Segunda dissertação para Marieta sobre a foto de 1966
Todos dizem que se lembram mas só alguns recordam. Lembrar não é recordar. Nesse dia nenhuma das oito raparigas tinha a bata vestida. O baile de finalistas estava perto e havia no ar um misto de alegria convocada e amargura em pré-anúncio. Um dos colegas da turma era do Bairro da Mata, tinha acabado de dar o nome e o serviço militar estava próximo. Eu tinha 15 anos mas o problema da guerra colonial para mim já existia. Os primeiros caixões tinham começado a chegar á minha terra natal.
Na tua voz, Marieta, havia a frescura das Águas Férreas e o timbre do vento no Senhor da Boa Morte. Eras sempre a primeira a rasgar o marasmo. Quem sabe se a iniciativa desta fotografia não terá sido tua, juntando na «foto à la minuta» o que a nossa Escola separava fazendo entrar as raparigas pela porta principal e os rapazes pelas traseiras, do lado do CASI. Lembras-te, Marieta, quando puseste a música da Rita Pavone no aniversário da Dra. Gabriela? Se fosse hoje escolherias outras músicas, talvez Ennio Morricone e por exemplo «La resa dei conti», «Addio colonello», «Marcetta» ou «Il vizio di Uccidere». Lembras-te do senhor Nicolau que estava sempre disponível para se deixar fotografar quando não havia professores ali perto? À noite servia à mesa do Zé dos Frangos. Lembras-te do senhor Moreira que dispensava a gente da Mocidade Portuguesa, era só pedir? Lembras-te, Marieta, do último café que bebemos no Bossa Nova, perto do teu primeiro emprego? Lembras-te dos penteados das meninas no baile de finalistas nuns armazéns de trigo? Nada mudou, Marieta, nada mudou, talvez apenas tenham mudado os preços do café no Bossa Nova.



















