Arquivo da Categoria: VISITAS ANTIGAS:

Les beaux esprits se rencontrent

É um chavão, e logo gaulês. Mas é também – pelo menos no caso da «Sininho» e do «Py» – uma grande verdade. Quando escrevi o post aí abaixo (esse com a foto do deserto em Marrocos), estava longe de imaginar que não estava sozinho, por aqui, e que estava até muito bem acompanhado.

Pois acontece isto: tanto a Sininho como o Py enviaram-nos fotos daquele país magnífico. E próximo. Segundo rezam os ditos, Rabat é a capital mais próxima de Lisboa. Não é, Madrid ganha-lhe por uns quilometrozecos. Mas quem repara nisso?… E faz muito bem.

Ora, o Py andou por Alcácer Quibir e foi ao local da batalha (que fica 16 km a nordeste da cidade de tão famoso e agoirento nome). Tirou lá esta foto, que comenta nos termos que seguem.

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Quando vi este post do Fernando, lembrei-me de uma coisa. O ano passado voltei a Alcácer-Quibir, lá fui a cheirar, até que voltei ao sítio da batalha. Fui fazer uma mijinha e fotografar. Fiquei de descobrir mais tarde o que estava na placa com as três coroas. Já que na batalha morreram os três reis, na versão mais corrente, e estão lá três coroas, pensei que podiam ser os três reis, mas os dois de baixo têm a estrela do Islão e o de cima tem um tracinho vertical e não iam pôr D. Sebastião por cima dos deles, logo será Allah? Não faço ideia do que está escrito na placa e infelizmente não fotografei de mais perto.

Os meus meios técnicos permitem chegar a isto. Já haverá quem possa ler?

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Entretanto a Sininho andou fotografando material culinário. Isto, por exemplo.

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E informa que as suas melhores fotos – «as do deserto» – não estão digitalizadas. Esta está, e tanto que, no jornal de cima, em letras vermelhas, pode ler-se, bem grande, «Les pays arabes e[xigent?] paix et réformes».

A reprodução, aqui, é… degueulasse.

Não se pode chamar madeirense a um clube da São Miguel

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Não bastava ao Sporting Clube de Portugal ter um director de jornal que aparece sempre de braços cruzados e se assumiu como director de comunicação pouco tempo antes de serem divulgados em praça pública os ordenados dos jogadores da equipa «A».

Agora surge uma notícia errada chamando madeirense ao Marítimo Sport Clube de Ponta Delgada. É ver o site «www.sporting.pt» para ler o texto do enviado especial do site e do jornal à Academia em Barroca de Alva no dia 25-3-2007 para ver como designam como madeirense a equipa açoriana. Na página 10 do jornal de 27-3-2007 o erro surge repetido e percebe-se porquê: nem o redactor nem ninguém leu o texto errado que assim passou do site para o jornal.

Ora a Calheta é uma freguesia muito especial em Ponta Delgada e diz muito aos sportinguistas. Ali nasceu Mário Jorge, jogador leonino e internacional que nunca esquece de referir o facto de ter nascido na Calheta. Esta confusão de atribuir um bilhete de identidade diferente ao clube micaelense tem a ver com uma questão que é transversal à sociedade portuguesa actual: os jovens nunca perguntam – nem quando sabem nem quando não sabem. Bastaria ter estado atento à maneira de falar das pessoas do banco dos suplentes pata perceber que eram dos Açores.

Eu próprio vi jogar essa simpática agremiação desportiva no dia 18-3-2001 em Alcochete num jogo cujo árbitro foi Luís Rato, o treinador Rui Palhares e o delegado António Atanásio. O resultado foi 19-0 e marcaram os golos: Bruno Severino (1), Miguel Veloso (1), Emídio Rafael (1), Zezinando (2), Bruno Filipe (3), João Moutinho (1), Bruno Soares (4), Vítor Farinha (3), Amílcar Pinto (1) e Ricardo Dias (2). Qual madeirense qual carapuça…

Dissertação sobre uma pequena baleia azul

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João Camilo

Pego num livro de João Camilo. O título é bonito, apelativo e revelador – Nunca mais se apagam as imagens. A editora tem um nome curioso – «Fenda». Descubro então um marcador assinalando um poema que começa assim:

Os poemas deles falam de poetas e de pintores
das cidades que outra arte tornou inesquecíveis.
Com títulos ingleses e palavras estrangeiras
tentam escapar ao tédio e adoram o bezerro já idolatrado.
Literatura que celebra a literatura, arte que comemora a arte
não nos resta como projecto de futuro senão a aventura alheia?

