Arquivo da Categoria: VISITAS ANTIGAS:

Vinte Linhas 485

Uma releitura de «A Capital» de Eça de Queiroz

Integrado nas actividades da Livraria Fabula Urbis (Rua Augusto Rosa 27 – Lisboa) estou envolvido num clube de leitores cuja primeira tarefa foi a leitura comentada de «A Capital» de Eça de Queiroz. Dois aspectos me tocaram em especial.

Primeiro as duas frases que Artur, o jovem candidato a jornalista e dramaturgo, vindo lá de Oliveira de Azeméis, preparou para (julgava ele) impressionar o Melchior no jornal «O Século». Eis as duas definições:

Lisboa é a estação central da inteligência.

A Província é a penitenciária do espírito».

Depois a maneira como Eça de Queiroz descreve a saudade que Artur começa a sentir no momento em que recebe onze mil réis do Rei Bamba, curiosa a alcunha do homem que lhe leva coisas ao «prego». Assim: «Então, quando sentiu o dinheiro na algibeira, Artur teve subitamente uma vaga saudade enternecida de Lisboa, da vida que deixava. A cidade, coberta dum bom sol, com os seus cartazes nas esquinas, as lojas dos livreiros abertas, as carruagens rolando, parecia-lhe ser o único lugar possível para uma existência inteligente: se não conseguira chamar a atenção da senhora de vestido de xadrez na véspera, poderia ser mais feliz outras vezes! Nunca o Melchior lhe parecera tão afectuoso; e achava, de repente, nas fisionomias que passavam um vago tom inesperado de simpatia.

Comovido disse: Ao menos, pela última vez, jantemos juntos, Melchior».

Recomendo a experiência aos nossos leitores, o livro aguenta-se bem e vale a pena.

Um livro por semana 184

«Um gesto em nome do Espírito Santo» de Carlos Lobão (coordenação)

Implantadas em Portugal pela Rainha Santa Isabel e trazidas para os Açores pelos primeiros povoadores continentais, as festas em honra do Divino Espírito Santo são celebradas nas nove ilhas do Arquipélago tendo sido exportadas pelos açorianos para os EUA e para outras terras de emigração.

No caso concreto deste livro de 96 páginas são as freguesias da ilha do Faial que surgem com as suas festas religiosas e profanas: Feteira, Castelo Branco, Capelo, Praia do Norte, Cedros, Salão, Ribeirinha, Pedro Miguel, Praia do Almoxarife, Conceição, Matriz, Angústias e Flamengos. O texto de apresentação é de Pedro Lima e as fotos são de: Glória Rodrigues, Pedro Silva, Cátia Cunha, Marta Duarte, Cátia Escobar, Célia Silva, Pedro Lima, Adolfo Fialho, Mário David, Pedro Sousa, Paulo Sousa, António Ramires, Carlos Lobão e Estela Teles.

Como adverte Pedro Lima «as festividades estão ameaçadas pela massificação cultural e pelo consumismo que marcam o nosso tempo. O carácter profano destas festas está cada vez mais a valorizar-se em relação ao religioso. Os impérios ficam esquecidos ou abandonados. Em vez do arraial prefere-se os media. O individualismo e a crescente indiferença religiosa acentuam-se».

(Edição: Clube Filatélico O Ilhéu – Escola Secundária Manuel de Arriaga, Autor: Carlos Lobão, Revisão: Ilídia Fialho, Apoio: Câmara Municipal da Horta)

Balada da velha rua

Velha rua de Lisboa

Que por acaso foi minha

Queria tornar-me pessoa

Tinha uma alma sozinha

Trabalho das nove às seis

Ao sábado toda a manhã

Ganhava trinta mil réis

O Inverno pedia mais lã

Bilhete de sete tostões

Uma zona em atrelado

Saía no largo Camões

Veiga Beirão atrasado

Avançava tão resoluto

Nas três cadeiras fatais

Sebentas do Instituto

As Chagas já são sinais

Cidade hostil para mim

Minha voz não se ouvia

Fosse assado, fosse assim

Nunca tinha uma alegria

A guerra era uma ameaça

Que sentia convocada

Nas fardas donas da praça

A morte foi medalhada

Nos cafés entre boatos

Com açúcar e amargura

Lia notícias e relatos

Visados pela censura

Já tantos anos passados

Olho de novo esta rua

Se viveu noutros lados

Tem uma que chama sua

Vinte Linhas 483

Príncipe Real – a CML esqueceu-se da capela mortuária

Hoje soube através de uma pessoa da CML em visita de supervisão ao espaço que a inauguração das obras de destruição do Jardim do Príncipe Real (intituladas como uma requalificação pela CML) está prevista para as 10 horas de amanhã, dia 22-5-2010.

