Arquivo da Categoria: VISITAS ANTIGAS:

O que será a Boa América ?… Talvez a que tem memória histórica…

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Designadamente, do que significa uma República liberal de cidadãos livres. E dispensa avatares de outros Georges. Os Republicanos feridos vão recuperando os valores do small government:

Republicans who limped back to Washington for a lame duck congressional session last week found a host of marching orders from President Bush, but perhaps none more urgent than this: Before Democrats take control of Congress in January, they must pass legislation authorizing the National Security Agency’s domestic eavesdropping program.

The response: deafening silence. Senate Majority Leader Bill Frist quickly dispatched aides to put out the word on Bush’s request: Not gonna happen.

Enquanto Chris Dodd, senador Democrata pelo Connecticut, introduz no Congresso o “Effective Terrorists Prosecution Act”, contendo algumas modernices liberais:

– Restores Habeas Corpus protections to detainees;
– Narrows the definition of unlawful enemy combatant to individuals who directly participate in hostilities against the United States who are not lawful combatants;
– Bars information gained through coercion from being introduced as evidence in trials;
– Empowers military judges to exclude hearsay evidence they deem to be unreliable;
– Authorizes the US Court of Appeals for the Armed Forces to review decisions by the Military commissions
– Limits the authority of the President to interpret the meaning and application of the Geneva Conventions and makes that authority subject to congressional and judicial oversight;
– Provides for expedited judicial review of the Military Commissions Act of 2006 to determine the constitutionally of its provisions.

Ena Pá Independentes!

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Recebi da editora Esfera dos Livros a informação de que o historiador espanhol Rafael Valladares irá a Lisboa, nos dias 23 e 24 de Novembro, «explicar como foi o reaparecimento de Portugal como país independente e, como se deu a ruptura entre Portugal e Espanha». Há uma vírgula ali perdida, mas vamos ao assunto.

O interessante, o perturbador, é que o livro – que suponho tradução do seu La Rebelión de Portugal. 1640-1680, de 1998 – tenha como título portguês A Independência de Portugal.

Num artigo, António Manuel Hespanha já o apodou de «castelhanista» e de «preconcebido». Não custa crer. Mas, à parte ter sido «A Rebelião de Portugal» um título fabuloso, o título adoptado grita, da capa, o maior disparate da nossa História según España, que é esse de chamar «Independência» à nossa Restauração. E muito bom espanhol (estará Valladares entre eles?) crê que Portugal data de 1640… Até aí esteve séculos a hesitar, vai-não-vai, a engonhar, quero ser Espanha, não quero ser Espanha, até que apanhou com um Rei espanhol, que até era legítimo cá, para só depois, tarde e a más horas, aproveitar a balbúrdia castelhana na Catalunha para – pumba, catrapuz! – defenestrar um fulano e proclamar a… Independência.

Como cidadão, protesto, ó nobre Esfera dos Livros.

Isto de ser eterno e omnipotente já não é como antigamente

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Ahura Mazda — R.I.P.? Ao que parece, o conhecido mantra das entidades religiosas sobre o seu próprio porvir — «já cá andamos há dois mil anos, preparem-se para nos aturar por muito mais tempo» — é capaz de não dar assim tantas garantias. O Zoroastrismo, religião milenar que já contou com milhões de seguidores, encontra-se à beira da extinção . Mais interessante ainda é que parece ter sido o sucesso individual dos crentes, e as suas qualidades humanas, a ditar o fim desta religião.
Pode ser que a coisa se pegue às restantes pragas que têm assolado a Humanidade desde a sua mais tenra infância. Sonhar não custa. Haverá coisa melhor de imaginar do que um mundo livre de religiões organizadas?

O jovem que sobe à capital

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Impagável, a crónica de VPV hoje no Público, «Cavaco e Sócrates». É mais um daqueles paralelos arrepiantes que ele constrói com malvadez, embora este não arrepie tanto como o que ele fez, um dia, entre Cavaco e Eanes, e muito menos ainda do que aquele que traçou entre Cavaco e…Salazar.

Leia-se. Aqui vai o início do texto:

«O dr. Cavaco e o eng.º Sócrates são de certa maneira muito parecidos. Saíram os dois de um obscuro canto da província (um de Boliqueime, o outro da Beira) e em Lisboa, no Governo e, no caso de Cavaco, até em Belém, nunca verdadeiramente se adaptaram à cultura urbana. Vem neles sempre à superfície o constrangimento do estranho, uma certa reserva de quem não está em casa e uma atávica desconfiança da volubilidade e das maneiras de uma classe média e de uma burguesia com uma educação mais sofisticada e cosmopolita. Não “pertencem”. Mas, por isso mesmo, têm uma enorme vontade de poder, servida por uma enorme paciência e disciplina. É a velha história, que encheu dois séculos de literatura, do jovem que sobe à capital para a dominar, na sua variante moderna e portuguesa».

