Arquivo da Categoria: VISITAS ANTIGAS:

A serpente cega nos dedos de Fernanda

mulher_veu_preto.jpg

E de súbito descubro o rosto de Fernanda na pequena multidão que cruza o Largo das Duas Igrejas, no Chiado. De um lado a Paroquial da Encarnação; do outro lado a igreja privativa dos italianos de Lisboa. Reparo numa serpente cega num dos dedos de Fernanda e lembro-me, de imediato, da Margarida, a heroína do livro Mau Tempo no Canal, de Vitorino Nemésio.

Margarida no convés de um navio em viagem entre a Horta e Lisboa a conversar com um dos Serpas que fez parte, em tempos, da melhor linha de backs do Fayal Sport Clube nas tardes sem fim do Relvão da Doca. O mítico lugar onde os pioneiros do futebol na Ilha lançaram as raízes do Sporting Clube da Horta, do Fayal Sport Clube e do Angústias. Este lugar onde nos encontramos e eu admiro a beleza da serpente cega num dos dedos de Fernanda, era ponto de passagem de João Garcia quando o jovem aspirante regressava do quartel na Junqueira e, depois de ouvir os últimos boatos nos vários cafés do Rossio, subia por aqui até à Rua da Rosa, ao quarto alugado por cima da capelista, sempre à espera de uma carta de Margarida.

Agora reparo que hoje é dia internacional da mulher. Não sei porquê, mas a verdade é que dos dedos de Fernanda sai um suave cheiro a massa sovada. Afinal já não estamos no Largo das Duas Igrejas, e sim dentro de um romance. Fernanda está com pressa, olha para o relógio e explica que tem que ir abrir as portas da sua livraria.

Eu tenho as minhas obrigações e os meus compromissos. Mas o cheirinho da massa sovada permanece como se tivéssemos os dois, eu e Fernanda, saído do lugar determinado do encontro no Largo das Duas igrejas e entrado logo a seguir nas páginas dum romance inesquecível.

José do Carmo Francisco

Pensamentos para o serão

Escrito a meio de ler «Como se morre, Adolfo?», poema de Jorge de Sena, de 1972, à memória de Casais Monteiro:

Um dia acordarás
dizendo esta coisa
«olha, estás vivo».
Será uma coisa nova
que nunca ninguém te havia dito.
E assim todas as manhãs.
Chuva ou sol.

Até ao dia em que
estupidamente
ninguém houver para
dizer-to.

8 de Março de 2007

Um idioma fascinante, mas sem comentários

Neste atribulado mundo em que somos forçados a viver, parece que já não há tempo para nada. O escritor Ruben A., que conheci através de José Palla e Carmo (meu colega no Banco Português do Atlântico), tinha sobre este assunto no final dos anos 60 uma expressão muito curiosa: «Uma pressa para coisa nenhuma». Parece que foi o caso, desta vez.

Então um texto do Fernando Venâncio, uma prosa bem aparelhada sobre um livro recente de Ivo Castro e intitulada «Um idioma fascinante», passou aqui pelo blog sem um comentário, uma observação, um desdém sequer. Nada. No momento em que escrevo, acabo de confirmar o facto lendo de novo o texto datado de 25 de Fevereiro próximo passado. Não sendo eu filólogo nem especialista nesta matéria, não posso (mesmo assim) deixar de assinalar o caso. Trata-se de uma injustiça. E como acabei de ler o livro D. Duarte, de Luís Miguel Duarte (uma edição do Círculo de Leitores), acabam por conjugar-se as coisas.

Afinal o D. Duarte não foi só o primeiro rei que sofreu de uma depressão nervosa e que sobre o mesmo assunto escreveu. Ele foi também o introdutor na língua portuguesa de alguns latinismos que se tornaram, depois dele, vocábulos aceites por todos: fugitivo, evidente, sensível, abstinência, infinito, circunspecto e intelectual. Além do mais, este rei melancólico analisou os campos semânticos de diversas palavras, como previsto, percebido, avisado, saudade, desprazer, pesar, aborrecimento, nojo ou tristeza.

Já sei que me poderão dizer «Quem anda à chuva molha-se», significando que quem publica um texto num blog sujeita-se a não ter comentários. Mas se nós não nos interessarmos pela nossa língua, então corremos o risco de a perder. E depois começamos a falar inglês como nos computadores? Será esse o futuro? Bem eu gostaria que não fosse.

José do Carmo Francisco

Desportos juvenis

MetroAmsterdam.jpg

No metro de Amsterdão, não há sequer meia hora. Quatro adolescentes portuguesas e um moço de catorze anos (cálculo meu), sul-americano esse, vão sentados uns bancos adiante.

Grande galhofa. As miúdas ensinam português ao rapaz. «Vai-te foder!» E o miúdo, bom aluno, dá sonoridade latina à frase, audível em toda a carruagem. Ele ainda pergunta: «Pero qué quiere decir?» Mas as companheiras são cruéis. E passam à Lição 2: «És paneleiro?» E o rapaz, com graciosa pronúncia, vai repetindo.

Ninguém na carruagem os entende. O português é aqui língua desconhecida – embora procurada por alguns escolhidos, ao fim e ao cabo o meu ganha-pão.

Que fazer? Isto é: há que fazer alguma coisa? Estorvar a inocência? Infundir vergonha a duas ou três gerações da minha? Eu teria feito sucesso, sim, passando por perto deles e dizendo ao moço – que não me entenderia – «Giras, as miúdas, hã?» Podia fazê-lo, tenho cara para isso. Mas não fiz. Chegava a minha estação – e eu abandonei aquela aula, selvagem, da mais bela língua do mundo.

Saí eu, sem sucesso. Seguiram elas, sem vergonha.

«A Terceira Atlântida», de Fernanda Durão Ferreira

monte_brasil.jpg

Em www.aterceiratlantida.com, a Editora Contraponto publica o mais recente trabalho de Fernanda Durão Ferreira, jornalista, investigadora e sócia da Sociedade Portuguesa de Geografia – secção de História.

