Vinte Linhas 498

De Almeida Garrett a José Saramago – a maldição da «gralha»

Na página 19 do livro «Viagens na minha terra» de Almeida Garrett, a propósito de se saber já nesse tempo romântico que cada homem rico, abastado, custa centos de infelizes, de miseráveis, surge a seguinte pergunta:

«E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico».

Na página entre as dedicatórias e o arranque do livro «Levantado do chão» de José Saramago com a célebre frase «O que mais há na terra, é paisagem», surge a transcrição desta pergunta de Almeida Garrett mas com um problema que se verifica desde a primeira edição: em vez de «condenar à infâmia» aparece «condenar à infância».

O livro já passou por tantas mãos, tem edições na Editorial Caminho e no Círculo de Leitores e acabo de ver na Livraria Sá da Costa uma edição especial e comemorativa a cargo de José Cruz Santos com trabalhos gráficos qualificados de Armando Alves e nem assim a maldita gralha foi atirada ao chão. Lá continua indiferente a tudo e a todos, ao arrepio do que Almeida Garrett disse por escrito e por extenso e daquilo que José Saramago quis tomar e transcrever de Almeida Garrett como exemplar para o seu «Levantado do chão».

«Infância» não é «infâmia» mas a frase de Almeida Garrett no livro de Saramago ainda não foi emendada tantas edições passadas desde a primeira datada de 1980.

4 thoughts on “Vinte Linhas 498”

  1. Eu até gostava que me condenassem à infância, contanto que fosse a minha…

    Quanto a gralhas, “quem boa cama faz, bem nela se deita”.

    Se não serviram sequer para copiar, não podem servir para muito mais, certo?

    Bom blogue, continuem com o bom trabalho.

    Abraço

    AFN

  2. Não tenha dúvida que sim, Manuel Loureiro. É outra forma esperatalhaça e por demais evidente e descarada do josé do carmo francisco tentar denegrir de novo o nome e a obra de José Saramago. Ninguem, nem as próprias editoras, deram importância à «gralha», pois nem sequer a corrigiram. O mais grave, é a procura (o trabalhão!) desenfreado desta ratazana de biblioteca, na tentativa vã de incutir nos leitores mais incautos,
    algo que macule a obra do Nobel. Repare na frase: «.. José Saramago quis tomar e transcrever de Almeida Garrett…». Ou então, mais grave ainda: «…a frase de Almeida Garrett no livro de Saramago ainda não foi emendada»! Mas não é a «gralha» que «preocupa» este paspalho. Por atalhos sinuosos, onde ele quer realmente chegar é ao ponto de insinuar que Saramago copiou ou plagiou a frase de Garrett! Começa «ingenuamente» na «gralha» para acabar na torpe calúnia. Sobre as questões colocadas pelos comentadores nos posts anteriores, rabinho entre as pernas e o silêncio dos cobardolas.

  3. Tem tanto de trágico como de cómico; e era ainda uma excelente ideia para uma editora lançar o convite a alguns escritores para escreverem contos baseados na história dessa gralha.

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