Para além do poema e das suas perguntas pertinentes, fiquei a pensar no marcador. Trata-se de uma sorridente baleia que atira para o ar a água azul que acompanha a sua respiração. Mas é tudo artesanato. A minha filha Ana Maria tinha ao tempo o saudável hábito de não deitar nada fora e por isso, em vez de comprar marcadores na Papelaria Fernandes, fazia ela própria os marcadores com aquilo que sobejava dos seus trabalhos de estudante de arquitectura.

Digo ao tempo, pois presumo que o marcador foi feito em 1996; ainda não era conhecido em Lisboa o Café Peter que só apareceu com a EXPO 98. Esta ideia de manter, poupar e reutilizar tem muito a ver com aquilo que ela aprendeu com a avó Olímpia. A minha mãe tinha uma máquina de costura e já na minha infância fazia muitas vezes para mim camisas novas com camisas velhas do meu pai e calções novos com calças velhas do meu avô que, por ser carpinteiro, as tinha mais poupadas.

Hoje a Ana veste ao meu neto Thomas em Londres jardineiras feitas pela costureira D. Armanda a partir de calças velhas do meu filho Filipe ou da minha filha Marta. Não me canso de olhar este marcador com a pequena baleia azul.

José do Carmo Francisco

Chama-se a isto saudade?

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Marrocos. Entre Merzouga e Zagora

Dou a volta costumeira pelo Abrupto. E, de repente, na excelente série fotográfica «Espaços onde se pode respirar», esta foto, feita por MARTA PINHO. No blog de JPP, pode ampliá-la.

Marrocos é em grande parte – já o escrevi alhures – bem mais verde do que o nosso (o meu) Alentejo. E Alcácer-Quibir, amigos compatriotas, fica no meio duma planície verdejante, onde crescem frutos e legumes. Qual deserto, senhor cineasta Oliveira! Mas, é verdade: lá muito longe, para Sul, a coisa põe-se realmente assim.

Há-de haver, por ali, pegadas minhas. E eu partiria, esta tarde ainda, para lá. Mas – aí está – as prioridades…

O doutor da mula ruça existiu mesmo em 1534

Quando por brincadeira as pessoas se referem ao primeiro-ministro de Portugal como doutor da mula ruça, estão (sem o saber) a utilizar uma dupla ironia. Primeiro o senhor é mesmo pigarço; depois não está registado na Ordem dos Engenheiros.

Pois a graça disto tudo está em que, no ano de 1534, um tal António Lopes exercia medicina, em Évora onde era muito conhecido, mas não tinha diploma. Tinha estudado em Alcalá de Henares e, por falta de verba para pagar o «canudo», saiu de lá sem o respectivo diploma. Vai daí escreveu ao rei Dom João III e pediu-lhe que o mandasse analisar pelos médicos da corte de modo a poder exercer a sua actividade sem qualquer contestação. Em 23 de Maio de 1534, o livro da Chancelaria de D. João III refere:

«Dom Joham 3º a quantos esta minha carta virem faço saber que o doutor António Lopes, físico de Évora, me apresentou ua carta do doutor Diogo Lopes, meu físico moor, de que o theor de verbo é o seguinte: O doutor Diogo Lopes, comendador da Ordem de Christo e físico moor del Rey Nosso senhor em seus regnos e senhorios, faço saber a quantos esta minha carta de doutorado virem como por António Lopes, físico da mula ruça, morador em esta Évora, me foy apresentado hum allvará dellRey nosso senhor, por sua alteza assygnado e passado per sua chancelaria do qual o trellado he o seguinte: Eu ell Rey faço saber a vós Doutor Diogo Lopes seu fisico moor, que António Lopes, físico da mula ruça, morador en esta cidade, me dice por sua petiçam que elle estudou nove ou dez annos no estudo de Alcala de Henares.»

Fui descobrir esta curiosidade num livro de Orlando Neves, intitulado «Dicionário da origem das frases feitas». A edição é da Lello & Irmão Editores – Porto.

José do Carmo Francisco

Serão chuva, serão gente…

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Enviou-nos o José do Carmo Francisco esta peça, de amiga sua.
Com gosto a publicamos. À peça, e a ela.