O resto é melhor ainda.

PS. A – encantadora – ilustração foi tirada de Imagens do Kaos graças aos bons serviços do Google Imagens.

fugiu-lhe a boca…?

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“Não fiz o artigo em relação a qualquer outra pessoa, … não fiz o artigo em relação a qualquer pessoa”

Cavaco Silva, em entrevista à SIC, respondendo à questão sobre se o artigo acerca da boa moeda e da má moeda, publicado no Expresso, visava expressamente Santana Lopes.

A voz

Nas carruagens do metropolitano de certa cidade europeia, sai dos altifalantes, já desde há muitos anos, uma voz de homem, timbrada, envolvente, daquelas que transmitem tranquilidade (muito práticas em documentários), daquelas que inspiram confiança (muito práticas em anúncios de seguradoras). Mas pouca gente sabe – e é bom que assim seja – que o dono daquela voz… já não está no mundo dos vivos.

Arrepiante? Não. Pelo contrário, há aqui – como diríamos – certa mensagem de perenidade. De que o fim, parecendo-o, nunca é bem o fim.

Pessoalmente, isto toca-me. Existem centenas, talvez milhares de portugueses, que me ouvem, a mim, nos seus carros, quando querem saber o caminho mais exacto de A para B. Figuro ali, é verdade, com outro nome. Mas isso não muda nada. Mesmo com o meu nome próprio, eu ser-lhes-ia um desconhecido. Espero, sim, que a voz inspire confiança, e, já agora, transmita tranquilidade.

E também isto, bom, também isto me faz pensar no futuro. Um futuro que eu, ainda assim, desejo, se me permitem, um tanto distante.

Uma modesta proposta de blogoconcurso

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Com a aproximação do fim do ano, lá começam os “Prémios”, os “Óscares” e demais “Troféus Tanit”, todos entretidos a puxar o lustro à vaidade da blogosfera. Nada a obstar, que a malta tem de enganar as horas de maior tédio. Mas podíamos variar um bocadinho, este ano: elegendo, por exemplo, os blogues mais merdosos da lusa pátria. A coisa poderia até distribuir troféus sectoriais, prémios de carreira, incentivos à cessação imediata de actividade, etc.
Sugiro a seguinte lista de áreas de (in)excelência a distinguir:

1- O mais manhoso
2- O mais sobreavaliado
3- O mais feio
4- O mais ensimesmado
5- A escrita mais pomposa
6- O mais alienado
7- Os piores pontapés no Português
8- O mais ressabiado
9- O mais irritante
10- O pior dos piores tout court: a cereja bichosa no topo do bolo podre

Alguém quer votar?

Liberal, sim, mas só se a tua liberdade não me ofender

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Pedro Arroja continua impulsionado pelas místicas visões que já o levaram a declarar Deus imprescindível à civilização e Cristo ao liberalismo. Agora, surge com mais um “original e importante” argumento (de acordo com imparcial avaliação do próprio), desta vez sobre o referendo ao aborto.
Ele começa por fazer de conta que não sabe que o primeira consulta não foi vinculativa: «o mais provável é que outros referendos se sigam até que ganhe, finalmente, o “Sim”.» Mas o melhor está para vir. Quando pensávamos nós que uma situação despótica é aquela em que o Estado, esse odiado monstro, decide pelas pessoas nestes assuntos de vida e de morte, eis que o arrojado profeta do Blasfémias nos esclarece, fulminante: «O referendo ao aborto é, provavelmente, uma das mais insidiosas manifestações do despotismo da multidão sobre a individualidade humana que Portugal conheceu desde que vive em democracia.» Qual o medo de Arroja? Simples: «não é senão de esperar que, com o decorrer do tempo, esse limite (para a realização da IVG) seja alargado, primeiro para doze semanas, depois para quinze, até chegar a nove meses.» Ou seja, o mal não é do referendo mas sim de imaginárias decisões futuras que só existem neste delírio acossado.
Mas «a questão seguinte, ainda ela eminentemente racional, será a de perguntar se certas vidas humanas (v.g., deficientes) valem a pena ser vividas.» Claro está que a resposta, para o profeta da desgraça será, «em muitos casos, não». Aqui, ele faz de conta que não é decidido, todos os dias, terminar vidas que persistem agarradas a máquinas, abortar fetos com deficiências profundas, desligar comas sem remissão. Isto sem que se ouça grande resistência nem da Igreja nem dos seus voluntariosos porta-vozes de ocasião. «Deliberar sobre o momento em que ela (a vida) termina» é hoje coisa corriqueira: a prolongada falta de actividade coerente num cérebro humano já basta para declarar alguém morto; só não entendo porque é que o mesmo critério não serve para definir o ponto do crescimento de um feto em que a vida humana tem real início.
Não adianta muito, como o próprio Arroja admite, discutir tais assuntos com quem os analisa com a Fé e não com a Razão; só estranho que gente tão amiga da liberdade não perceba quão despótico é tentar impor à vida dos outros os suas baias morais e religiosas.

