Por fim, um culpado de Portugal

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Há quanto tempo anda meio Portugal em busca de um responsável pelos nossos persistentes males colectivos? Culpados provisórios já foram recenseados nas elites, no sistema de ensino, nos fundadores do país, no clima luso — brando demais para suscitar temperamentos empreendedores, diz-se —, no excesso de vinho, nas ditaduras que nos assolaram, no 25 de Abril… sei lá.
Ontem, graças a uma dica do nosso leitor py, relembrei-me de uma suspeita antiga. Que aponta o dedo acusador ao mais remoto dos suspeitos: os patuscos mas obsoletos Neandertais.
Já leram, por certo, algum apontamento sobre o famoso “menino do Lapedo”, criatura falecida há uns 25.000 anos, em parte humano moderno mas com alguns traços de neandertal. Seria, de acordo com o vociferante “dono” da descoberta, João Zilhão, prova de grandes poucas-vergonhas entre as duas espécies, o que poderia indicar que toda a Humanidade era afinal produto de miscigenações manhosas.
Nada disso. Ao que parece, trata-se de hipótese improvável. Quando muito, só em locais seleccionados é que a funesta misturada poderá ter ocorrido. De acordo com tal hipótese, os únicos berços deste passo atrás na Evolução seriam a Roménia, a Morávia e… Portugal.
Está tudo explicado. Enquanto o Homem Moderno evoluiu alegre rumo à Civilização, à Cultura, à Arte, ao Progresso, os pobres mestiços permaneceram atolados na lama primeva, presos pelos seus toscos genes à mais pesada das heranças. Assim, lá ficámos nós, os tristes e isolados portugueses, entregues ao atraso, à acédia, à irresponsabilidade, à estupidez inata dos nossos cérebros atarracados e inviáveis.
Eu bem desconfiava que Portugal devia ter explicação.

11 thoughts on “Por fim, um culpado de Portugal”

  1. … pois meu caro, mas não se preocupe que também eu estou em extinção (?), à escala do imanente, porque no transcendente nunka se sabe. Já agora aquele genezinho dá para a poética, ou não vê semelhanças com o excelente HHelder e já agora com aquele russo que recusou a Fields?

    Ora o pesporrente sapiens sapiens, vai alegremente esgrimindo a sua singularidade enquanto caminha esforçadamente para a III GM nuklear, por vários lados. Choses…

  2. “…eu só nunca compreendi porque é que teimavam que o Homem descendia do Macaco e ninguém se entretinha a demonstrar que o Macaco descendia do Homem e o Comuna do Macaco. Se uma raça pode ser o aperfeiçoamento de outra, também pode ser a sua degenerescência”

  3. … et il y a encore un tout petit problème pour le sapiens sapiens, é que se houve troca genética com sucesso reproductivo então já não são duas espécies, mas duas variedades da mesma espécie, estava eu hoje a pensar enquanto lascava pedra, a não ser que a definição de espécie tenha sido refeita entretanto.

  4. sim Luís, dantes era canónico, ao nível macroscópico no reino animal, uma espécie só se reproduzia viavelmente, ou seja com descendência viável, dentro dos seus limites, e era isso que a separava das outras espécies. É verdade que no reino vegetal os taxonomistas e sistematas andavam sempre muito ofendidos a discutir se os híbridos viáveis eram novas espécies ou variedades, até porque com a nomenclatura lineana têm todos a tentação de ficar imortalizadozinhos com o nome de classificador. Pelos vistos está em revisão e ainda bem, gosto de salsa.

    Não sabia que havia tigrãos e leogras.

    Dantes há 20 anos atrás havia o postulado um gene – uma proteína, que depois foi relaxado para um operão – uma proteína, agora não faço idéia se já mudou de paradigma. Quando me doutorei lidei com paisagens epigenéticas mas isso já era no plano semiótico.

  5. … com esta onda da senhora Merckel na Alemanha, da senhora Royal candidata ao Eliseu, e da senhora Clinton pré-candidata à Casa Branca, não querem debruçar-se sobre a eventual derrocada do cromossoma Y?

  6. Penso que alguma miscelania entre sapiens e neanderthal, como o hipotetico hibrido de lapedo, teria dado algo inconsequente, tipo os hibridos de egua e burro.
    Os estudos dizem que todos os humanos actuais nao chegam a ser raças uns dos outros,e que quase nao existe diferença entre 1 pigmeu e um noruegues.
    Por outro lado o estudo do genoma do neanderthal indica que somos algo radicalmente diferentes, que nos desenvolvemos independentemente em Africa, ao passo que na Europa um hominideo adaptado ao frio surgiu de forma independente ha pelo menos 500000 anos.
    E quanto a coexistencia pacifica, temos de ser mais praticos e objectivos-
    numa epoca em que a sobrevivencia era mais dificil que hoje em dia penso que populáçoes diferentes de hominideos e de certeza de cultura e habitos opostos teriam dificuldade em ser amiguinhos e irmaos, como concorrentes aos mesmos recursos simplesmente acabaram por se degladiar entre si, tal com desde sempre os seres humanos actuais, e pertencentes a mesma especie, o fazem ao longo da historia ate aos dias de hoje.
    Ha muito que o jardim do eden despareceu, e nao foi ha dois ou tres dias

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