A conexão da Ilha Terceira com a Antiguidade poderia parecer forçada, mas não é. Já Vitorino Nemésio tinha escrito: «A Geografia, para nós, vale tanto como a História.» A partir de textos de Platão que descrevem a Atlântida e de uma observação no terreno sobre algumas tradições terceirenses, a autora chega a uma conclusão: «as culturas tradicionais transformam-se; não desaparecem». As touradas à corda, a justiça da noite, o sangue cozido nas festas tradicionais terceirenses, o azul, o açor e o próprio nome da Ilha são aqui estudados à luz da relação entre os textos de Platão e a realidade real da Ilha Terceira.

O nome da Ilha pode ter uma relação directa com as ideias de Joaquim de Fiore para quem a idade do Pai compreendia o tempo desde a criação do Mundo até Moisés e a idade do Filho era o tempo desde Moisés até Jesus Cristo. A terceira idade, idade do Espírito Santo, era uma resposta à corrupção que grassava na hierarquia da Igreja do século XIII. Outra hipótese é o nome Terceira derivar na verdade de outro facto: depois das primeiras (Cabo Verde) e das segundas (Madeira e Porto Santo) as ilhas açorianas seriam as Ilhas Terceiras.

Um aspecto igualmente curioso e fascinante neste texto é a semelhança claríssima entre o mapa da Ilha de S. Miguel e a parte inferior do chamado painel do Arcebispo pintado por Nuno Gonçalves. O Infante D. Pedro, filho de D. João I, era o donatário de S. Miguel e as cordas estão dobradas numa semelhança quase total com o recorte da Ilha de S. Miguel. Na Net ou em papel, um texto fascinante.

José do Carmo Francisco

CUIDADO, MENINOS!

Língua e História Pátria (Primeiro Ano do Ensino Liceal – 1952)

PARA VIVER EM PAZ

Ouve, vê e cala,
e viverás vida folgada:
tua porta cerrarás,
teu vizinho louvarás;
quando podes não farás,
quando sabes não dirás,
quando vês não julgarás,
quando ouves não crerás,
se quizeres viver em paz.
Seis coisas sempre vê,
quando falares, te mando:
de quem falas, onde e quê,
e a quem, como e quando.

D. JOÃO MANUEL (Séc. XV)

HISTORIOGRAFIA SEM FIOS

E de que História é que me estão a falar? Da escrita, da cantada ou da que passa de pais para filhos pela via oral entre dois bafos de aguardente de aliviar empachos? Ou será da que tem a ver com eventos reais, da bem limpa? Não me queiram meter em trabalhos. Reparem que só aconteceu há dois dias, mas já temos várias versões em papeis magros e amarelos do 25 de Abril turbulento e os versos do Zeca não nos ajudam nada ao seu deslindamento.

A Pavorosa, ou o crer na sua existência, não anula a História – confirma-a, dá-lhe o paladar da dúvida intrigueira e incita-nos a provocar rubores aos que a torcem e desfocam. A História das verdades verdadinhas, das Assírias aos Tuntankamuns (denial is not a river in Egypt, have you noticed that?) e das Grécias às Revoluções Francesas e das Comunas aos comunas, poderá existir como narração, sim senhor e sim senhoras, mas só comprimida ou espalmada direitinha em tubinhos de pepino ressequido sob as ruinas de qualquer convento ou igreja algures na Europa tricolor continental e insular.

Esses edificios e templos, aliás, continuam a apontar aos nossos narizes chatos ou de cavalete restos de representações pagãs em pedra que põem em questão não só a idade de Deus organizado na terra, na versão de Pai, de Filho, ou Espirito Santo, como também a veracidade das hagiografias cristãs pintadas à mão em scriptoria com távolas com tampos de carvalhos gretados e as relações comerciais dos seus tementes com os judeus, manos nossos na alegria do impingir nessa única e verdadeira Idade Média do conhecimento da história natural das pessoas e dos grupos. Da Revolução Francesa para cá, sabe-se um pouco mais e por isso mostramos o sorriso de termos menos medo de estarmos enganados sobre as garantias que os nossos avoengos nos deixaram em legado.E nos últimos 150 anos fomos aprendendo só aquilo que decidimos não esquecer, mas ainda não sabemos muito bem quem, de facto, inventou a rádio. Foi um russo fiquem sabendo que não foi um italiano.Não, perdão, foi um homem muito humano e cristão que acreditava nas inúmeras viagens do espírito para cá e para lá entre a vida e a morte e céus mal definidos.

Temos todos a Razão, aquela que procede e ao mesmo tempo se insurge contra a anarquia bem ordenada do corpo pensante. Quando a malbaratamos ou subutilizamos, temos os delírios purificadores automáticos, excreções dos sons a mais que nos empurraram pelos ouvidos dentro durante tantos anos – aliás, esta excreção é o estado de comunicação simultâneamente forçado e desejado. Nem se quer outro porque não há alternativa nem remédio se nos queremos alimpar. São inseparáveis, a máquina e o serviço que a mantém.

Aqui para nós, pessoalmente, direi que no delírio delirante não há dolor, per se. Só taquilalia febril e desordenada. Normalmente, se é a História que me anda a moer por dentro, cerro os olhos sem chonar, e logo vejo que Nápoles se chama Troia e que Bizâncio é o irmão mais velho de Britanicus, uma boa diferença de idades mas germanos, notai bem e ainda bem; que equus e aqueus não se podem confundir, mas são quase iguais na comparação dos detalhes da escrita passada a limpo. Cavalo na água, ou cavalo marinho, que estupidez sem pés nem cabeça, mesmo em estado de delírio! E que suor quente! Vou já enxotar os súcubos maus e acordar da modorra.

