Vinte Linhas 476

Angústias – «aqui na América estes bichos não têm cedilhas nas máquinas de escrever»

A imagem a ilustrar o poema «Balda nocturna para Eduardina» era um bilhete-postal de 1910 com a igreja paroquial das Angústias, cidade da Horta. É óbvio que poderia ter escolhido outra imagem da Horta – a mais bela pequena cidade do Mundo, nas palavras do poeta Pedro da Silveira. Em 1968 conheci Isidro Espínola, meu colega de trabalho que pedia sempre emprestado o jornal A BOLA para ler as gordas alegando que o jornal não trazia os jogos do seu Clube, o Angústias. Mais tarde recebemos da Califórnia cartas dele com a particularidade de as cedilhas serem «vírgulas» batidas em cima dos «cês». Como ele escrevia «aqui na América estes bichos não têm cedilhas nas máquinas de escrever». Anos depois, numa digressão do Benfica à West Coast, Isidro Espínola apareceu como o salvador das malas perdidas dos encarnados. Sendo proprietário de uma agência de viagens, ao ver os compatriotas enrascados, encheu-se de brios, procurou, procurou e acabou por encontrar as malas da comitiva do SLB. Alfredo Farinha, nas páginas de A BOLA, lembrando o sportinguismo de sempre e para sempre do Espínola, sublinhou a contradição: foi um leão que alugou uma pick up de caixa aberta para trazer as malas perdidas das águias entre aplausos dos elementos da comitiva. Por causa desta história procurei saber mais sobre o Angústias e tenho a fotobiografia do Clube, um trabalho de Carlos Lobão. Aí descobri que um clube de futebol pode ser (e é) muito mais do que uma sede, uma bandeira, um campo e um emblema. Pode ser, como nesta foto, orgulho da freguesia, seus residentes e seus emigrantes – que partiram mas ficaram com o coração preso às cores do Angústias.

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