Um livro por semana 182

«Cópula e outros poemas notáveis» de Luís Filipe João

Luís Filipe João (n. 1949) publicou em 1981 a primeira edição deste livro que surge agora numa segunda edição aumentada com mais 23 páginas de texto e ilustração.

Entretanto publicou em 1994, 1996 e 1999 mais três títulos: «Chocolate em repouso», «Os revólveres de Schopenhauer» e «Poemas práticos».

Da primeira parte do livro lemos de novo o início do poema «Cópula»:

«Ejaculante seda / encrespada esfíngica pele rutilante de ébano / violando sólido aflito clítoris / o pagem corpo endereçando ionizante / de aragem insuspeita abrupta ruptopénis lento / intumescido afagar de pétalas denteando o seráfico dédalo / alvinescente no deleite escorrendo carícia (…)»

Há na segunda parte do novo livro um outro ritmo, mais sincopado e breve:

«Amanhã mil nervos. / Um cavalo branco ou negro de vento / Me levará para o / Mosteiro do silêncio. / A espada repousará no esquecimento».

Os novos poemas prolongam esse anterior encontro do Homem e da Mulher:

«Somos puros / chove granizo / nos teus dentes. / Os joelhos aceleram / a luz sem regras. / A oração começa nos olhos / da libelinha».

Pode ser uma oração mas esse lugar pode ser o novo nome do poema: «A poesia é o segredo / guardado na estrela / prestes a explodir.»

(Edições MIC, Colecção Salamandra, Desenhos: H. Mourato e Fernando Grade)

11 thoughts on “Um livro por semana 182”

  1. Eu afianço que daqui por 50 anos ninguém se recordará do ruptopénis com falta de pilhas, nem do livro, nem do autor. Alguém recorda do Romaria do missionário que arredou Pessoa e Mensagem do 1º lugar do concurso do SPN? Só se for pela anedota.

  2. “A oração começa nos olhos / da libelinha”

    Da Sinhãzinha, dirá mais logo o Essa de Ceirós.

  3. O ceguinho e o bolchevique

    (…)
    O regulamento destinava dois prémios a obras poéticas, sendo o primeiro, no valor de cinco mil escudos, atribuído a um livro não inferior a 100 páginas. A edição da “Mensagem” que Pessoa apresentou a concurso tem precisamente – e não será coincidência – 100 páginas numeradas, mas incluindo as que apenas ostentam títulos, subtítulos e epígrafes. O estratagema não pegou e a obra foi eliminada do concurso pelo respectivo júri, que, no entanto, terá apreciado o livro, já que usou do subterfúgio de o considerar um só poema (juízo, aliás, aceitável) para o poder premiar na segunda categoria, dotada de mil escudos e relativa a poemas soltos. Por intervenção posterior de Ferro, Pessoa acabaria por receber os mesmos cinco contos que couberam ao vencedor da categoria principal, o jovem missionário Vasco Reis, de 23 anos, que se candidatara com o livro Romaria.

    Sabendo-se qual foi a posteridade da “Mensagem” e do seu autor, não deixa de ser caricato pensar que rivalizou com um livro como “Romaria”. Podia até ser uma estimável obra esquecida de um autor a quem o tempo não fez justiça. Mas não é. É um drama em verso absolutamente ridículo, protagonizado, entre outros, por um ceguinho, um bolchevique e uma entrevadinha.
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  4. Vale a pena transcrever um diálogo entre estes dois últimos, que até é dos trechos menos soporíferos do livro. Grita o bolchevista, dirigindo-se ao seu “macho esquelético e lazarento”: “Arre macho! up! up! vais a dormir, diabo!/ Tens vocação p”ra frade e ócios de nababo!/ Porca de vida a minha!” A entrevadinha procura aquietá-lo: “Ó filho, tem paciência!/ A Dor é sempre um bem nas mãos da Providência!…” Mas o marido não é homem que agradeça um conselho: “Caladinha, mulher! ou temos salsifré!/ Se vês que o macho arreia, então vai tu a pé…//… Um raio duma velha escanifrada e má,! A qu”rer-me converter… E esta?! Vejam lá!” Já o ceguinho, vem-se a saber, era afinal Santo António de Lisboa, e não só cura as maleitas da entrevadinha, como alcança converter o bolchevique, que, na última página, já “resplandece de luz interior”.

    O mais espantoso é que o júri que escolheu este pastelão incluía quatro autores respeitáveis: a novelista e dramaturga Teresa Leitão de Barros, o poeta Acácio de Paiva, o já referido Mário Beirão e, pasme-se!, Alberto Osório de Castro, poeta de inegável talento, amigo íntimo de Camilo Pessanha, apreciador de Baudelaire e Verlaine, colaborador da Centauro e de outras revistas modernistas. Poderíamos imaginar que se limitou a subscrever a escolha dos outros jurados, para não criar conflitos. Nada disso. Fez questão de deixar escrito, na sua declaração de voto, que, ao ler Romaria, tivera “a sensação que produziria a aparição de um Cesário Verde ou de um António Nobre”. Acontece que este novo Nobre escrevia assim: “Com o dinheiro da ceia/ Vais comprar uma candeia./ Tem paciência, Zé Miguel!/ Antes sofrer a larica,/ Que andar sempre na botica.”

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  5. Quando esse júri, há três quartos de século, pegou na “Mensagem”, sem saber o que o esperava, começou por ler esta quadra, que abre o primeiro poema do livro: “A Europa jaz, posta nos cotovelos:/ De Oriente a Ocidente jaz, fitando,/ E toldam-lhe românticos cabelos/ Olhos gregos, lembrando. (…)” Compare-se com a primeira quadra de Romaria: ” – Sou ceguinho de nascença/ Deus o quis e foi por bem…/ Que não vejo assim no mundo/ Tanta dor que o mundo tem…” Já o júri do SPN nem essa desculpa tinha. Nenhum deles era ceguinho.”
    XXX

    Excerto de um texto de Luís Miguel Queirós

  6. Lembro-me destes “ceguinhos” de cada vez que o jcf diz que fez parte do júri que premiou um poeta com olhos de libelinha e tomates a condizer.

  7. POEMAzinho inspirado na “ejaculante seda” e no coitado do “sólido aflito clítoris”. Ele há solidões que não são nada recomendáveis.
    É assim:

    Tau-tau pela má poesia
    que revolve as entranhas
    provocando azia
    e metáforas estranhas

    Tau-tau e muitos tau-taus
    Que o ângulo recto ferve a 90º

    PS. Eh pá e ando eu a tentar deixar de beber…

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