Arquivo da Categoria: VISITAS ANTIGAS:

Dixit


“O verdadeiro problema da humanidade é uma insuficiência gritante ao nível dos conhecimentos de geometria. Na realidade, apesar de ser movido pelas suas bolas (circulares na sua concepção geométrica), o homem continua a ser quadrado na sua forma de observar o mundo. Tudo para conseguir chegar a uma posição horizontal sobre um rectângulo.”

Um livro por semana 181

«Instrumentos de Sopro» de Ruy Ventura

Ruy Ventura (n. 1973) estreou-se em 2000 com «Arquitectura do Silêncio» (Prémio Revelação da APE) e tem neste recente «Instrumentos de Sopro» o seu sétimo título como poeta. Não se trata aqui de instrumentos musicais (trompete, trompa, cornetim, trombone, saxofone, órgão, acordeão ou harmónica) mas de memórias e reflexões sopradas ao poeta por monumentos, esculturas, pinturas, moedas, estelas funerárias ou ruínas. Um exemplo: na rua de São Julião em Lisboa uma igreja foi transformada em garagem de um Banco. No altar surgiu o deus Mamon em vez do Rei dos Reis e esta é a resposta do poema:

«a vizinhança não poderia consentir tal afronta / (apesar do incêndio, a vida ressuscitara / entre velas, mármores e frontais) / era preciso consumir de novo / a brancura do corpo / deixando apenas os ossos / e uma pele brilhante / mas ressequida».

«a incandescência das vozes / foi devorada pela incandescência dos motores. no trono / Mamon reina agora / sobre a falsidade da fachada».

«noutro lado – taberna, quarto / de cama, teatro ou sala de jantar. / mudaria o diálogo / mas não mudaria o povoamento».

«aqui, Mamon escarra nas paredes. / poderia ser de outro modo? / o dinheiro suja o olhare sem mistério».

(Edições Sempre em Pé, Capa: Nuno de Matos Duarte, Prefácio: C. Ronald)

Balada da Costa Nova para C. S.

Há no olhar de Clarinha

A paleta em dimensão

Na Costa Nova vizinha

Todas as cores do Verão

Entre o azul deste lado

E na praia areia trazida

Entre vermelho pintado

Todo o cinzento da vida

Depois verde esperança

Amarelos e castanhos

Numa rua que não cansa

Casas de vários tamanhos

Costa Nova, Arte Nova

Catálogo de cores diversas

Cada casa é uma prova

De várias artes dispersas

Da praia do Furadouro

Até ao Poço da Cruz

As areias são de ouro

E as algas são de luz

Moliço que enche a ria

Como o sal desta salina

Dá trabalho todo o dia

Aos olhos desta menina

Intermitência

“Vim aqui, hoje, para saciar o desejo, imenso e já antigo, de te abrir as perninhas”, revelo, sinceridade e vontade, a N. “Também já há muito que o queria. Anda. Vem”, ouço. E, sem perder tempo, retiro a faca do bolso e começo a encostá-la sensivelmente a meio de uma das pernas. “Preferes que comece por abrir a direita ou a esquerda”, pergunto.