De início pensei que não tinha ouvido bem. Fiquei atenta ao episódio seguinte da novela Tu e Eu, que passa na TVI. Tony Carreira a cantar, no genérico musical da telenovela “… serão tu e eu…”. Não podia ser. Mas era.

Confirmei. Mas não me conformei. Como tenho a mania de querer endireitar o Mundo, comecei por ligar para a produtora da novela. “A pessoa responsável pela selecção das músicas está de férias”. Tempos depois, continuava de férias.

Falei para a SPA. Contei a história. Sugeri falar com Tony Carreira. “Os artistas, por vezes, aceitam mal as críticas…”, foram alertando. Fiquei a saber que a canção já tem uns anitos. Que foi gravada várias vezes pelo cantor e que faz parte do trabalho discográfico de outros artistas (sempre com o “…serão tu e eu…” pelo meio).

A minha teimosia levou-me a contactar a TVI. “O Dr. José Eduardo Moniz está fora, mas volta daqui a dois dias”. Que (eu) tinha razão, mas ela (a secretária) “nem via telenovelas”. Passados dias voltei a ligar. A mesma secretária informa: ” O Dr. José Eduardo Moniz já está ao corrente de tudo”.

A novela passa todas as noites e tem repetição no dia seguinte. Quantos meses vai isto durar? Que providências foram tomadas para que este pesadelo linguístico deixe de atormentar os ouvidos dos portugueses (que não são surdos), como eu?

Nada me move contra Tony Carreira. Apenas me assiste o direito de contestar o malfadado verso, que envergonha a Língua Portuguesa! Muito mais, quando no concerto efectuado no Campo Pequeno se ouviram milhares de vozes, que esgotaram a praça, a cantar o “… serão tu e eu…”, sem o menor conhecimento e respeito pela Língua que é a nossa. Tony Carreira precisou de uma palavra de duas sílabas para “encaixar” na música. “…seremos tu e eu…” tinha três sílabas. Porque não optou, então, por “…serás tu e eu…”, que tem as mesmas duas sílabas?

Um músico amigo disse-me: “Deixa-te disso, eles (?) não ligam a essas coisas!)”. Uma amiga escritora ironizou: “ Não te canses, que não merece a pena…”. Dou a mão à palmatória. Ambos tinham razão. Mas eu também tenho. Por isso, continuo à espera.

Soledade Martinho Costa

Serei eu um sádico?

Porque é que li, leio e vou continuar a ler em jornais coisas sobre o CDS? Porque é que destino a isso uma parte, pequena é certo, mas mesmo assim preciosa (julgo eu) do meu tempo?

Será porque a política portuguesa me interessa até esse ponto? Será porque intuo que, um dia, ainda o CDS vai ser decisivo no trem de vida nacional?

Poderá haver, ainda assim, outras motivações, menos nobres (ah!…), para isso, como o fascínio pelo lado ficcional dos eventos, ou por essa pessoa soturna, matreira, mas levianamente suicidal que é Paulo Portas, ou mais rasteiramente por uma bela bulha pública, aqui, por casualidade, política. Ou, muito mas muito mais chãmente, porque vem excitar-me o lado sádico, que anda pouco desenvolvido.

Não sei. Repito a confissão: não sei. Mas qualquer coisa me diz que, se eu (e você) não olhasse, eles resolviam a coisa como damas e cavalheiros. Assim, dão espectáculo. E nós, por mil e um motivos, temos um grande fraco por coisas que mexem.

O teu retrato

Ele próprio, o autor, diz que é uma convenção, isso do Dia da Poesia.
É, pois claro. Todos os dias são-no da poesia também.

Mas sejamos, por uma vez, placidamente, chãmente convencionais.
E assinalemos a coisa. A Poesia, digo.

O TEU RETRATO

O cabelo é uma onda feita em espuma
Na areia da praia da Vieira de Leiria
A fronte é uma eira dentro da bruma
Entre a Senhora do Monte e a Abadia

Os olhos são candeias sempre acesas
Nas casas onde a nossa vida recomeça
São poemas colocados sobre as mesas
Um teatro que em cada dia é uma peça

A tua boca tem o calor de uma lareira
Com brasas que não morrem noite fora
Um fogo a arder sem queimar madeira
Uma luz que se prolonga e se demora

A tua voz é alta, pode ir até ao infinito
Com palavras que não ficam sozinhas
O meu poema é um espaço tão restrito
Abrevia o teu retrato em poucas linhas

José do Carmo Francisco

Vai uma anedOTA?