Espero sem impaciência. E quando o quente na testa se esfria um pouco mais, miro cuidadosamente a representação pintural duma cena velha com Sócrates e outros muchachos sem guitarras andaluzas e reparo que quase todos vestem anacronisticamente na moda imposta nos tempos da Rainha Dona Isabel das rosas e do milagre. Estranhas pinceladas ainda sem perspectivas revolucionárias…a enganarem-me, as putas, putas, putas. Decido por fim sacudir-me para ver se me livro dessas visões distorcidas do tempo e do terrivel mau gosto na boca e vou à janela e vejo bichas e bichas enormes, paralelas, de milhões à espera de serem vacinados contra um virus inventado no mês anterior para pôr cobro ao desemprego no serviço de saúde. E depois apareces tu, maldita, a contrariar-me. Só me resta chorar desconsolado: afinal não há ninguém na Torre do Tombo para me apertar a mão e chorar que concorda comigo.

TT

O’Neill, Pacheco e os universos paralelos

O-Neill.jpg

Lida a extraordinária Biografia Literária que Maria Antónia Pereira escreveu de Alexandre O’Neill, fica-me uma pergunta, que cada vez mais se avoluma: como é que, entre as dezenas de indivíduos com que o poeta contactou na Lisboa dos anos 40 a 80, entre o Chiado e o Príncipe Real, não aparece Luiz Pacheco?

No livro, o nome de Pacheco figura uma vez, e, convenhamos, nada tem aí a ver com O’Neill. Lê-se que Pacheco teria descoberto que, em certa capa de revista que O’Neill editara, aparecia não uma mulher mas um travesti. Isto constitui, em termos de relações pessoais, zero vírgula zero.

Ora, como compreender que, durante decénios de vida, num circuito cultural fechado, numa época e zona de Lisboa que, na nossa memória cultural, os evocam a ambos, com amigos íntimos comuns (como Cesariny), com círculos literários comuns (como o surrealismo), sendo os dois notórios espalha-brasas e enfants terribles, nunca O’Neill e Pacheco tivessem criado um mínimo de relacionamento, suficiente para, numa biografia de mais de 300 páginas, os encontrarmos algures juntos – nuns copos, num café, numa tasca?

Revezavam-se eles, porventura, em perfeita coreografia, no espalhar das brasas, sem nunca se encontrarem, mas divertindo o mesmo público? Terão eles alguma vez escrito um sobre o outro – ou também no próprio papel se ignoraram, se evitaram? Se existem universos paralelos, e nós neles, será este um exemplo, e logo espectacular?

Quem souber diga. Ardo de curiosidade. Talvez assim este Mundo se entenda um tudo-nada melhor.

Um scotch para Maria José

DB09669.jpg

O whisky que me ofereceste hoje como resgate de um Natal sem ponto de encontro possível na rigidez dos horários e na força opressiva das convenções quotidianas tem doze anos. Ostenta mesmo um insuspeito certificado emitido pela destilaria que o fabricou, afirmando que foi mesmo há doze anos que se juntou o malte à mais pura das águas das terras altas da Escócia.

Mas nós não temos doze anos. Temos muitos mais. Eu comecei a querer conhecer-te em 1976, o mesmo é dizer trinta anos, quando chegaste de um banco comercial mais pequeno que o nosso e ficaste admirada com a vivacidade dos nossos plenários. No teu pequeno banco no largo do Rossio, toda a gente se conhecia e não havia plenários com votações de braço no ar.

Junto dois cubos de gelo ao whisky no qual fizeste para mim uma festa de Natal em Abril e bebo de puro prazer à tua saúde. E também à nossa. Ter saúde é tu continuares a ser aquela mulher-menina que corava com as piadas mais desenvoltas e picantes de um grupo numeroso e habituado a trabalhar num grande espaço e em quantidades industriais.

Tu vinhas até nós, simples, paciente e discreta, mas na verdade chegavas de uma espécie de oficina de artesanato. Nós éramos muitos e, nessa escala, éramos uma grande fábrica. O teu banco era pequenino; o nosso era um colosso.

Ter saúde é eu poder continuar a ver nos teus olhos a frescura da água que desce da tua terra até ao leito do afluente mais bonito do Rio Mondego. Ter saúde é eu poder continuar a cantar em prosa e em verso o som da tua voz que multiplica os sons da terra. Ou do teu rosto onde há sementeiras de luz e de ternura. Hoje, como em 1976, continuas a ser uma mulher-menina a corar perante uma piada de escritório.

José do Carmo Francisco

COGUMELOS E CAPICOMUN ISMO

No meu post de há dias, A Pavorosa, aludi a um “boato”, já velho e enfeitador de dezenas de livros e milhares de sites na Internet, segundo o qual os americanos teriam oferecido aos russos, de bandeja, o segredito da nojentíssima invenção chamada bomba atómica. O Fernando estranhou, não sei se no gozo. Vou arrancar mais umas quantas pétalas a essa flor da intriga. Desculpem-me os que sofrem de alergias.

Do ponto de vista conspiracionista, que é o meu, e portanto sem peso político nenhum, a prova de que os segredos da bomba atómica foram passados aos russos por certos americanos nos poleiros e corredores do Poder dessa altura, possivelmente antes do clarão experimental, é até uma das que oferece menos problemas com a venda a retalho ao público curioso. Baseia-se nuns diários pessoais publicados por um oficial do exército americano, um tal major Gordon, encarregado de abrir e despachar caixotes, durante a guerra, via Alasca, para a União Soviética, no âmbito dum programa de ajuda então chamado Land Lease. Segundo o senhor, o segredo ter-se-ia feito acompanhar de todos os ingredientes necessários à produção do maravilhoso cogumelo de exterminação de inocentes. Aquilo, pràticamente, era só montar e carregar no gatilho. Nada de matemáticas nem dores de cabeça.

Há dois caminhos por onde se pode encaminhar a lógica disso ter acontecido. Por um lado, os USA e a URSS eram duas nações òbviamente interessadas, nessa altura, em derrotar a máquina de guerra da Alemanha, ela própria a trabalhar esforçadamente para conseguir a sua bomba, e do Japão. E por outro – dependendo daquilo que tenha sido acordado em Ialta pelas três cabeças grandes aliadas, e que não deve ter sido pouco em matéria da divisão do bolo que já estava no forno em Stalinegrado – uma planeada Guerra Fria depois da vitória, seria muito mais plausível e credível se ambas as partes possuissem as mesmas armas de dissuasão. Bem dito e bem feito. Em princípio.