Mas há um problema, aliás há vários problemas. Falta a capela mortuária pois todo o cemitério que se preze tem que ter uma. Ora aquele que foi o Jardim do Príncipe Real não vai voltar a ser jardim mas apenas um cemitério de árvores mortas.

Depois há o saibro que foi colocado no pavimento substituindo o empedrado e o asfalto. Todo esse saibro que já está a sujar os vidros dos automóveis e a entrar na garganta das pessoas, origina o pedido de um gelado. Mas o quiosque local deixa de poder vender gelados porque alguém na CML considera «inestética» a caixa dos ditos mas esquece-se (finge esquecer-se) propositadamente que foi a CML a criar a situação ao substituir o empedrado por saibro – tal como fez no antigo Jardim de São Pedro de Alcântara, hoje miradouro. Já sabemos que o saibro vai produzir pó no Verão e lama no Inverno. Já sabemos que o pintor Nagashima perdeu as que julgava suas árvores e agora anda a pintar nas Escadinhas do Duque. Ele que era privativo do Jardim e que já estava integrado desde 1998. Azar dele. Azar nosso. Azar de todos menos dos fulanos da CML que decidem mas não conhecem nada disto. O poder é mesmo assim. Leva tudo à frente. Actua como uma «quadrilha selvagem». Cria armadilhas às pessoas. Neste caso mata árvores em nome de uma falsa requalificação e proíbe os gelados quando sabe que o pó vai fazer nascer mais vontade de comer gelados às pessoas.

Intermitência

“Sempre que estou diante de ti encontro, nos teus olhos, maldade, frustração, ódio, inveja, insatisfação”, diz-me H., um rival de longa data. “Sim, sou forçado a admitir que tens razão”, respondo com serenidade. “Sempre me disseram que tenho os olhos bastante espelhados”, concluo. E recebo, com tranquilidade, o murro que me esmurra.

Vinte Linhas 482

Um cometa chamado Sócrates

Passou esta noite (de 18 para 19 de Maio) o centenário do cometa Halley. Tirando a apresentação do livro «Halley – o cometa da República» de Joaquim Fernandes na Livraria Bertrand não dei conta de grandes referências ao facto. Não sei se por ao mesmo tempo o primeiro-ministro estar a falar na TV. O livro (edição Temas e Debates/Círculo de Leitores) foi apresentado por Joaquim Vieira e Rui Agostinho. Para além de alguns aspectos folclóricos (o homem que vendia pastilhas, máscaras de gás e sobretudos para o pessoal não morrer com o pó da cauda) um pormenor aparece em destaque: em Maio de 1910 o cometa anunciava para muitos o fim da Monarquia. Será que o mesmo cometa em 1986 anunciava o fim do Muro de Berlim? Talvez.

Todas as leituras são possíveis para além do conhecimento enciclopédico: «Cometas são corpos celestes que descrevem órbitas parabólicas ou elípticas por vezes enormes, nos quais o Sol ocupa um dos focos; sob a acção da radiação solar, adquirem uma cauda longa e luminosa, dirigido sempre em sentido oposto ao do Sol».

No livro «História de Portugal em datas» (Círculo de Leitores) nota-se que a efeméride foi pouco valorizada da cronologia: em Janeiro surge o Partido Republicano Português a incluir 167 agremiações, em Fevereiro aparece o jornal anarquista O Clarão e em Abril o Congresso do PRP. Depois salta para Junho com a Maçonaria a decidir nomear uma comissão de Resistência para colaborar com a Carbonária – José de Castro, Miguel Bombarda, Machado Santos, Francisco Grandela. Por sua vez os representantes do Directório Republicano na Comissão são Cândido dos Reis e António José de Almeida.

