Vinte Linhas 477

Dissertação breve para as vozes de Isabel e de Clara

Há, na tonalidade da voz de Isabel, o esplendor da pedra, a humidade das neblinas e a força da Terra-Mãe que multiplica nas colheitas abundantes toda a esperança das sementeiras. No arraial da aldeia da Serra havia todas as coisas da terra e todos os produtos da mão do homem: pão e cestos de vime, compotas e vasos de jovens plantas, feijão e tapetes tecidos à noite num tear, batatas e bolos caseiros para dias de festa.

Ligando tudo e todos, a voz de Isabel prolonga a harmonia das terras e dos homens na manhã de Maio. Canta devagar como quem reza uma oração a ligar de novo o que o tempo, a distância e a morte separaram no coração de todos nós.

Há, na tonalidade da voz de Clara, o clamor das ondas na praia e a paciência vagarosa do vento nas dunas. Depois do prazer de palmilhar as cores vivas e a geometria das casas da Costa Nova, bebemos um café no autocarro-bar. Em vez do cobrador um empregado traz os cafés e a conta. Entre os estudantes com o futuro no olhar e as visitas resignadas à doença que se prolonga no Hospital todas as semanas, a voz de Clara instala um discurso de ternura. Nele circulam memórias vivas de poemas e de canções, casas clandestinas onde vinham dormir amigos de passagem, vidas cruzadas com gente que não morre porque não se esquece no coração de todos nós.

Na geografia sentimental deste dia é dupla a ligação entre Manhouce e Aveiro, entre a voz de Isabel e a voz de Clara: além da massa líquida do Rio Vouga permanece a massa sonora da voz de José Afonso que nasceu em Aveiro, andou pelo Mundo e sempre cantou as canções da voz do Povo das aldeias da Beira Alta.

5 thoughts on “Vinte Linhas 477”

  1. Talvez este silêncio more em ti
    nesse breve instante do teu ser
    e antes de subir ao pó antigo
    falo-te de palavras e de gestos
    Aqui será então eternidade
    e o que não tem nome será dito
    seremos filhos das estrelas e dos rios
    do mundo sem tempo nem lugar

    clara

  2. Obrigado Clarinha, eu é que agradeço a oportunidade de ter vivido aqueles minutos felizes junto ao mar depois de uma manhã feliz no meio da serra. Obrigado!

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