Vinte Linhas 481

Os sonhos andarilhos de Ruslam Botiev

Há um homem que todas as manhãs sacode o sono e afasta do olhar as poeiras fixas dum quotidiano marcado pelas suas cores mais cinzentas e repetidas.

Atravessa o Rio Tejo de comboio numa ponte cujos pilares lhe parecem de luz e não de aço americano.

Traz debaixo do braço os seus sonhos tal como os viu nascer na Mongólia natal. Cada quadro, cada esboço, cada desenho, cada pormenor, por mais discreto que pareça, faz parte integrante de um mundo interior ainda por desvendar.

Que sabemos nós dos sonhos fechados nas malas de todas as viagens deste homem capaz de falar várias línguas e ainda mais a linguagem das cores e das proporções das linhas por entre as cores?

Nunca saberemos. Os sonhos do artista da Mongólia que se fixou no Largo do Carmo em Lisboa permanecem na penumbra da verdade por revelar. O seu sentido e a sua direcção não constam dos passaportes ou outros documentos oficiais. A sua natureza é volátil e frágil como a chuva breve que o sol ardente acabou por secar em poucos minutos no passeio em frente ao Quartel do Carmo.

O motivo à vista deste trabalho é a ponte «25 de Abril» mas Ruslam Botiev faz todos os dias uma ponte maior, unindo em silêncio Portugal e a Mongólia, os seus cavaleiros e os nossos valados nas lezírias e nas charnecas ligando assim a água da Beira Tejo à secura das planícies de Além Tejo. Na sombra do quiosque do Largo do Carmo cabe todo o Mundo de Ruslam Botiev. Bom dia Portugal! Bom dia Ruslam!

5 thoughts on “Vinte Linhas 481”

  1. Percebo as tuas palavras Francisco.

    Eu também conheço o Ruslam Botiev. Ele é uma explosão de criatividade por via de um entendimento, a meu ver, perfeito, do que o rodeia. Isto para não falar daquele traço…Fantástico

  2. Meu caro Zé do Carmo:
    Não seria possível organizar, por esta via, uma exposição/ venda das obras do seu amigo Mongol e também do outro, japonês do Príncipe Real ?
    É que qua ndo se passa por lá ” eu sou amigo do José do Carmo Francisco e peço-lhe uma atenção” nem sempre estão ou raramente estão-
    Um abraço para o poeta e para os pintores.
    Jnascimento

  3. O Ruslam participou há pouco tempo numa exposição da Universidade de Lisboa e teve até direito a um texto do Professor Vítor Serrão. O Nagashima ficou sem motivo à vista para pintar: a «quadrilha selvagem» da CML fez do antigo jardim um cemitério de árvores mortas mas esqueceu-se da casa mortuária.

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