é sobre despenalizar, mas ainda não falámos de quê. Há quem tenha problemas com a expressão “interrupção voluntária da gravidez” por considerá-la um eufemismo, mas acontece que é a fórmula correcta para designar um aborto não-natural, não-espontâneo.

Mesmo assim, isto não atrapalha o debate: toda a gente parte do princípio de que IVG é aquilo que, em linguagem corrente, genérica e imprecisa, chamamos “aborto”. Os problemas surgem quando nos aproximamos da segunda parte da pergunta. “… se realizada, por opção da mulher”. No mundo real, o que quer dizer esta parte da pergunta? Quer dizer que a concordância com a despenalização da IVG deve ser dada (apenas e só) no pressuposto de que ela seria realizada por opção da mulher. Basicamente, significa que se uma mulher for forçada a abortar por uma terceira pessoa, esse aborto é crime e essa tal terceira pessoa será punida. Quer dizer que, se fulano apanhar uma mulher grávida, a anestesiar e lhe interromper a gravidez, não poderá eximir-se respondendo que “o aborto foi despenalizado”, precisamente porque graças à segunda parte da pergunta o aborto só é despenalizado se for por opção da mulher. No mundo do “não”, porém, esta parte da pergunta é a que causa mais engulhos. Percebe-se porquê. “Por opção da mulher”? A mulher, grávida de poucas semanas, a tomar uma decisão? Sozinha? Deve haver aqui qualquer coisa de errado.

Quando se lhes retorque que não poderia ser por opção de outra pessoa, e se lhes pergunta quem queriam então que fosse, a informação não é computada. Algures, de alguma forma, teria de haver alguém mais habilitado para tomar a decisão. O pai? O médico? O Estado? Então e se qualquer deles achasse que a mulher deveria abortar, contra a vontade desta? Pois é. É precisamente por isso que aquele inquietante “por opção da mulher” ali está. “…nas primeiras dez semanas…”. Aborto livre, grita o “não”! Aqui está a prova, o aborto é livre até às dez semanas! Ora, meus caros amigos, o limite de dez semanas significa precisamente que o aborto não é livre… Ou o facto de só se poder andar até 50 quilómetros por hora dentro de uma localidade significa “velocidade livre”? Não faz muito sentido, não é verdade?

Enquanto digerem esta pergunta, os adeptos do “não” mudam de estratégia. Então o que acontece às 11 semanas? E o que acontece, meus amigos, quando se anda em excesso de velocidade? É-se penalizado, e a penalização vai-se agravando quanto maior for o excesso de velocidade. Isso quer dizer que, nos pressupostos da pergunta, o aborto não é livre. Não era esse o problema? “… em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?” Esta parte final é tão clara que vou poupar palavras. Um “estabelecimento de saúde” quer dizer que não é um estabelecimento desportivo, e “legalmente autorizado” quer dizer que não é ilegal, ou que não é legalmente desautorizado, se tal coisa existisse.

Mas vale a pena notar o que “legalmente autorizado” não quer dizer. Não quer obrigatoriamente dizer do Estado, mas também não quer dizer privado, particular, ou o que seja. Quer dizer apenas que é num estabelecimento de saúde conforme com os procedimentos legais e que foi expressamente autorizado para a operação em causa.Não há melhor barómetro da má-fé neste debate do que dizer que estamos em face de duas perguntas diferentes, ou até duas perguntas de sinal contrário (uma legítima, a outra capciosa), tentando fazer passar a ideia de que a “segunda pergunta” de alguma forma perverte a primeira, rompendo com ela. Não há aqui primeira nem segunda pergunta: há apenas uma pergunta, que se refere a determinadas condições, condições essas que qualificam e restringem o âmbito da questão. Dizer o contrário disto não é só má-fé, é principalmente má-lógica: se a segunda metade da pergunta está contida na primeira, ela não pode ser mais aberta do que a anterior. Como é natural e faz sentido, cada passo da pergunta a fecha um pouco.