Balada da Rua de Baixo

Rua de Baixo, meu mundo

Onde eu regresso cansado

Quando o olhar é profundo

Já andou por todo o lado

São casas sem ninguém

De famílias desligadas

Não se ouve a voz da mãe

Na névoa das madrugadas

Meu berço e minha escola

Minha casa e minha igreja

O amor não pede esmola

Nas esquinas da inveja

Minha paisagem saudosa

Povoada por destroços

Duma sede mais gasosa

Que a água destes poços

Filarmónica formada

Manhã cheia de brancura

Há festa não tarda nada

Na rua desta amargura

Sete ondas repetidas

São sete beijos do mar

Na areia das nossas vidas

Já só podemos cantar

Pode-se cantar um fado

Feito só de melodia

Um homem fica calado

Ao ver a fotografia

Minha rua inicial

A vida, anos primeiros

Onde passou triunfal

A paixão dos baleeiros

Vinte Linhas 478

A festa de despedida de Iordanov

Ele terá sido o mais português dos búlgaros que passaram pelo futebol português. Ontem à noite também lá estive em Alvalade para a festa de despedida. Foi engraçado ver algumas «barriguitas» de jogadores que ainda sabem colocar a bola a 40 metros quando é preciso. Viram-se golos para todos os gostos – até um auto-golo de André Cruz, coisa rara num predestinado, ele que foi o melhor jogador do Torneio de Futebol dos Jogos Olímpicos de Seoul em 1988. Não sei porquê (não li jornais) a verdade é que não vi em campo o Balakov, o responsável pelo único atrito que envolveu o Iordanov. Muita gente lá dentro do Sporting achava (e com razão) que Balakov prejudicou muito o Juskowiak, ignorando-o muitas vezes para passar a bola ao seu compatriota Iordanov.

Ora o Juskowiak tinha sido apenas o melhor jogador do Torneio de Futebol dos Jogos Olímpicos de Barcelona em 1992. Mas tinha o azar de ser polaco, André de seu nome próprio, coisa que o prejudicava grandemente perante Balakov, o maestro que eu vi estrear-se num jogo da Taça de Portugal contra o Desportivo de Peniche.

Foi uma festa cheia de nostalgia. A festa em si só aconteceu porque um Tribunal deu razão ao jogador. Por vontade dos «responsáveis» leoninos a festa não teria acontecido. Mesmo estando prevista no contrato celebrado entre as duas partes. Depois foi a questão dos ausentes: pelo Balakov lembrei-me do Juskowiak, o elegante jogador que foi prejudicado pela aliança entre búlgaros. Na altura ninguém se chegou à frente para defender os interesses do Sporting. Um dia Sousa Cintra desabafou para mim e para Carlos Pinhão – «o Sporting não é uma família, é um grupo de famílias…»

Intermitência

“És bom na cama”, pergunta, esfomeada, a mulher ao jovem de aspecto másculo encostado, entre as luzes que brilham alto e a música que toca em raios de suor, a si. “Até agora nunca nenhuma mulher se queixou”, responde, confiante e orgulhoso, ele. E, poucos minutos mais tarde, ali estão, os dois, nus e excitados, sobre os lençóis molhados. Sentem-se, ambos, surpreendidos. Ela por, ao fim de apenas dois minutos, ele já ter chegado ao orgasmo. E ele por, finalmente, ter perdido a virgindade.

Vinte Linhas 477

Dissertação breve para as vozes de Isabel e de Clara

Há, na tonalidade da voz de Isabel, o esplendor da pedra, a humidade das neblinas e a força da Terra-Mãe que multiplica nas colheitas abundantes toda a esperança das sementeiras. No arraial da aldeia da Serra havia todas as coisas da terra e todos os produtos da mão do homem: pão e cestos de vime, compotas e vasos de jovens plantas, feijão e tapetes tecidos à noite num tear, batatas e bolos caseiros para dias de festa.

Ligando tudo e todos, a voz de Isabel prolonga a harmonia das terras e dos homens na manhã de Maio. Canta devagar como quem reza uma oração a ligar de novo o que o tempo, a distância e a morte separaram no coração de todos nós.

Há, na tonalidade da voz de Clara, o clamor das ondas na praia e a paciência vagarosa do vento nas dunas. Depois do prazer de palmilhar as cores vivas e a geometria das casas da Costa Nova, bebemos um café no autocarro-bar. Em vez do cobrador um empregado traz os cafés e a conta. Entre os estudantes com o futuro no olhar e as visitas resignadas à doença que se prolonga no Hospital todas as semanas, a voz de Clara instala um discurso de ternura. Nele circulam memórias vivas de poemas e de canções, casas clandestinas onde vinham dormir amigos de passagem, vidas cruzadas com gente que não morre porque não se esquece no coração de todos nós.

Na geografia sentimental deste dia é dupla a ligação entre Manhouce e Aveiro, entre a voz de Isabel e a voz de Clara: além da massa líquida do Rio Vouga permanece a massa sonora da voz de José Afonso que nasceu em Aveiro, andou pelo Mundo e sempre cantou as canções da voz do Povo das aldeias da Beira Alta.