Um livro por semana 183

«Tanta gente em mim» de Vítor Serpa

Vítor Serpa (n.1951) estreou-se na ficção com «Salão Portugal» (2007), contos sobre o Bairro da Ajuda. Este livro parte à procura não do local mas do nacional: «Portugal continua a ser um país de angústias e de problemas adiados».

Em 1975, do encontro entre Elsa e Manuel, nasce Pedro: «Sou filho de uma revolução. Não de um herói.» Em 1962 Constança nasce em Luanda da ligação entre uma professora de História e um empregado de escritório que vai em 1975 para Braga e queima uma sede do PCP: «Rebentei com eles, todos os que lá estavam.» Já Inês é fruto do namoro de Cármen com Paulo nas campanhas de dinamização cultural do MFA de 1975 em Miranda do Douro: «Descubro um país que Lisboa nem supõe, sequer, existir». Na Tunísia Pedro encontra por caso Constança e leva-a para o seu quatro de hotel mas no outro dia acaba acusado e detido perante o desaparecimento dessa colega de excursão. É o pai de Inês, sua namorada informal, que como advogado o vai tentar safar desta situação insólita tanto mais que foi o pai de Constança que matou em Braga o pai de Pedro. Mas ele desconhecia: «O absurdo afinal existe».

Tal como na tragédia «A Castro» há neste romance um triângulo amoroso: Pedro, Inês e Constança. Tal como no filme «Casablanca» Constança sente-se no lugar de Ilsa Lund perante Rick Blaine que é aqui Pedro. Sobeja o marido de Ilsa no filme; sobeja Inês no livro de Vítor Serpa. E fica a moral da história: «Nós somos como as folhas. Vamos para onde o vento manda. A culpa é do vento. Não é nossa.»

(Editora: Dom Quixote, Capa: Rui Garrido, Foto: André Alves)

Intermitência

“O que me faz preferir-te em relação às outras é o facto de ser apertado”, digo, na ressaca do prazer, a N. “Sim, eu sei que o meu sexo é apertadinho”, responde-me ela, entre orgulho e satisfação. “É-o, sem dúvida. Mas, na verdade, estava a referir-me ao meu orçamento. Não dá, mesmo, para investir em melhor”, explico.

Calvário / Hospital de Santa Maria

Sobretudo raparigas a caminho

da Faculdade de Letras e do Hospital.

Procuram as caras conhecidas

colegas de turma ou de lar

principalmente em Outubro

quando tudo está no princípio

não há ainda rotinas diárias

e os fins de semana

não são para estudar.

Olham o relógio mas é do trânsito

o maior atraso da sua vida.

Guardam desta confusão

uma relativa harmonia:

eléctricos, autocarros, táxis,

no atropelo ordenado do código

e das regras do trânsito.

Anos depois esquecem tudo

numa terra longe daqui:

darão aulas, irão à noite ao café,

beber uma respeitosa bica

com os maridos e os pequenos filhos.

Nada deixaram neste percurso

Também nada levaram

(São secos manequins).

San Marco

Eu vi os quatro cavalos de Veneza

A boiar mesmo no centro da praça

A água tinha tapado toda a beleza

E trouxe à luz da arcada a desgraça

Eu vi os quatro cavalos tão perdidos

Como a cadeira de praia ou o chapéu

Eles fogem e sentem-se perseguidos

Pelo mar que quase se colou ao céu

Eles vieram à procura de um abrigo

Impossível numa praça já inundada

Na solidão podem contar só consigo

Os turistas fugiram em debandada

Ninguém tocará os sinos da catedral

Neste pânico de fugirem à água alta

Morte em Veneza, aviso de Carnaval

Dias depois só um Sol lhes fará falta

Nazaré Faina

Datado de cinquenta e dois este postal

De quem pergunta pela saúde da avó

Para poder passear tranquila no areal

No fim das férias de quem se sente só

Porque o resto da família pode esperar

Vinte e nove de Agosto era este o dia

Saudades num postal à beira do mar

Com retrato dum trabalho em sintonia

Entre os homens que dirigem animais

E os barcos já na linha de rebentação

O abegão pica as duas vacas desiguais

E comanda com a ponta do aguilhão

Este postal num selo de cinco tostões

Traz notícias duma dor em segredo

Na praia da Nazaré nascem as razões

Para umas férias de angústia e medo

Vinte Linhas 481

Os sonhos andarilhos de Ruslam Botiev

Há um homem que todas as manhãs sacode o sono e afasta do olhar as poeiras fixas dum quotidiano marcado pelas suas cores mais cinzentas e repetidas.