Claro que durante muitos anos o major George Racey Gordon foi apodado de maluco e mentiroso tanto pelo “establishment” americano como pelos comunistas locais, uma dupla que também funcionou muito bem durante o chamado Mcarthyism, a tal caça às bruxas que em Portugal ensejou muitos discursos em cinematecas introdutórios de projecções de obras-primas da suposta sétima arte. Foi nessa altura que ficámos todos a saber que o Humphrey Boggart, Truman Capote e Richard Comte eram progressistas e John Wayne e Robert Taylor eram reaccionários.

Até aí tudo bem, normal e esperado nas reacções à indiscrição do nosso major – chama-se queima das papeladas e testemunhos de certos soldados curiosos que podem contrariar ou impedir o desdenrolar calmo da História de acordo com as agendas secretas. O pior é que, um belo dia, o próprio filho de Roosevelt, de seu nome James, resolveu sair-se com um “romance” que intitulou A Family Matter. Não obstante tratar-se de um trabalho “ficcional”, o enredo, contam-nos os que leram a obra, anda à volta da “decisão audaciosa do Presidente (Roosevelt) em partilhar com os russos os resultados das pesquisas do Projecto Manhattan”. E, claro, Bingo! Mas nunca ninguem explicou por que razão Holywood dos anos 80 não fez um filmeco sobre esse pedacito importante da história da guerra, de acordo com os relatos de Gordon e James. Que raio, a Joan Fontaine e o Gregory Peck ainda estavam em idades de aparecerem no papel do casal Rosenberg e o que não faltava era sub-estrelas gordas e matulonas, com ou sem bigode, para fazerem de Churchill e Staline. Talvez o Valupi, que é muito dado a andar pelas tecas do cinema, tenha uma explicação para isso.

O capítulo 29 do livro The Unseen Hand, de Ralph Epperson (corram que talvez ainda consigam apanhar um exemplar dele esquecido no armazém dalguma editora macaca de Lisboa ou na Feira da Ladra) descreve, baseado em numerosíssimas fontes e autores, esse passo da intriga atómica e muitos outros, mormente sobre as ajudas tecnológicas e económicas do Capitalismo, antes, durante e depois do New Deal e do Land Lease, ao Comunismo de Lenine e Staline e por ai fora, com a construção de refinarias e siderurgias, e duma famosa fábrica Gorki construida por Henry Ford nos anos trinta, etc., etc., tudo 100 por cento tecnologia americana, com os cumprimentos desse e também dos Rockfellers, da Standard Oil e da ubíqua Shell, a das libras e tulipas. Que não é vergonha nenhuma num mundo ideal e transparente, diga-se de passagem, pois somos todos do mesmo planeta e devemos entreajudar-nos. O que é vergonha, altamente suspeito e inegàvelmente conspirativo, é não se ter contado isso aos operários e intelectuais da esquerda crédula e babosa, pois teria-se-ia evitado muito trabalho e especulação por parte dos teóricos marxistas remendões que mais tarde vieram imputar ao “revisionismo” as culpas pela queda estrondosa do edifício soviético no fim da década de 80. O mal vinha de longe e nem era “mal”, afinal. Era agenda por encomenda. Agenda que continua, viçosa e criativa, a enganar outros com os truques embasbacantes dos novos ilusionistas. Que rico circo!

TT

O Fim das Bichas, de Alface

Do Expresso, 27 de Novembro de 1999

«Sonoridades reguilas»

NÃO se pode jurar que a autobiografia torne vivaz a literatura. A triste experiência é, mesmo, que a vidinha tende a inspirar a pieguice e o descomando. Mas daí, também, a surpresa que uma escrita autobiográfica com tino e medida sempre dá. Podemos ir mais longe. Nas melhores histórias a tomarem uma vida pessoal como tema, a historicidade perde importância, e funciona só já como estimulador ruído de fundo. É de certeza o caso do mais recente livro de Alface.

Pormenor de suplementar interesse: o juvenil «eu» destes contos está longe de ser o herói deles, ou só o seria pela circunstância de poder ser ele a contar hoje a história. O indivíduo em quem o relato se centra, à volta de quem se descrevem evoluções, é o avô, a mágica figura que dominou aquela infância. De uma mãe nem sombra, de um pai só apontamentos esparsos, os de alguém vergado ao peso do prestígio paterno (o do pai dele, avô do miúdo), e do mais incómodo e humilhante dos prestígios alheios: o sexual. Isso, que para esse pai era a frustração duma vida, decanta-o o neto em exultantes páginas. Aquele avô foi prendado pela natureza em dois pontos dados como invejáveis: é um sedutor a quem nenhuma mulher se nega, e dispõe de uma «exorbitante anatomia», com larga fama e, supõe-se, mas nisto a informação é escassa, o correspondente proveito.

Esse avô-herói dera já um ar de graça em Cuidado com os Rapazes (Assírio & Alvim, 1995), anterior volume de contos de João Alfacinha da Silva, que assina Alface. Também já então o venerando idoso se mostrava senhor de uma «respeitosa lubricidade». A sua atenção pelas senhoras levava-o, dizia-se, a atar um lenço «a meio» para não as magoar sem necessidade. É uma anotação de passagem, e, no volume recente, refinam as discretas artes deste neto, as de deixar o leitor com o mesmo sussurro que, sobre as proezas do garanhão, perpassava a vila natal. Mesmo com o desditoso filho a população é misericordiosa, poupando-o «às histórias mais pesadas que corriam a propósito do velhote». Tudo somado, também nós sabemos pouco, e quase só que «o avô, coitado, passou toda uma vida vigiado por maridos ciumentos, namorados susceptíveis e pais hipertensos. Todos sabiam, mas disfarçavam». Sabendo tão pouco, fica-se ainda perplexo, sem poder decidir se essa vigilância de maridos, pais e namorados era adequada. Começamos a supor que afinal não era, já que, a terem-se coisas a disfarçar, é porque calhava haver distracções. E elas tinham que ser muitas, para alimentar, num meio tão pequeno, um renome de décadas. Mas certezas não as há definitivas. Ou será só a dessas perduráveis fixações fálicas, admirativa a do neto, traumatizante a do pai, autocomplacente a do ancião.

