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Os índios e a coboiada

Que o PSD seja uma tribo de selvagens cortadores de escalpes, não é novidade. Mas a actual situação extravasou, saltou dos limites da reserva para o saloon. Há índios pendurados nos candelabros e a levantar os saiotes às coristas. Neste momento, sabe-se que um contingente de 200 índios da Amazónia invadiu Portugal com o sinistro intento de votar no Pequeno-Chefe-Mendes. Felizmente, o Dava-Tudo-Para-Ser-o-Chefe-Menezes detectou a marosca. Resultado, desses 200 só sobreviveram 22, e nem sequer são amazónicos. Serão índios, sem qualquer dúvida, mas cuidado com a geografia.

Tudo isto se passa num partido que se propõe governar Portugal em 2009. Será do Maringá?

Já agora, ó Santana, e na tua tão reconhecida capacidade de governo, conta aí como é que se faz para que o País ande para a frente

Santana Lopes acha que o País está doido. O País acha que Santana é louco. Mas a tentação hipócrita já levou insuspeitos publicistas para o aplauso ao abandono da entrevista, validando o argumento: o futebol não justifica directos que interrompam políticos. O que se vai, necessariamente, seguir irá espantar o Mundo, pois estes que se emocionam no oportunismo bufão ficam com o ónus da coerência. Terão de denunciar as promiscuidades, as negociatas, as vergonhas que têm marcado os 30 anos de simbiose entre política e futebol. Temo que a casa venha abaixo se lhe faltar a trave-mestra.

Mas isso, falar do que importa, eles não farão. Porque é perigoso. Ou porque também desfrutam de uns confortáveis lugares em camarotes de mordomias várias. Pelo que os políticos continuarão a ir em romaria aos estádios, continuarão alegremente, em sintonia com a alegria do povo, a interromper sessões parlamentares, actividades ministeriais, protocolos de Estado. Não há culpa quando há jogo da bola. Os políticos, afinal, também são humanos, precisam de estar junto dos amigos e dos amigalhaços, a sofrer pelo clube ou pela Nação. Somos todos iguais, todos irmãos, quando se trata de ficar a olhar para uma rapaziada em calções.

O abandono da entrevista, pelo artista Santana Lopes, só admite duas causas: foi por inveja ou por ciúme?

Já só faltam duas semanas

Para mais uma língua se extinguir. O instituto Living Tongues tem como missão tentar salvar as línguas desta tão antiga, e sempre infante, Humanidade. Cada língua é um corpo, com os seus irrepetíveis órgãos do sentir e do pensar. Cada língua, nos seus símbolos, sinais, léxico, sintaxe, gramática, sonoridade, é um mundo no Mundo. Um livro, um museu, uma paisagem, uma voz, um rosto fascinado com o mistério de tudo.

A súcio-democracia

Pela primeira vez na minha vida, e para meu alarme, tive vontade de chorar a ver um debate político. Chorar de pena e desolação. Marques Mendes e Filipe Menezes não existem, são patéticos, mas ainda ninguém os avisou desse pormenor. Felizmente, logo a seguir pude ouvir o Luís Delgado, e fartei-me de rir. É quando os políticos metem dó que os palhaços mais falta nos fazem.

Só magos

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Agosto, mês de tonteiras para preencher o descanso da política, trouxe tonturas que tiraram o sono a muito peixe que anda à babuge, incluindo carapaus de corrida, tubarões que nadam por aí e até um cherne bem pesado. Começou com a notícia relativa aos favores prestados a um Álvaro Dias, o qual orientou o doutoramento de um Pedro Cordeiro, tendo este cedido àquele uma quinta pertencente à Câmara de Lisboa. Essa simpatia foi bem simpática, pois foi a título gratuito e por boca; sem papelada, superfícies sempre aborrecidas de preencher. Embora amigo do seu amigo, Pedro Cordeiro agora alega que a autorização veio de um Moreira Marques; este, e ao tempo, vereador dos Recursos Humanos da CML. Mas o Moreira Marques, cheio de humanidade e de recursos, tem outra história na manga — e ao arregaçá-la fica à vista a palavra mentiroso apontada à fuça do seu antigo director. É neste momento que Santana Lopes atravessa o palco para informar a plateia do seu completo desconhecimento quanto à existência de um ser chamado João Álvaro Dias; ignorância talvez explicada por currículo tão anónimo quanto este: o senhor ser professor da Faculdade de Direito de Coimbra, ter fundado a associação Projuris, e esta ter ocupado instalações camarárias na Quinta do Conde de Arcos desde 2001, ser amigo e mentor do seu director dos Recursos Humanos na Câmara e, pasme-se, ter sido mandatário da lista de Santana Lopes, por Lisboa, nas legislativas em 2005. Questionado sobre o óbvio, Santana, antes de sair pela esquerda rasteira, tira mais um coelho da cartola: António Preto. Seria este Tó a clarificar a coisa, ou a escurecê-la de vez. E a coisa não é para menos, pois, no entretanto, o nosso Álvaro Dias foi afastado da Universidade de Coimbra, está a ser investigado pela PJ e pelo Ministério Público, em vários processos relativos à Projuris, e foi condenado, pelo Tribunal de Cantanhede, a um ano de prisão por envolvimento em falência fraudulenta. (eis uma vivência desembaraçada da actividade política, exemplo para as juventudes partidárias terem mais cuidado, mas não menos gula)

