A serpente cega nos dedos de Fernanda

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E de súbito descubro o rosto de Fernanda na pequena multidão que cruza o Largo das Duas Igrejas, no Chiado. De um lado a Paroquial da Encarnação; do outro lado a igreja privativa dos italianos de Lisboa. Reparo numa serpente cega num dos dedos de Fernanda e lembro-me, de imediato, da Margarida, a heroína do livro Mau Tempo no Canal, de Vitorino Nemésio.

Margarida no convés de um navio em viagem entre a Horta e Lisboa a conversar com um dos Serpas que fez parte, em tempos, da melhor linha de backs do Fayal Sport Clube nas tardes sem fim do Relvão da Doca. O mítico lugar onde os pioneiros do futebol na Ilha lançaram as raízes do Sporting Clube da Horta, do Fayal Sport Clube e do Angústias. Este lugar onde nos encontramos e eu admiro a beleza da serpente cega num dos dedos de Fernanda, era ponto de passagem de João Garcia quando o jovem aspirante regressava do quartel na Junqueira e, depois de ouvir os últimos boatos nos vários cafés do Rossio, subia por aqui até à Rua da Rosa, ao quarto alugado por cima da capelista, sempre à espera de uma carta de Margarida.

Agora reparo que hoje é dia internacional da mulher. Não sei porquê, mas a verdade é que dos dedos de Fernanda sai um suave cheiro a massa sovada. Afinal já não estamos no Largo das Duas Igrejas, e sim dentro de um romance. Fernanda está com pressa, olha para o relógio e explica que tem que ir abrir as portas da sua livraria.

Eu tenho as minhas obrigações e os meus compromissos. Mas o cheirinho da massa sovada permanece como se tivéssemos os dois, eu e Fernanda, saído do lugar determinado do encontro no Largo das Duas igrejas e entrado logo a seguir nas páginas dum romance inesquecível.

José do Carmo Francisco

5 thoughts on “A serpente cega nos dedos de Fernanda”

  1. Caro Confrade da Blogosfera,

    Permita-me a inesperada intimidade e que lhe faça uma pergunta, sabendo da sua antiga ligação ao SCP. É que já procurei nos principais sítios de informação desportiva, aqui, nesta imensa rede, supostamente de tudo informativa e nada, a respeito do facto que me interessa, encontrei. A pergunta é a seguinte : em que ano o Sporting bateu o Benfica no Estádio da Luz, por 4 a qualquer coisa e quantos golos foram da autoria de Lourenço, então fogoso ponta-de-lança leonino. E se não é demais a pretensão quem defendia nesse jogo a baliza, mal defendida, no caso, do Benfica ?

    Assisti a este jogo, adolescente, na Bancada dos sócios do, então sim, glorioso e dele saí compreensivelmente desanimado. Julgo ter sido aí pelos anos de 1966 ou 67 e o resultado deste jogo, demasiado contundente para o Benfica, deve ter sido raríssimo no Estádio da Luz, pelo menos. Em Alvalade, houve para o Benfica outra derrota ainda pior, 7-1, já nos anos de 1986 ou 87, por sinal ano em que o SLB acabou por ser Campeão. Mas é do dos anos 60 do século passado que procuro confirmação.

    Peço desculpa pela intromissão, mas como costumo lê-lo, há já alguns anos, na Gazeta das Caldas, parece-me uma pessoa familiar, para além da coincidência do ano de nascimento.

    Suponho que não estarei equivocado sobre o autor das crónicas da Gazeta, da Estrada de Macadame. Estarei ?

    Em todo o caso, aceite o amigo, as minhas cordiais saudações.

  2. Não peça desculpa. Há até uma curiosidade suplementar neste caso: o João Lourenço autor dos 4 golos na baliza do Benfcia defendida por Melo é natural de Alcobaça. O jogo disputou-se no Estádio da Luz em 17 de Outubro de 1965 e a vitória por 4-2 constituiu forte impulso para o Sporting ser campeão nacional em Maio de 1966. Sou de facto o autor das crónicas sob o título genérico de «Estrada de Macadame» e posso acrescentar que o Lourenço jogou uma vez na minha terra (Santa Catarina) como reforço do Aljubarrota num jogo particular disputado no Campo do Rio da Pedra, mesmo ao lado da estrada de macadame.

  3. Caro Amigo,

    Em primeiro lugar, quero agradecer-lhe a pronta e esclarecedora resposta. Redimiu-me ela de várias horas de pesquisa baldada, aqui mesmo, nesta suposta omnisciente rede.

    Mesmo assim, tenho de reconhecê-lo, foi por ela que cheguei à informação pretendida, depois de também haver inquirido vários amigos, sportinguistas militantes, sobre esta dúvida, quase diria, excruciante, mas do mesmo modo, sem êxito nenhum. Finalmente, nesta aflição, alguém acabou por me valer, com os dados exactos.

    De novo lhe agradeço, com os votos de que continue a escrever aquelas pitorescas crónicas da Estrada de Macadame que, há vários anos, leio pontualmente, quase todas as semanas, sempre com vivo interesse, sobretudo quando elas versam episódios da nossa já algo distante infância.

    Saudações cordiais, pois, de um seu confrade da blogosfera, leitor na Gazeta das Caldas, porém, rival na afeição clubista. Embora no meu caso, ela hoje seja muito menor do que era quando assisti, atordoado, àqueles humilhantes 4-2, de 17 de Outubro de 1965, na Luz, então autêntica Catedral. Podia lá tal aceitar-se, naqueles portentosos tempos de Eusébio, Coluna, José Augusto, Torres e Simões. Ufa ! Que quinteto ! Quanto valeriam hoje, por essa Europa fora ?

    Vale.

  4. Já agora convém lembrar que o Sporting Clube de Portugal venceu o campeonato desse ano e que o Sporting de Braga ganhou a Taça de Portugal. Foi por isso que estando folgados eles jogaram bem em INglaterra…

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