Esta avareza de meios é, em Alface, um dos maiores aliciantes, nesta temática ou em outras. Acresce que o vemos, por vezes, tomado de uma excessiva, e muito inesperada, retracção. Em momento nenhum se nos concede um vislumbre na matéria das «aulitas de iniciação sexual» que o velhinho ministrava à miudagem local, ao «encolhido grupo que éramos», aulas pagas em espécie, neste caso cigarros. Quando, no fim do livro, as aulas se tornam práticas, é uma cena estilizada, de um bem pouco erógeno «retardando», o que resta. As damas estiradas pelo chão e sofás da casa de passe, que os imberbíssimos putos percorrem com dedos de medo, têm uma lividez felliniana (o nome do senhor aparece até por ali), onde não mora o mais leve sopro de erotismo. Se os assustados infantes não apanharam uma boa misoginia para o resto da vida, é porque o destino teve com eles caridade.

O Fim das Bichas contém outras histórias. Nenhuma delas mais esclarecedora do título, aliás. Sublinhe-se, até, a discrepância entre o que figura na capa, esse mesmo, e o mencionado na página de rosto, «O fim das bichas é o princípio das filas». A picante ambivalência evola-se então, mas nem por isso ficamos mais informados. E tudo o que ainda restasse de chiste se esboroará, ao verificar-se que o título completo é tão-somente uma das anódinas falas, e há centenas delas, apanhadas num café, e que vieram a compor a narrativa «Mesas Muito Juntas». A fala é esta: «O fim das bichas é o princípio das filas ou não é». Entende-se que houve uma suspensão, uma última dúvida. A afirmação, essa, como tantas aí reportadas, é idiota. O título quis imprimir ao livro, já desde a capa, uma sonoridade reguila.

Os melhores contos de Alface vêm sem aviso. Já em Cuidado com os Rapazes assim sucedia. «Pombinhos» ou «Tubo de Ensaio», textos primorosos, não tinham qualquer destaque. Ou só o de serem, também, os mais absurdos. No volume presente, são pequenas obras-primas os contos «Carreira de Tiro», «Da Idade» e «Anjo Negro, Céu Azul». Divertidíssimos lhes chamaríamos, não fosse o pudor de dizê-lo do primeiro. «Carreira de Tiro» é a descrição metódica e arrepiante do crime, o abate a mira telescópica de drogados do Casal Ventoso, técnica possivelmente aprendida (a narrativa, entenda-se) com Rubem Fonseca, o ficcionista brasileiro que fornece a epígrafe ao livro, e que pudera, nisso e no resto, ser-nos um mais atendido mestre. Mas o estilo é, iniludível, o de Alface. Sorrateiro, incisivo, cortante. Como no passo em que a agente imobiliária se afasta com pezinhos de lã, reluzindo de um negócio em conta. É ele quem fala: «Comove, a desonestidade. A mim comove. O verme do embuste torna-se espectáculo dos mais doces. Outros apreciarão um crepúsculo arrancado a entardecer bovino. Eu não. Eu adoro passar por parvo.» É uma pilhéria de nível, com ecos do melhor que a nossa prosa andou fazendo nos últimos quinze anos, divertida com a sombra que fazia à sisudez ritualizante, bem-aventurada, dos nossos «best-sellers».

A melhor história do livro, «Anjo Negro, Céu Azul», é uma narrativa avassaladora. Sendo breve, não enche menos as medidas. Dura que é, rejeita efeitos piegas. No Cais do Sodré, num bar «cheio de fumo e solidão», Matilde encontra um negro, tão perdido ali como ela, e perdido o vê sair, desistente de tudo. Tempos se passam. Há-de reencontrá-lo, na EN125, no Algarve, olhando um carro espatifado, ele sangrando, a mulher e os filhos mortos. «As rodas ainda mexiam, sonâmbulas», aponta Alface. Mas um autor inventivo achará meios de deixar o mundo menos desfeito. Este achou.

fv

Redacção: «A minha escola»

escola-1.jpg

Um fulano ouve falar dos sombrios anos trinta. Mas os de cinquenta não foram menos soturnos, pelo menos na Escola número 7, a São Bento, Lisboa. Nas primeiras classes, ainda entrava o sol das traseiras, da Rua Poço dos Negros. Mas depois passava-se ao lado de frente, onde nunca batia um raiozinho. Isto quanto a sombridades físicas. Do resto, sabe-se.

Pois nessa escola aprendi eu o essencial: ler, escrever e contar. Acompanhou-me, desde o primeiro ao último momento, a professora Noémia Brito Moreira (de que se falou uns posts abaixo). Severa, incapaz de um sorriso, de uma graça, mas competentíssima. Honra lhe seja, Senhora. Viva em descanso.

Ali estamos nós. Mais ela. Dos meus colegas quase nada sei. Debandei logo para Braga, onde me mantive oito anos. Mas, à minha esquerda na foto, de blusão claro e gravata escura, está o Lino, que a estultíssima Guerra Colonial ceifaria, na idade de 20 anos. E em baixo, à direita, o Luís Filipe Pereira, que seria ministro da Saúde. De calças curtas, ri bem-disposto. Estava-se em Maio de 1954.

escola-2.jpg

FCAP-p071005.jpg

Conhecerá você, visitante, alguém mais?