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O método é do mais arbitrário, do mais tendencioso, enfim, do mais revoltantemente foleiro. Mas pode ajudar a encher logo o serão.

Acaba, de resto, inspirado num gracioso artigo (mas brincando, brincando…) ontem no «Público», que se intitulava «Uma ‘brincalh’OTA’», e que ensinava onde se constroem bons aeroportos.

E, depois, a estes achados costumam estar associadas umas elevadas somas publicitárias – ou estou a dizer alguma inconveniência?

Pois bem: aqui se lança este inocente jogo de sociedade. Eu entraria modestamente com:

PalhOTA
CambalhOTA
PorcalhOTA

Dinis Machado, o poeta obscuro

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No dia 13 de Fevereiro de 1994, Dinis Machado ofereceu-me um poema manuscrito intitulado «II Soneto para Cesário», com uma dedicatória: «oferta e celebração a José do Carmo Francisco no dia do seu 43º aniversário». Segundo me explicou mais tarde, sabia os seus poemas de cor, mas nunca os publicou, porque entendia que não valia a pena.

A edição especial de O que diz Molero vai ser apresentada no próximo dia 21 de Março, dia da Primavera e do 77º aniversário de Dinis Machado. Ao que sei (telefonaram-me), a Bertrand vai fazer uma festa no Tivoli nesse dia.

Como o Dinis espalhou alguns poemas no articulado do «Molero», penso que uma boa homenagem a ele (e a todos nós) será divulgar o tal soneto do poeta obscuro Dinis Machado. Espero que gostem:

Se te encontrasse, agora, na paisagem
Nocturna dos fantasmas da cidade
Contava-te dos nossos pobres versos
No teu rasto de sombra e claridade.

Contava-te do frio que há em medir
A distância entre as mãos e as estrelas
Com lágrimas de pedra nos sapatos
E um cansaço impossível de escondê-las.

Contava-te – sei lá – desta rotina
De embalarmos a morte nas paredes
De tecermos o destino nas valetas.

De uma história de luas e de esquinas
Com retratos e flores da madrugada
A boiarem na água das sarjetas.

José do Carmo Francisco

Álvaro Carvalheiro ou os limites da terra e da água

Há nas fotografias de Álvaro Carvalheiro (Torres Novas, 1938), em exposição no Centro Comercial Fonte Nova de Lisboa, a insistente presença do Homem em diálogo com a Natureza. Desde 1999 que acompanho com interesse e emoção o seu percurso de poeta da imagem. Autor de poemas. Que outra coisa não são as suas fotografias destinadas a ligar de novo aquilo que o tempo separou. E todo o poema é esse projecto de religação.

Nas fotografias de Álvaro Carvalheiro, o Homem defronta o Mundo e as suas mais inquietas perguntas em três Cabos (o Cabo Carvoeiro, o Cabo de São Vicente e Cabo da Roca) e numa praia – a mítica Praia da Consolação. A praia para onde ia todos os anos o poeta Ruy Belo. As silhuetas que enterram os pés na areia ou que fazem a pontuação humana junto aos limites da água e da terra são vírgulas, reticências e pontos de interrogação em forma de gente. A vida e a morte, a alegria e a tristeza, a luz e a sombra, a memória e o esquecimento – são estas as quatro linhas de força que empurram para a ribalta os protagonistas das fotografias de Álvaro Carvalheiro. É um mundo envolto em harmonia, em paz, em bem-estar.

A objectiva do fotógrafo captou não apenas um registo mecânico, mas a carga subjectiva dum ser humano nas perguntas mais essenciais: quem somos, donde vimos, para onde vamos? Não por acaso entre terra e água, em silhueta porque somos pó da terra, mas é a água que nos dá a vida.

Raúl Brandão dizia que a ternura é húmida. Álvaro Carvalheiro vem dar razão ao nosso escritor de há cem anos. Porque as suas fotografias respiram a humidade da ternura com que a sua objectiva aborda e regista o homem entre a terra e a água.

José do Carmo Francisco

O decano

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Ele mora – ao que me dizem – na mesma cidade que eu. Não sendo o burgo nenhuma metrópole, é ainda assim grande o bastante para que não nos cruzemos. Até hoje. Aqui. Na blogosfera.

José Rentes de Carvalho escrevia já no blogue de Rui Ângelo Araújo, o antigo director da Periférica, de nunca suficientemente chorada memória – a revista, entendem.