Atravessa o Rio Tejo de comboio numa ponte cujos pilares lhe parecem de luz e não de aço americano.

Traz debaixo do braço os seus sonhos tal como os viu nascer na Mongólia natal. Cada quadro, cada esboço, cada desenho, cada pormenor, por mais discreto que pareça, faz parte integrante de um mundo interior ainda por desvendar.

Que sabemos nós dos sonhos fechados nas malas de todas as viagens deste homem capaz de falar várias línguas e ainda mais a linguagem das cores e das proporções das linhas por entre as cores?

Nunca saberemos. Os sonhos do artista da Mongólia que se fixou no Largo do Carmo em Lisboa permanecem na penumbra da verdade por revelar. O seu sentido e a sua direcção não constam dos passaportes ou outros documentos oficiais. A sua natureza é volátil e frágil como a chuva breve que o sol ardente acabou por secar em poucos minutos no passeio em frente ao Quartel do Carmo.

O motivo à vista deste trabalho é a ponte «25 de Abril» mas Ruslam Botiev faz todos os dias uma ponte maior, unindo em silêncio Portugal e a Mongólia, os seus cavaleiros e os nossos valados nas lezírias e nas charnecas ligando assim a água da Beira Tejo à secura das planícies de Além Tejo. Na sombra do quiosque do Largo do Carmo cabe todo o Mundo de Ruslam Botiev. Bom dia Portugal! Bom dia Ruslam!

Um livro por semana 182

«Cópula e outros poemas notáveis» de Luís Filipe João

Luís Filipe João (n. 1949) publicou em 1981 a primeira edição deste livro que surge agora numa segunda edição aumentada com mais 23 páginas de texto e ilustração.

Entretanto publicou em 1994, 1996 e 1999 mais três títulos: «Chocolate em repouso», «Os revólveres de Schopenhauer» e «Poemas práticos».

Da primeira parte do livro lemos de novo o início do poema «Cópula»:

«Ejaculante seda / encrespada esfíngica pele rutilante de ébano / violando sólido aflito clítoris / o pagem corpo endereçando ionizante / de aragem insuspeita abrupta ruptopénis lento / intumescido afagar de pétalas denteando o seráfico dédalo / alvinescente no deleite escorrendo carícia (…)»

Há na segunda parte do novo livro um outro ritmo, mais sincopado e breve:

«Amanhã mil nervos. / Um cavalo branco ou negro de vento / Me levará para o / Mosteiro do silêncio. / A espada repousará no esquecimento».

Os novos poemas prolongam esse anterior encontro do Homem e da Mulher:

«Somos puros / chove granizo / nos teus dentes. / Os joelhos aceleram / a luz sem regras. / A oração começa nos olhos / da libelinha».

Pode ser uma oração mas esse lugar pode ser o novo nome do poema: «A poesia é o segredo / guardado na estrela / prestes a explodir.»

(Edições MIC, Colecção Salamandra, Desenhos: H. Mourato e Fernando Grade)

Dixit

“Não é por seres, agora, uma mulher viúva que vou deixar de te respeitar, e sobretudo ao teu falecido marido, tal como respeitava antes de esta tragédia ter acontecido. Nada se vai alterar. Fica então, desde já, definido que continuaremos a encontrar-nos às escondidas.”

Vinte Linhas 480

Vergílio Alberto Vieira – Um livro descoberto por acaso

Numa casa cheia de livros, mesmo numa casa onde desde 1978 todas as semanas entram pacotes de livros, de vez em quando ainda acontece uma surpresa. Descubro por mero acaso um livro de Vergílio Alberto Vieira (n.1950) cujo título é «O Livro dos desejos» e tem data de 1994. Um poeta é sempre o poeta mesmo quando escreve sobre a guerra («Chão de Víboras») ou sobre os desejos. Releio o poema de abertura do livro:

«Abrem-se / como pérolas / à primeira luz do dia / os desejos.

