Arquivo da Categoria: VISITAS ANTIGAS:

«Retraimento»

RetraimentoÉ urgente
Que escreva este poema
E que te diga, mãe
Muito obrigada.

Assim
Sem frases de ternura
Rebuscada
Apenas
A teus pés agradecida
E ajoelhada.

E a olhar os teus olhos
Que me olham
Com enlevo
Com carinho
E devoção
Mais uma coisa, mãe
Peço perdão.

Pois muito embora
Venha a pensar depois
Que foi tolice
As palavras de amor
Que te neguei
Foi por vergonha, mãe
Que não tas disse.

Soledade Martinho Costa

Sonatina de rua

Dei com ela no passeio, ao fim da tarde, saíra há pouco da caixita de rodas. À frente, num tapete sobre o empedrado, tinha a dormir um gato de peluche, abrigado a uma sombrinha de bonecas. Ao lado um bouquet de plástico e a caixa do violoncelo, para recolher as moedas.
A violoncelista lembrava os trinta anos e tinha uma flor no cabelo, a derramar-se em cachos pelos ombros. Vestia a indumentária da função, ampla saia bordada até aos pés, uma blusa de cetim, o coletito preto a aconchegar o peito. E era diferente das outras porque tocava de pé. Fixou o espigão numa prega da calçada, acomodou no ombro o braço do instrumento, correu a mão esquerda nos bordões. E ficou ali suspensa, de arco enristado na direita, a afagar num trejeito um caracol rebelde.
O maestro é alemão, vem do Oberhammergau, vai dizer-mo no fim do recital. Ampara-se a uma muleta e reclina sobre a artista os alongados braços, a bafejar-lhe o sopro demiúrgico de quem vai repetir a criação. Das pontas dos dedos enluvados sete fios o ligam ao corpo da mulher, que volta a sujeitar o caracol. E quando liga a máquina do som, desliza ela os dedos sobre o ponto, tange nas cordas o rufar do arco, cresce na rua a melodia da Scarborough Fair.
Começou por hesitar, a multidão, apanhada de surpresa. Depois, à melopeia ondulada do El condor pasa, rendeu-se de encantamento. Até um grupo de catraias que passava ali ficou, a ondear os quadris. Lá para o final, mesmo com falta de naipes, o maestro aventurou uma sonata célebre. E a plateia, que lhe não sabia o nome, perdeu a compostura e desatou a aplaudir.
Nos intervalos choviam as moedas na caixa do violoncelo. Quando as ouvia cair, almofadado na caixita de rodas, um caniche abria o olho e ladrava uma alegria.

Jorge Carvalheira

Jorge Buescu ataca de novo

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Há sensações assim. Saber que vai sair um livro – e que a gente vai comprá-lo. Porque nunca poderá decepcionar.

Na informação que a editora Gradiva faz regularmente chegar por mail, vejo que, a partir de 22 de Maio, há aí um novo livro de Jorge Buescu. Sim, esse mesmo de O Mistério do Bilhete de Identidade e Outras Histórias e de Da Falsificação de Euros aos Pequenos Mundos. São histórias de encantar: exactamente porque são verdadeiras – ou muito próximo disso.

Vem agora O Fim do Mundo Está Próximo? E é anunciado assim:

«O que é que poderá estar por detrás do funcionamento de um chuveiro, de uma vitória no euromilhões, do sexo ou do fim do mundo? Neste novo e brilhante livro de Jorge Buescu, um dos divulgadores de ciência mais interessantes e bem sucedidos do nosso país, o leitor descobrirá, com a ajuda da matemática, que afinal coisas que pareciam distintas partilham relações profundas e que o conhecimento humano não está dividido em compartimentos estanques. A matemática tem afinal inúmeros segredos para revelar e é isso que a transforma numa ciência tão fascinante.»

Está a ver: por 13 €, vai ter duzentas e vinte páginas de boas vibrações.