Dizer que é “despenalização da IVG” significa que não é despenalização de qualquer outra coisa, dizer que é “por opção da mulher” significa que não é por opção de qualquer outra pessoa, dizer que é até “às dez semanas” significa que não é sem qualquer limite, dizer que é “em estabelecimento de saúde” significa que não é no meio da rua, e dizer que a pergunta se refere a um estabelecimento de saúde “legalmente autorizado” significa que não pode ser no dentista, ou na farmácia, ou no ginásio. Tudo o resto é apenas uma desculpa para não se assumir as responsabilidades do voto. Pessoalmente, não vejo nesta pergunta nada que não me agrade, e vejo muita coisa que me agrada.

É uma pergunta de compromisso, cautelosa, que prevê os limites mais importantes, deixando a definição das políticas (de saúde, de planeamento familiar, judicial, etc.) para os actores e momentos certos. Pode responder-se sim ou não, e eu responderei “sim”. Sou pela despenalização, naquelas condições, como outros são pela penalização mesmo naquelas condições. O que não se pode é invalidar a pergunta, degradando a sua lógica. Trata-se de uma pergunta directa. Como tal, pede apenas uma resposta honesta.

Rui Tavares
«Público» de 3 de Fevereiro de 2007

15 thoughts on “Esta pergunta, e não outra”

  1. Por instantes admiti a hipótese do R.T. ter logrado descortinar alguma novidade argumentativa no mais que revolvido lamaçal do debate. Puro engano. Falso alarme.

  2. São daquelas opiniões em jornais de sábado que deixamos para ler
    quando não há nada de jeito na televisão, na segunda-feira…

    TT

  3. Também acho a pergunta clara e honesta; como não existiu a coragem de perguntar pela liberalização, usa-se a expressão despenalização!

  4. Pedro Oliveira,

    Que quer você dizer?

    1. Que o texto do Público não foi reproduzido na totalidade no Aspirina?

    2. Que o texto do Rui não foi reproduzido na totalidade no Público?

    3. Que a pergunta não foi reproduzida na totalidade no texto do Rui?

    Para um blogueiro, você é basto pítico.

  5. Fernando Venâncio,

    Queria dizer que o artigo não tinha sido trancrito na totalidade, mas verifico que me enganei. Também li em papel, achei que este argumento faz muito sentido (estou ser irónico):
    «Quer dizer que, se fulano apanhar uma mulher grávida, a anestesiar e lhe interromper a gravidez, não poderá eximir-se respondendo que “o aborto foi despenalizado”, precisamente porque graças à segunda parte da pergunta o aborto só é despenalizado se for por opção da mulher.»
    Parece-me que não corremos grandes riscos que se a lei (qual lei?) for aprovada, desatem pr’aí a anestesiar pessoas para as obrigarem a abortar.

  6. Na lei tudo tem de ser precavido ( e muitas vezes não o é), mesmo aquilo que parece menos provável, como será o caso do rapto de uma mulher grávida para a fazer abortar (sabe-se lá por que razões isto poderá acontecer, e não será necessário anestesiá-la pois não? Uns pontapés na barriga fazem o mesmo efeito). Como vê, pedro Oliveira, às vezes a realidade é um bom argumento.
    A simplicidade de compreensão da pergunta e a sua objectividade torna rídiculos aqueles que querem ver fantasmas onde eles não existem. Como são os Não heterodoxos e as abstenções por motivos gramaticais ( vígulas, pontos de interrogação ou redundâncias).

  7. «Uns pontapés na barriga fazem o mesmo efeito). Como vê, pedro Oliveira, às vezes a realidade é um bom argumento.»

    Imaginemos que o Sim ganha e que o aborto até às dez semanas é despanizado. Ainda assim faltará definir a moldura legal para o feto enquanto entidade jurídica, não tem nenhuns direitos até às dez semanas e adquire-os todos com dez semanas e um dia?
    No exemplo apresentado um pontapé na barriga até às dez semanas será agressão e a partir daí será homicídio?

    Nota: Advogo a abstensão activa e informada neste debate, pois existem demasiadas pontas soltas. O debate teve o mérito de as pessoas concordarem em relação à despenalização, altere-se então a lei na assembleia seja qual for o resultado do referendo.