Pois foi no passeio (quase diário) a A Origem das Espécies que fiquei informado: Rentes tem um blogue dele mesmo, Tempo Contado, título já dum diário seu, aparecido há anos. Mas mais: sabe-se agora quem poderá ser o decano de todos nós, blogueiros. Mais importante ainda: ele é um dos nossos grandes prosadores vivos.

Sirva de engodo este curtíssimo post:

AMAR MENOS
Ela diz:
– Sinto que o amo menos agora do que há três anos,
quando voltámos para a Holanda.
Aceno compreensivo, mas no íntimo pergunto-me:
entre amar menos e já não amar, qual é a diferença?

Álvaro Cunhal não fugiu de Caxias

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A revista tem Denzel Washington na capa e chama-se Certa – mas, pelos vistos, às vezes não acerta. É distribuída nos supermercados Continente, publicada pela Edimpresa e tem como director José Fortunato. Os seus temas-base são: TV, Beleza, Culinária, Moda, Saúde e Actualidade.

Dentro da actualidade, surge uma coluna com sugestões para a quinzena. São três os livros referidos em breves notas de leitura: Salva-me, A criança que não queria falar e Máscaras de Salazar. Pois aqui é que bate o ponto. Sobre este terceiro livro, de Fernando Dacosta, há um texto que termina deste modo: «O ex-Presidente do Conselho não caiu de nenhuma cadeira, conservou, escondidas, duas cápsulas de cianeto fornecidas por Hitler, a PIDE matou Delgado sem o seu conhecimento, foi ele que sugeriu a fuga de Cunhal da prisão de Caxias.» Aqui está um erro crasso. Álvaro Cunhal fugiu sim, mas de Peniche.

No dia 3 de Janeiro de 1960, lembro-me muito bem, estava o meu pai no Montijo a descansar, e veio um guarda dos Serviços Prisionais chamá-lo a casa (na Rua Sacadura Cabral) para ir com um grupo de homens montar guarda ao cruzamento de Pegões. O meu pai não era polícia, mas sim motorista assalariado do Ministério da Justiça. Lá teve que ir, mas a resmungar, pois não fazia nenhum sentido Álvaro Cunhal e os outros fugitivos do forte de Peniche irem aparecer no cruzamento de Pegões, onde se juntavam as estradas do Porto Alto, da Marateca, de Vendas Novas e do Montijo.

Salvou-se disso tudo um bom vinho branco que eles trouxeram de Santo Isidro de Pegões. Ainda hoje quando sou entrevistado, digo que o meu vinho preferido é o branco de Pegões. Mas não confundo Caxias e Peniche.

José do Carmo Francisco

Fórmulas do paraíso

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‘Música das esferas’, ‘melodias celestiais’: terá a música a ver com a eternidade – ou, mais, terá a eternidade a ver com a música? Um dia, lá em cima, é um dizer, teremos nós um iPod de memória eterna?

Enquanto as perguntas ficam, fatalmente, no ar, vai-se fazendo o que se pode. E daunlôuda-se a doce engenhoca dos sonhos sonoros com uma eternidade aos pedaços. O meu aparelhinho, um Zen da Creative, permite repetir um número até um fulano cair de podre. Não se diga que não é, então, um reflexo da eternidade.

Esta tarde saí (o tempo começa a imitar a Primavera) e eternizei-me em All by myself. Não o de Celine Dion (mas podia ser, e daí a capa do CD), sim a versão instrumental de James Last com o piano de Richard Clayderman. O autor da peça, fiquei a saber aqui, é Eric Carmen. O que eu já conhecia era a paternidade de Rachmaninoff para o primeiro tema, o da ‘estrofe’. Ele é autor de algumas das mais – bom, digamos – celestiais melodias cá em baixo, e talvez só superado por Tchaikovsky e Mozart.

Absolutamente genial na versão Last-Clayderman é o coro feminino que irrompe quando menos se espera, e que ressoa como numa imensa catedral.

A música das esferas, portanto? Talvez. Celestial é.

Nós que não somos de vaidades

Ainda a noite é uma menina – e noutros lugares do Planeta ainda vai alto o Sol. Assim, é de supor que esta mesma madrugada o Aspirina receba o seu passante número 1.000.000. Diz-se «passante», e não «visitante». Há quem venha aqui ter porque busca a página, você por exemplo, mas também quem ande aí ó tio ó tio pela blogosfera, e caia aqui por engano. Tudo isso está nesse número respeitável.