In A Beautiful Place Out In The Country

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Se há uma banda que demonstra que a música não é apenas para ser ouvida, essa banda são os Boards of Canada. Senhores de um culto que consegue ser quase tão fascinante como as capacidades evocativas da sua música, não é de estranhar que, apesar dos manos Michael Sandison e Marcus Eoin apenas terem apadrinhado oficialmente a edição de um teledisco, pululem hoje na rede centenas de vídeos amadores feitos por fãs ansiosos por partilharem as suas experiências sinestésicas. Para quem «sofre» dessa condição, ver esses vídeos pode ser uma experiência perturbadora. Embora não venha listada no DSM-IV (a minha mãe acha que devia), a sinestesia é uma capacidade neurológica cujo estímulo pode ser profundamente viciante. Lembro-me que quando descobri que Kandinsky era sinestésico, pensei ter descoberto as razões da grande afinidade que, desde pequeno, sinto com a sua obra. A partir desse dia, procurei ter acesso aos quadros de tudo quanto era pintor sinestésico, mas, com a excepção de David Hockney, jamais voltei a sentir essa morna e inexplicável familiaridade. Voltando aos Boards of Canada, gostaria de partilhar com a malta que tem pachorra para estas coisas uma curta-metragem intitulada In A Beautiful Place Out In The Country que um senhor chamado Neil Krug realizou recentemente a partir da música do duo escocês. Devo dizer que não vi de ânimo leve essa curta-metragem. Primeiro, porque o EP que dá o título ao vídeo é uma das bandas sonoras da minha vida. Depois, porque as duas outras faixas utilizadas («Into the rainbow vein» e «Ataronchronon») são, de longe, os meus dois temas favoritos do último The Campfire Headphase. Não acredito em almas gémeas, mas, que diabos, um gajo dispensa bem este tipo de coincidências.

Podem ver/ouvir/cheirar/tocar/provar esse vídeo aqui.

«As pequenas memórias», de José Saramago

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O título deste livro, explica o autor, deve-se a nele surgirem «as memórias pequenas de quando fui pequeno». Mas começou por se chamar «O livro das tentações». Não era nada fácil nos anos 20 do século XX a vida dos pais do (ao tempo) pequeno José Saramago: a mãe doméstica e o pai guarda da PSP, mais tarde o subchefe Sousa. Quartos, partes de casa e, finalmente, casas, constituem-se no quase infindável roteiro: Rua E ao Alto do Pina, Rua Sabino de Sousa, Rua Carrilho Videira duas vezes, Rua dos Cavaleiros, Rua Fernão Lopes, Rua Heróis de Quionga, Rua Padre Sena de Freitas e por fim a Rua Carlos Ribeiro. Uma rua sem saída de onde José Saramago viria a sair aos 22 anos para casar com Ilda Reis.

Há neste livro memórias alegres e irónicas, mas também amargas e infelizes. Como por exemplo a morte do seu irmão Francisco: «A mãe e os filhos chegaram a Lisboa na Primavera de 1924. Nesse mesmo ano, em Dezembro, morreu o Francisco. Tinha quatro anos quando a broncopneumonia o levou. Foi enterrado na véspera de Natal. Em rigor, em rigor, penso que as chamadas falsas memórias não existem, que a diferença entre elas e as que consideramos certas e seguras se limita a uma simples questão de confiança, a confiança que em cada situação tivermos sobre essa incorrigível vaguidade a que chamamos certeza. É falsa a única memória que guardo do Francisco? Talvez o seja mas a verdade é que já levo oitenta e três anos tendo-a por autêntica…Estamos numa cave da Rua E ao Alto do Pina. É o Verão, talvez o Outono do ano em que o Francisco vai morrer. Neste momento é um rapazinho alegre, sólido, perfeito.»

Editorial Caminho
Colecção O Campo da Palavra, 149 páginas

José do Carmo Francisco

Post dedicado ao Professor Carlos Reis II

Os Beirut foram a grande sensação da música alternativa de 2006. A edição de Gulag Orkestar valeu a Zach Condon comparações com Conor Oberst (credo), Jeff Mangum (quem lhe dera), Sufjan Stevens (estou a ver, mas não) e Stephin Merritt (ah). Como sou bastante mais palerma nas comparações, as canções de Zach Condon surgem-me com uma bela alternativa à banda sonora de uma das raras aventuras felizes de um realizador europeu nos Estados Unidos: Arizona Dreaming de Kusturica. Os Beirut lançaram há alguns meses um muito recomendável EP intitulado Lon Gisland, cuja faixa de abertura, «Elephant Gun», teve direito a um belíssimo videoclip realizado por Alma Har’el. A primeira vez que vi esta maravilha até me emocionei, carago. Mas a verdade é que sou um sensível da merda.