Um japonês que já faz parte da paisagem

Minoru Nagashima esteve em Portugal pela primeira vez em 1998 para ver a EXPO, mas não esteve muito tempo fora daquela a que ele chama «a cidade dos ventos». Desde 1999 que vive na Costa do Castelo e apanha todos os dias o eléctrico 28. Desce no Camões e sobe a Rua da Rosa com o material às costas.

Sim, porque Minoru Nagashima é pintor. Pinta na rua. O mesmo é dizer um repórter de imagens, um gravador de lugares, um caçador de luz. Sim, porque quando a luz perde a força, obscurecida por alguma tempestade ou por um simples aguaceiro, quando a neblina do Tejo empurra e derrota a força da luz, aí o nosso amigo Minoru Nagashima arruma as telas e os pincéis, fecha a caixa, despede-se do Senhor Oliveira (o filósofo que do Quiosque verde tudo observa) e volta para a sua casa na Costa do Castelo.

Mas não pára. Continua a observar com toda a atenção as suas paisagens. Rua D. Pedro V, Elevador da Bica, Senhora do Monte, Calçada de S. Francisco, Jardim de S. Pedro de Alcântara, São Tomé… Sem esquecer o Príncipe Real, o ponto central do seu trabalho.

Agora que está quase a terminar a sua exposição na Livraria Ler Devagar, na Rua da Rosa nº 145, em pleno coração do Bairro Alto, queria com esta pequena crónica fazer uma saudação a um artista discreto, simples e educado que um dia apareceu no Príncipe Real e nunca mais de cá saiu.

Pelo volume e pela importância do seu trabalho de pintor, Minoru Nagashima já faz parte da paisagem. Com a sua intuição chamou este bocado de Lisboa «a cidade dos ventos», mas a verdade é que os velhos daqui sempre chamaram a este espaço «o pai do vento». Ora aí está como um japonês recém-chegado ao Príncipe Real acertou logo com o espírito do lugar.

José do Carmo Francisco

Rua do Monte Olivete

`
alex_oneill6.jpg

Arranjo gráfico de Luiz Duran para a contracapa
da Antologia Tomai lá do O’Neill feita por
António Tabucchi para o Círculo de Leitores.

Vou lendo a Biografia de Alexandre O’Neill, de Maria Antónia Oliveira. E vou aprendendo. Sobre Lisboa, sobre o País. Estive ali, e não estive. Conheço aquelas ruas, da meninice escolar, da adolescência estival.

Rua do Monte Olivete. Aí vivia Noémia Delgado, primeira mulher de Alexandre. Aí vivia, mas um pouco mais acima, outra Noémia, a minha professora primária, a boa e rígida Dona Noémia Brito Moreira, que – no rescaldo do meu exame da quarta classe, e prevendo o meu futuro de marçano, que o extracto social (ah, ah!) mais do que justificava – esclareceu os examinadores de que «este menino» é que merecia ir para o liceu. Não fui, Dona Noémia. Conseguimos, vá lá, um ministro, Luís Filipe Pereira, o da Saúde, sob Durão Barroso. Vejo-o sorrir, sentado no chão, calças curtas, descontraído, na fotografia final.

Mas a geração de O’Neill já era outra. Quando eu, às cavalitas do meu pai, assistia ao enterro do Marechal Carmona, no Largo do Conde Barão, vendo passar ao longe, na Avenida D. Carlos, coisas lentas e negras, já O’Neill era O’Neill. Chegamos sempre tarde. Somos sempre, irremediavelmente, jovens.

E um livro faz-se consolação para tanto atraso.

A PAVOROSA

“O Mundo é feito de histórias, não de átomos” – Muriel Rukeyser

Só um bruxo dos bons, mas não necessàriamente diplomado em artes cabalísticas, poderá saber exactamente que ideias malvadas andarão nas cabeças dos criadores e utilizadores da Grande Pavorosa. E passemos à definição. Por Pavorosa entenda-se: no geral, a organização coberta e inteligente responsável pela divulgação, no melhor estilo da Intriga Histórica, da pseudo-notícia que nos mete medo e nos deixa tontos ao ponto de não sabermos para que lado fica S. Bento; e no particular, que agora interessa porque aparece nos jornais constantemente, o noticioso quotidiano, a concentração do tiro propagandistico num alvo favorito e central; o martelar constante, o hábito e mania dos títeres do verbo e da imagem nos informarem, sem que lhes encomendemos, de como vai o progressso tecnológico do Irão no que respeita à sua capacidade para pôr o carimbo de “pronto” numa bombita atómica.

Jornais e televisões de ontem e de vários ontens contam-nos, em repetição nauseante e convencida de que é possível vender impunemente peixe moído ou pão duro como corno, que os cientistas do Irão estão a seis meses de conseguirem pôr a funcionar engenhos atómicos capazes de destruirem a civilização Ocidental – e Israel como contrapeso, incluindo Gaza e redondezas, e peixes cristãos que por lá nadam no mar da Galileia e um ou outro gafanhoto distraído. Já nos andam a dizer isso, ou algo parecido com isso, há quanto tempo? Ponham as cabecitas a trabalhar os cidadãos menos confusos e digam-nos se já não é, pelo menos, desde o dia em que a Pavorosa se compenetrou de que o Iraque e o Afeganistão provaram ser ossos duríssimos de roer e que os petróleos roubados nem dão para encher os depósitos às máquinas de guerra. Na precipitação de nos venderem o Programa, até se têm esquecido de nos actualizar sobre a Coreia do Norte, uma gaja mais perigosa porque fica mesmo ao lado da China – a tal que o capitalismo anda a cortejar depois da queda propositada do Império Soviético do Oriente.