Em sonho / Ganham forma e cor.

E / leves / mil vezes leves / ondulam na transparência azula das águas.

Quem / nesse ferido mar / ainda não ouviu bater um coração?»

O livro foi oferecido à minha filha mais nova então com nove anos. Hoje, 16 anos passados, estou curioso em saber como lerá ela este poema sobre Fernando Pessoa:

«P´ra fingir esquecer / Quem de si tem dó / Meteu-se a beber / E a outros poetas ser / Para não estar só.

Por essa razão / Corria em Lisboa / Que a sua paixão / Fora essa ilusão / De não ser pessoa.»

Um pequeno livro (Editorial Caminho) traz, afinal, dentro das suas 51 páginas todo um mundo de ternura que vim a descobrir de modo inesperado esta manhã.

Vinte Linhas 479

Essa palavra «rebotalho» nunca está em desuso

A propósito de um palermazão que apareceu aqui no «post» sobre a Costa Nova utilizei a palavra «rebotalho» quando me dirigia à Sinhã. Vale a pena ver o contexto da palavra no dicionário da Sociedade da Língua Portuguesa. Começa por referir o uso mais comum da palavra quando usada num estabelecimento comercial: «rebotalho – restos inúteis, cigalho, coisa sem valor, refugo». Segue-se um segundo sentido: «rebotalho – pessoa sem merecimento pessoal, sem categoria social». Por fim o ponto alto: «rebotalho humano – conjunto de pessoas sem valor mental ou moral, pobres, miseráveis, desprezíveis sob vários aspectos». Existe também um adjectivo: «rebotalhado – atrasado, inferior, de menor valor».

O palermazão do «post» sobre a Costa Nova faz parte do rebotalho humano de que fala o Dicionário coordenado por José Pedro Machado. Não é o facto de ser utilizador da Internet que o faz menos pobre, menos desprezível, menos miserável. A chamada democraticidade do meio não lhe dá o direito de vir para aqui espojar-se da sua burrice. A bosta que ele tentou atirar para nós não saiu da sua massa encefálica nem vai sair nos tempos mais próximos.

Basta ver filmes dos anos 40 para perceber como a palavra «pastora» no sentido de «pasta» ou «dinheiro» surge na fala dos actores. Hoje ninguém se lembra mas há 60 andava pelo Parque Mayer e era muito popular porque os dos autores do Parque eram argumentistas dos filmes. Mas «rebotalho» não vai passar de moda porque há sempre mais um palermazão que aparece a coberto da democracia da Internet.

Intermitência

“Ainda bem que trouxeste, hoje, roupa interior negra”, digo a M., semi-nua diante de mim. “Excita-te, é”, pergunta-me ela, ao mesmo tempo em que passa as mãos pelos mamilos que adivinho erectos. “Não. Mas pressinto que o meu sexo, hoje, está morto. Foi uma excelente opção teres vindo de luto”, explico.

A varanda de Pilatos

(o caso very-light 14 anos depois)

Vinha Rui Mendes em festa

Num bilhete que ele trazia

Uma gente que não presta

Deu-lhe a morte nesse dia

A varanda de Pilatos

É na Praça da Alegria

Visto isso mais os actos

Ninguém faz da noite dia

Ninguém faz a obrigação

Todos fogem dos sarilhos

Há que saber dar a mão

Às mãos frias dos filhos

Ninguém faz o seu dever

Ninguém segue o preceito

As lágrimas duma mulher

Não cabem dentro do peito

Por duas vezes negada

A razão de uma sentença

Eles fingem que não é nada

E dormem na indiferença

Fizeram os jogadores

Das camisolas um leilão

Vieram logo os doutores

À procura duma posição

Como se esta simpatia

Trazida pelos jogadores

Tivesse nascido um dia

Na cabeça dos doutores

Rui já morreu três vezes

Não é uma ideia confusa

Uma viram os portugueses

As outras em cada recusa

Nenhum dinheiro fazia

Um preço da sua vida

Mas na Praça da Alegria

O Zero é regra e medida

E assinam os contratos

No meio duma euforia

A varanda de Pilatos

É na Praça da Alegria