Apesar dos Willowz terem uma alínea muito relevante no seu curriculum vitae (a de terem feito a Kristen Dunst dançar em trajes menores no belíssimo Eternal Sunshine Of The Spotless Mind de Michel Gondry), a verdade é que me parece que a música dos rapazes apenas conseguirá fazer vibrar a corda sensível a quem passou muitos serões da sua juventude com os amigos a fumar ganzas e a ouvir os os Led Zep, os Rolling Stones ou o Jimi Hendrix aos berros (mas posso estar enganado, né). O mesmo já não se aplica ao vídeo que Ace Norton realizou para «Son of Evil». É verdade que o spleen vem lá retratado como já não o via (lia? caneco, estava tão orgulhoso desta comparação) desde os poemas em prosa de Baudelaire, mas algo me diz que não faltará por aí muita malta que será sensível a esta obra-prima da suprema arte de montagem do celulóide. A primeira vez que vi esta maravilha deu-me logo ganas de ir fumar um charro. Mas também é verdade que sou um drogado da merda.

NOTA: podem ver aqui o bicho em Quick Time.

«El lugar, la imagen – O lugar, a imagem», de Ruy Ventura

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O mais recente livro de Ruy Ventura (n. Portalegre, 1973) é uma edição bilingue da Editora Regional de Extremadura com poemas traduzidos por António Saez Delgado e capa de Julian Rodriguez. Se toda a obra de arte surge como uma humana rejeição da morte, um poema que canta a alegria do encontro do poeta com essa mesma obra de arte é um duplo registo da negação das sombras, do esquecimento e do desespero.

Este livro abre com um poema dedicado a uma escultura em barro do século XVIII:

«um corpo nasce nas mãos do oleiro / um corpo desce. procura / a raiz, a porta, a lareira / acenderá o mundo com o seu sopro / com a sua voz.»

Segue-se a meditação sobre uma escultura de madeira do século XVII:

«em que palavras leste a semente desse brilho? / no verbo que ele guardou no teu silêncio? / no coração, ardendo na memória? /ergues os olhos, saciando /o cálice em que saciámos a nossa sede.»

Mas pode ser também uma moeda romana do século I depois de Cristo, o motivo do poema. Ou uma estela funerária. Ou uma escultura em Lagos. Ou uma casa em Arronches. Depois pode ser uma catedral em Compostela, uma fortificação templária em Aveyron ou um poço num certo lugar em Penamacor.

Livro feito (como diz o título) de lugares e de imagens, em todas as suas páginas vibra uma voz poética a ligar a Natureza e a Cultura. Como por exemplo em «arquitectura», poema escrito perante o castelo e a judiaria de Valência de Alcântara:

«subimos à torre para melhor vermos / o círculo que nos une a esta terra / desce o firmamento. hesita esta memória / em tocar o bosque cuja língua desaparece. / de súbito, uma águia /a música que escrevemos. para sempre. /de regresso à largueza / da floresta»

Assim se prolonga poeticamente a rejeição da morte, o mesmo é dizer, a negação das sombras, do esquecimento e do desespero.

José do Carmo Francisco

«Eu tenho um sósia…»

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Gerrit Komrij, poeta holandês
residente em Portugal

DIAFANIA

Eu tenho um sósia que me põe maluco
Querendo ser em tudo a mim igual.
Possui o mesmo sósia, e então apanha
Com um grande susto ao ver-me, e mais ao tal.

Assim me assusto eu ao ver-nos ambos.
Ele nada me oferece. É um ladrão.
Não pára de sugar ecos em mim
E nada meu sobra em tal multidão.

De início, havia ainda um certo laço.
Vivíamos em paz, aos dois, aos quatro.
Agora, aonde eu olhe, vejo o meu vulto
E a quantos fantasmas já dou resguardo.