Ora, três dias depois desta comédia do costume ter sido apresentada, cai desembestada a má nova relativa ao Caso Somague. Tudo o que era PSD tremeu. Porque basta ler a notícia para conhecer a acusação: corrupção muito grossa e grosseiramente disfarçada. Para lá da radiografia aos processos pelos quais os partidos se assumem como procuradores dos interesses financeiros que os financiam, o interesse maior está no TAC ao carácter dos intervenientes. Nesse particular, José Luís Arnaut, Marques Mendes e Durão Barroso, obrigados a falar, exibiram olimpicamente a substância que lhes substitui a espinal-medula: arrivismo. Os comentadores de referência e influência não se portaram melhor, abdicando de apontar as impudências tão desajeitadamente à mostra.

Toda a minha gente sabe como o sistema se funda nesta compra dos partidos pelas forças que detém o poder económico. É das empresas que vêm as benesses, as mordomias, a segurança para si e para os seus, o delírio megalómano. Qualquer aprendiz de psicólogo, ou de antropólogo, saberá explicar a inevitabilidade do político se sonhar aprendiz de feiticeiro. Mas a era dos mágicos não dura para sempre, e está cheia de trapaceiros que se deixam apanhar à mão. Ou que se afastam ao pontapé.

Abaixo a reacção!

As justificações de Scolari para o seu comportamento violento são um caso dentro do caso. E caso bem mais grave. Se, quanto à agressão física, o poderíamos cobrir de misericórdia tivesse ele mostrado verdadeiro ou fingido arrependimento, já na sua recusa em assumir a responsabilidade pelo descontrolo não há perdão possível. Neste momento, Scolari já esteve em três ocasiões de comunicação pública — conferência de imprensa, declaração e entrevista na TV —, e em todas apresentou confrangedores e imbecis raciocínios de auto-desculpa.

Independentemente do gosto pela figura, da importância que cada um atribui ao futebol profissional e do que se pense do Governo, quem não o demitir, ou não pedir a sua demissão, é cúmplice de um velhaco pago pelo Estado.

Uivos

Este momento — da selecção nacional de rugby no jogo inaugural do Campeonato do Mundo, contra a Escócia — gerou um fenómeno de comoção generalizado, levando homens de barba rija e mulheres de penugem suave a igual entusiasmo lacrimoso. O que permite concluir pelo estado de privação de alimento simbólico e comunitário que assola a Pátria. Mas não se espere que os actuais políticos compreendam, sequer entendam, o que significam as lágrimas que banham bandeiras e se derramam nas vozes que cantam.

Faltava um?…

Esta é a primeira colaboração de DANIEL DE SÁ no Aspirina. Honra-nos tê-lo connosco. Mas ele proibiu-nos de dar informações sobre o seu (notável, diga-se baixinho) percurso. De modo que é assim. Este escritor acaba de nascer e estreia-se aqui. Também tem graça.

fv

A minha forte vontade de jogar futebol era vencida pelo fraco jeito que eu tinha. Arranjava-se um lugar na equipa, quase sempre à baliza, quando faltava um. Ou para qualquer outra posição que ninguém quisesse ocupar. Só a de avançado-centro e a de defesa-central me estavam proibidas. Até que houve um dia em que os responsáveis pelos trabalhadores do aeroporto se reuniram para despedir pessoal. Decidiram que haveriam de ser dispensados os homens com menos filhos. Meu pai só me tinha a mim e à minha irmã. O seu foi um dos primeiros nomes referidos. Mas o maioral, boa pessoa, lembrou que eu estava a estudar, que meu pai e minha mãe se sacrificavam muito por causa disso, e suspenderam a sentença. Nesse momento entrou alguém a dizer que meu pai tinha morrido.

A minha mãe e a minha irmã voltaram para S. Miguel. E, de repente, dei comigo, labrego da planície de Santana, em casa do Dr. Pessoa, na Vila. Passei lá o resto do ano, como se fosse da família. A nossa casa – tínhamo-la inventado como casa – era toda ao contrário daquela. E, no futebol, aconteceu um pequeno milagre. Porque nenhum dos novos companheiros me conhecia, fui facilmente escolhido. (Ainda hoje é assim. Quem vem de fora é tido como um ás indiscutível.) Eu usava nesse tempo uns sapatos com a biqueira recta. A primeira vez que apontei à baliza, a bola, de borracha, foi direitinha para onde eu olhara. Fiz isso uma segunda vez. E uma terceira. E várias vezes nesse jogo. E nos seguintes. De uma semana para a outra, o candidato ao lugar do “falta um” passou a ser o primeiro nas escolhas. Quando esses sapatos deram o último pontapé, não mais o milagre se repetiu.

