O poste que podia ter sido um romance

Ontem voltei à Severa. Muito turístico, é certo. Mas a Severa é a Severa.

Entre cantos e guitarradas apaixonei-me por uma senhora de nome Lina Santos. Voz e canastro de polícia sinaleiro no porto de Lisboa. Está bom de ver que a Lina não era nenhuma Adelaide da Facada, mas o amor aconteceu ao primeiro fado.

Sentindo que me fazia sôfrego, a matrona dedica-me a “Rosa enjeitada”. Agradeci com tinto de Portalegre em cima da mesa. É para que voz não lhe doa, mandei que lhe dissessem. O bálsamo surtiu efeito e a cantadeira voltou ao centro do boteco, já sem xaile e mais afoita que nunca.

O guitarreiro, bem atento, já me fitava. “Amor de Inverno” pediu ela. “O fado do ciúme” insistiu ele. Logo se adivinhava que por causa da Lina a sala ainda ouvia uma “cegada”. E que noite seria com marialvisse da antiga, forcados de homens e toureiros de cornudos. Fiquei aguado.

Mas nem ela era a Severa nem eu o Conde. Desilusão! Da promissora contenda saiu o frouxo “Fado da Mariquinhas”. Poucos copos mais tarde findava a noite que o espectáculo, esse, há muito que tinha acabado. Abalei de volta às ruas do bairro alto pensando na Lina, no guitarrista e no romance que podia ter sido. Que se lixe. Fica poste. RMD

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