O ganda O’Neill

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Nunca o conheci. Nunca o vi sequer. Mas conheci-lhe um dos maiores amigos, Pinheiro Torres, Alexandre também, e falávamos muito dele.

Numa entrevista que me deu para o nr. 32 da Ler, do Outono de 1995, abordámos as relações de ambos. Que vinham de longe, de adolescentes Verões em Amarante. Mas desembocariam num afastamento. Foi, contava Pinheiro Torres,

«por causa de uma crítica severa que eu escrevi na Seara Nova a um prefácio dele à obra reunida de Nicolau Tolentino, publicada pelos Estúdios Cor. […] Ele então ficou doido, ficou furiosíssimo, e disse-me: «Tu agora não falas comigo durante cinco anos.» E eu: «Não, ó Alexandre, estás enganado, hão-de ser dez.» E ele: «Também está bem.» Pois, olhe, foram quinze. Já o encontrei na Rua da Escola Politécnica [dantes encontravam-se na Rua do Jasmim, ao Príncipe Real], estava ele muito mal já do coração.»

Não sei se esta informação vem, agora, em Alexandre O’Neill. Uma Biografia Literária, a magnífica obra de Maria Antónia Oliveira que a Dom Quixote acaba de publicar. Sei que a entrevista da Ler está na bibliografia. E eu vou lendo o livro devagar, com a nostalgia que todas as coisas boas dão, de virem a acabar.

Quando estou em Lisboa, acontece-me passar, a caminho do quiosque de jornais, pela Rua Alexandre O’Neill, à Junqueira. Na placa está: Alexandre O’Neill. Poéta. Ele haveria de gostar.

Para uma excelente colecção fotográfica do autor e um poema que ele mesmo diz, veja – e ouça – este post em Da Literatura.

Sobre vida e obra consulte o site do Instituto Camões.

Actualização
A passagem citada é reproduzida na Biografia, na pág. 202. Numa entrevista posterior, também aduzida, com Isabel Coutinho, confessa Pinheiro Torres que foi de apenas «dez anos» a zanga. A memória, às vezes, gosta de fazer drama.

12 thoughts on “O ganda O’Neill”

  1. Conheci o poeta O´Neill na Rua da Rosa apresentado pelo jornalista Jacinto Baptista. Disse-lhe que sabia um poema dele de cór. «Você tem-me cavalgado, seu malvado / mas não me tem posto a pensar como você / que uma coisa pensa o cavalo / outra quem está a montá-lo». Riu muito. Viva o poeta!

  2. «Esta vida são dois dias e a Festa do Avante (e o Carnaval) são três.
    A maior parte dos comentadores (isto sou eu a generalizar) fala do Carnaval como alienação.
    Neste país engravatado todo o ano e a assoar-se à gravata por engano (grande O’Neill) faz falta animar a malta (grande Zeca) faz falta foliarmos mas faz ainda mais falta participarmos, agirmos civicamente.
    Citando de memória Aleixo:
    O mundo está mal dizemos
    E vai de mal a pior
    Afinal nada fazemos
    P’ra que ele seja melhor»

    Comentei isto pelo Carnaval, lembrei-me a propósito do grande (ganda) O’ Neill.
    Fará sentido escrever-se um livro (após cinco anos de investigação) sem visitar a Biblioteca Alexandre O’ Neill em Constância*? Nessa biblioteca existe grande parte do espólio do poeta, grande parte dos livros têm anotações…
    *[a sugestão do nome para a bibliteca foi minha num artigo no jornal Abarca (Constância/Abrantes) nem sequer fui convidado para a inauguração.]

  3. Pois é, os verdadeiros amigos também servem para nos endoidecer e nos arrancar a fúria cá para fora.
    E, quando uma coisa boa acaba, Fernando, é sinal que há um espaço na nossa alma bem preenchido.

  4. Caro Pedro Oliveira,

    Parece-me que está errado, quando afirma que Maria Antónia Oliveira não visitou a biblioteca em Constância (belíssima terra, mas isto à parte). A biógrafa de O’Neill diz, exactamente, que o fez, e que examinou os livros do poeta.

    De onde tira você tal coisa?

    Conte, também, essa história da biblioteca e das más relações (infiro) com o meio.

  5. Caro Fernando Venâncio

    O senhor infere demasiado, inferiu que tinha votado Não (no referendo) quando afinal votei Sim (há cerca de nove anos). Lá vamos referendando e rindo (de referendo não vinculativo em referendo não vinculativo) quando a coisa poderia e deveria ter sido decidida pela maioria de esquerda que existe na assembleia como, aliás, esta a ser feito agora, uns milhares de euros depois.
    Quanto à senhora ter ido ou não à biblioteca fiz o óbvio peguei num telefone e telefonei para a biblioteca (provavelmente fui mal informado, não acredito que a senhora lhe mentisse e se essa informação consta no livro [que ainda não li] é óbvio que as minhas fontes me induziram em erro) ou então a senhora frequentou a biblioteca, disfarçadamente, como o elefante da anedota (de gabardine e óculos escuros).

  6. Caro Pedro Oliveira,

    Você queixa-se de que ‘nem sequer’ foi convidado para a inauguração da biblioteca – e diz agora que eu infiro ‘demasiado’, falando em possíveis más relações. Talvez. Mas tudo começa numa suposição sua (deverei dizer numa inferência?) de que a autora não consultou a dita biblioteca. Estamos quites, suponho.

  7. A biografia de Maria Antónia Oliveira, tendo embora muita informação com interesse é um livro mal escrito. Tem várias repetições da própria autora. Mas tem sobretudo imensas repetições nos testemunhos dos entrevistados, que deveriam ter sido omitidas.
    Mas o pior é que o estilo muda totalmente a partir da pag. 149. Até ali, é um livro normal; dali em diante aparece um diálogo despropositado com o leitor. Porquê só ali?
    Sem falar do “morreu há quinze anos”…

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