Quando eu morrer, um ser desfigurado
Há-de achar-se estendido no caixão.
E o corpo transparente abrigará
Não um cadáver, mas coisa de um milhão.

GERRIT KOMRIJ
Contrabando
Assírio & Alvim, 2005
Trad. fv

Dura lex!

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O homem veio de Castelo Branco, a arbitrar, na Luz, um jogo. Há tempos. No final produziu um relatório de ocorrências.

“O jogador da equipa visitada, Micolli, desmandou-se em velocidade tentando desobstruir-se no intuito de desfeitear o guarda-redes visitante. Um adversário à ilharga procurou desisolá-lo, desacelerando-o com auxílio da utilização indevida dos membros superiores, o que conseguiu.
O jogador Micolli procurou destravar-se com recurso a movimentos tendentes à prosecução de uma situação de desaperto mas o adversário não o desagarrava. Quando finalmente atingiu o desimpedimento desenlargando-se, destemperou-se e tentou tirar desforço, amandando-lhe o membro superior direito à zona do externo, felizmente desacertando-lhe.
Derivado a esta atitude, demonstrei-lhe a cartolina correspectiva.”

Imaginemos só que a lei era mais mole!

Jorge Carvalheira

Viver com os outros também cansa!…

Isabel da Nóbrega, cujo nome foi rasurado na dedicatória do Levantado do chão de José Saramago mas não da nossa história literária, é a autora de Viver com os outros. Este título é um achado, pois viver com os outros é o nosso maior problema. Gostaria de vos contar uma pequena história de proveito e exemplo.

Há 25 anos conheci uma escritora. Sobre alguns dos seus livros publiquei notas de leitura em jornais, em revistas e em blogs, além de crónicas na Rádio. Apresentei um seu livro no auditório da Antena 1 nas Amoreiras. Mais tarde escrevi o prefácio para uma sua antologia poética. Aqui há tempo, telefonou-me a pedir ajuda pois estava doente. Prontifiquei-me a levar umas coisinhas da mercearia próxima de sua casa e lá levei as Cerelács, os Nestums, o pão, o leite de soja, a manteiga e as bolachas. Depois de colocado todo aquele material na bancada da cozinha, e como sei que há mais mundo e mais coisas para fazer, comecei a prepara as despedidas.

Desejei as rápidas melhoras e ia para dar um beijinho na face, mas aí, terrível momento, a senhora fez um movimento brusco no cadeirão e a minha boca aproximou-se perigosamente da sua. Recebi um sonoro, adversativo e imperativo «Então?!!!». Como se estivesse a ser acusado de querer roubar um beijo a pretexto dos 16 euros que tinha pago pelas coisinhas da mercearia. Como se, com 56 anos de idade, eu não soubesse e não tivesse a obrigação de saber que os beijos não podem ter preço; se o tiverem deixam de ser beijos. Desapareci daquele terrível momento de desencontro o melhor que pude e desci aquelas escadas em alta velocidade a lembrar-me de uma frase de Verlaine: «Tenho tanto medo dum beijo como duma abelha».

José do Carmo Francisco

«15 Poemas do Sol e da Cal». Uma Leitura

Paisagem e povoamento em «15 Poemas do Sol e da Cal»
de Soledade Martinho Costa

Cada poeta retira da realidade a sua realidade – isto é, denuncia, no modo como se apropria da paisagem geográfica e humana, o sistema ou processo que preside à construção de sua realidade poética.
Enquanto outros poetas usam o teatro, povoando os seus poemas de protagonistas e mantendo a geografia como cenário, Soledade Martinho Costa, por seu lado, elege a pintura como sistema e articula nos seus poemas (como num quadro) a água, o sol, o vento, as cores, a fauna, a flora, a paisagem, enfim…
Quem esqueceu os protagonistas dos poemas de Manuel da Fonseca – a Nena, o António Valmorim, o Senhor António, o Francisco Charrua, o Zé Gaio, o Julinho, o Zé Jacinto, o Manel da Água, a Marianita ou a Maria Campaniça?
Quem esqueceu os protagonistas dos poemas de García Lorca – a Preciosa, o Juan António, a Soledad Montoya, a Anunciacion de los Reyes, o António Torres Herédia, o Pedro Domecq ou a Rosa la de los Camborios?
Para Soledade Martinho Costa cada poema é um quadro, uma paisagem que, pese embora o povoamento permanente (os mendigos, os pastores, os ganhões, a fiandeira, o artesão) tem como produto final a terra seca e atormentada – ela sim eleita personagem última do poema.