Segundo poema para Manuel Fernandes (1986)

Não lhe podem já tirar tudo

Mas escondem-lhe o nome, os golos

As vozes de quem, nas humildes casas

Lhe grita o nome à volta do som dum rádio

Nas tardes interrompidas dum quotidiano igual.

Não são homens – são sombras, escondem o rosto

Furtivos, fechados nos gabinetes, nos automóveis

Roubam os sonhos, decretam a morte civil

Dum jogador assim perseguido sem porquê.

Não lhe podem já tirar tudo

Ao menos ficam os troféus oficiais, as recordações

As homenagens mais particulares

As fotografias dos jornais e os abraços

Dos companheiros a correr do outro lado do campo.

Não são homens – são sinais dum castigo

Que se perde no fundo do tempo, longe

Lá onde começou a primeira de todas as guerras

Lá onde tábuas de morte se pregaram num coração.

Dixit

“A nossa complementaridade, enquanto equipa, é quase perfeita. Aquelas que são as minhas principais qualidades são, em ti, enormes defeitos. Mas, por outro lado, aqueles que são os meus principais defeitos são, em ti, também, os teus principais defeitos.”

Equipa de Juniores (área de serviço da auto-estrada)

Minuciosa caravana atrás de nós

Seguindo todos os pontos da viagem

A prova de que nunca estamos sós

Até na área de serviço, na paragem

Minuciosa caravana pela estrada fora

Paternal feminina permanente ansiosa

Nossos passos vigiados a toda a hora

Entre a manhã fria e a tarde chuvosa

Procuram bolos e água suja americana

Na pressa de matar toda a sede reunida

A sua força está em viver uma semana

Como se nela estivesse toda a sua vida

Todos quererão jogar no Barcelona

Todos querem seguir os mais velhos

Nem todos porém acabam a Maratona

Nem todos saberão ouvir conselhos

O autocarro é um grande berçário

Não deixaram ainda de ser crianças

Passam tempo a discutir o calendário

Juntam na voz todas as esperanças

Nós não estamos sós nestes caminhos

Nesta tarde que termina em trovoada

Sentimos o combustível dos carinhos

A empurrar o autocarro pela estrada

O segredo de Ourozinho

O segredo de Ourozinho

Está na luz do teu olhar

Que trouxe pó do caminho

Ao asfalto deste lugar

Nela veio a terra trazida

Batata, milho e centeio

As origens de uma vida

Onde não cabe o receio

Onde o futuro sonhado

Infância em pensamento

Não é o comboio lotado

Nem cidade de cimento

Na festa do padroeiro

Coração em pé de guerra

Santiago é o verdadeiro

Vértice entre rio e serra

Monumento ao emigrante

Pedra feita num abraço

Nossa vida é um instante

O caminho é só um passo

Na tua voz tão devagar

No seu timbre de metal

Chega o som do lagar

Com o azeite sem igual

No sabor destas castanhas

Vinho doce do teu Mundo

Vem o frio das montanhas

E o calor forte e profundo

E já noutra sonoridade

Mais alta que um moinho

A roda chega á cidade

No segredo de Ourozinho

Intermitência

“E deste, gostas”, pergunta-me, entusiasmada e viva, F., ao mesmo tempo em que aponta para a zona dos seios. “Sim, fica muito bem. Ainda melhor do que o modelo anterior”, respondo. “Óptimo. É maravilhoso saber que, ao contrário de todos os outros homens, não achas que o meu peito é demasiado grande”, confessa-me, feliz e aliviada. “Porque haveria de pensar isso”, pergunto-lhe, surpreso. E, alegres e de braço dado, abandonamos a loja especializada em pára-quedas.

Intermitência

“Obrigada, amor”, diz-me C., ao mesmo tempo em que experimenta os óculos de sol que acabo de lhe oferecer. “Mas não achas que são demasiado grandes para o tamanho do meu rosto”, pergunta-me. “Sim”, respondo. “Beneficiam-te, de facto, bastante.”