  8. E eu já paguei para o ler.

    Acho bom o argumento.
    É exactamente aquele que eu uso quando copio um CD que alguem me empresta (e que pagou)

  9. Fado,

    Pela mesma ordem de ideias, você – para guardar a boa consciência – não leria um jornal que um amigo seu comprou.

    Tá bem. Eu estou disposto a pagar ao Público (de que de facto tenho uma assinatura online) todos os exemplares que a divulgação deste artigo no Aspirina deixou nas bancas…

    Com desconto, claro, daqueles leitores do Aspirina que acharam que o Público é um jornal que vale a pena comprar amanhã.

  10. A sua análise é claramente facciosa porque atrás da tal pergunta simples que requer uma resposta honesta vêm “attached” uma série de outras perguntas, implicações da resposta num ou noutro sentido.
    Eu acho que responder “sim” à pergunta do referendo é responder “sim” cumulativamente a uma série de outras perguntas. Por exemplo:

    1. Concorda que às 11 semanas as mulheres já podem ir para a cadeia por interromperem uma gravidez?
    2. Concorda que o pai não deva ser tido, nem achado neste assunto, nem sequer em relacionamentos estáveis?
    3. Concorda que não há alternativas à IVG numa mulher com dificuldades económicas e sociais?
    (há mais implicações mas não quero tornar o post longo)

    Quem responder “sim” a estas três perguntas deve votar “sim” no referendo. Os outros deviam parar para pensar e engrossar o movimento cada vez maior dos que não querem ver as mulheres na cadeia, mas não querem passar um cheque em branco aos políticos para fazerem uma lei que não dê primazia à vida explorando e esgotando todas as hipóteses antes de se chegar à alternativa final, porque mais indesejável: o aborto.

  11. SG,

    Acho que você tem razão. A lei proposta continua a criminalizar… e a penalizar o aborto. É a lei ‘possível’ do PS.

    Mas votar SIM é um mal menor. Este Universo não é perfeito.

  12. Complementando uma reflexão já aqui apresentada.

    «Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada,
    por opção da mulher, nas primeiras dez semanas, em estabelecimento de saúde
    legalmente autorizado?».

    A pergunta é tremendamente mentirosa e um ardil intolerável. Repare-se: Concorda com a despenalização ? Se sim, então vá a um hospital autorizado e faça o aborto. Logo, se fizer o aborto num desses hospitais não será penalizada. Uma coisa implica a outra. Se o objectivo fosse somente a despenalização, como os desunestos mentirosos do sim pretendem fazer crer, esta questão não seria referendada, mas apenas objecto de legislação em que se consagraria que seriam despenalizadas as mulheres, com gravidez até às dez semanas, que no decurso da mesma se apresentassem em estabelecimentos de saúde legalmente autorizados, para solicitar acompanhamento e apoio. Ao contrário o que fica implícito, é que estas mulheres vão as esses estabelecimentos apenas com o único fim de abortar. E aqui é que reside o essencial da questão.

    Atrás da tal pergunta simples que requer uma resposta honesta arrasta uma série de outras perguntas, implicações da resposta num ou noutro sentido.
    Responder “sim” à pergunta do referendo é responder “sim” cumulativamente a uma série de outras perguntas. Por exemplo:

    1. Concorda que às 11 semanas as mulheres já podem ir para a cadeia por interromperem uma gravidez?
    2. Concorda que o pai não deva ser tido, nem achado neste assunto, nem sequer em relacionamentos estáveis?
    3. Concorda que não há alternativas à IVG numa mulher com dificuldades económicas e sociais?
    (há mais implicações mas não quero tornar o post longo)

    Quem responder “sim” a estas três perguntas deve votar “sim” no referendo. Os outros deviam parar para pensar e engrossar o movimento cada vez maior dos que não querem ver as mulheres na cadeia, mas não querem passar um cheque em branco aos políticos para fazerem uma lei que não dê primazia à vida, explorando e esgotando todas as hipóteses antes de se chegar à alternativa final, porque mais indesejável: o aborto.