Reparem os menos preparados em Fisica Nuclear que aqui há cerca de dez anos, ou talvez mais, já os mesmos gajos dos mesmos jornais e das mesmas televisões e das mesmas agências noticiosas tipo “andamos-todos-a-trabalhar-para-os-mesmos-barões-endinheirados-mas-não-se-nota-muito” – directamente controlados pelos mesmos cérebros da Pavorosa oficial, nos andavam a querer convencer, enchendo-nos de cagaço e terror, de que a Internet albergava entre as suas páginas negras informação científica, pormenorizada em planos bem desenhados, que permitiria a dois ou três badamecos com umas luzes de física, e ajudas dum serralheiro e dum soldador, construirem uma bomba atómica rudimentar. Quantos milhões teriam bebido desse cálice e depois arrotado em agradecimento é coisa que ninguém sabe ao certo.

E agora somos informados pelos mesmos operadores da máquina do susto colectivo e da propaganda que os molengões cientistas do Irão precisam de mais seis meses, em cima dos anos todos que já perderam nessa estafante procura do poder atómico destrutivo. Parvalhões, essa persalhada, é o que apetece dizer. Tudo isso poderia ter sido conseguido com uma perna às costas em três ou quatro semanas se tivessem ido à Internet, conforme a Pavorosa diligentemente nos contou para manter o cagaço à temperatura ideal. Onde é que estes fundamentalistas do diabo aprenderam a usar com eficiência as suas inteligências de físicos-nucleares? E depois, reparamos, não há solidariedade alcorânica de espécie nenhuma. Porque poderia haver. Da parte dos generais paquistaneses de muito boas relações com as ciaieis, por exemplo. E porque não? Os próprios americanos (Roosevelt e companhia) têm a fama de ter passado esse segredo aos russos antes do fim da Segunda Mundial! Incrível? Bom, tiveram que condenar os Rosenbergs à morte – tradicionais mártires do bode-expiatorismo e da espionagem por amor à causa – mas isso deve ter sido para compor o ramalhete, para dar um arzito de grande avanço científico aos camaradas da União das Repúblicas Proletárias. Guerra Fria, a quanto obrigaste, grande rameira enganadora!

Entre o nervosismo de papagaios atómicos muitos agressivos para ajudar a manter as fervuras nos mercados colaterais da opinião,sobressaiem as duas preocupações que mais afligem aqueles que necessitam de convencer-nos de que existe ameaça e perigo real de invasão das terras santíssimas, cristianíssimas e filistiníssimas pelos infidelíssimos Maometanos. A primeira dessas preocupações, sempre vital para a sobrevivência da Intriga, geradora e mantenedora dos enormes lucros políticos, é a de não acordarem de sonos profundos as princesas mamalhudas das imprensas e canais da informação super-anedótica e estercorosa; e a segunda, ainda mais importante, é a de encontrarem a melhor maneira de fazer frente militar a esse perigo com que nos apavoram sem causarem grande estrago às suas reputações que já andam pelas ruas da amargura mesmo que só acreditemos nas versões autorizadas da história recente. .O operático dilema posto aos falcões apologistas da futura guerra, que já tem guernicas preparatórias de sobejo, é de reduzir qualquer general de cinco estrelas a uma enorme pilha de nervos: bombardear o Irão com mini-bombas atómicas de fazer buraco de vinte metros e com fallout de nem sequer causar eczemas superficiais; ou, alternativamente, usar bojardas megatónicas, tipo Grão-Rabino Mark II, de arrasar burgos e agriculturas e empestar ecologias mas sem fazer grande mossa nas cavernas (vinte, eles até já sabem que são vinte!) reforçadas com betões armados da espessura de cinco elefantes?.

Ninguem gostaria de ter a responsabilidade duma decisão dessas no seu livrinho de deveres distribuídos, nem mesmo os homens com os peitos militares cheios de medalhas ganhas em campanhas heroicas da Pavorosa e muito menos os vários generais e almirantes americanos que ameaçam demitir-se se o Presidente decidir não acatar os conselhos do Departamento de Psiquiatria do Mount Sinai.

Quando esta crise do Irão finalmente passar à história, porque passará, depois das bombas ou frases bombásticas, outras conversas e sustos virão para delícia e entretenimento dos sindicatos obreiros, das manuelas do aborto libertador e das josefinas Verdes da Natureza que trabalham para o príncipe Carlos da Albiónia, que por coincidência também é amante de focas e baleias e gosta de falar com as plantas. Aliás, já andam por aí uns assobios inquietantes sobre misseis e radares europeus que muito irritam os russos pela ameaça que representam para o seu vastíssimo território. E que bom sinal que isso é, esse reavivar das zaragatas entre os imperialismos manipulados, a doce garantia de que não iremos ter escassez de caganeira jornalistica para mais um ou dois anos até os 8 Grandes se encontrarem novamente num palácio qualquer e limarem todas as diferenças entre si mais as dificuldades com a concessão de dois quilos de mandioca e um par de sandálias a cada habitante descalço e esfomeado do continente Africano.

Como um bomerangue, os temas queridos e as querelas favoritas estão a regressar à velha Europa – a Mãe natural de filósofos incompreensíveis e santos maquiavélicos, parideira de holocaustos falsos e verdadeiros, teatro triste e orgulhoso das enormes guerras de sempre, ùltimamente muito agitada, de alto a baixo das suas camadas sociais e duma ponta à outra das suas cambadas políticas, pela invasão das burkas em escolas e lugares públicos. Foi nela que se inventou a politicamente correcta e utilíssima Pavorosa e é nela que a Intriga tem o seu quartel-general. O resto é conversa enganosa ou enganada muito bem baratinada pela baronada iluminada..

“O Mundo é feito de histórias, não de átomos”. Foi a Muriel que o disse. Mas não se se ficou por aí a poeta comunista, feminista e activista americana, amante de homens e mulheres, forma muito prática de amar a Humanidade sem dar nas vistas. Também achava que não basta sermos “contra a guerra”, é preciso sermos também contra as suas fontes. Tudo muito bonito de se dizer, mas infelizmente, todos estes anos depois, ainda se anda a investigar isso pelos cantos escuros das bibliotecas, às cabeçadas, empurrados pelas opiniões históricas dos editores encobridores. E outra coisa: como é que ela, já nessa altura, sabia que o átomo não passa de mero produto das nossas imaginações?