Vinte Linhas 476

Angústias – «aqui na América estes bichos não têm cedilhas nas máquinas de escrever»

A imagem a ilustrar o poema «Balda nocturna para Eduardina» era um bilhete-postal de 1910 com a igreja paroquial das Angústias, cidade da Horta. É óbvio que poderia ter escolhido outra imagem da Horta – a mais bela pequena cidade do Mundo, nas palavras do poeta Pedro da Silveira. Em 1968 conheci Isidro Espínola, meu colega de trabalho que pedia sempre emprestado o jornal A BOLA para ler as gordas alegando que o jornal não trazia os jogos do seu Clube, o Angústias. Mais tarde recebemos da Califórnia cartas dele com a particularidade de as cedilhas serem «vírgulas» batidas em cima dos «cês». Como ele escrevia «aqui na América estes bichos não têm cedilhas nas máquinas de escrever». Anos depois, numa digressão do Benfica à West Coast, Isidro Espínola apareceu como o salvador das malas perdidas dos encarnados. Sendo proprietário de uma agência de viagens, ao ver os compatriotas enrascados, encheu-se de brios, procurou, procurou e acabou por encontrar as malas da comitiva do SLB. Alfredo Farinha, nas páginas de A BOLA, lembrando o sportinguismo de sempre e para sempre do Espínola, sublinhou a contradição: foi um leão que alugou uma pick up de caixa aberta para trazer as malas perdidas das águias entre aplausos dos elementos da comitiva. Por causa desta história procurei saber mais sobre o Angústias e tenho a fotobiografia do Clube, um trabalho de Carlos Lobão. Aí descobri que um clube de futebol pode ser (e é) muito mais do que uma sede, uma bandeira, um campo e um emblema. Pode ser, como nesta foto, orgulho da freguesia, seus residentes e seus emigrantes – que partiram mas ficaram com o coração preso às cores do Angústias.

Intermitência

“Só vejo uma forma de eliminar esta pele eriçada, arrepiada”, explico a H., abraço apertado. “Mas tenho medo de estar, ao fazê-lo, a ir longe de mais. Afinal de contas é a primeira vez que estamos juntos. A primeira vez que estou aqui, em tua casa, a dois”, prossigo. “Não tenhas medo de o fazer. Vai. Faz”, ouço, lábios em sussurro. “Dá-me só um segundo”, peço, palavras acarinhadas. E, num movimento rápido e audaz, fecho a janela do quarto.

Vinte Linhas 475

Óbidos – «Theatron» na Galeria nova Ogiva

Pedro Valdez Cardoso (n. 1974) expõe regularmente desde 2005 e apresenta em Óbidos (Galeria nova Ogiva) uma exposição (Theatron) patente ao público até 16-5-2010. Trata-se de um conjunto de peças executadas com materiais de uso quotidiano e perecível como tecidos, alumínios, cartão, papel, cordão, adesivo, arame ou atacadores. Com elas o autor questiona o Homem entre o precário da vida e o inevitável da morte. Ou, nas palavras do próprio autor a Hugo Dinis, autor da apresentação do livro-catálogo: «No caso de Óbidos a minha preocupação foi seleccionar peças que pudessem jogar com o contexto da vila medieval de estrutura militar. Interessava-me ter peças que se relacionassem com essa imagética e que jogassem com possíveis leituras historicistas.»

A galeria nova Ogiva merece só por si uma visita: em 1970 na sua inauguração José Aurélio trouxe obras de 35 artistas: Alberto Carneiro, Ângelo de Sousa, António Sena, Armando Alves, Artur Rosa, Aurélio, Carlos Calvet, Charrua, Conduto, Costa Pinheiro, Eduardo Luís, Eduardo Nery, Escada, Espiga, Helena Almeida, João Abel Manta, João Cutileiro, João Vieira, Joaquim Rodrigo, Joaquim Vieira, Jorge Martins, Jorge Pinheiro, José Rodrigues, Lourdes Castro, Manuel Baptista, Maria Velez, Menez, Noronha da Costa, Nuno de Siqueira, Palolo, René Bertholo, Rogério Ribeiro, Sá Nogueira, Vespeira e Zulmiro. Óbidos está muito perto de Lisboa, tem a auto-estrada à porta e a responsável pela organização (Ana Calçada) tem o bom gosto de colocar nos diversos espaços museológicos de Óbidos meninas bonitas, competentes e simpáticas.