Vinte Linhas 500

Dissertação para Marieta sobre uma fotografia de 1966

Ouvi dizer que a Edite morreu mas não pode ser verdade. Nós somos onze e nunca saíamos dessa fotografia tirada entre o coreto e o limite do Jardim. O grupo é formado por três rapazes e oito raparigas. Estou atrás de ti e ao lado do Arnaldo e do Paplicas. Das meninas recordo os rostos mas não todos os nomes. Da direita para a esquerda: irmã do Paplicas, a Fátima Passos, a Edite, a Guilhermina, a Marieta, a Rosa (?), a Salomé e a Ângela. Ao fundo, atrás de mim, um barco areeiro, Gil Conde de seu nome que ainda lá está. Duas das raparigas moram no Bairro do Bom Retiro como eu: a filha da Maria Passos e a Guilhermina da papelaria. Os alunos do Colégio Sousa Martins iam lá comprar pastilhas elásticas. O pai dela tinha uma paciência infinita. Às vezes aparecia o Costa Pereira do Benfica que vinha buscar a sobrinha Elisabeth França. Misturava sempre um ovo no copo da cerveja para espanto de todos nós. As torneiras das casas do Bairro ainda não tinham água e vinha um carro da Câmara para as pessoas encherem as bilhas. Estes três rapazes e estas oito raparigas nunca saíram desta fotografia. As suas aulas eram dispersas pelo Matadouro e pelos Combatentes, os trabalhos manuais erma no barracão ao lado do Tribunal. Recordo os professores Amadeu Lopes Sabino, Maria Branco, Maria Elisa e Terêncio Anahory. O primeiro é hoje um escritor conhecido, o último usou pela primeira vez em 1962 a expressão «caminho longe». As duas professoras ensinaram-me tudo o que eu sei de inglês e de francês. Eles e elas estão ao lado da fotografia mas sempre dentro da memória dessa fotografia. Nós nunca vamos sair dessa fotografia de 1966 a preto e branco. Sim, Marieta, nunca vamos sair.

12 thoughts on “Vinte Linhas 500”

  1. É pena que tanta gente tenha desaparecido da fotografia, José do Carmo Francisco !…
    Veja lá, como as coisas são, comprei hoje um livro para lhe oferecer, é um Boletim Comemorativo do 25º Aniversário da Biblioteca-Museu Municipal Dr. Vidal Baptista, V.F.de Xira, 1972, e tem muita gente lá dentro.
    Oxalá que não desapareça ninguém até segunda-feira e apetece-me pedir-lhe que substitua esta foto ppor essoutra a se refere no seu texto.
    Já agora, um conselho, se me permite. Das meninas nunca se esqueçe a “graça” desde que a gente lhes lembre o rosto. É tão fácil inventar um nome ou uma rima, poeta!
    Jnascimento

  2. Até o Jnascimento te dá na marreca!
    E com um pedido mais do que pertinente: «…apetece-me pedir-lhe que substitua esta foto por essoutra a que se refere no seu texto». Agora diz lá ao teu amigo Jnascimento «que não percebeu nada do texto»! Tás mesmo taralhouco.

  3. Meu Caro J. Nascimento – por razões mais que óbvias não pedi a colocação da foto «em si» mas esta serve muito bem porque o coreto é o mesmo. São questões de pudor que alguns frequentadores do blogespaço não percebem (nem fazem ideia) mas que para mim são importantes. Dito de outra maneira – quando vi publicado pela Editora Padrões Culturais o meu livro «Os guarda-redes morrem ao domingo» não inclui nele o poema para Vítor Damas pois sabia que ele estava doente. Não o quis associar ao título tal como desta vez não quis associar pessoas que não vejo desde 1966 a uma exposição pública inesperada e (talvez) não desejada. Bastaria uma pessoa não querer para se justificar a não publicação da foto.