TT

O ganda O’Neill

O'NEIL.jpg

Nunca o conheci. Nunca o vi sequer. Mas conheci-lhe um dos maiores amigos, Pinheiro Torres, Alexandre também, e falávamos muito dele.

Numa entrevista que me deu para o nr. 32 da Ler, do Outono de 1995, abordámos as relações de ambos. Que vinham de longe, de adolescentes Verões em Amarante. Mas desembocariam num afastamento. Foi, contava Pinheiro Torres,

«por causa de uma crítica severa que eu escrevi na Seara Nova a um prefácio dele à obra reunida de Nicolau Tolentino, publicada pelos Estúdios Cor. […] Ele então ficou doido, ficou furiosíssimo, e disse-me: «Tu agora não falas comigo durante cinco anos.» E eu: «Não, ó Alexandre, estás enganado, hão-de ser dez.» E ele: «Também está bem.» Pois, olhe, foram quinze. Já o encontrei na Rua da Escola Politécnica [dantes encontravam-se na Rua do Jasmim, ao Príncipe Real], estava ele muito mal já do coração.»

Não sei se esta informação vem, agora, em Alexandre O’Neill. Uma Biografia Literária, a magnífica obra de Maria Antónia Oliveira que a Dom Quixote acaba de publicar. Sei que a entrevista da Ler está na bibliografia. E eu vou lendo o livro devagar, com a nostalgia que todas as coisas boas dão, de virem a acabar.

Quando estou em Lisboa, acontece-me passar, a caminho do quiosque de jornais, pela Rua Alexandre O’Neill, à Junqueira. Na placa está: Alexandre O’Neill. Poéta. Ele haveria de gostar.

Para uma excelente colecção fotográfica do autor e um poema que ele mesmo diz, veja – e ouça – este post em Da Literatura.

Sobre vida e obra consulte o site do Instituto Camões.

Actualização
A passagem citada é reproduzida na Biografia, na pág. 202. Numa entrevista posterior, também aduzida, com Isabel Coutinho, confessa Pinheiro Torres que foi de apenas «dez anos» a zanga. A memória, às vezes, gosta de fazer drama.

Das fragilidades da nossa vida

Não sou pessoa para andar por aí com uma mala cheia de angústias. Já paguei a última prestação da minha casa no mês de Setembro de 2005. Não tenho, portanto, um problema de habitação. Em termos financeiros tenho feito os possíveis para equilibrar as contas sem grandes angústias e com o recurso sistemático à conta ordenado. Em termos de saúde vou aguentando o barco tentando queimar os açúcares em excesso com longas caminhadas pelas ruas de Lisboa. Os meus filhos não me dão problemas de nenhuma espécie. Todos empurram a sua própria vida com responsabilidade e com equilíbrio: a mais velha é arquitecta e trabalha em Londres, o do meio está a fazer um mestrado em história dos descobrimentos e a mais nova frequenta o quarto ano do curso de arquitecta paisagista.

Um destes dias a minha casa sofreu uma inundação. Durante muitos anos pensei que as inundações eram só nas caves dos prédios. Esta semana descobri que se pode morar num quarto andar e sentir um calafrio terrível ao ver que os livros, as revistas e as fotografias de uma vida aparecem a boiar no meio da água. Os meus chinelos de quarto ficaram ensopados. A explicação é simples: foram os pombos que sujaram o algeroz e a água chegava das telhas e, como não tinha saída para baixo, entrava pela parede e só parava na cozinha e no meu escritório.

Tudo isto tem a ver com um sinal dos tempos: há muitas velhas solitárias nos prédios vizinhos que todos os dias atiram pão aos pombos. Estranha maneira de viver a solidão, ligando mais aos animais do que às pessoas. Os animais já têm o hábito de estar por ali à espera de quem lhes atire o pão. É por isso que sujaram tanto o algeroz do meu prédio e eu acabei por sofrer uma inesperada inundação num quarto andar.

José do Carmo Francisco

Proibido andar sobre a relva

Fiquei chocado, surpreendido e mesmo revoltado quando, há uns tempos, ouvi na televisão a notícia da morte do escritor Ferro Rodrigues anunciada como sendo a de «um colaborador dos Parodiantes de Lisboa». Para mim não está em causa que o escritor Ferro Rodrigues, tal como por exemplo o escritor Santos Fernando, fosse amigo dos Parodiantes de Lisboa e tivesse colaborado com os seus programas «Graça com todos» e «Parada da paródia». E nem me interessa se esta notícia foi feita por ignorância ou por má-fé. Para mim, Ferro Rodrigues é o autor de três livros: Noite sem estrelas, Lusitânia Expresso e Proibido andar sobre a relva. E nem está em causa se ele era o pai do outro Ferro Rodrigues que exerceu funções governativas e foi secretário-geral de um partido. Isso não está em causa. Para mim, o problema está em que a notícia refere a sua ligação aos Parodiantes de Lisboa e circunscreve as suas actividades a essa colaboração. Isso é que está mal, isso é que é incorrecto, pois quem elaborou a notícia não pode ser refém de preconceitos.

Parece-me que a notícia deveria ter sido assim: «Faleceu Ferro Rodrigues, autor dos livros Proibido andar sobre a relva, Lusitânia Expresso e Noite sem estrelas. Foi amigo do escritor Santos Fernando, com quem manteve parcerias no teatro de revista do Parque Mayer, e colaborou nos programas dos Parodiantes de Lisboa.»

Para dar uma ideia, vou transcrever duas linhas do livro Proibido andar sobre a relva. Numa casa de fados alguém dirige-se a uma fadista e pergunta: «Rapariga queres uma letra para um fado novo?» E esclarece: «É um fado humorístico. O gozo dum fidalgo sem vintém que se vendeu à filha dum lavrador alentejano a troco duns cornos de cortiça.»

É humor, um humor povoado pela tristeza, porque Ferro Rodrigues sabia que «o humor é uma lágrima entre parêntesis».

José do Carmo Francisco