José do Carmo Francisco

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Eu queria ser o ombro da Shakira, sff

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A página do Provedor do leitor do Público de hoje é de antologia. A leitora Carla Feliciano chama à atenção para o facto de João Bonifácio, na entrevista a Camané publicada no suplemento Ípsilon da última 6.ª-feira, ter traduzido «l’ombre de ton chien» da canção «Ne me quittes pas» de Jacques Brel por «o ombro do teu cão» em vez de «a sombra do teu cão». Mas o que é verdadeiramente genial é uma parte da entrevista em que:

JOÃO BONIFÁCIO: É das canções de amor mais desesperadas que já alguém escreveu: «Deixa-me ser (…) o ombro do teu cão…»

CAMANÉ: Ele queria ser o ombro do cão dela porque queria era estar ao pé dela, não queria que ela o deixasse. E nessa fase da canção existe o desespero: nem que seja uma mosca à tua volta, o ombro do teu cão, qualquer coisa, mas que eu possa estar ao pé de ti.

Magnífico, não é? Porém, e contariamente ao que diz essa figura funesta que é Rui Araújo, não me parece que Bonifácio ou Camané passem por «ignorantes» ou «pessoas pouco credíveis». A não ser, claro, que o hipotético leitor ignore o facto do João Bonifácio ser, há vários anos, um dos melhores críticos musicais do país (o que me parece ser sinceramente difícil se estivermos a falar de um leitor regular do Ípsilon) e do Camané ser um dos seus maiores cantores. Pessoalmente, acho este episódio hilariante e enternecedor. Nada mais do que isso. E, neste caso em concreto, estou-me a borrifar para o facto de os jornalistas terem «o dever de apresentar textos limpos»: quando a «sujidade» atinge este requinte, sou a pessoa menos higiénica do planeta. E sabe que mais, querido provedor? Ainda há leitores do Público com sentido de humor.

O vento, ainda

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Ao voltares as páginas do livro, ainda escutas o gemido da folhagem
quando o vento lambia o seu esplendor.

João Pedro Mésseder, Abrasivas, Porto, Deriva, 2005

O livro de Mésseder está editado, além de no original português, em galego normativo. O texto acima sai ortografado assim:

Ao voltares as páxinas do libro, ainda escoitas o xemido da follaxe
cando o vento lambía o seu esplendor.

Dá-se um bombom (que digo eu, uma tarte de Santiago inteira) a quem nos explicar como esta frase, com a sua sintaxe, a sua morfologia e o seu léxico, pertence a duas línguas diferentes. E esqueça a ortografia, sim, bom amigo. As ortografias nunca criaram línguas.

Claro: a frase é escolhida. Mas poderiam dar-se dezenas. Como poderiam dar-se vários contra-exemplos. Óptimo. O convite mantém-se. Expliquem-me, pois, a frase acima.

Para lá desta questão menor (e, concedo, bizantina): o livro de João Pedro Mésseder é belíssimo.

Post dedicado ao Professor Carlos Reis

Nos últimos dias, tenho andado entretido a ouvir de forma compulsiva dois discos: FRIEND AND FOE dos Menomena e MIRRORED dos Batlles (o primeiro já saiu e o segundo há-de sair em meados de Maio). Os Menomena são uma paixão antiga, os Battles nem por isso. Ambas são bandas rock como todas as bandas dignas desse epíteto deveriam ser, isto é, experimentais, procurando forçar em cada música as convenções do género, tudo sem nunca abdicar desse belo formato medieval que se chama canção. Suprema alegria foi o facto de ter descoberto esta semana que as duas bandas recorreram a Lance Bangs e Timothy Saccenti para realizar os respectivos telediscos. Entre o desvario (muito indie) de «Wet & Rusting» e a gravitas de «Atlas», temos aqui mais uma prova que o videoclip continua a ser um dos formatos audiovisuais mais interessantes da actualidade. Agora, alguém que me venha dizer por que razão ele continua a ser tão miseravelmente tratado pela televisão portuguesa.