  4. ‘Tou d ‘acordo com JCF, Carmita, e tenho esperança de que ainda vou ver a fotografia certa.
    E uma banda no coreto que, na minha terra, se chama uma música e eu também.
    Obrigado.
    Jnascimento

  5. Eu também concordo que a foto deveria ser a tal!!!
    Até porque éramos todos tão giros e inocentes.
    Quem é que se vai importar?? Ninguém reclama a privacidade de uma imagem que já não é.
    Já ninguém nos reconhece. Os cabelos embranquecerem, à excepção dos que os pintam, as ancas alargaram e as barrigas cresceram, com filhos lá dentro, há muitos anos ou por outros motivos.
    Aqueles da foto já não são o mesmos de hoje.
    Aqueles são outros que já não existem e não sairam da foto.
    Foram para outras vidas, outras paragens. Percorreram sabe-se lá que caminhos!
    Depois de todos estes anos já não se conseguem juntar as pontas, nem desatar os nós que a vida foi tecendo. O pior mesmo são as feridas que se abriram nos percursos e que nunca sararam. As que sararam deixaram cicatrizes que nos tornaram a todos irreconhecíveis.
    Os daquela foto são anónimos aos olhos de quem a vir, mesmo aqueles que identificaste.
    Obrigada por me dedicares a dissertação. Ser recordada é uma sensação muito boa.
    Daquela pessoa da foto resta a tagarela de voz forte e gargalhada franca e isso acho que ninguém esquecerá.

  6. «…quando vi publicado pela Editora Padrões Culturais o meu livro «Os guarda-redes morrem ao domingo…»! A volta ao texto que este peneiras dá para mostrar a cagança do costume! Nisto, ninguém o bate: aproveita tudo, até as espinhas, e são muitas, ele transforma numa suculenta posta de pescada. Na minha terra diz-se «não condiz a bota com a perdigota», ou «fala-se de alhos e responde em bogalhos». E na tua, Jcfrancisco? Ambas se ajustam ao teu texto, absolutamente desajustado da foto. Todos topam as tuas peneiras. E, já agora, quem és tu para falar em «questões de pudor»?! Pudor, tu?! Só podes estar a brincar, né? Olha, segue mas é o conselho do Virgolino. Numa linha, disse tudo!

    Marieta: uma saudação especial para si. Um texto bonito, o seu!

  7. Ok Marieta os teus argumentos venceram e estou a trabalhar no assunto. Obrigado pelo teu texto à flor da pele, muito bem escrito mas também muito sentido. Belo trabalho de prosa. Se tudo correr bem dentro de pouco tempo será editado novo texto e «aquela» foto.

  8. Ainda VFX… em 66 ainda nem era projecto de ser humano…
    mas o pequeno quisoque/café (se bem me recordo) ainda existia quando frequentava o jardim em 70’s inícios de 80…
    Depois foi a baixo para alargar o espaço…

    muitos dos traços originais do jardim já desapareceram… pena… mas o coreto mantém-se…
    como eu lá gostava de brincar…

  9. Obrigada Carmita!
    Não tenho nada o hábito de andar a escrever em blogues e outras coisas similares, tenho mais para fazer.
    Como a dissertação me foi dedicada agradeço.
    Parece-me haver muito raiva contida. Não a conheço, nem sequer o José do Carmo, que foi muito simplesmente um colega de escola, com quem hei-de beber um café um dia destes.
    Não o vejo desde 1966, o que me deixa curiosa.
    Achei graça ele ter pegado na foto e ter falado de todos nós.
    Mas esta guerra parece-me antiga e que vos faça muito bom proveito.
    Eu cá estou fora!
    FUI!!!!!

  10. Marieta, não te dês a esse trabalho e fazes bem em sair. Isto aqui é um blogue de merda com JCF a auto-bajular-se e a criticar constantemente o Saramago por este se ter esquecido de lhe autografar o livro da flor. Desde aí passa a vida neste triste blogue a dizer mal do Nobel. Depois tudo o que vem para aqui é esquerdalha caviar. Alarmam muito, gritam muito e opinam muito (só não pinam muito) mas na realidade passam a vida a mijar-se e a cagar-se frente aos outros.

  11. É muito curioso que haja uma coincidência aqui da Marieta Sabino e da Clara Sacramento. Ambas me sugerem que «fuja» daqui. A Clara escreveu «foge José!» e a Marieta escreveu «Eu cá estou fora». Mas eu não sou de fugir embora me lembre de fugir à frente do carro azul da PSP estacionado na Boa Hora junto aos tribunais. Mas isso é outra coisa. Aqui vem desaguar muita merda e muito lixo humano mas mal de mim se fosse na conversa que esse lixo humano para aqui traz em forma pseudo-literária de merda. Eles vão voltar para o esgoto de onde vieram e eu continuarei. Se saísse agora significava dar-lhe a ilusão de que eles valiam alguma coisa. E não valem nada; aliás, menos que nada.

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