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Encontrem a Deus, mas noutro trabalho qualquer

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Todos vimos há uns dias o presidente do BCP, Paulo Teixeira Pinto, enquanto lia no teleponto a declaração das suas melhores intenções com a OPA sobre o BPI. Que era tudo amigável, que nada o movia contra ninguém, que queria era espalhar amor pelo mundo financeiro afora, jurava o senhor com o queixo quase trémulo de tanta linda intenção.
Afinal, o sucessor de Jardim Gonçalves é membro convicto da Santa Máfia, a Opus Dei; e a sua surpreendente nomeação para o cargo talvez não tenha sido alheia a esse facto. Sabemos também que tal organização tem como lema “encontrar a Deus no trabalho”. Logo, ficaria mal ao sr. presidente incluir no seu trabalho operações hostis e outras manigâncias de semelhante jaez.
Dias depois, a mesmíssima santa alma confirmou que a concretização da sua OPA levará ao despedimento de 3.000 trabalhadores. “É perto desse valor”, disse ele, não sei se mais uma vez acompanhado pelo seu piedoso tremor de queixo.
Admitir a intenção de chutar com 3.000 famílias para parte incerta talvez merecesse mais do que esta seca anuência, em termos de “valor”. Sobretudo para quem milita numa seita que quer promover uma “vida plenamente coerente com a fé nas circunstâncias vulgares da existência humana, especialmente através da santificação do trabalho.”
Mais: o sr. presidente é um dos animadores da folclórica Associação Cristã de Empresários e Gestores de Empresas, que se rege por um “Código de Ética” já entregue a Bento XVI, suponho que em cerimónia de adequada elevação espiritual. Este “Código” impõe aos signatários “o respeito e a promoção do projecto de vida dos trabalhadores”.
Naturalmente, compreendo que o objectivo máximo de um gestor possa ser realizar valor para os seus accionistas, ignorando tudo o mais. Desagrada-me é o farisaísmo desta malta que nos fala em santidade, em Deus e em Ética para no fim se revelar tão gulosa (não esquecer que a administração do BCP é recordista nacional de vencimentos) e indiferente à sorte dos seus colaboradores como o mais amoral incréu.
À laia de consolação, resta-me esperar que surja mesmo uma contra-OPA do BPI e que o sr. presidente se veja recambiado para o mosteiro. Lá, poderá procurar a santificação do trabalho sem dar cabo da vida a ninguém.

Mitos urbanos

Quando passo pelas filas de entrega do IRS lembro-me sempre dos discursos dos políticos sobre a produtividade do país. Sempre a pedir mais produtividade, mais produtividade. É verdade. E a melhor maneira de começar era evitando que os portugueses tenham de tirar um dia de férias para pagar impostos. Talvez evitando que se perca uma manhã inteira para fazer uma escritura. Uma tarde para instalar TV Cabo, outra para a electricidade e ainda outra por causa da água. Inscrever uma criança no colégio, pedir a renovação do bilhete de identidade, conseguir uma certidão de óbito. Não existe nada neste país que não custe menos de seis horas para conseguir. Nada! E dizem eles que o povo é pouco produtivo. Pouco produtivo? A verdade é que neste país, apesar das circunstâncias, ainda se consegue trabalhar. Não liguem. Estamos todos de parabéns. RMD

Nisto, há sempre a Esperança

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Esvaziar a caixa do «Lixo Electrónico» é um dos meus prazeres matutinos. Ofereço-me, cada dia, esse gesto simples, mas que reordena o mundo. Hoje, todavia, um dos ‘assuntos’ fazia-me olhinhos. Dizia «Escrita Criativa». Salvei-o da reciclagem. É isso. Se há sonho que me atormenta, é o de vogar criativamente pela escrita. Mas tratava-se de um curso em Lisboa, e vejo-me longe. Fiquei-me pelo fantasiar, o óbolo dos pobres.

Vi anunciado um curso de «escrita criativa» propriamente dita, destinado a «Escritores de gaveta que queiram mostrar e enriquecer os seus textos», a «Escritores no activo (incluindo também publicitários, jornalistas, argumentistas) que pretendam desenvolver técnicas de escrita literária», a «Escritores preguiçosos que precisem dum empurrãozinho». Enfim, quem de nós se sentirá excluído?

E vi que há outro curso, de «criação literária», em que o instrutor (neste caso instrutora) «utilizará um método próprio e original, visando o encorajamento dos candidatos à produção de prosa literária, com ou sem fins editoriais, através de conversas e conselhos que os ajudarão a desobstruir os sensores da consciência e a desinibirem-se, incentivando a extroversão por via da palavra escrita e libertando a imaginação». Ah, a desobstrução dos sensores (e a obstrução dos censores) da consciência! E o incentivar da extroversão! É um programa deslumbrante, além de eminentemente humano.

Houve, em fins dos anos 90, um «curso de escrita criativa», coordenado por João Louro, que desembocou no volume Jogging para Escribas, editado na Fenda. Aí se revelaram dois portentosos artistas: Margarida Fonseca Santos e Paulo Hasse Paixão.