  13. 15 QUESTÕES SOBRE O REFERENDO

    1 – QUAL A QUESTÃO QUANDO SE FALA DE DESPENALlZACÃO DO ABORTO ?
    Em 1984 legalizou-se o aborto em Portugal, mas os prazos dessa lei foram alargados em 1997. Nesse ano tornou-se legal abortar por razões de saúde da mãe até às 12 semanas ou até aos 9 meses no caso de perigo de morte ou grave lesão para esta, até às 24 semanas (6 meses) no caso de deficiência do feto, até às 16 semanas no caso de violação. O referendo de 2007 propõe que a mulher possa abortar até às 10 semanas nos hospitais e em clínicas privadas, com os serviços pagos pelos nossos impostos, sem ter que dar qualquer razão (por não estar satisfeita com o sexo do bebé, por exemplo), e inclusivamente contra vontade do pai da criança. De facto, trata-se duma legalização e liberalização do aborto.

    2 – MAS QUEREM QUE AS MULHERES QUE ABORTAM VÃO PARA A CADEIA ?
    Uma mãe apanhada a roubar pão para um filho com fome não vai presa, precisa é de ajuda, e lá por isso ninguém diz que o roubo deve ser legalizado e feito com a ajuda da polícia. É importante que as pessoas saibam que o aborto é um mal e por isso é punível por lei, mas as penas têm um objectivo pedagógico (colaboração com instituições de solidariedade social, por ex.), sendo a possibilidade de prisão, tal como no caso do crime de condução sem carta, considerado um último recurso. Há mais de 30 anos que nenhuma mulher vai para a cadeia por ter abortado e a ida a Tribunal (já muito rara) evita-se sem ter que mudar a lei. O importante é ver quantas vidas uma lei salva…

    3 – O BEBÉ TEM ALGUMA PROTECCÃO LEGAL ?
    A sociedade deve considerar que todos, e especialmente os mais fracos e desprotegidos, merecem protecção legal; mesmo na lei de 1984 este era o princípio base, no qual se abriam algumas excepções. A liberalização do aborto muda esse princípio base, como se a sociedade portuguesa dissesse que há seres humanos com direitos de vida ou de morte sobre outros seres humanos, admitindo que o mais forte imponha a sua vontade ao mais fraco sem que este tenha quem o defenda.

    4 – DIZEM QUE O FETO AINDA NÃO É PESSOA E POR ISSO NÃO TEM DIREITOS…
    Dentro da mãe não está com certeza um animal ou uma planta, está um ser humano em crescimento com todas as suas caracteristicas em potência desde o momento da concepção. Dependente da mãe, como estará durante muito tempo depois de nascer – pois se deixarmos um bebé no berço sem o alimentarmos ele morre – dependente como muitos doentes ou idosos. Será que por isso estes também não são pessoas, nem têm direitos? É por serem mais frágeis que os bebés, dentro ou fora do seio materno, os doentes e idosos, precisam mais da protecção legal dada por toda a sociedade.
    Em 1857 o Supremo Tribunal dos EUA decretou que os escravos legalmente não eram pessoas e portanto estavam privados de protecção constitucional. Queremos fazer o mesmo aos bebés ainda não nascidos?

    5 – E OS PROBLEMAS DA MULHER ?…
    A suposta solução dos problemas dum ser humano não pode passar pela morte doutro ser humano. Esse é o erro que está na base de todas as guerras e de toda a violência. A mulher em dificuldade precisa de ajuda positiva para a sua situação. A morte do seu filho será um trauma físico e psicológico que em nada resolve os seus problemas de pobreza, desemprego, falta de informação. Para além disso, a proibição protege a mulher que muitas vezes é fortemente pressionada a abortar contra vontade pelo pai da criança e outros familiares, a quem pode responder que recusa fazer algo proibido por lei. Nos estudos que existem, referentes aos países onde o aborto é legal, mais de metade das mulheres que abortaram afirmam que o fizeram obrigadas.