PS: olhem que não estão em causa meros assuntos de “correntes políticas”, como Arroja insinua. Veja-se a excelente resposta do blasfemo Rui.

Por fim, um culpado de Portugal

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Há quanto tempo anda meio Portugal em busca de um responsável pelos nossos persistentes males colectivos? Culpados provisórios já foram recenseados nas elites, no sistema de ensino, nos fundadores do país, no clima luso — brando demais para suscitar temperamentos empreendedores, diz-se —, no excesso de vinho, nas ditaduras que nos assolaram, no 25 de Abril… sei lá.
Ontem, graças a uma dica do nosso leitor py, relembrei-me de uma suspeita antiga. Que aponta o dedo acusador ao mais remoto dos suspeitos: os patuscos mas obsoletos Neandertais.
Já leram, por certo, algum apontamento sobre o famoso “menino do Lapedo”, criatura falecida há uns 25.000 anos, em parte humano moderno mas com alguns traços de neandertal. Seria, de acordo com o vociferante “dono” da descoberta, João Zilhão, prova de grandes poucas-vergonhas entre as duas espécies, o que poderia indicar que toda a Humanidade era afinal produto de miscigenações manhosas.
Nada disso. Ao que parece, trata-se de hipótese improvável. Quando muito, só em locais seleccionados é que a funesta misturada poderá ter ocorrido. De acordo com tal hipótese, os únicos berços deste passo atrás na Evolução seriam a Roménia, a Morávia e… Portugal.
Está tudo explicado. Enquanto o Homem Moderno evoluiu alegre rumo à Civilização, à Cultura, à Arte, ao Progresso, os pobres mestiços permaneceram atolados na lama primeva, presos pelos seus toscos genes à mais pesada das heranças. Assim, lá ficámos nós, os tristes e isolados portugueses, entregues ao atraso, à acédia, à irresponsabilidade, à estupidez inata dos nossos cérebros atarracados e inviáveis.
Eu bem desconfiava que Portugal devia ter explicação.

Bem haja, Pedro!

“Podem confirmar com a segurança!”

Santana Lopes, ontem, em entrevista à RTP (a propósito do livro que escreveu para o bisneto e para que este se possa defender dos coleguinhas que possam vir a ofender a memória do bisavô – foi mais ou menos isto, se bem percebi a mecânica da coisa), após afiançar que não tinha estado mais de 15 minutos num desfile de moda e que apenas lá tinha ido para cumprimentar a organização, porque tinha sido Presidente da Câmara de Lisboa, como, aliás, João Soares já tinha sido, e que, portanto, não muda de personalidade quando muda de funções e que patati-patatá.

Ontem, meus caros, tive muita saudades do nosso Guerreiro Menino. O homem, caramba, continua a chorar, a desejar colo e palavras amenas, carinho e ternura. E eu, caramba, que estou bem longe de ser a própria candura, tive vontade de saltar para dentro do ecrã e de lhe dar um abraço bem apertado (não gozem, que estou muito comovido) por todos os bons momentos que ele me proporcionou e, se Deus Nosso Senhor Quiser (o verbo a seguir ao Senhor também tem que ser em maiúsculas, atento a proximidade), continuará a proporcionar.

Uma vírgula e dois milhões de dólares

Um erro gramatical pode parecer coisa inofensiva. Mas quando se trata de um contrato, a introdução ou omissão de uma vírgula pode ter consequências bem sérias. Quando, ainda por cima, o que está em causa são as condições temporais de denúncia antecipada do mesmo, a coisa pode ficar preta, designadamente para o advogado que terá metido a pata na poça. No Canadá, a Bell Aliant autorizou a Rogers Communications a usar as conexões telefónicas daquela. Posteriormente, aquela quis retirar-se do negócio, denunciando o contrato antes dos cinco anos. A cláusula invocada para a denúncia antecipada rezava assim:

“This agreement shall be effective from the date it is made and shall continue in force for a period of five (5) years from the date it is made, and thereafter for successive five (5) year terms, unless and until terminated by one year prior notice in writing by either party.”

O busílis está na segunda vírgula. A Rogers invocou que o contrato teria de vigorar pelo menos cinco anos. A Aliant contrapôs que aquela segunda vírgula não conferia à frase esse entendimento: antes permitia concluir que o contrato poderia ser denunciado antes dos cinco anos de duração, desde que assegurado o pré-aviso de um ano.

O regulador Canadiano reconheceu que a razão estava do lado desta última e a meu ver decidiu bem. Entretanto, à conta de uma vírgula, e com pelo menos dois milhões de dólares em jogo, e a Rogers inconformada, o caso segue para os tribunais Canadianos.