A Margarida (diz-me o site da BN) publicou vários livros para crianças e orienta, por sua vez, ateliers de escrita criativa. Se houver chatices com o link, vá ao Google. Ela tem uma ‘página oficial’.

O Paulo (diz a mesma fonte) nada publicou, pelo menos em livro, pelo menos sob esse nome. Mas anda activo aqui pela esfera.

Batam, portanto, à porta da sociedade em epígrafe, aí para os lados da Esperança. Pois, da esperança.

[Nada disto é publicidade. Bom, é, mas ninguém ma encomendou.]

Inocentes

Há uma expressão que me irrita muitíssimo. É aquela que se costuma juntar aos feitos de um ditador facínora ou de um serial killer: “não sei quem matou X pessoas inocentes”. A expressão é sobretudo usada nos EUA e ainda há dias a ouvi a propósito do único suspeito de terrorismo que está a ser julgado pelos ataques do 11 de Setembro. “Pessoas inocentes” porquê? O que tem a inocência das vítimas a ver com a relevância dos crimes? Se as vítimas fossem culpadas (termo já de si difícil de definir) a sua morte seria menos grave? Parece-me evidente que não.

Marines salvam Jesus Cristo

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Segundo vi no meu blog favorito (clicando nesta imagem), vai ser realizado um filme heróico em que Jesus Cristo é salvo da cruz pelos marines. A super produção está a cargo do aclamado realizador Jonathon Mostow. O cineasta, autor do grande sucesso “U-571”, garante que “apenas especialistas vão conseguir perceber algumas discrepâncias históricas”.
Na Internet já circulam algumas das cenas mais fortes, para os cinéfilos aqui fica uma delas:
Artillery from the Pharisee emplacements ROARS overhead. Explosions SHATTER the air itself, and Brock SHOUTS into the Messiah’s ear:
Capt. Brock
Hey, Lord!
Jesus
What?!
Capt. Brock
There’s something I’ve always wanted to know..!
Jesus
What’s that, son?!
Capt. Brock
The ‘H’ in “Jesus H. Christ” — what’s it stand for?!
Christ chomps down on His cigar. He STANDS UP, staring, unblinking, into the withering MACHINE GUN FIRE that zips around His head.
Then He winds up and THROWS.
The object — all we can see is a small ball — SOARS overhead, then LANDS beside a Pharisee howitzer.
It EXPLODES! Enemy soldiers FLY through the air as the howitzer is consumed in a fireball!
Jesus
Stands for “hand grenade.”

O poste que podia ter sido um romance

Ontem voltei à Severa. Muito turístico, é certo. Mas a Severa é a Severa.

Entre cantos e guitarradas apaixonei-me por uma senhora de nome Lina Santos. Voz e canastro de polícia sinaleiro no porto de Lisboa. Está bom de ver que a Lina não era nenhuma Adelaide da Facada, mas o amor aconteceu ao primeiro fado.

Sentindo que me fazia sôfrego, a matrona dedica-me a “Rosa enjeitada”. Agradeci com tinto de Portalegre em cima da mesa. É para que voz não lhe doa, mandei que lhe dissessem. O bálsamo surtiu efeito e a cantadeira voltou ao centro do boteco, já sem xaile e mais afoita que nunca.

O guitarreiro, bem atento, já me fitava. “Amor de Inverno” pediu ela. “O fado do ciúme” insistiu ele. Logo se adivinhava que por causa da Lina a sala ainda ouvia uma “cegada”. E que noite seria com marialvisse da antiga, forcados de homens e toureiros de cornudos. Fiquei aguado.

Mas nem ela era a Severa nem eu o Conde. Desilusão! Da promissora contenda saiu o frouxo “Fado da Mariquinhas”. Poucos copos mais tarde findava a noite que o espectáculo, esse, há muito que tinha acabado. Abalei de volta às ruas do bairro alto pensando na Lina, no guitarrista e no romance que podia ter sido. Que se lixe. Fica poste. RMD

Dói-lhe a liberdade

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Berlusconi foi entrevistado por uma jornalista. Uma das poucas que ainda sobrevive nas televisões italianas. Não por acaso, a antiga presidente da televisão pública trabalha no canal menos visto da RAI, que foi esquecido pelo Cavalieri. Lucia Annunziata fez o que fazem, por todo o mundo democrático, os jornalistas. Fez perguntas difíceis, insistiu nelas quando o primeiro-ministro não respondeu e não deixou os insultos sem resposta. Habituado a longos e delirantes monólogos com os seus empregados das televisões privadas e dos dois principais canais estatais, Berlusconi levantou-se ao fim de 17 minutos. A decência e a coragem incomoda os cobardes. Annunziata afirmou, com ele já de pé: «não está habituado a ser entrevistado por jornalistas». Não por acaso, Annunziata não contou, como seria normal, com o apoio do Presidente da RAI. De alguns que, de vez em vez, se lembram que a liberdade de imprensa é a base de qualquer democracia, espero há anos por uma palavrinha sobre Itália, que fica aqui mesmo, na Europa. Mas bem posso esperar sentado.