    6 – MAS A MULHER NÃO TEM O DIREITO DE USAR LIVREMENTE O SEU CORPO ?
    A mulher tem o direito de usar o seu corpo, mas não de dispor do corpo de outro. O bebé não é um apêndice que se quer tirar, é um ser humano único e irrepetível, diferente da mãe e do pai, cujo coração já bate aos 18 dias, com actividade cerebral visível num electroencefalograma desde as 6 semanas, com as características físicas e muitas da personalidade futura presentes desde o momento da concepção.

    7 – E QUANTO À QUESTÃO DA SAÚDE DA MULHER QUE ABORTA ?
    Legal ou ilegal, o aborto representa sempre um risco e um traumatismo físico e psicológico para a mulher. Muitas vezes o aborto é-lhe apresentado como a solução dos seus problemas, e só tarde demais ela vem a descobrir o erro dessa opção. O aborto por sucção ou operação em clínicas e hospitais legais, pode provocar cancro de mama, esterilidade, tendência para aborto espontâneo, infecções que podem levar à histerectomia, depressões e até suicídios. O aborto químico (comprimidos), cujos efeitos sobre a mulher são em grande parte desconhecidos, quadruplica o risco da mulher vir a fazer um aborto cirúrgico. O trauma pós-aborto deixa múltiplas sequelas psicológicas durante anos.

    8 – E QUANDO A MULHER NÃO TEM CONDIÇÕES ECONÓMICAS PARA CRIAR UM FILHO ?
    Quem somos nós para decidir quem deve viver ou morrer? Para decidir quem será ou não feliz por causa das condições no momento do nascimento? O destino de cada um é uma surpresa, basta ver quantas estrelas milionárias do futebol vieram de bairros de lata. Deviam ter sido abortadas? Uma mãe com dificuldades precisa de ajuda para criar os seus filhos, abortar mantê-la-á na pobreza e na ignorância, o que só leva ao aborto repetido.

    9 – MAS TEM QUE SE ACABAR COM O ABORTO CLANDESTINO…
    , E verdade, temos mesmo é que acabar com o aborto, que ninguém pense que precisa dele, mas a despenalização não ajuda em nada à sua abolição. Em todos os países, após a despenalização aumentou muito o aborto legal (segundo a Eurostat, no Reino Unido 733%, por ex.), mas não diminuiu o aborto clandestino, pois a lei não combate as suas causas (quem quer esconder a sua gravidez não a quer revelar no hospital, por exemplo). E após os prazos legais regressa tudo à clandestinidade. A diminuição do aborto passa por medidas reais e positivas de combate às suas causas, e não há melhor forma de ajudar os governos a demitirem-se destas prioridades do que despenalizar o aborto. O que importa é ajudar a ver as situações pelo lado positivo e da solidariedade, e não deixar que muitas mulheres se vejam desesperadamente sós em momentos extremamente difíceis das suas vidas. É preciso que elas saibam que há sempre uma saída que não passa pela morte de ninguém, e que há muitas instituições e pessoas de braços abertos para as ajudarem, como as muitas dezenas delas que têm vindo a ser criadas ao longo do país e com o apoio dos vários movimentos “pela vida”.

    10 –A DESPENALlZACÃO SERIA SÓ PARA AS MULHERES ?
    Não. A despenalização abrange todos: médicos, pessoas com fortes interesses económicos nesta prática, pessoas que induzem ao aborto Pessoas que na lei de 1984/97 tinham penas muito mais pesadas que a
    própria mulher. As leis pró-aborto abrem as portas ao grande negócio das Clínicas Privadas Abortivas e aos acordos para o Estado pagar esses serviços, enquanto os verdadeiros doentes esperam anos para serem atendidos sem terem direito a essas regalias.

    11 – MAS A DESPENALlZACÃO NÃO OBRIGA NINGUÉM A ABORTAR…
    Está prrovado que a despenalização torna o aborto mais aceitável na mentalidade geral, e por isso mesmo leva na prática ao aumento do número de abortos. A lei não só reflecte as convicções duma sociedade como também forma essa mesma sociedade. O que é legal passa subtilmente a ser considerado legítimo, quando são duas coisas muito diferentes.