Duas histórias deliciosas para ler ao serão

Na Travessa de São José nº 1, ali entre São Bento e o Príncipe Real, nasceu uma nova livraria. Melhor dizendo, um «alfarrabista», pois o livro antigo e o livro usado são a especialidade da casa. Fundada em 1870 como mercearia, vai passar a chamar-se Livraria 1870, que é um excelente nome, pois tem a ver com as Conferências do Casino preparadas em 1870 e realizadas em 1871 aqui perto no Chiado.

Pois lá descobri duas histórias deliciosas no livro Football para o serão de Armando Sampaio. O livro é de 1944 e é constituído por memórias do futebol de Coimbra e não só. Coimbra, cidade onde os jogos entre a Associação Académica e o União de Coimbra faziam sempre faísca. Como a PSP vinha a simpatizar com o União, a GNR voltava-se para a Académica. Daí o comandante da GNR de Coimbra dizer aos seus homens antes dos jogos: «Se houver conflito vocês só batem nos de azul!»

A segunda história tem a ver com a rivalidade Porto-Sporting: «No Porto presenciei eu um dia este facto: um sportinguista, num camarote do Estádio do Lima, empunhava uma bandeira verde e gritava com toda a força – Sporting! Sporting! Sporting!. Um portuense, alucinado com o resultado que lhe estava sendo adverso, subiu os degraus da bancada e arrancou a bandeira das mãos do lisboeta que o empurrou, fazendo-o ir de rebolão por ali abaixo estatelar-se mesmo no meio da claque tripeira. Sabem o que lhe aconteceu? Levou uma tremenda sova dos patrícios que, vendo-o com a bandeira leonina o julgaram alfacinha! Quando conseguiu dizer que era do Porto já tinha a cara amachucada!»

O livro é de 1944. As histórias são obviamente anteriores. Prova-se assim, uma vez mais, que não há nada de novo debaixo do sol.

José do Carmo Francisco

What’s in a name?

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O acesso aos cafundós do Aspirina – acesso que não é só feito de alegrias – permitiu-me achar um recente comentário a um «post» já de Setembro de 2006. Tratava este (pode ver) uma questão anódina, um fait-divers sobre Vasco Pulido Valente. Mas a discussão derivou para o nome do historiador, e é ainda a esse propósito que Francisco M. Pulido Valente Pena agora escreve:

«Quanto às “tristes” cenas e outros tantos “tristes” comentários acerca do “verdadeiro” apelido do meu Primo Vasco Valente Corrêa Guedes, gostaria que, e não me tendo sido solicitado qq pedido pelo próprio, deixassem o Grande Historiador sossegado pois estes Srs. que aparentemente se “preocupam” com o verdadeiro apelido do Grande Historiador, pelos vistos não têm mais nada que fazer ou em que pensar senão nesse pouco (a meu ver) importante facto dele, o Grande Historiador e meu Primo utilizar os apelidos do nosso Avô Materno, Prof. Dr. Francisco Pulido Valente, verdadeiro Democrata mas não comunista como alguns insistem. Vão mais além nas vossas considerações e, deixem-se de mexeriquices que mais parecem, essas sim, conversas de mulheres.»

Aquando da saída do «post», comentara «jcfrancisco»:

«A propósito… Para quando a decifração do facto de esse senhor se chamar Vasco Correia Guedes e não Pulido Valente? Será que não é prioritário?»

A isto respondi eu na altura:

«Caro jcfrancisco. É já a segunda vez que te vejo afirmar, ou insinuar, que Vasco Pulido Valente se chama, na realidade, Vasco Correia Guedes. Deixa-me ser sincero: o facto de essa questão te preocupar é, para mim, mil vezes mais interessante do que estar informado do nome autêntico do grande historiador.
Todavia, sem descentrar o meu verdadeiro interesse, apreciaria saber:
– terá VPV razões (razões públicas, de imagem) para usurpar um nome, e concretamente esse?
– a patronímico Correia Guedes (que nada me diz, mas eu sou em questões de sociedade um cavernícula) é algo que, patentemente, apeteceria escamotear?
Aqui tens duas perguntas altamente… prioritárias.»