Mas, hoje, estou aqui a anunciar que fui seleccionado. Não para o futebol que nunca soube e já não posso, mas para o jogo das palavras. E para uma equipa maravilhosa. Não sei que lugar ocuparei, mas, como todos os maus jogadores, estou disposto a ir para onde ninguém queira.

DANIEL DE SÁ

Vingança cruzada

O tema da vingança é um dos meus favoritos. Tanto a que se serve a frio como a que se serve a ferver. Ao cruzar um autor referido em comentário com um delicioso texto do Fernando — o qual me deixou a sonhar com uma série de pequenas, doces, lancinantes, impiedosas, secretas e compassivas vinganças —, o resultado é a citação que segue:

Se não entendo tudo, devo ficar contente com o que entendo. E entendo que vejo estas árvores e que tenho direito a minha língua e que posso olhar nos olhos dos estranhos e dizer: não me desculpe por não gostar do que você gosta; não me olhe de cima para baixo; não me envergonhe de minha fala; não diga que minha fala é melhor do que a sua; não diga que eu sou bonito, porque sua mulher nunca ia ter casado comigo; não seja bom comigo, não me faça favor; seja homem, filho da puta, e reconheça que não deve comer o que eu não como, em vez de me falar concordâncias e me passar a mão pela cabeça; assim poderei matar você melhor, como você me mata há tantos anos.

João Ubaldo Ribeiro, Vila Real

O espaço que resta

Que resta no tempo que resta? Um espaço. O meu, o teu. O nosso. Por milagre, nosso milagre. Mas nem só de prodígios se alimenta o destino sem começo. É na perda, e na perdição, que se dá o verdadeiro encontro. Quando os outros desaparecem, aqueles que sabíamos eternos, frutos imarcescíveis da alucinação de existir. Ou quando o outro se revela vários, e aquele em quem acreditámos apenas mais um na molhada, viscosa, de outros também reais e por outros amados, só sombras rodopiando no claustro ajardinado de uma alma. Aí nos perdemos de nós, se olhos abrirmos, e dá-se o encontro com o nada que somos. Largamos, surpresos, a mão do pai. E partimos. Outra vez. À procura do espaço que resta, onde nos esperam.

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Por favor, leia-me

A crise dos jornais pagos é assunto encantador. Ninguém, no Mundo, tem uma solução que dê provas de ser capaz de estancar a sangria e todos antecipam a catástrofe; pelo que é com gosto que se constata uma iniciativa portuguesa inteligente, esta.

Agora, como responderão o Expresso e o Sol? Talvez se ofereçam para nos entregar o jornal em casa e ainda nos levem o pequeno-almoço.

Benesse dos deuses

Posto de conversa com Jorge Carvalheira, descobriu Daniel de Sá, num recuncho da sua manjedoira, este manuscrito. Não sendo todos os nossos leitores destros furões (mas alguns são-no), puxámos o valioso texto para aqui. Eis:

SenhorHesta verdade he puvriqua e bem sabida que asy como a sargento que sube de segundo a prymeiro loguo lhe outhorga Deos que elle aja intelligencia de prymeiro, asy a nosos ministros da noso Senhor intendimento de ministro, pollo quall cada acto de mandar podeloham fazer muim bem feito; e mais he sabido que o Regno do Allgarve era asy dito, como se lee em o titolo de nosso glorioso rey – Dom Manuell, per graça de Deos Rey de Portugall e dos Allgarves daquem e dalem maar em Africa senhor de Guinee e da conquista e navegaçam, commercio de Ethiopia, Arabia, Persya e da India; pollo que se vee que o ministro Manuell Pinho tem muyta rezam em mandar que o Algarve seja Allgarve, mas quamto a querer tambem mandar o Regno pera ese tempo em tall nam quero cuidar, e esto contra todallas e quaesquer openiõoes que o governo do doutor Santanna Lopes nam ouve tempo de fazer sandices senão de dizelas, e este governo já vae avendo tempo de dizelas e de fazelas.

O ironista

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Detenhamo-nos um instante nessa quinta-feira, 2 de Junho de 1994. São nove e meia da manhã. Eduardo Prado Coelho barra concentrado o seu croissant, de olhos distraídos no Libê, quando se apercebe do ronronar do fax. Aquilo acontece mais vezes, editores e outros amigos não o deixam meia hora ínscio da imprensa nacional.

Eduardo aguarda pois, e só consumido o folhado se dirige, em passo rotineiro, para a fonte dos escândalos. «Isto é comigo», pensa sempre. Ali, era. Eduardo enterra-se no sofá e percorre o texto. Cresce nele uma doce hilaridade, qualquer coisa lhe diz: «Agora caladinho, porque só os tontos que me detestam se hão-de divertir com isto, e eu sou aqui o último a rir, depois de ter sido o primeiro.» Ora, por incrível que pareça, Eduardo desprezou este momento de graça.

Foi publicado no JL em 1995
e republicado em Maquinações e bons sentimentos em 2002
Leia, abaixo, «O ironista» completo
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