Inocentes

Há uma expressão que me irrita muitíssimo. É aquela que se costuma juntar aos feitos de um ditador facínora ou de um serial killer: “não sei quem matou X pessoas inocentes”. A expressão é sobretudo usada nos EUA e ainda há dias a ouvi a propósito do único suspeito de terrorismo que está a ser julgado pelos ataques do 11 de Setembro. “Pessoas inocentes” porquê? O que tem a inocência das vítimas a ver com a relevância dos crimes? Se as vítimas fossem culpadas (termo já de si difícil de definir) a sua morte seria menos grave? Parece-me evidente que não.

7 thoughts on “Inocentes”

  1. …porque há uma diferença: as outras vítimas, as bombardeadas pelo terrorismo de Estado, não são inocentes.
    Foi para fazer face à qualquer dúvida, ou peso de consciência, que se inventou o termo “danos colaterais”, um conceito que nos dá o descanso de dormir descansados sabendo que só os maus são punidos. Quanto aos outros, “azar, no local e na hora errada”. Têm tido sucesso com a ideia, já que nos impressionamos mais com uma demonstração de candidatos à imolação do que com uma parada militar.

    “Vítima inocente” ou “dano colateral”? Diz-me quem te matou que eu dir-te-ei se és inocente.

  2. hummm… pois és capaz de ter razão…
    matar um general inimigo numa guerra é a mesma coisa que matar um menino num ataque terrorista.

  3. Nos EUA dizem isso, porque é a única forma de defenderem a pena de morte e as execuções que se vão fazendo. Por outro lado, há também a questão dos danos colaterais, como diz o CausasPerdidas. Obviamente (para cabeça de americano dos EUA), uma pessoa que estava a trabalhar no WTC era inocente. Já uma criança, que até podia estar a brincar numa qualquer praça desfeita de Bagdad, não está provado que fosse inocente.

    Noutros locais isso repete-se sobretudo nos meios de comunicação por duas razões:

    1. efeito de papagaio- ouvem os colegas da CNN e repetem à letra exactamente sem pensar;

    2. outros, com alguma consciência, fazem disso uma forma de mais tarde poderem defender o restabelecimento da pena de morte (não estou a inventar, em França por exemplo esta corrente não é assim tão limitada).

  4. Definitivamente, Cam: se o puto for morto por um ataque terrorista será bem mais inocente que um que tenha apanhado com as “sobras” do general.

  5. Penso que quando se fala em inocentes se quer dizer que nao houve um “motivo” para o matar, que foi arbitraria. Discordo quando dizes que a inocência das vítimas n tem a ver com a relevância dos crimes. Acho que tem, e muito… Um sujeito matar o mafioso que lhe matou o filho é diferente de ele matar um “inocente”. Claro que ninguem é completamente inocente, mas quando se fala de inocencia é em relacao ao perpetrador.
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    O Bitaite é a única manifestação intelectual verdadeiramente pura… http://irmandadedobitaite.blogspot.com/

  6. parece-me que estas a usar “inocente” como antonimo de “culpado”. A palavra “inocente” pode ter outros significados como ingenuo ou inofensivo. Especialmente esta ultima, “inofensivo”, parece-me ser relevante para o que esta em causa. Tal como a morte de um civil ou de um militar nao tem o mesmo peso.

  7. Claro que tem. Matar alguém envolvido directamente num conflito não é o mesmo que matar quem esteja de fora… lógico…

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