Estas perguntas estão, ainda hoje, por responder. A minha precisão de resposta é muita? Nem por isso. Mas as obsessões alheias fascinam-me.

E, entretanto, a questão – vê-se agora – ainda mexe.

Conhece Carlos de Oliveira?

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Um dos poucos poemas que sei de cor de Carlos de Oliveira é do livro Sobre o lado esquerdo e diz assim: «A noite é a nossa dádiva de sol aos que vivem do outro lado da terra.» O outro é o que fala do sal: «O sal é o mar servido às nossas praias domésticas de linho.» São poemas muito belos que me acompanham todos os dias desde sempre, desde que um dia o visitei nas águas furtadas da Avenida Praia da Vitória. A Maria Ângela ainda era uma mulher muito bonita nesse fim de tarde em que me ofereceu uma fotografia de Carlos de Oliveira tirada pelo Augusto Cabrita.

Encontro casualmente nas escadas rolantes dos Armazéns do Chiado um poeta meu amigo que é também jornalista profissional. No passado dia 1 de Julho, registaram-se 26 anos sobre a morte física de Carlos de Oliveira, o poeta de Micropaisagem, o romancista de Uma abelha na chuva. Bem informado e perfeitamente capaz de organizar um texto motivador chamando a atenção para a obra do autor de Casa na duna, que nasceu no Brasil em 1921, o meu amigo poeta e jornalista elaborou e assinou o texto alusivo à efeméride e fê-lo entrar no circuito dos assinantes da sua agência noticiosa.

Pois a verdade é que nenhum jornal pegou no assunto. Nem transcrevendo o texto nem convidando nenhum dos seus «sábios» colaboradores a pegar no tema. Há alguma crueldade nesta situação. Não sei os motivos deste esquecimento, mas talvez todos tenhamos que dar razão ao próprio Carlos de Oliveira que, em O aprendiz de feiticeiro, escreveu esta frase lapidar: «Escrever é lavrar – e lavrar, numa terra de camponeses e escritores abandonados, significa sacrifício, abnegação, alma de ferro.»

José do Carmo Francisco

ALARMISTAS OU OPORTUNISTAS?

De vez em quando lá estou eu, sem quase dar por isso, a ler os “chamativos” títulos das capas das revistas portuguesas, que se avolumam nos escaparates, sempre que encontram um cantinho disponível: nos hipermercados, estrategicamente dispostas junto às caixas registadoras; nos postos de abastecimento de combustíveis; nos quiosques; nas chamadas tabacarias ou casas dos jornais; nos passeios (sempre apelativas), em cima das mesas dos cafés (aqui, mais os jornais) …
Sem falar nos lugares onde as “revistas à portuguesa” não se encontram à venda, pela simples razão de que já foram adquiridas. É isso. Ali estão elas à mão de quem espera a sua vez nos cabeleireiros, nas esteticistas, nos consultórios médicos, etc.
Por fim, temos as amigas ou familiares, que não resistiram à tentação da compra, e que, gentilmente, nos dizem: “Eu já li, se quiseres, leva…”
Por vezes, levamos…Também, se não levássemos, como poderia eu, agora, escrever este texto?

Soledade Martinho Costa

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«SEMPRE ABRIL» na TV Galega

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Até às 23.00 de Lisboa, a TVG, televisão galega, aí no seu cabo, transmite um programa sobre o 25 de Abril e José Afonso. Estão lá os irmãos Salomé, João Afonso, Júlio Pereira, Dulce Pontes – e suponho que mais virão.

21.43 h.
A estreia absoluta de «Grândola Vila Morena», em 1972, deu-se no Burgo das Nacións, em Santiago de Compostela. Foi aí que José Afonso se deu conta da força do número. O concerto foi apresentado por Emilio Pérez Touriño… em 2007 o presidente da Galiza.