Mas mesmo as visitas se aproximam dos 500.000. Isto, em um ano, três meses e quinze dias, tem a sua graça.

Passa pouco da meia-noite, o marcador indica exactamente 999,864 passagens.

Traduzindo em letras: Durma bem.

Actualização

Pois é, assim não dá gozo. Esta profecia era das fáceis.

Gabriel Alves já não vai pedir desculpa

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Leio no Diário de Notícias deste sábado (10-3-2007) uma notícia: «Gabriel Alves deixa a RTP em litígio». Esta situação interessa-me, não pelo assunto pessoal em si, mas porque agora, fora de RTP, Gabriel Alves já não vai pedir desculpa. E tinha desculpas a pedir. Trata-se do seguinte.

Aqui há meses, a RTP transmitiu um documentário feito por ingleses e por brasileiros no qual Gabriel Alves papagueou umas palavras mentirosas sobre o que se passou em Julho de 1966 em Inglaterra. Dizer que um defesa português «arrumou» Pelé é mentira – e uma mentira, mesmo repetida muitas vezes, não deixa de o ser. Na verdade em 19-7-66 Morais não «arrumou» Pelé porque ele já estava arrumado desde 12-7-66. Nesse dia, o búlgaro Voutsov teve uma entrada violenta sobre o avançado brasileiro. Por isso, em 15-7-66, contra a Hungria, ele não jogou e foi substituído por Tostão.

Contra Portugal, em 19-7-66 o treinador brasileiro arriscou muito, pois, além de ter colocado Pelé (ainda lesionado) em campo, fez jogar vários estreantes: Manga, Fidelis, Brito, Orlando, Rildo, Denilson, Lima, Silva e Paraná. Quase uma equipa inteira num «tudo por tudo» que, como é natural, não resultou. Daí a provocação miserável de atirarem as culpas do insucesso para as costas dum jogador português chamado Morais.

Gabriel Alves papagueou sem hesitações esta mentira e agora pelos vistos já não vai a tempo de pedir desculpa. Não só a Morais, mas a todos nós que ainda temos memória e sabemos como as coisas se passaram. É que, segundo a notícia do Diário de Notícias, Gabriel Alves tem 60 anos. O mesmo é dizer,idade para ter algum juízo e saber a diferença entre a verdade e a mentira. Se eu tenho 56 e me lembro, ele tem a obrigação de saber o mesmo que eu.

José do Carmo Francisco

Coisas infelizes numa revista chamada Happy

A revista chegou-me às mãos de modo gratuito, embora ostente na capa o seu preço, que é 1 euro e meio. Esse foi o primeiro aspecto insólito. O segundo foi o título em inglês, sendo a revista portuguesa.

O terceiro ponto insólito foi o editorial assinado por Carla Ramos, no qual recorda o dia 20 de Janeiro, dia em que o prédio onde esta revista é feita – o número 11 da Avenida António Augusto de Aguiar, em Lisboa – foi cercado. Escreve a directora que o prédio ficou «seteado» por ambulâncias, bombeiros e polícia. Sitiado é que é, mas passou. Está nos dicionários, mas pelos vistos a revista não tem revisor. Na página 160, surge uma reportagem com um título insólito, também ele: «Um farol no Oceano». Ora se o hotel aí descrito está em Cascais, não me parece que seja no Oceano. Quando muito vê-se do Oceano, que não é a mesma coisa. Mas, adiante.

Sobre o quarto que lhe foi destinado, a jornalista escreve: «Clean é a palavra que melhor define o quarto que me foi atribuído.» Clean, assim sem mais nem menos. Não aparece em itálico nem em negrito. Nem em comas. Segue-se uma frase curiosa: «O barulho do mar chama-me a atenção e ao espreitar vejo que estou a dormir mesmo em cima da rebentação das ondas.» Se está a dormir, não pode perceber o barulho que – deste modo – não pode chamar-lhe a atenção. Por fim aparece o nome e a morada da tal Estalagem do Farol, o telefone e o site na Internet, mas (ó inclemência…) sendo a morada de Cascais aparece a palavra Lisboa a seguir ao código 2750-461.

Não pode – como muito bem diz o Gato Fedorento imitando o professor Martelo. Não pode – tento dizer eu. Mas a minha voz é muito fraca e talvez não chegue lá. De qualquer modo, teimosamente, continuarei a dizer: Não pode. E a repetir: Não pode. Não pode.

José do Carmo Francisco