    12 – PORQUE SE PROPÕEM PRAZOS PARA O ABORTO LEGAL ?
    Não há nenhuma razão científica, ética, ou mesmo lógica para qualquer prazo. Ou o bebé é um ser humano e tem sempre direito à vida, ou é considerado uma coisa que faz parte do corpo da mãe e sobre o qual esta tem sempre todos os direitos de propriedade. Os próprios defensores da despenalização sabem que o aborto em si mesmo é um mal e que a lei tem uma função dissuasora necessária, por isso mesmo não pedem a despenalização até aos nove meses. No entanto, é de perguntar porque é que até às 10 semanas mulheres e médicos não fazem mal nenhum, e às 10 semanas e um dia passam a ser todos criminosos.

    13 – SEGUNDO A LEI O PAI DA CRIANÇA TEM ALGUM DIREITO OU DEVER NESTA DECISÃO ?
    Não, o homem fica sem nenhuma responsabilidade, e também sem nenhum direito. A mulher pode abortar o filho dum homem contra a vontade dele. Quando a mulher decide ter a criança a lei exige que o pai, mesmo contra vontade, lhe dê o nome, pensão de alimentos e até acompanhamento pessoal, mas se decide não o ter o pai não pode impedir o aborto – fica excluído na decisão de vida ou de morte do seu próprio filho.

    14 – O ABORTO É UM PROBLEMA RELIGIOSO, OU ABRANGE OS DIREITOS DO HOMEM ?
    O aborto ataca os Direitos do Homem. O direito à Vida é a base de todos os outros. O direito de opção, o direito ao uso livre do corpo, o direito de expressão… todos os direitos de que usufruímos, só os temos porque estamos vivos, porque nos permitiram e permitem viver. Ao tirarmos a vida às nossas crianças estamos também a roubar-lhes todos os outros direitos. A Declaração dos Direitos do Homem explicita que estes são universais, ou seja, são para todos. Porque é que alguns bebés, só porque não são planeados, devem ser excluídos dos direitos de toda a humanidade?

    15 – SER CONTRA A DESPENALlZACÃO NÃO É SER INTOLERANTE E RADICAL ?
    Não, o aborto é que é totalmente intolerante e radical para com a criança, porque a destrói; não lhe dá quaisquer direitos, não lhe dá opção nenhuma. O “Sim” ao aborto tem em conta a posição dum só dos intervenientes, a mulher, pensando erradamente que a ajuda. O “Não” ao aborto obriga-nos a todos, individualmente e como sociedade, a ter em consideração os dois intervenientes. Ao bebé temos de proteger e de permitir viver. À mãe temos de ajudar para que possa criar o seu filho com amor e condições dignas ou para que o possa entregar a quem o faça por ela, através de adopção.

    Cláudio Anaia

  14. 27 boas e verdadeiras razões para se votar sim no referendo do aborto

    Porque é um direito a mais que conquistamos
    Porque é um dever a menos que suportamos
    Porque os países civilizados têm
    Porque é sinal de modernidade
    Porque a Igreja é contra
    Porque é mais uma causa
    Porque o Estado alguma vez é meu amigo
    Porque é o principal problema deste país
    Porque assim está-se mais à vontade
    Porque, pela 1ª vez, se pode ter “desvios” sem impunidade
    Porque temos que compensar as mulheres da violência doméstica
    Porque assim controlo melhor o meu destino
    Porque a barriga é minha e só lá está quem eu deixo
    Porque já andamos nisto há uma porrada de tempo
    Porque, ao menos, dão-me prioridade uma vez na vida.
    Porque eu choro e os fetos não choram
    Porque até fica bem no currículo
    Porque eu não sei o que isso do amor maternal
    Porque me convém
    Porque eu não quero que eles saibam e nem quero assumir
    Porque eu, mãe, quero vingar-me do pai
    Porque é mainstream
    Porque eu quero
    Porque é da esquerda ou da direita moderna (neo-liberal)
    Porque ele não fala nem vê e eu sou mais forte
    Porque é mais um passo
    Porque sim

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